Sob dilúvio, Korn encerra jejum de 9 anos em SP e prova tamanho de seu legado

Korn- Allianz Parque - São Paulo - 2026

Pais do nu metal e responsáveis por quebrar os moldes tradicionais do rock e do metal dos anos 1990, acelerando o fim do hair metal e preenchendo o vácuo deixado pelo declínio do grunge, a banda norte-americana Korn, enfim, teve sua estreia como headliner em um estádio brasileiro. Na noite de sábado (16), diante de 50 mil pessoas que esgotaram os ingressos do Allianz Parque, em São Paulo, Jonathan Davis e companhia entregaram tudo o que se esperava deles, encerrando um doloroso jejum de nove anos longe dos palcos do país. Esse status novo do Korn para o porte de estádio no Brasil reflete um fenômeno global: o forte revival do nu metal e o interesse renovado em grandes experiências ao vivo. Mas estar ali, comandando uma arena desse tamanho, faz justiça histórica a um grupo que revolucionou a música sem fazer concessões. Visualmente, eles chocaram os puristas ao trocar o couro e o visual do metal clássico pela estética das ruas, com dreadlocks, agasalhos da Adidas e tênis brancos. Sonoramente, rejeitaram clichês como longos solos de guitarra para fundir o peso do metal ao groove do hip-hop, o baixo funkeado e melodias sombrias do new wave. Com guitarras de sete cordas afinadas lá embaixo e a inusitada gaita de foles de Jonathan Davis, o Korn construiu uma ponte definitiva entre gêneros outrora distantes. O show começou exatamente às 21h33 com Blind, faixa de abertura do disco de estreia de 1994. A introdução com a queda das cortinas foi o suficiente para mudar o clima na pista. A partir dali, o que se viu foi um desfile econômico em pirotecnia, mas monstruoso em som, grave e cristalino. Faixas como a pesada Here to Stay (embalada por sinalizadores na pista) e a dançante Got the Life mantiveram o Allianz em ebulição, mesmo quando uma forte chuva desabou sobre o estádio. No comando de tudo estava Jonathan Davis, a personificação do “anti-herói danificado”. Enquanto o metal tradicional focava em fantasia ou hedonismo, Davis trouxe para o topo das paradas uma vulnerabilidade brutal sobre traumas, depressão e o severo bullying de sua juventude. Ouvir 50 mil vozes ecoando o interlúdio bizarro de Twist ou berrando os versos de Shoots and Ladders (com direito ao trecho final de One, do Metallica) evidencia o nível de conexão emocional fanática que a banda gerou com uma geração de jovens suburbanos alienados. Essa fórmula crua e barulhenta, vale lembrar, chegou a desbancar astros do pop como Britney Spears e NSYNC na MTV no fim dos anos 90 e deu origem à icônica Family Values Tour. Por volta da nona música, após engatar a sequência com Coming Undone, o Korn fez sua primeira pausa totalmente sem som, quebrando o clima de ruídos industriais que unia as faixas. Foi o momento em que Jonathan Davis, visivelmente incrédulo com o mar de gente sob o dilúvio, conversou com o público e pediu sinceras desculpas pela demora de quase uma década. Ele prometeu um retorno mais rápido e justificou que o grupo esteve imerso em estúdio nos últimos anos. Na sequência, introduziram a inédita Reward the Scars, faixa lançada para o game Diablo IV e que deve integrar o próximo álbum. Na segunda metade do set, canções mais recentes como Cold dividiram espaço com petardos cheios de groove como Twisted Transistor e a contestadora Y’All Want a Single. Musicalmente, o grupo soa impecável e idêntico às gravações de estúdio. Os guitarristas Brian “Head” Welch e James “Munky” Shaffer emulam as timbragens com perfeição. O baterista Ray Luzier exibe uma habilidade técnica assustadora, enquanto o baixista convidado Ra Díaz substitui Fieldy mantendo o peso necessário, ainda que com uma pegada ligeiramente menos percussiva. Davis, aos 55 anos, administra o fôlego em alguns refrões, mas compensa com uma entrega visceral. O bis foi um presente nostálgico milimetricamente calculado: a curta 4U abriu caminho para a apoteose com Falling Away from Me, a divertida A.D.I.D.A.S. e o hit máximo Freak on a Leash, que transformou a pista encharcada do Allianz Parque em um mosh pit generalizado sob chuva de serpentinas. Edit this setlist | More Korn setlists

Spiritbox equilibra setlist em SP, mas esbarra em público frio e ausência de telões gringos

