Entrevista | Fcukers – “Amo Tropicália, Os Mutantes e Gal Costa. Adoraria ver mais”

O mês de julho de 2026 marca um divisor de águas definitivo na trajetória meteórica do Fcukers. O grupo nova-iorquino, que há apenas três anos dava seus primeiros passos se apresentando para pouco mais de 200 pessoas no intimista Baby’s All Right, no Brooklyn, desembarca no Brasil para o maior desafio de sua carreira. Eles foram os escolhidos para abrir as quatro aguardadas apresentações de Harry Styles em São Paulo, válidas pela badalada turnê Together Together. A responsabilidade não é pequena: a banda comandada por Shanny Wise e Jackson Walker Lewis vai encarar um Estádio do MorumBIS cheio por quatro noites (ainda restam poucos ingressos). Conhecido internacionalmente por ser um dos públicos mais passionais, barulhentos e dedicados do planeta, os fãs brasileiros do astro britânico costumam dar um show à parte, o que inclui a tradição de decorar e cantar em coro até mesmo as faixas das atrações de abertura. O passaporte do Fcukers para os grandes estádios carimba também o excelente momento criativo do grupo, que celebra o lançamento de seu novo álbum de estúdio, intitulado simplesmente O. O registro é fruto de um processo criativo intenso e urgente: foi inteiramente gravado em uma imersão de apenas duas semanas logo após o grupo conhecer o produtor Kenneth Blume. O trabalho conseguiu capturar a energia crua e caótica das pistas underground de Nova York, que virou a grande marca registrada do trio. Para alcançar o equilíbrio perfeito entre o som feito para as pistas e uma identidade pop contemporânea, a banda recrutou um time de produção de primeira linha. Além de Kenny Beats, o álbum traz a mixagem refinada de Tom Norris e contribuições experimentais de Dylan Brady. O resultado é um som minimalista e magnético que já conquistou elogios de ícones como Kevin Parker (Tame Impala), Billie Eilish e Beck, este último tendo inclusive subido ao palco para uma performance conjunta com a banda em Los Angeles. Em uma conversa descontraída direto de Nova York, em meio a uma forte onda de calor na costa leste americana, a vocalista Shanny Wise revelou os bastidores do convite para a turnê, a admiração por ícones da música brasileira como a Tropicália, Os Mutantes e Gal Costa, e antecipou o que o público paulista pode esperar dessa grande celebração. Confira a entrevista completa a seguir. Shanny, vocês estão prestes a abrir quatro shows em um dos estádios mais icônicos do país, o MorumBIS, na turnê Together Together do Harry Styles. Como surgiu esse convite? E quais são as suas expectativas para encarar a plateia brasileira, que é famosamente apaixonada e barulhenta? Sim! No começo, a gente nem sabia para quem era. Só tínhamos recebido uma proposta em potencial para um show. Aí depois a gente descobriu e ficou tipo: “Caramba, o quê?!”. Mas sim, ouvi dizer que os fãs brasileiros são incríveis. Mal posso esperar para tocar e conhecer todo mundo. Bom, vocês começaram tocando para 200 pessoas no Baby’s All Right lá em 2023. Agora vocês vão tocar para dezenas de milhares de pessoas por noite em São Paulo. Como tem sido processar mentalmente esse crescimento tão gigante em apenas três anos? É loucura! Quero dizer, acho que sou muito grata por estar aqui, porque quando começamos, a gente nem sabia se um dia lançaria uma música, sabe? Era só por diversão, no nosso quarto. Então, o fato de isso ter se conectado com as pessoas é realmente lindo, um baita presente. E acho que, quando algo está crescendo e você está vivendo aquilo no dia a dia, fica difícil enxergar. Mas aí você tem esses momentos em que para e pensa: “Uau, a gente foi longe”. É isso, é uma verdadeira jornada. O material de divulgação menciona que o álbum foi gravado em uma sessão intensiva de duas semanas em estúdio, logo após o primeiro encontro de vocês com o produtor Kenneth Blume. Como foi aquela faísca inicial e por que vocês decidiram canalizar esse senso de urgência no disco? Bom, a gente estava trabalhando em outras músicas em Nova York e estávamos um pouco travados. A gravadora estava cobrando prazos, a gente estava meio estressado e até tínhamos algumas músicas, mas sentíamos que não estavam prontas. Então conversamos com eles e dissemos: “Ei, precisamos cancelar esses prazos. Não temos nada pronto e não sabemos quando teremos”. E aí conhecemos o Kenny logo depois disso. Então, meio que tínhamos tirado toda a pressão das costas. Além disso, depois de passar um tempo travados criativamente, era um lugar novo, uma vibe nova. E ele é incrível, super talentoso e bom no que faz. Trabalhar com ele acho que realmente nos libertou para compor muito rápido, porque tínhamos outra pessoa ali que estava conseguindo timbres incríveis, ajudando a tomar decisões, ajudando a estruturar as músicas… E não sei, foi um momento muito libertador e criativo. E a gente estava prestes