Entrevista | Jalen Ngonda – “Não quero ficar preso em uma caixa chamada soul”

Se você tem acompanhado as playlists de música preta ou os algoritmos de streaming nos últimos dois anos, as chances de ter esbarrado no falsete hipnotizante de Jalen Ngonda são gigantescas. O cantor e compositor norte-americano, criado em Maryland e radicado no Reino Unido, transformou seu álbum de estreia, Come Around and Love Me (2023), em um verdadeiro passaporte para o topo da nova cena soul mundial. Emplacando o hit viral If You Don’t Want My Love, o artista rapidamente deixou as pequenas salas de show para trás, carimbando aparições em programas icônicos da TV britânica e americana, como o The Late Show with Stephen Colbert. Agora, Jalen Ngonda se prepara para o teste mais desafiador na carreira de qualquer fenômeno recente: o segundo disco, Doctrine of Love, pela lendária gravadora Daptone Records, que chegou hoje às plataformas digitais. O trabalho promete consolidar o cantor não apenas como um intérprete talentoso, mas como um canal contemporâneo para os anos de ouro da música negra. Longe de ser um mero exercício de nostalgia ou um “clichê vintage”, o novo trabalho mergulha de Jalen Ngonda fundo na virada dos anos 1960 para os 1970, costurando a urgência do pop e do R&B modernos com a elegância de arranjos que remetem aos grandes tempos da Motown, da Stax e do Philly soul. A maturidade sonora apresentada nos singles recentes, como a suingada Hang it On The Shelf, reflete uma rotina intensa de quem passou os últimos meses cruzando continentes. A vida na estrada, inclusive, rendeu frutos que vão muito além de sua discografia solo. Apontado pela crítica como uma voz “uma em uma geração”, Jalen Ngonda recentemente chamou a atenção de ninguém menos que Damon Albarn, que o convocou para emprestar suas cordas vocais à faixa The Mountain, no mais recente e elogiado álbum do Gorillaz. Essa bagagem acumulada de Jalen Ngonda se traduz em um álbum feito com mais autonomia. Enquanto a estreia foi lapidada quase inteiramente em estúdio ao lado dos produtores de Nova York Vince Chiarito e Michael Buckley, quando mal se conheciam, Doctrine of Love começou a ganhar vida de forma solitária em hotéis ou em parcerias no Reino Unido. O resultado é um repertório que flerta discretamente com nuances de folk rock, doo-wop e a crueza do rock ‘n’ roll primitivo de Nova Orleans dos anos 1950, expandindo os limites daquilo que o público costuma rotular simplesmente como “soul music”. O Blog n’ Roll bateu um papo exclusivo com Jalen Ngonda às vésperas desse grande lançamento. No meio de uma concorrida agenda europeia, que inclui arenas lotadas ao lado de Olivia Dean e palcos principais de festivais como o Mad Cool e o North Sea Jazz, o músico destrinchou seu processo criativo, rechaçou os rótulos pesados da imprensa, falou sobre a liberdade que busca como artista e mandou um recado direto para os fãs brasileiros, garantindo que a turnê deve desembarcar em solo sul-americano muito em breve. Confira a entrevista na íntegra abaixo. Jalen Ngonda, parabéns pelo novo trabalho. O seu álbum de estreia, Come Around and Love Me (2023), teve uma recepção estrondosa. Como foi entrar em estúdio para criar o Doctrine of Love após todo esse sucesso? Você sentiu algum tipo de pressão ou o processo fluiu com mais naturalidade? Fluiu naturalmente. Para ser bem sincero com você, o sucesso (do primeiro disco) se resumiu a fazer shows. Eu acho que se esse sucesso significasse ir a várias cerimônias de premiação e coisas do tipo, eu provavelmente teria me sentido de um jeito diferente. Mas estava apenas tocando em tantos shows após o lançamento do álbum… Então, não senti nenhuma pressão para fazer o Doctrine of Love. Só escrevi algumas músicas, é simples assim. O release do álbum menciona que Doctrine of Love se situa cronologicamente no final dos anos 1960. O que especificamente nessa virada de década te fascina tanto musicalmente, e como você buscou traduzir essa atmosfera nas novas composições? Sendo o mais simples possível: eu apenas amo essa música. E eu não sei o porquê, não entendo por que meu cérebro é atraído por esse som, mas ele é. Quando fizemos o primeiro álbum, estávamos na época da covid. E havia aquela vibe de… naquele momento, nós estávamos ouvindo muito, e quando digo “nós”, me refiro aos produtores do álbum com quem estava no estúdio, havia muito Philly soul tocando por ali. Estávamos ouvindo muito daquele Marvin Gaye do início dos anos 70, aquele som de arranjos muito grandes e luxuosos de Tom Bell, Gamble & Huff, Curtis Mayfield… Tinha muito disso rolando na sala. E acho que a música refletiu isso. Tirando a faixa So Glad I Found You, que tem um som mais de meados dos anos 60, acho que estávamos todos sentindo aquele trem dos anos 70. Para complementar, grande parte do primeiro álbum foi escrita com eles. Acho que houve apenas duas músicas que escrevi com outras pessoas, o resto do álbum foi escrito com o Mike (Buckley) e o Vince (Chiarito). Já desta vez, passei