Spiritbox - Allianz Parque - São Paulo - 2026

Ano passado, meses após a estreia deles no Brasil no fim de 2024, avisei que o grupo canadense Spiritbox estava com uma projeção gigantesca no hemisfério norte, amparado por um show incrivelmente bonito e telões de última geração, como pude constatar de perto no Hammerstein Ballroom, em Nova York. Infelizmente, a apresentação que veio para São Paulo no último sábado (16), como abertura para o Korn no Allianz Parque, não trouxe toda essa parafernália tecnológica. No entanto, com ou sem os supertelões, Courtney LaPlante e companhia conseguem entregar um show excelente, extremamente técnico e com uma presença de palco marcante. Em turnê mundial para divulgar seu segundo álbum de estúdio, Tsunami Sea, o Spiritbox mudou a lógica do setlist no Brasil. Se no ano passado metade do repertório era focado no disco mais recente, no sábado a divisão ficou mais equilibrada: foram quatro canções do álbum de estreia (Eternal Blue), quatro de Tsunami Sea, três do EP The Fear of Fear e uma do EP Rotoscope. A recepção do público, por outro lado, deixou um pouco a desejar. Mesmo que algumas pessoas tentassem imitar os guturais de Courtney na pista, no geral a plateia se mostrou fria com a banda. Nada que estragasse a noite, já que a vocalista demonstrou muita alegria no palco, dançou bastante e conversou brevemente com a galera. O ápice da reta final ficou por conta de um encontro de peso: Courtney chamou Taylor Barber, do Seven Hours After Violet, para dividir os vocais na avassaladora Holy Roller. Sigo com o meu hiperfoco em assistir a um show solo do Spiritbox no Brasil. Essa será a verdadeira validação da banda com um público estratégico do showbiz mundial e, acima de tudo, a experiência rica que os fãs merecem, de preferência, com toda a tecnologia visual a que têm direito. Edit this setlist | More Spiritbox setlists

Com direito a gravação de clipe, Shavo Odadjian comanda show do Seven Hours After Violet em SP

Seven Hours After Violet - Allianz Parque - São Paulo - 2026

A programação do show do Korn em São Paulo trouxe duas excelentes novidades que já haviam se destacado no Allianz Parque nos últimos anos: Seven Hours After Violet e Spiritbox, bandas que lançaram seus primeiros álbuns em 2024 e 2021, respectivamente. A primeira foi escalada no Knotfest 2024, enquanto a segunda abriu para o Bring Me The Horizon no mesmo ano. No sábado (16), o Seven Hours After Violet (Shav) se apresentou logo após o show incendiário do Black Pantera, hoje, uma das melhores bandas do cenário nacional. Liderado por Shavo Odadjian, baixista do System of a Down, o projeto traz no palco a companhia de Taylor Barber (vocal), Michael “Morgoth” Montoya (guitarra), Alejandro Aranda (guitarra) e Josh Johnson (bateria). Juntos, eles transitam entre o metalcore e o metal alternativo, com Taylor no comando dos guturais e Alejandro, vice-campeão do American Idol 17 (2019), entregando as vozes mais melódicas. Impressionado com a resposta do público, que atendeu a todos os pedidos de mosh pit, cantou junto e vibrou intensamente, Shavo arriscou o agradecimento em bom português: “Vocês são foda”. O repertório foi baseado inteiramente no álbum homônimo de estreia, de 2024, com nove das 11 faixas executadas. Mas ainda houve espaço para uma novidade no set: a inédita Graves, que deve integrar o próximo disco do grupo. Durante a execução, os fãs foram convidados a escanear um QR Code no telão para enviar vídeos dançando e curtindo a música ali na hora. O material fará parte do próximo videoclipe do Shav. É contagiante ver a empolgação do baixista no palco. Ele leva muito a sério o conceito que aprendeu com o Bad Brains, conforme revelou no livro Barulho – A História Oral do Heavy Metal (Louder Than Hell), de Jon Wiederhorn. Na obra, o músico destaca o impacto fundamental da lendária banda de hardcore, ilustrando bem sua própria mentalidade artística independente: “Provavelmente não haveria um System of a Down se não fosse pelo Bad Brains. Eles foram muito influentes, e não apenas musicalmente. Eles abriram o caminho para os artistas não darem a mínima e fazerem o que querem fazer”. A mesma lógica é aplicada no Seven Hours After Violet, que foi abraçada principalmente pela figura de Shavo, mas que saiu do Allianz Parques com muitos fãs novos também.

Rodox encerra jejum de 22 anos em Santos com Arena Club lotado e bênção do Charlie Brown Jr.

