O cantor, compositor e guitarrista norte-americano Jake Smith, conhecido artisticamente como The White Buffalo, retorna ao Brasil em novembro de 2026 para uma turnê de oito apresentações. Após a estreia surpreendente no país, em 2024, quando shows esgotaram e precisaram ser transferidos para espaços maiores, o músico amplia o roteiro e inclui novas cidades. Desta vez, a turnê passa por Belo Horizonte (6/11, Befly Hall), São Paulo (7/11, Audio), Porto Alegre (9/11, Opinião), Florianópolis (11/11, Life Club), Curitiba (14/11, Tork n’ Roll), Brasília (18/11, Toinha), Fortaleza (20/11, Dragão Hall) e Recife (21/11, Armazém 14). A realização é da Sellout e Powerline, com ingressos disponíveis pela plataforma Fastix.
Com uma carreira construída ao longo de mais de duas décadas, The White Buffalo conquistou reconhecimento internacional por suas composições cinematográficas, que transitam entre folk, blues, country e rock. Dono de uma voz grave e marcante, Smith teve músicas incluídas em séries como Sons of Anarchy, Californication, The Punisher, Longmire e This Is Us. Seu trabalho de estúdio mais recente, Year of the Dark Horse (2022), apresentou uma abordagem conceitual e experimental, enquanto o álbum ao vivo A Freight Train Through the Night (2024) destacou a intensidade de suas apresentações ao lado do baixista Christopher Hoffee e do baterista Matt Lynott.
Às vésperas do retorno ao país, Jake Smith conversou com o Blog n’ Roll e revelou que já gravou um novo álbum, previsto para 2027, e que pretende apresentar uma das músicas inéditas durante a turnê brasileira. Na entrevista, o artista relembrou a recepção surpreendente dos fãs em sua primeira visita, contou experiências gastronômicas e culturais pelo país, falou sobre suas influências no punk rock, revelou uma curiosa ligação com o ABBA e refletiu sobre o processo criativo, a relação entre suas músicas e o cinema e as inseguranças que ainda enfrenta depois de mais de 20 anos de carreira.
Antes da sua primeira visita ao Brasil, li algumas entrevistas em que você dizia não saber exatamente quem era seu público por aqui. No fim, os shows esgotaram e alguns precisaram ser transferidos para casas maiores. Como foi essa experiência e o que mais surpreendeu você no público brasileiro?
Inicialmente, eu realmente não sabia o que esperar. Nas redes sociais, sempre apareciam comentários pedindo “venha ao Brasil, venha ao Brasil”. Era praticamente um a cada dois comentários. Então, decidimos arriscar. Os shows foram planejados inicialmente para casas pequenas, e pensei: “Provavelmente vou perder dinheiro indo até lá, mas tudo bem. Vamos testar”.
Só que os ingressos começaram a esgotar, um show depois do outro, e fomos passando para lugares cada vez maiores. Foi algo avassalador. A paixão, a energia dos brasileiros, dos fãs e do público foram incríveis.
O fato de as pessoas aparecerem no aeroporto e no hotel foi algo que eu nunca tinha experimentado em nenhum outro lugar do mundo. Descobrir essa parte do planeta, já sendo um homem de meia-idade e com quase 25 anos de carreira, e encontrar o que provavelmente é a melhor base de fãs que já tive na vida foi extraordinário.
Lembro que, no primeiro show em São Paulo, entrei sozinho para tocar a primeira música. Mal consegui terminar. Foi muito emocionante. A sensação era incrível. Foi uma descoberta maravilhosa de um país e de pessoas tão especiais.
Somos realmente muito apaixonados e costumamos tratar nossos ídolos como deuses por aqui.
Sim, embora eu não me sinta muito confortável com isso (risos).
Houve alguma apresentação ou momento especial daquela primeira turnê que ficou particularmente marcado na sua memória?
Foram muitas lembranças e shows incríveis. Mas aquele primeiro momento em São Paulo, quando subi ao palco e ouvi o rugido da plateia, foi inesquecível. Eu estava completamente emocionado, assim como o público. Nunca vou esquecer aquela sensação.