muito mais tempo em turnê e muito mais tempo de volta ao Reino Unido, onde escrevi sozinho ou com outras pessoas que tinham influências de outras coisas, como indie rock ou algo assim. E quando escrevo sozinho, muito do que faço tem um estilo mais voltado para o início ou meados dos anos 60, não necessariamente todas as músicas, claro. Havia muitas canções que foram para o segundo álbum que eu meio que já trouxe prontas. E acho que, conforme a Daptone e os produtores foram me conhecendo melhor, porque mal nos conhecíamos quando escrevemos o primeiro álbum, tínhamos acabado de nos conhecer, eles perceberam que gostava mais dos sons mais antigos. Então, eles meio que defenderam e me apoiaram um pouco mais nesse som. É por isso que o disco tem um som ligeiramente mais antigo. Mas quem sabe? Talvez o terceiro álbum soe como os anos 80. Nós não sabemos, simplesmente não sabemos. Além do soul e do funk tradicionais,
Entrevista | Laure Briard – “Eu amo Santos! Já fui umas quatro vezes aí”

O público brasileiro tem um lugar cativo no coração de Laure Briard, e a recíproca é absolutamente verdadeira. Conhecida por sua capacidade de flutuar entre o pop sessentista e o indie contemporâneo, a cantora e compositora francesa já cruzou o Atlântico diversas vezes, deixando como rastro parcerias memoráveis com os goianos dos Boogarins e raridades cantadas em um português carregado de charme e sotaque. Para os lados de cá, ela já não é apenas uma visitante, mas parte da nossa própria cena alternativa. Agora, Laure apresenta ao mundo Voyage Mental, seu mais novo álbum de estúdio, que chegou hoje às plataformas digitais pelo selo Midnight Special Records. O trabalho marca uma virada estética sensível na carreira da artista. Se o elogiado antecedente Nevers To Blue buscava oxigênio e imensidão nas paisagens áridas e geográficas do deserto da Califórnia, o novo registro propõe uma expedição de coordenadas muito mais íntimas: um mergulho direto para dentro de si mesma. Essa nova fase, despida de excessos e focada em arranjos mais puros guiados pelo violão folk, reflete um momento de profunda transformação pessoal, Laure recentemente deu à luz gêmeos. O primeiro vislumbre dessa calmaria reflexiva veio com o single Rocking Chair, uma faixa que evoca o movimento de vai e vem dos pensamentos e que resgata anotações feitas por ela há mais de uma década, provando que certas inquietações artísticas são atemporais. Para dar forma visual e sonora a esse universo, Laure manteve por perto o que chama de “experiência familiar”, cercando-se de amigos de longa data e parceiros de total confiança, como os músicos Gaetan Nonchalant e Clementine (Norma). Essa rede de afeto serve de porto seguro para uma artista que se assume abertamente nostálgica, mas que sabe equilibrar o peso do passado com o frescor do presente de maneira totalmente orgânica. Em uma conversa descontraída via Zoom direto de Paris, Laure Briard revelou detalhes sobre o processo de composição em francês e inglês, relembrou com carinho suas andanças por Santos, cidade que visitou várias vezes e cuja arquitetura peculiar dos prédios tortos ficou guardada na memória, e confessou o misto de ansiedade e empolgação que antecede o lançamento de um disco gerado com tanto cuidado. Laure, vamos começar? Falo do Brasil. De qual cidade? Santos Santos! Sabia que eu já fui para Santos muitas, muitas vezes? Sério? Sim! Eu tenho um amigo, um amigo brasileiro, e a mãe dele mora em Santos, então fui acho que umas quatro vezes. Eu amo Santos! Onde você esteve por aqui? Você se lembra? Nós temos aqueles prédios tortos. Sim, sim, sim, sim! Vocês têm uma vibe muito boa, é completamente diferente. São Paulo também é legal, mas é completamente diferente de Santos, né? É completamente diferente, mas é legal. Laure, o título do seu novo álbum é Voyage Mental. Após um álbum geograficamente inspirado pelo deserto da Califórnia, Nevers To Blue, esse novo trabalho é uma jornada para dentro de si mesma? Como surgiu esse conceito? O conceito veio do fato de que, para este álbum, eu queria algo mais… não mais introspectivo, mas mais, como posso dizer, mais puro, sem muitos arranjos. Algo mais folk, com violão acústico e sem todos os instrumentos que eu costumava ter nas minhas músicas. Eu queria algo mais… não calmo, mas talvez com um andamento mais lento (low tempo). Não sei se há uma ligação com a minha situação pessoal na época, porque estava grávida, tive gêmeos, e talvez estivesse mais focada em mim mesma, e talvez haja uma ligação com tudo isso, mas queria algo novo. O single Rocking Chair nasceu de um momento de introspecção, talvez como você disse, em uma busca por equilíbrio. A cadeira de balanço (rocking chair) funciona quase como uma metáfora para esse movimento de vai e vem dos seus pensamentos? Conte-nos um pouco sobre o processo de composição dessa faixa. Escrevi essa música com um amigo meu, um músico, o nome dele é Gaetan Nonchalant, ele é um músico francês, então ele me ajudou com a letra e fez a música. Então