Rodox em Santos 2026

Foram mais de 22 anos de separação entre o Rodox e Santos, mas, com o retorno recente da banda liderada por Rodolfo Abrantes, o público caiçara enfim pôde assistir a uma apresentação do grupo. Na noite de sexta-feira (15), o Rodox se apresentou no Arena Club lotado. A noite teve direito a dois integrantes da formação clássica do Charlie Brown Jr. na plateia: Marcão e Pelado, que foram celebrados por Rodolfo no palco como “a maior banda de rock do Brasil”. O momento foi emblemático e fechou um ciclo: foi em Santos, afinal, no M2000 Summer Concerts de 1994, que um jovem Chorão ficou na grade do show de Rodolfo e o entregou a primeira fita da banda santista. Confesso que a primeira fase do Rodox não me atraía quando lançaram os dois primeiros álbuns, no início dos anos 2000. Muito provavelmente por infantilidade da minha parte, eu era adolescente, e por não entender o real motivo do fim do Raimundos da forma que conhecíamos. >> LEIA ENTREVISTA COM RODOLFO ABRANTES (RODOX) O documentário Andar na Pedra, dirigido e roteirizado por Daniel Ferro (disponível no Globoplay), ajudou muito a quebrar essa resistência com o Rodox, pois humanizou o “vilão” do fim dos Raimundos. Rodolfo realmente precisava romper com aquele momento, foi necessário ir para outro extremo e viver uma nova vida até encontrar o atual equilíbrio. Santos, inclusive, testemunhou suas dores mais profundas, como a tragédia de 1997 no lançamento de Lapadas do Povo, ferida que quase o fez abandonar a música e que só começou a cicatrizar após o abraço acolhedor dos familiares das vítimas na cidade. Ver o Rodox ali, décadas depois, é a prova de que o tempo cura. E quem ganha com isso são os fãs. Afinal, quem aqui não gostaria de ver um grande ídolo, que muitos perderam para a overdose, vivo até hoje, fazendo shows e sendo feliz? Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Blog n' Roll (@blognroll) No palco, o Rodox ao vivo entrega uma energia absurda, reflexo de um reencontro que começou despretensioso para 2026, mas que virou um renascimento criativo com promessa de disco de inéditas. Rodolfo segue com muita atitude, cantando bem e acompanhado por um timaço: Fernando Schaefer (baterista de uma cacetada de bandas), Patrick Laplan (baixista original do Los Hermanos) e Pedro Nogueira (guitarrista do Wacky Kids, uma das melhores bandas de hardcore melódico do Brasil). O guitarrista Victor Pradella, que foi sideman na fase musical de Rodolfo após o término do Rodox, também compõe o time na tour. O time que acompanha Rodolfo, inclusive, também é muito festejado pelo vocalista. Após pedir palmas para Chorão, Champignon, DJ Bob e Canisso, todos com muitos elogios, o frontman disse que é importante homenagear os amigos em vida também. O setlist, idêntico ao de todas as apresentações da atual turnê e sem espaço para novidades, passeia pelos dois álbuns da banda, deixando de fora apenas faixas muito datadas: foram nove canções do disco homônimo e sete de Estreito, além de dois covers (Exodus, de Bob Marley, cujo álbum Kaya é uma das grandes influências da vida de Rodolfo, e Alive, do P.O.D.). Para quem ainda tem resistência ao grupo, recomendo dar uma chance às ótimas faixas apresentadas nessa tour, como De Costas Para o Mar, Beach Punx, Foi Bom Esperar, De Uma Só Vez, Dia Quente e Olhos Abertos. Diferente de boa parte dos shows da banda, Rodolfo não pulou nos braços do público durante Alive. Mas a faixa contou com a participação especial de Wander Ruas, vocalista da banda Alva, responsável pela abertura do show, que já havia cantado também Olhos Abertos. O líder do Rodox preferiu terminar a apresentação no palco, deixando claro que o que era para ser apenas uma turnê curta de reencontro já virou um plano para o ano inteiro, para a alegria dos fãs que não o abandonaram mesmo após tantos anos. Setlist Segue a linha De costas para o mar Cego de Jericó Mais e mais Incinerador Beach Punx Horário nobre Foi bom esperar De uma só vez Iluminado Dia quente Inflexível 1000 megatons Olhos abertos BIS Quem tem coragem não finge Três reis Exodus (Bob Marley cover) Alive (P.O.D. cover)

Entrevista | Rodox – “Santos testemunhou minha transformação. Vamos levar algo que ainda não mostrei na cidade”

