Lourenço Rebetez disponibilizou nas plataformas de streaming o seu segundo álbum de estúdio, Língua Geral. O lançamento consagra uma ponte internacional inédita entre três selos de referência em música instrumental e de vanguarda: Risco (Brasil), Jazzybelle Records (França) e Think! Records (Japão).
Mais do que um mero cruzamento estilístico, o projeto propõe uma profunda investigação sobre o tempo, a polirritmia e a espiritualidade da matriz afro-latina. Ao longo de sete composições autorais, Rebetez desafia a linearidade convencional com batidas elásticas, compassos ímpares e arranjos orquestrais inusitados, fazendo com que passado, presente e futuro coexistam em uma mesma frequência sonora.
A bênção de Letieres Leite e a formação estética
A matriz conceitual de Língua Geral bebe diretamente dos ensinamentos absorvidos por Rebetez durante seus anos de convivência com o maestro Letieres Leite (1959–2021), criador da seminal Orkestra Rumpilezz. O tributo ao mestre abre o repertório na faixa Maestro, resgatando a chave mestra de sua obra: compreender os desenhos rítmicos tradicionais, como o toque do ijexá e as claves sagradas, não como folclore estático, mas como a estrutura viva que rege harmonias e improvisações de vanguarda.
A bagagem do músico começou a ser lapidada na prestigiada Berklee College of Music no fim dos anos 2000, combinando a sofisticação harmônica de Wayne Shorter e a revolução rítmica proposta por Moacir Santos à crueza urbana do hip hop noventista (J Dilla) e às produções atemporais de Roy Hargrove e D’Angelo.
Encontros transatlânticos: do Bogum a Nova York e Tóquio
Para dar corpo a essa arquitetura sonora, Lourenço Rebetez uniu forças ao produtor pernambucano-americano Arto Lindsay (ícone da vanguarda nova-iorquina e da Tropicália tardia). Juntos, recrutaram instrumentistas de diferentes “DNAs rítmicos” para cruzar linguagens em estúdio:
- Sim E Não / Yes and No: Estabelece um diálogo hipnótico entre a percussão sagrada dos baianos Kainan do Jêje e Ícaro Sá (oriundos do histórico Terreiro do Bogum, em Salvador), a bateria dinâmica do norte-americano Kassa Overall e os sintetizadores futuristas do tecladista japonês Big Yuki;
- Ananké: Amplia o ecossistema com os timbres e texturas cósmicas do tecladista Jason Lindner (conhecido pelo trabalho na banda de David Bowie em Blackstar);
- Segundo Sentido: Ponto alto da complexidade métrica do álbum, estruturada em um intrincado compasso 11/8. A pulsação ancestral ganha vida sob as camadas de agogôs, bacurinhas, caxixis, timbaus e djembes, sustentada pela base de Bruno Migotto (contrabaixo), Sergio Machado (bateria) e Henrique Gomide (piano), abrindo espaço para intervenções viscerais do saxofonista Josué dos Santos e do próprio Arto Lindsay na guitarra.