vim com uma ideia, algo como… eu estava dizendo algo pacífico, alguém que estava se perguntando, introspecção, ele me acompanhou nessa ideia. E é engraçado porque, neste texto, nessa letra, usei versos que escrevi há uns dez anos, talvez mais, e quando olhei no meu diário, nas minhas notas, achei que combinava e disse: “Ah, sim, é o sentimento que sinto hoje em dia”. E sim, algo sobre imaginação, alguém que está… eu estava “imaginando”, “imaginando”? Eu estava “imaginando”? Não. Eu imaginei uma pessoa em um deserto, como um caubói solitário caminhando com o cavalo, que se senta à beira da fogueira, olha para as estrelas e… sim, há a imagem de um universo nisso. Você mencionou o Gaetan, mas também tem a Norma, certo? Sim. Como é para você trazer pessoas do seu círculo íntimo e afetivo para moldar a identidade visual deste lançamento? Gosto muito, muito de trabalhar com amigos, com certeza. Na minha música, todos os meus músicos, desde que comecei a gravar, há uns dez anos, são sempre amigos, porque para mim é uma experiência… uma espécie de experiência familiar, sabe? Estar em todo o processo, a escrita, a composição e depois a gravação, e depois, quando tocamos ao vivo. Realmente gosto de estar com pessoas em quem confio, que sei que posso confiar, e é sempre divertido, e faz sentido para mim fazer isso com meus amigos. E com a Norma, Clementine, o nome dela é Clementine, é muito… eu tenho sorte de ter amigos tão talentosos, porque é sempre divertido fazer vídeos assim. Éramos apenas nós duas no set, e às vezes três pessoas, mas é tão legal porque compartilhamos as mesmas ideias visuais, temos uma imaginação cinematográfica, compartilhamos tantos gostos no cinema… e é mais fácil para mim porque, como eu disse, me sinto bem perto de pessoas que conheço, em quem confio, e sim, é super legal. Laure, sua voz e estilo são frequentemente descritos como algo que pertence
Após 15 anos, Superchunk desafia a lógica dos sets engessados e faz show memorável no Cine Joia

Foram necessários 15 anos para o retorno do Superchunk ao Brasil. Mas a longa espera foi recompensada no domingo (31), no Cine Joia, em São Paulo, com um dos shows mais intensos até aqui em 2026. Em quase 90 minutos de apresentação, a banda norte-americana enfileirou seus principais hinos, além de promover uma série de mudanças no setlist na comparação com o show do Rio de Janeiro, que rolou na noite anterior. Aliás, a disposição para alterar o repertório é algo louvável em tempos de turnês com sets engessados. Poucas são as bandas que ousam mudar mais de cinco músicas quando viajam pela América do Sul. No caso do Superchunk, foram 21 faixas executadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas com nove novidades no show paulista, além da total reordenação das canções mantidas. Logo de cara, duas surpresas abriram a noite: This Summer, atendendo ao pedido de um fã e que rendeu uma piada do vocalista Mac McCaughan, dizendo que a escolha era no mínimo inusitada, já que estamos próximos do inverno, emendada propositalmente ou não por Endless Summer. E foi nesse ritmo, entre hinos e improvisações, que o Superchunk fez a festa de um público composto em sua maioria por pessoas entre 40 e 50 anos, dentre eles Evan Dando, vocalista do The Lemonheads, outro grande expoente do rock alternativo dos anos 1990. O clima de improviso, inclusive, fez com que a novata Laura King (ex-Bat Fangs), baterista de turnê que substitui Jon Wurster, desligado do grupo em 2023, errasse algumas entradas. Muito tímida ao microfone, ela se desculpou por três vezes, mas nada que comprometesse o ritmo do show. Pelo contrário: Laura desceu o braço na bateria. No palco, a baixista Betsy Wright, substituta de Laura Ballance nas turnês (embora a fundadora siga gravando em estúdio e à frente da Merge Records), e o guitarrista Jim Wilbur são mais discretos, cada um em seu canto. Enquanto isso, Mac McCaughan distribuía pulos e corridinhas pelo palco. Dentro do cenário alternativo noventista, o Superchunk se manteve como uma referência ética exatamente por ter se negado a virar mais uma banda presa às grandes gravadoras. Eles chegaram a se reunir com a Atlantic Records na época, mas decidiram não assinar nenhum contrato para preservar a autonomia artística. O grupo havia sido um dos primeiros a assinar com o cultuado selo independente Matador. Porém, quando a Matador formou uma parceria justamente com a major Atlantic Records, a banda decidiu agir. Mac McCaughan e Laura Ballance preferiram sair e construir sua própria gravadora do zero: a Merge Records. Durante a década de 1990, eles transformaram a Merge de um pequeno projeto movido por paixão em uma verdadeira potência do indie rock, sendo os responsáveis pelo lançamento de álbuns históricos como In the Aeroplane Over the Sea (Neutral Milk Hotel) e 69 Love Songs (The Magnetic Fields), além de trabalharem anos mais tarde com nomes como Spoon, Arcade Fire e Caribou. No Cine Joia, os momentos de maior catarse coletiva ficaram por conta de Everybody Dies, Driveway to Driveway, Crossed Wires e Slack Motherfucker. O impacto no público foi imediato: além de abrir alguns mosh pits, o som fez coroas emocionados subirem ao palco para pular nos braços dos fãs. Vale destacar que Mac não pareceu muito feliz com os invasores que demoravam a deixar o palco, chegando a dar um leve empurrão em um deles. O fim da apresentação ainda trouxe Learned to Surf e Hyper Enough, coroando o set mais redondo possível. O público saiu emocionado, feliz, suado e estacionou na frente do Cine Joia na esperança de garantir uma foto com a banda. Edit this setlist | More Superchunk setlists