Outra coisa que me marcou foi chegar ao local do show e encontrar seis ou sete vendedores de camisetas piratas na rua. Fiquei impressionado. Pensei: “Isso é incrível!”. Claro que provavelmente não era muito bom para as vendas do nosso merchandising oficial lá dentro, mas nunca tinha visto algo parecido. Achei fantástico.
A agenda da turnê era bastante apertada, praticamente um show por dia. Você conseguiu conhecer um pouco do Brasil além dos palcos? Visitou algum lugar interessante ou experimentou a culinária brasileira?
Conseguimos aproveitar um pouco, embora tenha sido uma viagem com muitos deslocamentos. Nunca tinha feito uma turnê daquele jeito, às vezes pegando um avião no próprio dia do show. Era tocar, voar, tocar, voar. Acordávamos muito cedo e íamos dormir tarde.
Mas conseguimos experimentar algumas coisas. Comemos feijoada! Eu estava tentando lembrar o nome. Era aquele prato brasileiro com feijão e partes do porco, como orelhas. A textura era um pouco mais borrachuda do que eu esperava (risos).
Também tivemos um dia de folga no Rio de Janeiro. Passamos um tempo na praia e experimentamos aquela bebida brasileira… Caipirinha! Tomamos algumas naquela tarde. Talvez até demais. Na verdade, não demais, mas na quantidade certa (risos). Só que elas podem surpreender você.
Conseguimos passear um pouco, o que foi ótimo. Outra coisa interessante é que me senti muito mais seguro do que imaginava. Antes de viajar, recebi vários alertas dizendo que o Brasil era extremamente perigoso.
É claro que passamos boa parte do tempo acompanhados pelos produtores locais, que são pessoas incríveis. Isso ajudou bastante. Você precisa estar atento ao que acontece ao redor, mas, no geral, me senti muito tranquilo e confortável.
Muitos fãs que estiveram nos shows de 2024 certamente vão retornar agora. O que eles podem esperar dessa nova turnê? Teremos mudanças ou surpresas no repertório?
Preciso olhar novamente o que tocamos naquela ocasião. Sei que existem algumas músicas praticamente obrigatórias, que não podemos deixar de fora, mas vamos tentar variar o repertório.
Também precisamos fazer isso por nós mesmos, para manter as apresentações interessantes e renovadas. E existe uma possibilidade especial: acabamos de gravar um novo álbum. Talvez apresentemos algumas músicas dele. Provavelmente uma canção inédita durante os shows.
A expectativa é lançar esse disco no final da primavera ou começo do verão de 2027 (outono/inverno no Brasil). No restante, a proposta será semelhante. Quero levar as pessoas para uma espécie de montanha-russa emocional. Quero que existam momentos em que elas chorem, outros em que sintam vontade de levantar e brigar, pular, dançar ou simplesmente se sentir bem.
Ainda não defini o repertório, mas certamente será uma apresentação cheia de paixão, emoção e energia.
E você pretende lançar essa música inédita como single?
Essa música do novo álbum? Sim. Ainda estamos conversando com gravadoras e procurando parceiros para o lançamento. Não temos nada definido nesse sentido.
Mas lançar singles antes do álbum é praticamente obrigatório hoje em dia, faz parte do processo. Só não será agora. Provavelmente começaremos a fazer isso no início de 2027.
Então será uma grande surpresa para quem estiver nos shows brasileiros…
Sim! E acho muito interessante tocar uma música que ninguém ouviu antes. Espero apenas que a barreira do idioma não seja um grande problema.
Falando sobre o álbum ao vivo, A Freight Train Through the Night mostrou um lado mais pesado e intenso da sua música, principalmente pela energia da banda. Você ficou satisfeito com o resultado? Pretende explorar ainda mais essa sonoridade nos próximos trabalhos, especialmente no novo disco?
