Iron Maiden celebra 50 anos e une fãs de metal em São Paulo durante apuração presidencial

Iron Maiden celebra 50 anos e une fãs de metal em São Paulo durante apuração presidencial

O Iron Maiden entrou em campo com o jogo praticamente ganho após a abertura do Alter Bridge. Bastaram os primeiros acordes de “Doctor Doctor”, clássico do UFO que tradicionalmente antecede suas apresentações, para o público do Nubank Parque ir à loucura. Antes mesmo de os músicos aparecerem, o clima já era de celebração. Afinal, não era uma noite qualquer: a banda britânica comemorava cinco décadas de uma trajetória que ajudou a definir os rumos do heavy metal.

E o Iron Maiden conseguiu uma façanha que parecia improvável diante do cenário político brasileiro: unir milhares de pessoas enquanto acontecia a apuração das eleições presidenciais. Mesmo com a confirmação da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva durante a apresentação, não houve manifestações políticas perceptíveis ou discussões entre os presentes. Pelo menos na região da pista premium, acompanhada pela reportagem, a música falou mais alto que qualquer divergência. Ponto positivo para a banda e para o público.

Paul Di’Anno Presente

Fotos: Stephan Solon

A celebração dos 50 anos começou com uma homenagem à era Paul Di’Anno. A sequência de “Murder in the Rue Morgue”, “Wrathchild” e “Killers”, todas do álbum Killers (1981), transportou o público diretamente aos primeiros anos do grupo. A última ainda contou com a primeira aparição de Eddie, mascote que se tornou tão importante para a identidade do Maiden quanto seus próprios integrantes. Bruce Dickinson também aproveitou os primeiros momentos para declarar seu carinho pelo Brasil. Na sequência, “Phantom of the Opera”, do disco de estreia, manteve o espetáculo mergulhado na fase inicial da banda.

Apesar da recepção calorosa, foi com “The Number of the Beast” que o show pareceu atingir outra dimensão. Bruce Dickinson e o público cresceram juntos, como se as quatro primeiras músicas tivessem servido apenas como um aquecimento de luxo. Logo depois, “Infinite Dreams” foi recebida como uma verdadeira raridade. Ausente dos repertórios das turnês por quase quatro décadas, a faixa ganhou uma celebração à altura de sua importância para os fãs mais antigos.

A passagem pela era Powerslave começou com a faixa-título, acompanhada de uma máscara curiosa utilizada por Dickinson. A produção visual também chamou atenção. No lugar dos tradicionais cenários pintados que marcaram tantas turnês do Iron Maiden, um enorme telão assumiu protagonismo, criando ambientes que dialogavam diretamente com as músicas. Em “2 Minutes to Midnight”, as projeções ganharam contornos quase cinematográficos, ampliando a dimensão do espetáculo.

Mas Bruce Dickinson não depende apenas de efeitos visuais para entreter uma multidão. Depois de “2 Minutes to Midnight”, o vocalista apareceu com um cantil e anunciou que havia chegado a hora da cachaça. Em uma encenação com aparência de improviso, começou a “demitir” integrantes da produção, acusando-os de substituir a bebida brasileira por água. A brincadeira terminou com um aviso: exagerar na cachaça poderia fazer alguém enxergar um albatroz voando pelo céu.

Era a deixa perfeita para “Rime of the Ancient Mariner”, uma das composições mais ambiciosas do catálogo da banda. Inspirada no poema de Samuel Taylor Coleridge, a música narra a história de um marinheiro que mata um albatroz sem motivo aparente e desencadeia uma maldição em alto-mar. A execução reforçou a capacidade do Iron Maiden de transformar narrativas literárias em verdadeiras epopeias musicais, mesmo diante de um público de estádio.

A partir de “Run to the Hills”, o Iron Maiden passou a jogar no estádio como um time que, mesmo com a vitória garantida, ainda buscava uma goleada. O clássico abriu uma sequência que incluiu “Seventh Son of a Seventh Son” e “The Trooper”, deixando pouco espaço para o público recuperar o fôlego. Nesta última, Eddie fez sua segunda aparição, enquanto Dickinson reproduziu um dos momentos mais tradicionais dos shows da banda, vestindo a farda militar vermelha do século XIX e empunhando a bandeira do Reino Unido.

