A turnê de despedida do Sepultura ganha mais um capítulo histórico neste sábado (7), em São Paulo. O Suhai Music Hall recebe os veteranos do metal brasileiro para uma apresentação final. Entre os momentos mais aguardados da noite, a data reserva um encontro geracional de peso, a participação especial dos norte-americanos do Chained Saint dividindo o palco com Andreas Kisser e companhia.
Formado no sul da Flórida, o quarteto, formado por Sean Sterling (vocal), Ethan Kahn (guitarra), Sebastian De Avila (baixo) e Cameron Cottrell (bateria), despontou como uma das revelações mais promissoras da cena pesada internacional.
Com uma sonoridade que resgata a urgência do thrash metal oitentista aliada ao peso moderno, o Chained Saint gravou seu disco de estreia, Blindside (2024), 100% em fita analógica sob a produção de William DuVall (Alice in Chains). O talento precoce e a atitude visceral logo chamaram a atenção de nomes consagrados do gênero, entre eles, o próprio Andreas Kisser, que chegou a classificar a banda publicamente como um “mini Sepultura” e subiu aos palcos de festivais europeus vestindo a camiseta do grupo.
A relação construída nos bastidores de turnês e festivais pelo mundo se materializa agora diante do público paulistano. Em passagem pela capital paulista para o show, o vocalista Sean Sterling e o guitarrista Ethan Kahn conversaram com o Blog n’ Roll e contaram em detalhes os bastidores dessa conexão com Kisser, a vivência no pit assistindo aos ídolos, a opção pelo som analógico e a produção autônoma do recém-lançado EP Rise to Fall.
Confira a entrevista completa e saiba o que esperar dessa união de gerações no palco do Suhai Music Hall.
Qual é o sentimento de compartilhar o palco e se apresentar ao lado do Sepultura neste show histórico de despedida aqui em São Paulo?
Ethan Kahn: Bem, primeiro, para mim, o último show no México em que toquei com eles já foi um momento que nunca vou esquecer pelo resto da minha vida. E agora, ser convidado para tocar aqui no Brasil e fazer parte da história de verdade, da verdadeira história do metal… Essa é uma das maiores bandas a fazer isso, uma das melhores. Poder estar com esses caras, dividir o palco e fazer isso de novo é extremamente gratificante, e estou muito agradecido por estar aqui.
Sean Sterling: E nós finalmente chegamos ao Brasil! Tipo, estamos aqui e vai ser incrível, vai ser um grande momento.
Como surgiu a conexão com o Andreas Kisser depois que ele usou a camiseta da Chained Saint no palco do Leyendas del Rock, levando a essa apresentação juntos?
Ethan Kahn: Tem toda uma história por trás disso. Primeiro, tocamos com o Metal Allegiance, e, a propósito, vamos vê-los novamente, um salve para o Mike Portnoy e para todo mundo da banda. Nós estávamos fazendo aquele show em Anaheim durante a NAMM. O Andreas faz parte do Metal Allegiance e nós éramos a banda de abertura, claro.
Durante o nosso set, olhei para a minha direita e ele estava simplesmente sentado ali assistindo na lateral do palco, provavelmente só se aquecendo. Acho que ele estava fumando um baseado, só relaxando antes de tocar. Ele estava curtindo ali. Eu já estava usando uma camisa do Sepultura, aquela camisa do Brasil com o logo da banda. E aí tocamos Propaganda naquele show. Foi isso o que desencadeou tudo, porque depois disso tem até vídeo dele gravando no celular e falando tipo “isso aí, porra!”. A partir dali ele virou fã, conversamos com ele e demos aquela camiseta.
Lembro que no Leyendas del Rock nós fizemos nosso show e eles provavelmente começaram assim que a gente terminou. Nós literalmente saímos correndo para o palco deles porque ouvimos Inner Self e eu pensei: “Beleza, preciso correr até lá porque essa música é incrível”. E aí nós o vimos usando a camiseta do Chained Saint e ficamos tipo: o quê?! Isso é insano! Muito foda. Ficamos extremamente felizes com esse apoio dele, e foi muito legal vê-lo usando a camiseta também com o Mr. Bungle, além de vê-lo por aí nos apoiando e falando de nós para as pessoas. Somos muito gratos.
O que levou o Chained Saint a gravar o álbum de estreia 100% em fita analógica com o William DuVall, evitando completamente os computadores?
Sean Sterling: Computadores são uma merda. Que se foda a Inteligência Artificial! (risos)
Ethan Kahn: Na real, tudo se resumiu ao que queríamos soar, e queríamos soar como aquilo que nos inspirou a compor essas músicas em primeiro lugar. O William sugeriu a fita e, no início, nós não estávamos muito nessa vibe de “ah, sim, esse é o caminho, é isso que temos que fazer”. Mas assim que começamos o processo, percebemos que aquele era o método. Era exatamente assim que iríamos alcançar a sonoridade que buscávamos. A gente nem sabia como chegar nisso porque éramos todos muito jovens e nunca tínhamos gravado em fita antes. Foi algo novo, mas com certeza a decisão certa, e fico muito feliz por termos feito isso, porque não dá para superar aquele timbre quente e encorpado. Simplesmente não tem como.
