Luno transforma psicodelia e imaginário nordestino em “Mantracaru”

Luno transforma psicodelia e imaginário nordestino em “Mantracaru”

Luno lança nesta quarta-feira (30) “Mantracaru”, segundo álbum de sua carreira solo. Em oito faixas, o músico sergipano constrói um trabalho que aproxima psicodelia brasileira, rock progressivo, jazz e música nordestina, acrescentando ainda elementos sinfônicos e experimentais. Mais do que reunir essas referências, o disco foi pensado como uma narrativa sobre transformação, autonomia, fragilidade e resistência.

O próprio título resume parte dessa proposta ao combinar a ideia do mantra, ligado à repetição e introspecção, com o mandacaru, símbolo de resistência associado ao Nordeste. A jornada começa com “Aos Amigos, Um Abraço” e atravessa diferentes atmosferas até chegar à faixa-título, responsável por encerrar o álbum de maneira mântrica. Entre os extremos estão músicas como “Colorida Barca”, uma valsa psicodélica com elementos de rock rural, e “Seres de Pano”, que parte do piano para uma construção mais sombria e pesada.

Musicalmente, “Mantracaru” encontra referências em nomes como Os Mutantes, A Barca do Sol, O Terço, Sá, Rodrix & Guarabyra, Ednardo e Tetê Espíndola, mas também passa por Beatles, Beach Boys, Syd Barrett e Radiohead. Em “Colorida Barca” e “Seres de Pano”, o álbum ganha ainda arranjos orquestrais de James Bertisch, executados por músicos da Orquestra Sinfônica de Sergipe, incluindo gravações de tímpano e gongo realizadas no Teatro Tobias Barreto, em Aracaju.

Parte desse repertório acompanha Luno há muitos anos. “Mulher-Onça”, “O Bando do Café da Manhã”, “Seres de Pano” e “Colorida Barca” nasceram ainda durante sua juventude e foram retomadas para o projeto. A última, por exemplo, começou com apenas dois versos escritos com o amigo Diego Bezerra e atravessou diferentes fases até ganhar sua forma definitiva durante as gravações do álbum.

Baixista, violonista, cantor e compositor, Luno Torres construiu parte de sua trajetória na Plástico Lunar e também integra A Banda dos Corações Partidos e o Madame Javali. Depois de estrear solo com “Homo Pacificus”, em 2021, ele amplia agora a conexão de sua música com o Nordeste, a ancestralidade e o misticismo, sem abandonar as questões filosóficas presentes no trabalho anterior.

“Mantracaru” funciona, assim, menos como uma coleção de oito músicas e mais como uma travessia. É um disco que olha para a psicodelia brasileira dos anos 1970 sem tentar simplesmente reproduzi-la, utilizando esse passado como ponto de partida para uma identidade que mistura sertão, progressivo, jazz, fantasia e experimentação.