Com a volta da formação clássica e benção de Ney Matogrosso, Barão Vermelho faz show irretocável em SP

A minha primeira tentativa de ver o Barão Vermelho em um estádio foi em 1995, na abertura do terceiro dia do Hollywood Rock, em São Paulo. Frejat e companhia tocariam antes de Rita Lee, Spin Doctors e Rolling Stones, em sua histórica primeira turnê pelo Brasil. No entanto, uma tempestade avassaladora atingiu o Estádio do Pacaembu, e a única lembrança daquela tarde foi Frejat ao microfone avisando que a apresentação seria cancelada pelos riscos de segurança. À época, as bandas de abertura não tinham direito à cobertura do palco e Peninha, o saudoso percussionista, correu contra o tempo para tirar a água dos instrumentos enquanto os músicos lidavam com o risco real de choques elétricos. Trinta e um anos depois, na noite de sábado (23), o Allianz Parque finalmente recebeu o Barão Vermelho com casa cheia. Sob um frio paulistano e a ameaça constante de uma chuva que, felizmente, não deu as caras, o Barão entregou uma apresentação completa de quase 2h30. Desta vez, com um superpalco inteiro à disposição e uma infraestrutura de som e luz de dar inveja a muita atração gringa. A atual turnê, que marca o primeiro reencontro desde 1989 da formação clássica com Roberto Frejat, Dé Palmeira, Maurício Barros e Guto Goffi, é pura nostalgia. O show passeia por toda a discografia do grupo e abre espaço para releituras cirúrgicas de Cazuza, Rita Lee, Raul Seixas, Angela Ro Ro, Legião Urbana, Bezerra da Silva e Eduardo Araújo. Tal como aconteceu na estreia do Rio de Janeiro, mas que não deve se repetir nas próximas praças, Ney Matogrosso foi a grande surpresa da noite. Dono de uma ligação íntima com o início do Barão, o cantor foi ovacionado ao subir ao palco em dois momentos distintos. O reconhecimento veio do próprio Frejat: “Sem ele, acredito que nada teria acontecido”. No primeiro bloco, Ney começou com a emocionante Poema, emendando em sequência Jardins da Babilônia (Rita Lee) e Blues da Piedade (Cazuza). Diferentemente da performance carioca, a banda optou por deixar de fora Ideologia e Exagerado, substituídas por duas faixas sem a participação do convidado. Mesmo sem Ney em cena, os highlights da primeira metade do show mantiveram a arena em alta voltagem com Bete Balanço, Meus Bons Amigos e Down em Mim, anunciada por Frejat como o “hino dos bares”. O clima nostálgico é permanente. A abertura com Maior Abandonado, por exemplo, é executada exclusivamente pelo quarteto original. A partir da segunda faixa, o palco ganha o reforço de um timaço de apoio: o guitarrista Fernando Magalhães (parceiro de estrada desde 1985), Rafael Frejat (filho de Roberto) também na guitarra, e o percussionista Cezinha (irmão de Peninha). Completam o grupo a backing vocal Jhusara e o trio de metais formado por Marlon Sette, Diogo Gomes e José Carlos Bigorna. Era visível a alegria e a emoção de Frejat diante do estádio lotado, celebrando o fato de que, após mais de 40 anos de estrada, o Barão Vermelho continua gigante e relevante. A versatilidade e a fusão de influências, do blues clássico à MPB e ao classic rock, sempre foram marcas registradas da banda, permitindo viradas de chave surpreendentes no roteiro. Após um bloco romântico irretocável com Todo Amor Que Houver Nessa Vida (com direito a um dueto em vídeo com Cazuza), Codinome Beija-Flor, Por Você e o cover de Amor, Meu Grande Amor (Angela Ro Ro), o grupo mudou o clima sem aviso. Na sequência, engataram a dançante Vem Quente Que Eu Estou Fervendo (Eduardo Araújo) e o samba-rock Malandragem Dá um Tempo (Bezerra da Silva), com Maurício Barros assumindo os vocais principais. O fôlego seguiu com Torre de Babel, Declare Guerra, Cuidado e Não Me Acabo, faixa do álbum Carnaval (1988) e uma das novidades no setlist paulista. Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto (Legião Urbana) e Puro Êxtase fecharam a primeira parte de quase duas horas ininterruptas. O bis trouxe o quarteto original de volta, sozinho, cantando Bilhetinho Azul em uma plataforma elevada ao fundo do palco. Logo após, Frejat prestou um tributo emocionante ao guitar hero Luiz Carlini (líder do Tutti Frutti e parceiro histórico de Rita Lee), falecido recentemente. Além de exaltar o legado de Carlini, o Barão tocou uma versão tocante de Ovelha Negra. Ainda marejado, o vocalista cravou: “Por isso é importante fazer as homenagens em vida”. O Poeta Está Vivo preparou o terreno para o retorno triunfal de Ney Matogrosso ao palco de 84 anos esbanjando vitalidade. A dobradinha final com Por Que A Gente É Assim? e Pro Dia Nascer Feliz (hit do Barão que Ney gravou em 1982 e que catapultou a banda nacionalmente) garantiram um encerramento apoteótico. Em um sábado frio e disputando público com grandes concorrentes na Capital, como a Virada Cultural e o C6 Fest, o Barão Vermelho provou que o Allianz Parque continua sendo o quintal de sua história. Edit this setlist | More Barão Vermelho setlists