Aquela gravação representa muito bem o que realmente somos ao vivo. Quando entramos em estúdio, tentamos sentir a música e colocar o máximo possível de emoção e paixão naquele momento.
Fiquei muito satisfeito com o resultado do álbum ao vivo. Estamos muito entrosados atualmente. Acabamos de voltar de turnês pela Europa e pelo Canadá, tivemos algumas semanas de descanso e agora vamos retomar tudo.
Sinceramente, acho que estamos tocando melhor do que nunca. É impressionante perceber que, quanto mais velhos ficamos, melhores nos tornamos e mais conectados estamos musicalmente.
O próximo álbum também será muito mais um trabalho de banda. Fizemos uma pré-produção em que todos nos reunimos para desenvolver e dar forma a algumas das músicas.
Suas composições frequentemente parecem pequenos filmes, com personagens, conflitos e histórias completas. Você já recebeu algum convite para escrever um roteiro de cinema ou televisão? É algo que gostaria de experimentar?
Eu adoraria explorar algo assim, mas ninguém nunca me convidou para escrever um roteiro. O mais próximo disso que faço são alguns trabalhos como locutor e narrador. Tive a sorte de receber oportunidades nessa área e, inclusive, acabei de ser convidado para mais um projeto.
Já fiz trabalhos para comerciais e documentários, e acho tudo isso muito divertido. De certa forma, existe uma semelhança com a música. Você está dentro de um estúdio, alguém está dirigindo sua interpretação, trabalhando sua voz. Toda a experiência que acumulei cantando e gravando ajuda bastante nesse processo.
Acho que colocar emoção nas palavras faladas pode ser tão interessante quanto cantar. É uma experiência muito legal. Mas, sim, estaria aberto a escrever alguma coisa. Não sei se seria bom nisso (risos). A música sempre foi meu principal veículo de expressão.
Com certeza seria… E se você pudesse escolher uma das suas músicas para se transformar em filme, qual seria?
Nossa, essa é difícil. Já escrevi alguns álbuns completamente narrativos, nos quais cada música se conecta à seguinte para formar uma história maior.
Talvez escolhesse “This Year”. No meu último álbum de estúdio, trabalhei praticamente com a ideia de acompanhar um ano na vida de um personagem. A música “This Year” apresenta os altos e baixos desse personagem. Sempre penso que esses personagens não sou eu, mas muitos deles acabam sendo. Exceto os assassinos, é claro (risos).
Acho que seria interessante acompanhar aquela história e expandi-la para algo maior. Muitas das minhas músicas são bastante cinematográficas. Existem histórias de corações partidos, músicas de amor, amores não correspondidos, assassinatos e lembranças da minha infância.
O que mais gosto é perceber que não existem limites para aquilo que podemos escrever. De alguma maneira, sempre aparecem novas faíscas, pequenas ideias e possibilidades de explorar alguma coisa diferente.
Sei que você cresceu na Califórnia ouvindo bandas de punk rock, como Descendents, Circle Jerks e outras bandas da cena. O que aquele garoto punk ainda tem em comum com o artista que você se tornou?
Continuamos sendo uma banda muito ligada à filosofia do “faça você mesmo”, o famoso DIY. Na maior parte do tempo, somos apenas os integrantes da banda e mais uma pessoa viajando juntos em uma van.
No Brasil, temos o luxo de contar com uma equipe local. Há um técnico de som e um gerente de turnê que fala os idiomas necessários. Então recebemos um apoio maior do que normalmente temos.
Mas aquela paixão, a agressividade das apresentações e a conexão com o público continuam muito próximas do espírito punk. Gosto da sensação de que estamos todos vivendo aquilo juntos. Tento não criar muitas barreiras entre mim e as pessoas que estão assistindo.
Quero ser o mais autêntico possível. Acho que essa é praticamente a minha marca: ser uma pessoa comum, de verdade, que por acaso é boa em algumas coisas.
É uma maneira de encarar a vida, de se dedicar completamente a cada momento e realmente entregar tudo o que você tem.