O roteiro, entretanto, ganhou um elemento brasileiro quando o vocalista também ergueu a nossa bandeira nacional. Naquele momento, a reeleição de Lula já estava confirmada, mas novamente não foram percebidas manifestações políticas ou discussões entre os espectadores. A bandeira foi recebida como parte do espetáculo, sem desviar a atenção do que acontecia no palco.

Em “Hallowed Be Thy Name”, Dickinson surgiu preso dentro de uma jaula, reforçando a atmosfera dramática de uma das músicas mais emblemáticas do grupo. O encerramento do repertório principal veio com “Iron Maiden”, retomando a homenagem à fase Paul Di’Anno e fechando um ciclo que havia começado justamente com as primeiras composições da banda.

O bis trouxe mais três momentos de forte apelo popular. “Aces High” abriu a sequência com Dickinson caracterizado como piloto de caça, em mais uma de suas rápidas trocas de figurino. “Fear of the Dark” transformou o estádio em um mar de lanternas de celulares, contrariando a recomendação exibida anteriormente no telão para que os aparelhos permanecessem nos bolsos. Por fim, “Wasted Years” encerrou a apresentação com um tom quase simbólico para uma banda que celebra meio século de estrada.

Bruce Dickinson desafia o tempo

Fotos: Stephan Solon

Se o repertório e a produção visual impressionaram, Bruce Dickinson foi novamente o grande protagonista da noite. Aos 68 anos, o vocalista percorreu o palco praticamente sem descanso, alternando corridas, interações com o público e rápidas mudanças de figurino nos bastidores. Mais impressionante, porém, foi sua condição vocal.

Dickinson demonstrou segurança nas notas mais exigentes e manteve o controle da voz ao longo de toda a apresentação. Diferentemente de outros vocalistas veteranos que frequentemente transferem trechos inteiros das músicas para o público como forma de preservar o fôlego, o britânico assumiu suas responsabilidades do início ao fim. A plateia cantou muito, evidentemente, mas por entusiasmo, não por necessidade do artista.

Estreia de Simon Dawson

Na bateria, Simon Dawson, escolhido para substituir Nicko McBrain com a bênção do próprio músico, apresentou uma performance mais discreta. Embora tenha cumprido sua função, algumas passagens pareceram simplificadas em comparação às versões originais, enquanto determinadas músicas, principalmente da era mais punk de Paul Di’Anno, soaram ligeiramente mais lentas. Não foram diferenças capazes de comprometer a apresentação, mas perceptíveis para quem acompanha de perto a trajetória da banda.

Outro ponto que merece registro foi a questão dos sinalizadores, alvo de críticas recentes de Bruce Dickinson. Na pista premium, mais próxima do palco, não houve incidentes observados pela reportagem. O uso desses artefatos ficou restrito a registros na pista comum, em uma região mais distante dos músicos.

Ao final, a sensação foi de que o Iron Maiden continua encontrando maneiras de adiar um declínio que, pela idade de seus integrantes e pelo desgaste natural de cinco décadas de estrada, seria perfeitamente compreensível. A banda já não precisa provar absolutamente nada, mas insiste em entregar apresentações de grande porte, sustentadas por um repertório histórico, produção grandiosa e músicos que ainda demonstram enorme competência.

O tempo pode ter provocado ajustes pontuais, especialmente na execução de algumas músicas, mas ainda não foi capaz de retirar do Iron Maiden sua principal característica: a capacidade de transformar um show de heavy metal em um acontecimento monumental. No Nubank Parque, a banda mostrou que seus 50 anos não são apenas uma marca a ser celebrada, mas uma história que continua sendo escrita no palco.

Setlist

  1. Murders in the Rue Morgue
  2. Wrathchild
  3. Killers
  4. Phantom of the Opera
  5. The Number of the Beast
  6. Infinite Dreams
  7. Powerslave
  8. 2 Minutes to Midnight
  9. Rime of the Ancient Mariner
  10. Run to the Hills
  11. Seventh Son of a Seventh Son
  12. The Trooper
  13. Hallowed Be Thy Name
  14. Iron Maiden
  15. Aces High
  16. Fear of the Dark
  17. Wasted Years