Entrevista | Horsegirl – “Minha esperança é só comer comida gostosa, comprar alguns discos e passear por aí”

Há uma linha tênue que separa o resgate nostálgico da pura originalidade, e as americanas do Horsegirl caminham por ela com a segurança de veteranas. Nascido na efervescente cena jovem de Chicago e hoje radicado em Nova York, o trio formado por Penelope Lowenstein, Nora Cheng e Gigi Reece tornou-se um dos nomes mais incensados da nova vanguarda das guitarras. Com uma identidade moldada pela ética do “faça-você-mesmo” (DIY), a banda transforma referências clássicas do shoegaze, pós-punk e indie noise dos anos 80 e 90 em algo urgente, magnético e profundamente contemporâneo. O passaporte para o reconhecimento global definitivo veio carimbado pelo aclamado segundo álbum, Phonetics On and On. Lançado no ano passado, o trabalho consolidou o Horsegirl nos holofotes da crítica internacional, figurando no topo das listas de melhores discos de 2025. Ao contrário da estreia crua que buscava emular a energia dos palcos, o registro recente revelou um amadurecimento corajoso de estúdio, desbravando texturas experimentais e drones sintetizados sem perder o apelo de suas melodias pop tortas. A prova de fogo desse repertório diante do público brasileiro acontece no sábado (23), em São Paulo. O Horsegirl é uma das atrações mais aguardadas do C6 Fest, festival que ocupa o Parque Ibirapuera. O show será às 14h40, na Tenda MetLife. Os ingressos estão esgotados. Em uma conversa franca e descontraída com o Blog n’ Roll, por chamada de vídeo, embalada pela sinfonia caótica de sirenes e buzinas de uma Nova York ensolarada, a guitarrista e vocalista do Horsegirl, Penelope Lowenstein, falou sobre as expectativas para a estreia em solo brasileiro, a transição geográfica e criativa da banda, os bastidores do elogiado EP Julien 2 e o desafio diário de equilibrar negócios e amizade. Confira a entrevista na íntegra a seguir. Oi, Penelope, como você está? Estou bem, e você? Estou bem também. O dia está ensolarado por aí, lindo! Sim, super quente lá fora hoje. Por isso tenho que ficar com todas as janelas abertas. Se você ouvir coisas como sirenes ou buzinas, é só a loucura de Nova York acontecendo. Sinto muito! Tudo bem. Esta é a primeira vez do Horsegirl se apresentando no Brasil, um país com uma base de fãs de indie rock muito apaixonada. O que você já ouviu falar sobre o público brasileiro e o que está mais animada para vivenciar no palco do C6 Fest? Bem, ouvi dizer que o Brasil ama rock, então estou animada para ver isso de perto. Poder viajar no geral por causa dos shows é uma forma muito interessante de conhecer um lugar. Felizmente, vamos ter muitos dias de folga em São Paulo. Minha esperança é só comer comida gostosa, comprar alguns discos enquanto estivermos lá e passear por aí. Estou muito, muito animada. Inclusive, eu estava dizendo na minha última entrevista que São Paulo é o lugar para onde eu mais queria ir. Sinto que é uma chance incrível de conhecer um local que desejava visitar há muito tempo. Sim, parece perfeito. Você já pesquisou sobre São Paulo? Onde quer ir? Eu falei com alguns amigos que conheço por lá e estou tentando fazer com que eles me deem recomendações fora do circuito turístico tradicional, sabe? Honestamente, não tem muita comida brasileira nos Estados Unidos que eu tenha provado. Quero muito experimentar a culinária local. No mais, pretendo ver um pouco de música. Sim. Galeria do Rock é um lugar muito bom para ir. Sim! A Galeria do Rock é tipo um shopping. Ah, eu anotei isso! Já ouvi falar. Fica no Centro? Fica no Centro. Ok, já sei sobre esse lugar, então. Tenho uma lista crescendo. Perfeito! O festival mistura atrações históricas com a nova vanguarda da música global. Como você vê o papel do Horsegirl nesse circuito, levando música movida a guitarra e uma estética faça-você-mesmo (DIY) para grandes palcos? Estava olhando o lineup e pensei que parece uma boa mistura de atrações internacionais com artistas brasileiros. Fiquei bem lisonjeada por sermos escolhidas como uma das bandas americanas do evento. Espero que a gente mostre algo interessante que talvez não esteja sendo feito no Brasil no momento. É muito legal ser representante de algo no exterior. Nós viemos de um grupo de bandas em Chicago que nunca imaginou que teria a chance de viajar tão longe para tocar para as pessoas. Especialmente se a mensagem em torno das coisas DIY for inspiradora para