Você tem uma forte ligação com o rock e já mencionou influências como Bruce Springsteen e Tom Waits. Mas, existe alguma influência musical que poderia surpreender seus fãs e que ainda não apareceu claramente nos seus discos?
Não sei. Gosto até de música clássica em alguns momentos. Na verdade, hoje em dia não escuto tanta música. Às vezes descubro alguma coisa interessante e resolvo explorar, mas não acho que existam tantas influências escondidas.
Não sou um grande fã de jazz, nem alguém muito ligado ao hip-hop. Talvez algumas coisas mais próximas do metal. Mas não sei se conseguiria surpreender vocês com alguma revelação completamente inesperada.
Quer dizer, gosto de Enya. E gosto de ABBA! Na verdade, cresci ouvindo basicamente música country e ABBA. Era praticamente tudo o que meus pais escutavam quando eu era criança: muito country e um pouco de ABBA no meio.
Inclusive, na última vez que estivemos na Suécia, visitamos o museu do ABBA. Então talvez essa seja uma influência que possa surpreender algumas pessoas.
Não imaginava falar sobre a Enya, minha gata originalmente se chamava Enya, mas minha filha decidiu mudar o nome quando ela chegou em casa (risos). Voltando às suas composições, você comentou que algumas histórias aparentemente fictícias acabam revelando sentimentos pessoais. Já aconteceu de começar uma música pensando que estava contando a história de outra pessoa e, quando terminou, perceber que estava falando sobre você mesmo?
Sim, tenho álbuns inteiros assim. Às vezes acredito que estou escrevendo sobre determinado personagem, e acho que isso é até importante para o meu processo criativo. Se eu começasse pensando que estou escrevendo diretamente sobre mim, ou mesmo sobre versões distorcidas de mim, talvez não conseguisse ser tão livre ou aberto em determinadas situações.
Então talvez eu engane a mim mesmo, acreditando que estou criando personagens fictícios. Depois, quando termino, percebo: “Caramba, essa música é sobre mim!”. Ou descubro que está relacionada a alguma experiência pessoal.
Muitas vezes nem sei exatamente de onde veio a inspiração. A maior parte das ideias surge da vida, de experiências, de coisas que ficam guardadas na cabeça. Quando alguém pergunta quais são minhas influências, nunca sei muito bem como responder. Acho que a resposta mais verdadeira é: a vida, as conexões que fazemos e as conversas que temos.
Depois de tantos álbuns, turnês e experiências, ainda existe algum sonho que você gostaria de realizar na sua carreira musical?
Não, na verdade, não. Nunca fui uma pessoa muito orientada por objetivos específicos. Nunca tive aquela mentalidade de estabelecer grandes metas.
Normalmente estou satisfeito com o lugar em que me encontro e com a direção que estamos seguindo. Gostaria apenas de continuar compondo e gravando álbuns. Estou muito animado com esse próximo disco, que será lançado em 2027.
Mais uma vez, aconteceu algo curioso durante a criação. Eu praticamente não tinha nada preparado até algumas semanas antes de entrar em estúdio. Acabei escrevendo a maior parte do material naquele momento. Provavelmente entre 85% e 90% das letras foram escritas dentro do próprio estúdio.
E existe sempre aquela síndrome do impostor, especialmente quando você é compositor, artista ou trabalha com criatividade. Às vezes começo a pensar que talvez não consiga mais fazer aquilo. Que a fonte de inspiração secou, que não vou conseguir encontrar uma nova ideia.
Então surge aquela pequena faísca criativa. Mas também preciso de prazos. Preciso de alguém me cobrando. Na verdade, preciso cobrar a mim mesmo. Por isso, simplesmente reservo o estúdio e penso: “Agora preciso estar pronto. Ou vou ter que ficar pronto quando chegar a hora”.
Acabo me colocando em um estado quase maníaco, no qual passo a viver e respirar aquelas músicas. E então elas simplesmente explodem para fora de mim. É muito bom perceber que ainda sou capaz de fazer isso. Mas o medo de achar que talvez você não consiga mais também pode ser devastador.