Santos sempre foi uma bússola na trajetória de Rodolfo Abrantes. Foi no palco do M2000 Summer Concerts, em 1994, que ele viu sua vida mudar ao dividir o line-up com gigantes mundiais e conhecer um jovem Chorão na grade do show. Foi também na cidade que ele enfrentou seu momento mais sombrio, após a tragédia durante o lançamento da turnê Lapadas do Povo, em 1997. Agora, mais de duas décadas depois, o ciclo se fecha, e se renova. O Rodox, banda que marcou o início dos anos 2000 com uma mistura explosiva de hardcore, nu metal e letras viscerais, está de volta. O que começou como uma ideia de turnê pontual de reencontro para o segundo semestre de 2026, transformou-se em um renascimento criativo. Com a química restabelecida e a promessa de um novo álbum de inéditas, Rodolfo e seus companheiros desembarcam nesta sexta-feira (15) no Arena Club. Ainda há ingressos à venda. Nesta entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, o vocalista abre o jogo sobre as cicatrizes do passado, a energia da fase atual e o que esperar de um show que promete lavar a alma dos fãs santistas com a potência característica de uma das bandas mais emblemáticas do rock nacional. * O retorno do Rodox é pontual para esses shows ou você já pensa em gravar um álbum de inéditas? Quando tivemos a ideia de voltar com a turnê, pelo tempo todo que ficamos longe, sem nos vermos, a gente teve que se conhecer de novo, né? Por mais que existisse o carinho, tivemos que nos redescobrir. Então, a princípio, antes de tudo começar, a ideia era fazer alguns shows só de reencontro mesmo no segundo semestre. A questão é que a gente se reencontrou, cara, e todo mundo se amou. Meu, a gente está hoje muito melhor do que já foi algum dia, entre a gente, né? Então a coisa tomou outra proporção: o que era para ser só o primeiro semestre já virou o ano inteiro. E a gente só pensa em gravar músicas novas, estamos doidos para curtir esse momento. Talvez seja um reencontro do público com as músicas antigas, mas percebemos que estamos muito mais afiados. O entendimento do que a banda é e de onde queremos chegar está muito mais claro na cabeça de todo mundo. Então, sim, vai ter álbum novo. A gente quer fazer um retrato, um registro do que está vivendo hoje. Tem sons guardados da primeira fase da banda ou pretendem começar do zero? Já tem faixa nova pronta? Seria algo com composições completamente inéditas. Existem aquelas músicas que rolam na internet, como Taco Bell e Psychobilly, mas aquilo foi sobra de estúdio. Foram faixas que gravamos e achamos que não tinham muito a ver com o álbum na época, então as deixamos de fora e elas acabaram indo para a internet. Temos um carinho por elas, principalmente pelo carinho que as pessoas têm com essas músicas, mas queremos fazer algo que seja um registro deste momento da nossa vida. Como você define o som do Rodox nessa nova fase? O que você tem escutado de som e tem influenciado você no dia a dia? Uma das coisas mais legais sobre o som do Rodox é que ele é muito eclético. Não temos nem como rotular ou dizer que é uma banda de nu metal ou de hardcore, porque tem nu metal, tem hardcore, tem punk rock, tem hardcore melódico, hardcore berrado… tem ska, tem música alternativa, tem balada… Enfim, acho que quando conquistamos isso, passamos a ter uma liberdade absurda para fazer o que quisermos. Mas de uma coisa você pode ter certeza: é a energia que estamos vivendo ao vivo. Essa é uma banda de verdade, não é uma banda de estúdio que vai levar uma coisa pronta para o palco. Não, estamos fazendo aquele caminho natural de experimentar ao vivo para registrar isso depois em estúdio. Você tem uma relação muito marcante com Santos em vários sentidos. Qual é o sentimento de retornar a Santos, que foi palco de muitas alegrias e uma tristeza marcante na sua carreira? A cidade de Santos é uma daquelas no Brasil que me viram em todas as minhas fases, né, cara? Desde o começo da minha carreira, sempre estive passando por aqui. A cidade foi testemunhando a minha transformação ao longo do tempo. Então, vai ser incrível poder retornar com o Rodox agora, sendo que, ok, é uma banda que existiu há mais de 20 anos, mas é uma banda completamente nova. O que a gente vai levar para o público santista é algo que realmente ainda não mostrei em Santos. Em Santos, o Raimundos fez um dos seus primeiros shows, no M2000 Summer Concerts, em 1994. O que você recorda desse show? Tem alguma história curiosa desse show com o Rollins Band, Mr Big e Lemonheads? Eu me lembro que foi o primeiro show gigante que a gente tocou, né? Tinha um ônibus para levar a gente de São Paulo para Santos e depois trazer de volta. Ficamos em um hotel, meu… top! Tudo isso era um absurdo de novo para nós naquela época. Ver o Henry Rollins tocando, eu era muito fã dele e do som dele, e ver aquilo acontecendo ao vivo foi muito didático. Aprendi muita coisa. Lembro que caiu uma chuva terrível naquela noite, que alagou a cidade toda. E tem uma coisa muito interessante: quando eu saí do palco, foi a primeira vez que encontrei o Chorão. Ele estava ali na grade com o pessoal, ouviu o som da minha banda e me deu um CD do Charlie Brown, quando o Charlie Brown ainda era bem metal. Foi muito legal. Essas coisas não saem da memória, não. A tragédia em 1997, no lançamento da turnê do Lapadas do Povo, certamente foi um dos momentos mais tristes da sua carreira. Como foi superar a tristeza daquele momento e seguir em frente? Realmente acho que foi o pior momento da minha vida. Aquele acidente