o público, isso me deixa muito feliz. É incrível pensar em conseguir espalhar isso mais longe do que você achou que conseguiria. E Phonetics On and On completou um ano desde o seu lançamento, cercado de elogios e figurando nas principais listas de melhores do ano de 2025. Olhando para trás agora, como você processa o impacto que esse álbum teve na carreira do Horsegirl? Foi um momento importante. Para uma banda, fazer um primeiro disco é muito diferente de fazer um segundo e sair do outro lado. Às vezes você tem um primeiro trabalho de sucesso e depois fica um pouco perdida, sem saber o que fazer. Nós tomamos um rumo muito diferente entre o nosso primeiro e o segundo disco. Nossos shows ficaram ainda maiores e pareceram mais significativos do que na primeira vez. Isso nos deu muita confiança de que podemos mudar as coisas na nossa carreira e ter liberdade para seguir o que é interessante para nós. Ter feito algumas coisas diferentes na minha vida com essa idade tão jovem afirma, de uma perspectiva de carreira, que posso fazer muitas coisas distintas como musicista. Essa foi uma lição valiosa para nós. Superar o desafio de um segundo disco parece algo grandioso. O terceiro acaba sendo um bloqueio mental porque você já passou por isso duas vezes antes. Vocês começaram o Horsegirl em Chicago e depois se mudaram para Nova York, certo? Sim! O quanto essa mudança de cenário e viver em Nova York influenciou a composição e as origens das músicas no segundo disco? Foi fundamental! Éramos muito jovens quando escrevemos nosso primeiro disco, tínhamos uns 16
Sob dilúvio, Korn encerra jejum de 9 anos em SP e prova tamanho de seu legado

Pais do nu metal e responsáveis por quebrar os moldes tradicionais do rock e do metal dos anos 1990, acelerando o fim do hair metal e preenchendo o vácuo deixado pelo declínio do grunge, a banda norte-americana Korn, enfim, teve sua estreia como headliner em um estádio brasileiro. Na noite de sábado (16), diante de 50 mil pessoas que esgotaram os ingressos do Allianz Parque, em São Paulo, Jonathan Davis e companhia entregaram tudo o que se esperava deles, encerrando um doloroso jejum de nove anos longe dos palcos do país. Esse status novo do Korn para o porte de estádio no Brasil reflete um fenômeno global: o forte revival do nu metal e o interesse renovado em grandes experiências ao vivo. Mas estar ali, comandando uma arena desse tamanho, faz justiça histórica a um grupo que revolucionou a música sem fazer concessões. Visualmente, eles chocaram os puristas ao trocar o couro e o visual do metal clássico pela estética das ruas, com dreadlocks, agasalhos da Adidas e tênis brancos. Sonoramente, rejeitaram clichês como longos solos de guitarra para fundir o peso do metal ao groove do hip-hop, o baixo funkeado e melodias sombrias do new wave. Com guitarras de sete cordas afinadas lá embaixo e a inusitada gaita de foles de Jonathan Davis, o Korn construiu uma ponte definitiva entre gêneros outrora distantes. O show começou exatamente às 21h33 com Blind, faixa de abertura do disco de estreia de 1994. A introdução com a queda das cortinas foi o suficiente para mudar o clima na pista. A partir dali, o que se viu foi um desfile econômico em pirotecnia, mas monstruoso em som, grave e cristalino. Faixas como a pesada Here to Stay (embalada por sinalizadores na pista) e a dançante Got the Life mantiveram o Allianz em ebulição, mesmo quando uma forte chuva desabou sobre o estádio. No comando de tudo estava Jonathan Davis, a personificação do “anti-herói danificado”. Enquanto o metal tradicional focava em fantasia ou hedonismo, Davis trouxe para o topo das paradas uma vulnerabilidade brutal sobre traumas, depressão e o severo bullying de sua juventude. Ouvir 50 mil vozes ecoando o interlúdio bizarro de Twist ou berrando os versos de Shoots and Ladders (com direito ao trecho final de One, do Metallica) evidencia o nível de conexão emocional fanática que a banda gerou com uma geração de jovens suburbanos alienados. Essa fórmula crua e barulhenta, vale lembrar, chegou a desbancar astros do pop como Britney Spears e NSYNC na MTV no fim dos anos 90 e deu origem à icônica Family Values Tour. Por volta da nona música, após engatar a sequência com Coming Undone, o Korn fez sua primeira pausa totalmente sem som, quebrando o clima de ruídos industriais que unia as faixas. Foi o momento em que Jonathan Davis, visivelmente incrédulo com o mar de gente sob o dilúvio, conversou com o público e pediu sinceras desculpas pela demora de quase uma década. Ele prometeu um retorno mais rápido e justificou que o grupo esteve imerso em estúdio nos últimos anos. Na sequência, introduziram a inédita Reward the Scars, faixa lançada para o game Diablo IV e que deve integrar o próximo álbum. Na segunda metade do set, canções mais recentes como Cold dividiram espaço com petardos cheios de groove como Twisted Transistor e a contestadora Y’All Want a Single. Musicalmente, o grupo soa impecável e idêntico às gravações de estúdio. Os guitarristas Brian “Head” Welch e James “Munky” Shaffer emulam as timbragens com perfeição. O baterista Ray Luzier exibe uma habilidade técnica assustadora, enquanto o baixista convidado Ra Díaz substitui Fieldy mantendo o peso necessário, ainda que com uma pegada ligeiramente menos percussiva. Davis, aos 55 anos, administra o fôlego em alguns refrões, mas compensa com uma entrega visceral. O bis foi um presente nostálgico milimetricamente calculado: a curta 4U abriu caminho para a apoteose com Falling Away from Me, a divertida A.D.I.D.A.S. e o hit máximo Freak on a Leash, que transformou a pista encharcada do Allianz Parque em um mosh pit generalizado sob chuva de serpentinas. Edit this setlist | More Korn setlists