Sean Sterling: Foi provavelmente a melhor escolha para aquele disco.
O que mudou na dinâmica da Chained Saint quando vocês mesmos assumiram a produção no EP Rise to Fall?
Sean Sterling: Controle total e absoluto! (risos) Brincadeira, era piada. Na realidade, nada mudou de fato na dinâmica da banda em si, mas foi mais no sentido de que tudo o que tínhamos aprendido com o William… as rodinhas da bicicleta caíram e nós assumimos o controle. Claro que tínhamos o Rob Roy com a gente como coprodutor, tomara que ele veja isso, e ele esteve lá para nos orientar e nos ajudar a alcançar aquele som.
Mas na verdade nós já sabíamos o que queríamos e entendíamos do assunto. A partir dali, quando entramos no estúdio, virou mais: “Beleza, como conseguimos aquele som? O que a gente usa para atingir essa sonoridade?”. Obviamente este trabalho não foi gravado em fita, mas usamos muitos daqueles equipamentos analógicos de estúdio (outboard gear) para ainda assim garantir aquele calor e aquela saturação.
Ethan Kahn: Além disso, eu e o Sean somos muito produtores de coração. Adoramos gravar qualquer coisa; nós nos juntamos, improvisamos, gravamos e compomos coisas aleatórias. E nós achamos muito valioso conseguir ser profissional dos dois lados do vidro da sala de controle quando se está gravando. Quando ele está fazendo as vozes, eu fico sentado ali com o microfone do talkback dizendo: “Vai se foder, faz melhor!” (risos).
Sean Sterling: E ele faz a mesma coisa comigo na guitarra! Quando ele está na guitarra, eu gosto de sentar bem atrás do vidro e começar a fazer caretas para ver se ele erra.
Ethan Kahn: Ele já fez isso antes, eu acho o máximo.
Como foi a experiência e a resposta do público ao excursionar pela Europa ao lado do Slaughter To Prevail?
Sean Sterling: Slaughter To Prevail! Quando tocamos com eles, tivemos algumas das nossas primeiras experiências com rodas de mosh de verdade e casas lotadas até o fundo, com a galera abrindo roda o tempo inteiro durante o nosso som. Foi muito foda e divertido demais, porque foi o oposto do que a gente esperava. A gente esperava que as pessoas fossem curtir, mas você via o público indo até a banquinha de merchandising, a gente começava a tocar e eles saíam do merchan correndo de volta para a frente do palco, tudo lotado, pirando no som.
Ethan Kahn: E houve uma progressão muito nítida no repertório: a primeira música nós tocamos de forma pesada e mais lenta, e ninguém estava muito alucinado, mas quando chegou o breakdown no final, a galera se ligou: “Opa, isso é muito bom”. Aí emendamos com Punk, e com aquele breakdown as pessoas entenderam qual era o esquema. Depois veio 1000 Tons, e aí o pessoal já estava totalmente na vibe. Quando entramos em Uncrowned, quem ainda não tinha entrado na roda em 1000 Tons entrou de vez. E em Snakeskin eles começaram a abrir o wall of death. Foi insano!
O que vocês esperam da energia do público brasileiro, conhecido mundialmente por ser um dos mais insanos no metal?
Sean Sterling: Bem, nós assistimos ao show do Sepultura ontem e entramos na roda! Foi bem diferente dos pits da Flórida, com certeza.
Ethan Kahn: Eu fiz crowd-surfing e me joguei do palco (stage dive) duas vezes durante o show!
Sean Sterling: Você me levantou, você me incentivou! Ele olhou com aquela cara de empolgado e eu disse: “Ethan, quer subir, cara?”.
Ethan Kahn: E eu respondi: “Sim, é a minha última chance!”. E fiquei muito feliz de ter feito isso.
Sean Sterling: Eu tentei me jogar do palco, mas todo mundo para quem eu pedia ajuda para me levantar dizia não, ninguém queria me erguer! (risos)
Ethan Kahn: Eu sou leve, então para mim é fácil. A primeira vez foi durante Mass Hypnosis, fiquei até surpreso que eles tocaram essa, e a segunda foi em Attitude. Queria que existisse um registro em vídeo disso, mas não tem; só quem estava lá viu!
Com o Rise to Fall lançado, quais são os próximos planos em relação a um álbum completo e futuras turnês?
Sean Sterling: Esse é o plano. Nós temos conversado bastante; eu e ele temos planos gigantescos para o segundo disco, e esse EP é a ponte.
Ethan Kahn: Mas agora pense no segundo disco como: imagine o Blindside mais 1000 Tons, somado ao Rise to Fall, com um jambalaya secreto e novo temperando tudo.
Sean Sterling: Jogue um pouco de rabada ali, coloque um filé Wellington no meio, e talvez vista ele com uma jaqueta The North Face! É isso o que você vai ter: o disco dois. Coisa de gente grande.
Ethan Kahn: Vai ser exatamente isso.