Entrevista | American Football – “É sobre convidar as pessoas certas e confiar nelas”

​Os gigantes do math rock e do midwest emo estão de volta. O American Football lançou o aguardado LP4, um trabalho que mergulha nas complexidades da maturidade e nas “duras realidades da vida” sob uma perspectiva de meia-idade. Com uma sonoridade mais encorpada e camadas rítmicas profundas, o novo álbum reafirma a posição do grupo como arquitetos de uma melancolia sofisticada, equilibrando a precisão técnica que os consagrou com uma entrega emocional ainda mais direta e visceral. ​Em entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, o baterista e trompetista Steve Lamos abriu o jogo sobre o processo de criação no estúdio e a busca por uma sonoridade autêntica. Lamos revelou como a parceria com o produtor Sonny DiPerri foi fundamental para reconstruir sua confiança atrás do kit, resultando em performances que ele considera as mais honestas de sua carreira até hoje. Entre compassos quebrados e melodias de trompete, o músico descreve o novo disco como um retrato fiel de quem a banda é no momento. ​Um dos pontos altos da conversa foi o clima de celebração em torno das colaborações de peso no álbum, que conta com nomes como Brendan Yates (Turnstile) e Beth Orton. Steve detalhou como a banda deu liberdade total para que esses artistas deixassem suas marcas, transformando as faixas em diálogos orgânicos entre diferentes gerações do rock alternativo. O resultado é um disco que, embora denso, encontra momentos de alívio em faixas mais solares, como o single Wake Her Up. ​A conexão com o público brasileiro também ganhou destaque no papo. Mesmo a milhares de quilômetros de distância, Lamos descreveu a recepção dos fãs na América do Sul como “mágica” e confessou que a banda está ansiosa para retornar. Ele relembrou a última passagem por São Paulo e expressou o desejo genuíno de explorar outras cidades brasileiras na próxima turnê. * O material de divulgação do LP4 menciona que o American Football enfrentou realidades duras da vida sob uma perspectiva de meia-idade. Como o seu processo criativo na bateria e no trompete refletiu esse clima mais denso e introspectivo deste novo disco? Uau, essa é uma ótima pergunta, eu agradeço. Uma perguntinha fácil para começar, né? Nossa, sabe, acho que estamos todos mais velhos, fazemos isso há muito tempo e acho que a única razão para continuar é fazer música nova que pareça, sabe, autêntica de alguma forma. ​Não sei se entramos nessas músicas pensando deliberadamente: “Ah, vamos fazer um hino adulto” ou algo assim, mas acho que todos querem fazer música que soe sincera ou autêntica. Algumas dessas músicas vieram de partes de bateria que eu talvez estivesse… eu amo ir para a garagem e fazer barulho, e às vezes penso “ah, gostei desse barulho”, gravo e tento desenvolver algo. Então algumas faixas foram geradas assim. ​O trompete é meu amigo e meu inimigo; sempre que crio uma melodia nele, eu o trato como — em inglês dizemos frenemy [amigo-inimigo], certo? — trato o trompete como meu frenemy. Uma dessas melodias o Mike [Kinsella] escreveu para mim, mas no “meu estilo”, e foi impressionante. Eu pensei: “Meu Deus, é exatamente o que eu teria tocado”. No final da música chamada Wake Her Up, ele escreveu aquela melodia e eu fiquei tipo… foi estranho ter algo escrito por outra pessoa que fosse tão certeiro. Mas a primeira música, a do meio chamada Patron Saint of Pale e a última são especiais para mim, porque todas vieram de levadas de bateria que eu tinha guardadas há muito tempo. No fim, acho que só queremos criar coisas interessantes; se as acharmos interessantes, esperamos que pareçam sinceras para as outras pessoas. Trabalhar com o produtor DiPerri trouxe um som mais encorpado, mais “carnudo” para o álbum. De quais formas a colaboração dele influenciou a maneira como você estruturou as camadas rítmicas desta vez? ​Puxa, outra ótima pergunta. Eu não conhecia o Sonny. O Mike e o Nate conheceram o Sonny quando eu saí do American Football por um tempo para lidar com outras coisas. Eles o conheceram para trabalhar no disco do Lies [projeto paralelo]. Então o Mike e o Nate fizeram um disco juntos, em dupla. E quando voltamos, eles disseram: “Ei, ele é ótimo, né? É muito fácil trabalhar com ele”. E eu não o conhecia. No fim das contas, ele trabalhou em discos que eu conhecia, só não sabia que era ele. ​É difícil expressar o quanto gostei de trabalhar com ele. Ele também é baterista e está muito interessado, durante a gravação, em takes que soem autênticos. Mesmo que não sejam perfeitos, há alguns erros neste disco. Eu os ouço e penso: “Ah, cara…”. Mas foram erros que, espero, façam parte de algo maior; eu não quis descartar a performance. Tudo pareceu muito… esse foi o disco que mais pareceu com o primeiríssimo álbum, talvez até melhor que o primeiro no sentido de que me senti muito confiante. Me senti bem com o que estava fazendo, me senti pronto para gravar. E acho que isso transparece. ​Eu amo este disco, talvez seja o meu favorito. E espero que as pessoas gostem. Elas têm todo o direito de não gostar, eu entendo. Mas já disse isso antes: se alguém pedisse “ei, me toque uma coisa que represente quem você acha que é como baterista”, eu daria este disco com certeza. Porque acho que este soa mais autêntico em relação a quem eu sou no momento. Talvez pela maturidade que você construiu na sua carreira. ​Espero que sim. E disse ao Sonny também: senti que, depois que saí, tinha perdido um pouco da confiança. Não me sentia eu mesmo atrás da bateria. E acho que ele foi muito encorajador. Foi muito significativo para mim ele dizer: “Ei, apenas confie em si mesmo, não fique preso dentro da sua própria cabeça”. Às vezes eu ficava frustrado e ele dizia: “Ei, vá fazer uma pausa”. ​Estávamos perto do oceano. Eu estava contando para a última pessoa com quem falei: estávamos em um estúdio com vista para uma baía linda.