Spiritbox equilibra setlist em SP, mas esbarra em público frio e ausência de telões gringos

Ano passado, meses após a estreia deles no Brasil no fim de 2024, avisei que o grupo canadense Spiritbox estava com uma projeção gigantesca no hemisfério norte, amparado por um show incrivelmente bonito e telões de última geração, como pude constatar de perto no Hammerstein Ballroom, em Nova York. Infelizmente, a apresentação que veio para São Paulo no último sábado (16), como abertura para o Korn no Allianz Parque, não trouxe toda essa parafernália tecnológica. No entanto, com ou sem os supertelões, Courtney LaPlante e companhia conseguem entregar um show excelente, extremamente técnico e com uma presença de palco marcante. Em turnê mundial para divulgar seu segundo álbum de estúdio, Tsunami Sea, o Spiritbox mudou a lógica do setlist no Brasil. Se no ano passado metade do repertório era focado no disco mais recente, no sábado a divisão ficou mais equilibrada: foram quatro canções do álbum de estreia (Eternal Blue), quatro de Tsunami Sea, três do EP The Fear of Fear e uma do EP Rotoscope. A recepção do público, por outro lado, deixou um pouco a desejar. Mesmo que algumas pessoas tentassem imitar os guturais de Courtney na pista, no geral a plateia se mostrou fria com a banda. Nada que estragasse a noite, já que a vocalista demonstrou muita alegria no palco, dançou bastante e conversou brevemente com a galera. O ápice da reta final ficou por conta de um encontro de peso: Courtney chamou Taylor Barber, do Seven Hours After Violet, para dividir os vocais na avassaladora Holy Roller. Sigo com o meu hiperfoco em assistir a um show solo do Spiritbox no Brasil. Essa será a verdadeira validação da banda com um público estratégico do showbiz mundial e, acima de tudo, a experiência rica que os fãs merecem, de preferência, com toda a tecnologia visual a que têm direito. Edit this setlist | More Spiritbox setlists
Com direito a gravação de clipe, Shavo Odadjian comanda show do Seven Hours After Violet em SP

A programação do show do Korn em São Paulo trouxe duas excelentes novidades que já haviam se destacado no Allianz Parque nos últimos anos: Seven Hours After Violet e Spiritbox, bandas que lançaram seus primeiros álbuns em 2024 e 2021, respectivamente. A primeira foi escalada no Knotfest 2024, enquanto a segunda abriu para o Bring Me The Horizon no mesmo ano. No sábado (16), o Seven Hours After Violet (Shav) se apresentou logo após o show incendiário do Black Pantera, hoje, uma das melhores bandas do cenário nacional. Liderado por Shavo Odadjian, baixista do System of a Down, o projeto traz no palco a companhia de Taylor Barber (vocal), Michael “Morgoth” Montoya (guitarra), Alejandro Aranda (guitarra) e Josh Johnson (bateria). Juntos, eles transitam entre o metalcore e o metal alternativo, com Taylor no comando dos guturais e Alejandro, vice-campeão do American Idol 17 (2019), entregando as vozes mais melódicas. Impressionado com a resposta do público, que atendeu a todos os pedidos de mosh pit, cantou junto e vibrou intensamente, Shavo arriscou o agradecimento em bom português: “Vocês são foda”. O repertório foi baseado inteiramente no álbum homônimo de estreia, de 2024, com nove das 11 faixas executadas. Mas ainda houve espaço para uma novidade no set: a inédita Graves, que deve integrar o próximo disco do grupo. Durante a execução, os fãs foram convidados a escanear um QR Code no telão para enviar vídeos dançando e curtindo a música ali na hora. O material fará parte do próximo videoclipe do Shav. É contagiante ver a empolgação do baixista no palco. Ele leva muito a sério o conceito que aprendeu com o Bad Brains, conforme revelou no livro Barulho – A História Oral do Heavy Metal (Louder Than Hell), de Jon Wiederhorn. Na obra, o músico destaca o impacto fundamental da lendária banda de hardcore, ilustrando bem sua própria mentalidade artística independente: “Provavelmente não haveria um System of a Down se não fosse pelo Bad Brains. Eles foram muito influentes, e não apenas musicalmente. Eles abriram o caminho para os artistas não darem a mínima e fazerem o que querem fazer”. A mesma lógica é aplicada no Seven Hours After Violet, que foi abraçada principalmente pela figura de Shavo, mas que saiu do Allianz Parques com muitos fãs novos também.