Entrevista | Dave Fenley – “Acho que temos algumas das canções mais incríveis guardadas”

Dave Fenley não é apenas uma voz que ecoou nos palcos do The Voice e do America’s Got Talent, ele é um contador de histórias que encontrou o equilíbrio exato entre a crueza do Texas e a suavidade do soul. Após anos lançando coleções menores de canções, o artista agora apresenta seu álbum mais robusto e pessoal, Rest of My Life, um projeto que serve como uma fotografia nítida de sua maturidade artística e pessoal. Neste novo disco, Dave Fenley mergulha em uma sonoridade que ele define como um “soulful country”, quase beirando o gospel. O álbum não apenas compila singles de sucesso, como a impactante releitura de Stuck On You, mas também apresenta cinco faixas inéditas que revelam um lado mais profundo do cantor. Segundo ele, o processo de curadoria das faixas foi guiado por uma nova percepção de mundo, agora moldada pela família e pela espiritualidade. A paternidade, inclusive, é o fio condutor que trouxe calor e novas camadas à sua voz. Dave Fenley reflete com honestidade sobre como a chegada da filha transformou sua compreensão sobre o amor incondicional, influenciando diretamente a forma como ele compõe e se apresenta. Para o músico, cada verso gravado hoje é um legado que sua filha poderá acessar no futuro, o que elevou sua responsabilidade com a integridade de sua obra. Em entrevista ao Blog n’ Roll, Dave Fenley também detalhou o impacto de sua passagem pelos grandes reality shows americanos e como o aprendizado nessas vitrines moldou sua gestão de carreira independente. Com um olhar generoso sobre a cultura brasileira, ele revela planos de trazer sua turnê ao país em 2027, prometendo uma experiência que vai além dos covers virais que o tornaram um fenômeno nas redes sociais. * Dave, seu novo álbum se chama Rest of My Life. Esse título traz um senso de longevidade e compromisso. O que este disco representa para sua vida e carreira neste momento? É algo realmente impactante, porque ao longo dos anos fiz muitos EPs pequenos, coleções de seis músicas, porque costumava escrever sobre algo que estava acontecendo na minha vida e lançava aquilo. Mas, desde o meu último álbum, me casei, tive um bebê e muita coisa aconteceu. Participei de diferentes programas de TV e minha carreira tomou rumos diferentes. Então, realmente quis lançar algo que parecesse: ok, aqui está um momento no tempo onde tudo me trouxe para quem e onde estou agora. E, a partir deste ponto, quem sabe como será a vida. Mas o “resto da minha vida” é tão empolgante por causa da música, da família e do meu Senhor. Simplesmente tudo parece estar dando tão certo agora que estou realmente ansioso pelo que o próximo capítulo reserva. Queria ter algo agora que transmitisse esse momento específico. O álbum tem 11 faixas, mas seis delas já haviam sido lançadas como singles. Como foi o processo de criação das outras cinco faixas inéditas? Elas seguem a mesma sonoridade ou trazem surpresas? Sabe, este álbum inteiro acabou se transformando em um disco de country com alma (soulful country), quase gospel. Eu sempre fiz o que chamaria de álbuns “mais country”. Mas, assim que começamos a olhar para as canções e escolher o que colocar no disco, ele pareceu um pouco mais voltado para o soul. Por isso, algumas músicas tiveram que ser completamente mudadas em relação à forma como as escrevi. Estamos muito empolgados com o que ainda não lançamos, porque meio que instigamos o público com as primeiras cinco ou seis músicas para ver se as pessoas ficariam animadas com o que viria. Mas acho que temos algumas das canções mais incríveis guardadas. Nunca estive tão animado com nada na minha vida. Sim, isso é incrível. Stuck On You tem sido um marco na sua jornada desde o The Voice. Por que você decidiu lançar uma versão com banda completa agora, sete anos depois? E como sua interpretação dessa letra mudou com a maturidade que você tem hoje? Sabe, não tinha ideia de que, quando cantei essa música no The Voice, ela teria tanto impacto. Como qualquer outra coisa na indústria musical ou qualquer obra artística que você cria, você a coloca no mundo e espera que alguém preste atenção. E, pela graça de Deus, fomos tão afortunados de ter tido essa resposta. Mas o motivo de termos feito uma versão com banda completa foi, em parte, porque as pessoas a estavam usando em casamentos. E eu pensei: “Quero dar a eles uma versão mais polida do que apenas um violão acústico”. Então, lançamos uma versão completa com a banda para dar aos belos casamentos a bela canção que eles merecem. Acho que liderar com o coração primeiro, sabendo que tínhamos um motivo, uma motivação de amor, foi o que guiou o álbum todo. Oh, isso é tão lindo. Imagino que muitas pessoas cheguem até você para dizer que se casaram ao som da sua versão de Stuck On You. Absolutamente! É uma loucura! Já viajei o mundo todo cantando essa música em casamentos também, porque as pessoas simplesmente a amam. Isso é um testamento ao Lionel Richie, que escreveu a canção. Uma música atemporal assim é perfeita. Acho que não importa quem a cante, será um sucesso. Só fico muito orgulhoso de poder ser uma das vozes para ela. Você é frequentemente rotulado como um artista “country soul”. Como você equilibra a crueza do country com a suavidade e o groove do soul ao compor músicas autorais? Eu não foco muito no que “fui”, foco em quem sou. E quando estou compondo, nem penso no estilo de música que estou escrevendo. Porque, hoje em dia, qualquer música pode ser de qualquer gênero. Se a música é boa, ela é boa. Stuck On You é um ótimo exemplo. Originalmente, era um R&B puro, uma música linda do Lionel Richie. Quando chegou nas minhas mãos, eu a tornei mais country. Acho que as fronteiras entre os gêneros estão muito borradas agora. Então, apenas tento escrever uma boa música e

Air Supply transforma Vibra SP em baile de gala e prova que o amor não envelhece

Graham Russell (75) e Russell Hitchcock (76) estão na estrada há quase 51 anos, celebrando o amor com algumas das mais famosas love songs da história. Na noite de domingo (10), eles retornaram a São Paulo para uma apresentação repleta de sucessos no Vibra SP, com a turnê alusiva aos 50 anos de carreira do Air Supply. Aliás, foi o último show da celebração de meio século, já que o aniversário de 51 anos da banda acontece nesta terça-feira (12). Em uma configuração diferente da apresentada nos últimos dias, como nos shows de Men at Work e Dream Theater, o Vibra transformou-se em um baile de gala, com mesas espalhadas no lugar da pista. Uma escolha acertada, considerando que a média de idade do público era próxima à da dupla. Os dois amigos têm papéis bem definidos no palco. Graham é o mais comunicativo: conta histórias, lê poemas e arrisca palavras em português. Já Hitchcock é a grande estrela. Os primeiros versos de Sweet Dreams, canção que abriu a noite, foram suficientes para impressionar. É notável como ele mantém o vigor vocal após cinco décadas de dedicação aos palcos, potencializado pela excelente acústica da casa. No palco, a dupla é acompanhada por duas violinistas, baterista, baixista e tecladista, músicos técnicos que ganharam momentos de solo para mostrar seu virtuosismo. Even the Nights Are Better, segunda faixa do set, confirmou que a noite seria guiada pela nostalgia. Enquanto a dupla distribuía sorrisos, o telão resgatava videoclipes antigos, uma sacada visual que já havia funcionado bem no recente show de Bryan Adams. Just as I Am (cover de Rob Hegel) manteve o nível elevado, com o público cantando em coro e algumas lágrimas já surgindo nas mesas, cena que se repetiria ao longo de 1h40 de apresentação. Em I Can Wait Forever, Hitchcock testou os limites de seu alcance vocal com sucesso absoluto. Na sequência, Graham Russell assumiu a linha de frente enquanto Hitchcock poupava a voz e tomava um chá, conforme revelado pelo companheiro. Graham leu um poema e exaltou a amizade com o parceiro, reforçando o que já havia dito em entrevista ao Blog n’ Roll: “Nunca tivemos uma briga em 50 anos. Acho que o motivo é que não competimos. O Russell não quer escrever músicas, ele só quer cantar. E eu amo escrever. Não há ego envolvido”. Com o retorno de Hitchcock, o Air Supply trouxe seu primeiro hit mundial, Lost in Love. A música, de estrutura simples (apenas um verso e uma seção B, sem refrão), nasceu de um conselho de Willie Nelson: “Se você pode dizer algo no menor número de linhas possível, faça isso”. A simplicidade, de fato, funcionou. Após apresentações solo das violinistas e do baterista, veio o ápice com Making Love Out of Nothing at All, encerrando a primeira parte. O bis do Air Supply, com Without You (Badfinger) e All Out of Love, garantiu a apoteose: as mesas foram deixadas de lado e os fãs terminaram a noite em pé, colados ao palco. Edit this setlist | More Air Supply setlists