Rodox encerra jejum de 22 anos em Santos com Arena Club lotado e bênção do Charlie Brown Jr.

Foram mais de 22 anos de separação entre o Rodox e Santos, mas, com o retorno recente da banda liderada por Rodolfo Abrantes, o público caiçara enfim pôde assistir a uma apresentação do grupo. Na noite de sexta-feira (15), o Rodox se apresentou no Arena Club lotado. A noite teve direito a dois integrantes da formação clássica do Charlie Brown Jr. na plateia: Marcão e Pelado, que foram celebrados por Rodolfo no palco como “a maior banda de rock do Brasil”. O momento foi emblemático e fechou um ciclo: foi em Santos, afinal, no M2000 Summer Concerts de 1994, que um jovem Chorão ficou na grade do show de Rodolfo e o entregou a primeira fita da banda santista. Confesso que a primeira fase do Rodox não me atraía quando lançaram os dois primeiros álbuns, no início dos anos 2000. Muito provavelmente por infantilidade da minha parte, eu era adolescente, e por não entender o real motivo do fim do Raimundos da forma que conhecíamos. >> LEIA ENTREVISTA COM RODOLFO ABRANTES (RODOX) O documentário Andar na Pedra, dirigido e roteirizado por Daniel Ferro (disponível no Globoplay), ajudou muito a quebrar essa resistência com o Rodox, pois humanizou o “vilão” do fim dos Raimundos. Rodolfo realmente precisava romper com aquele momento, foi necessário ir para outro extremo e viver uma nova vida até encontrar o atual equilíbrio. Santos, inclusive, testemunhou suas dores mais profundas, como a tragédia de 1997 no lançamento de Lapadas do Povo, ferida que quase o fez abandonar a música e que só começou a cicatrizar após o abraço acolhedor dos familiares das vítimas na cidade. Ver o Rodox ali, décadas depois, é a prova de que o tempo cura. E quem ganha com isso são os fãs. Afinal, quem aqui não gostaria de ver um grande ídolo, que muitos perderam para a overdose, vivo até hoje, fazendo shows e sendo feliz? Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Blog n' Roll (@blognroll) No palco, o Rodox ao vivo entrega uma energia absurda, reflexo de um reencontro que começou despretensioso para 2026, mas que virou um renascimento criativo com promessa de disco de inéditas. Rodolfo segue com muita atitude, cantando bem e acompanhado por um timaço: Fernando Schaefer (baterista de uma cacetada de bandas), Patrick Laplan (baixista original do Los Hermanos) e Pedro Nogueira (guitarrista do Wacky Kids, uma das melhores bandas de hardcore melódico do Brasil). O guitarrista Victor Pradella, que foi sideman na fase musical de Rodolfo após o término do Rodox, também compõe o time na tour. O time que acompanha Rodolfo, inclusive, também é muito festejado pelo vocalista. Após pedir palmas para Chorão, Champignon, DJ Bob e Canisso, todos com muitos elogios, o frontman disse que é importante homenagear os amigos em vida também. O setlist, idêntico ao de todas as apresentações da atual turnê e sem espaço para novidades, passeia pelos dois álbuns da banda, deixando de fora apenas faixas muito datadas: foram nove canções do disco homônimo e sete de Estreito, além de dois covers (Exodus, de Bob Marley, cujo álbum Kaya é uma das grandes influências da vida de Rodolfo, e Alive, do P.O.D.). Para quem ainda tem resistência ao grupo, recomendo dar uma chance às ótimas faixas apresentadas nessa tour, como De Costas Para o Mar, Beach Punx, Foi Bom Esperar, De Uma Só Vez, Dia Quente e Olhos Abertos. Diferente de boa parte dos shows da banda, Rodolfo não pulou nos braços do público durante Alive. Mas a faixa contou com a participação especial de Wander Ruas, vocalista da banda Alva, responsável pela abertura do show, que já havia cantado também Olhos Abertos. O líder do Rodox preferiu terminar a apresentação no palco, deixando claro que o que era para ser apenas uma turnê curta de reencontro já virou um plano para o ano inteiro, para a alegria dos fãs que não o abandonaram mesmo após tantos anos. Setlist Segue a linha De costas para o mar Cego de Jericó Mais e mais Incinerador Beach Punx Horário nobre Foi bom esperar De uma só vez Iluminado Dia quente Inflexível 1000 megatons Olhos abertos BIS Quem tem coragem não finge Três reis Exodus (Bob Marley cover) Alive (P.O.D. cover)