Djavan celebra 50 anos com show grandioso no Allianz Parque

Em 1976, o Brasil era apresentado a A Voz, o Violão, a Música de Djavan. Cinquenta anos depois, o cantor alagoano ocupa o Allianz Parque, em São Paulo, não apenas como um ícone, mas como uma entidade da nossa música. A turnê comemorativa, que se iniciou oficialmente na última sexta (8), trouxe para este sábado (9) uma atmosfera de consagração. ​“Considero ter uma carreira vitoriosa”, cravou Djavan logo no começo da apresentação, lembrando do início da trajetória em São Paulo, quando ficou em 2º lugar no Festival Abertura de 1975, realizado no Teatro Municipal, com a música Fato Consumado. ​A sinergia entre o artista e o público rendeu destaques emocionantes, como os coros em Meu Bem Querer e Oceano, que vieram em sequência no momento de voz e violão. Sob a direção artística de Gringo Cardia, o palco reflete a sofisticação das harmonias djavanianas. O trabalho de iluminação de Césio Lima e Mari Pitta cria o cenário perfeito para a banda de elite que o acompanha: Felipe Alves (bateria), Marcelo Mariano (baixo), Torcuato Mariano (guitarra/violão), Paulo Calasans e Renato Fonseca (teclados), além do trio de sopros Jessé Sadoc, Marcelo Martins e Rafael Rocha. ​Assisti a alguns shows de Djavan nos últimos 30 anos, muitos deles em Santos, do ginásio e teatro do Sesc à Praia do Boqueirão. Mas a grandiosidade que o espetáculo ganhou com a turnê Djavanear é impressionante. O telão é de padrão internacional, daqueles que os fãs costumam reclamar que artistas estrangeiros nem sempre trazem em suas turnês por aqui. ​A qualidade sonora é impecável. Aos 77 anos, Djavan não dá sinais de cansaço. Mantém a voz presente, com ótimo suporte das backing vocals (que garantem a sustentação necessária enquanto ele dança e interage com os fãs). Com um setlist focado exclusivamente em sucessos, não há espaço para momentos mornos. A estrutura do show traz uma curiosidade marcante: Sina é a escolhida tanto para abrir quanto para encerrar a noite, criando um ciclo perfeito de celebração. ​Sina, inclusive, carrega o famoso neologismo criado por Djavan: “Caetanear”. O termo, feito para homenagear Caetano Veloso, significa compor ou cantar com a maestria, poesia e leveza características do baiano. Quando a música volta ao palco no bis, serve como uma deixa para o público trocar “Caetanear” por “Djavanear” na letra. O mestre alagoano merece a exaltação que ele mesmo criou para o amigo. ​Djavan também emociona em canções mais recentes, como Um Brinde. Na época do lançamento dessa faixa, o artista liberou um trecho de um minuto cantado apenas com silabados, convidando os fãs a criarem versões sobre a melodia. Já em O Vento, ele relembrou a saudosa Gal Costa, que gravou a faixa (composta em parceria com Ronaldo Bastos) em 1987. Recentemente, a canção ganhou uma nova roupagem no álbum Improviso. ​Momentos de destaque: Meu Bem Querer, Oceano, Eu Te Devoro, Linha do Equador, Nem Um Dia, Samurai, Lilás, Flor de Lis e Açaí. ​A turnê, realizada pela Live Nation e Luanda Promoções, cumpre a promessa de entregar exatamente o que o fã deseja: uma antologia viva com estrutura digna de sua história. Assistir ao show Djavanear é obrigatório para quem deseja ver a história da música brasileira sendo celebrada em tempo real. A turnê agora segue para Salvador, passa por Fortaleza, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Florianópolis, Belém, Recife, Maceió, antes de retornar para o show derradeiro no Pacaembu, em São Paulo, no dia 12 de dezembro.