a entrar em turnê em duas semanas, então pensamos: “Dá para fazer um álbum rapidinho”. E ele disse: “Consigo limpar minha agenda”. Então a gente só falou: “Beleza, vamos nessa”. E deu tudo certo. E o álbum conta com um time de peso: produção do Kenny Beats, mixagem do Tom Norris e toques adicionais do Dylan Brady. Como foi equilibrar a identidade crua e feita para as pistas do Fcukers com o background pop e experimental desses produtores de primeira linha? Acho que, conceitualmente, a gente meio que sempre soube o que queria fazer em termos de tipo: “Ah, queremos ter uma seção de house” ou “queremos drum and bass com uma seção de trap em half-time”. Então, acho que tínhamos intenções bem claras ao entrar em cada música, mantendo aquele aspecto de colagem, do jeito que era o nosso EP, mas mudando um pouco a sonoridade, deixando menos carregado de camadas e mais minimalista. E o Dylan e o Kenny são incríveis, são produtores maravilhosos. Então foi fácil. Faixas como I Like It Like That e Play Me nasceram sob aclamação da crítica e foram moldadas pelo caos dos shows
Entrevista | Radwimps – “Queríamos recuperar a inocência que tínhamos quando começamos”

Com duas décadas de uma carreira marcada pela versatilidade e por trilhas sonoras que se tornaram fenômenos globais, o grupo japonês Radwimps vive um de seus momentos mais emblemáticos. Para celebrar essa trajetória, a banda acaba de lançar na Netflix o filme RADWIMPS 20th ANNIVERSARY LIVE TOUR, registrando a energia arrebatadora de uma turnê que esgotou arenas e sintetizou vinte anos de história em uma única noite. Mais do que uma retrospectiva, o projeto capta o quarteto em um momento de reinvenção. O repertório do show equilibra com maestria os novos caminhos explorados no álbum recente, Anew, e os clássicos atemporais que moldaram o J-Rock moderno. Para os fãs internacionais, especialmente os brasileiros que acompanham a banda de longe, o lançamento na plataforma de streaming funciona como um passaporte exclusivo para a experiência de seus shows ao vivo. A turnê também foi palco de reencontros históricos e carregados de emoção. Um dos grandes destaques do registro é a participação surpresa do baterista Satoshi Yamaguchi durante o bis, tocando o icônico single de estreia do grupo. O momento simbolizou não apenas o respeito ao passado, mas a forte conexão que mantém os integrantes unidos desde a adolescência, quando passavam dias trancados em estúdio moldando a identidade da banda. Globalmente aclamados pelas trilhas sonoras dos premiados longas-metragens de Makoto Shinkai, como Your Name, Weathering With You e Suzume, os músicos trazem na bagagem uma rica bagagem cinematográfica. Essa experiência com grandes orquestrações e narrativas visuais acabou transformando também a forma como compõem para seus discos de estúdio, refinando ainda mais a versatilidade que é marca registrada do grupo. Em uma entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, o vocalista Yojiro Noda e o baixista Yusuke Takeda abriram o jogo sobre os desafios de resumir 20 anos em um setlist, a busca por recuperar a inocência do início da carreira e o desejo genuíno de cruzar o oceano para se conectar com o público brasileiro. Confira o papo na íntegra a seguir. Como é saber que os fãs do mundo todo agora poderão vivenciar o filme da turnê RADWIMPS 20th ANNIVERSARY LIVE TOUR na Netflix, especialmente aqueles que talvez nunca tenham visto vocês ao vivo no Japão? Yojiro: Nossa música chega às pessoas de maneiras que nunca imaginamos. As pessoas nos encontram por todos os tipos de portas de entrada e até vão aos shows. Somos muito gratos. O fato de as pessoas nos ouvirem é o que nos impulsiona a seguir em frente, isso é algo que nunca esqueceremos. O show conta com 21 músicas, misturando faixas do novo álbum Anew com clássicos como Sparkle. Como vocês fizeram a curadoria dessa setlist para condensar duas décadas de história em uma única noite? Yojiro: Isso foi difícil porque o nosso álbum mais recente, Anew, era um trabalho que merecia uma turnê própria, mas esta era a nossa turnê de 20º aniversário. Então, montar essa setlist foi quase impossível. Para a turnê de 20 anos, não tivemos escolha a não ser tocar as músicas mais antigas. Eu cheguei a pensar seriamente em consultar uma inteligência artificial. O baterista Satoshi Yamaguchi fez uma aparição surpresa durante o bis para tocar o single de estreia de vocês, 25kome No Senshokutai. Como foi para vocês compartilhar o palco com ele novamente em um momento tão simbólico? Yojiro: Nós realmente passamos nossa adolescência e todos os nossos 20 anos juntos, trancados no estúdio por dias a fio, constantemente dizendo ao Satoshi: “Mais! Não, não é isso, tem que ter algo mais”. Era quase uma loucura. Mesmo agora, quando as escuto, as viradas e frases do Satoshi são simplesmente de cair o queixo. Ele é um baterista único, e eu fiquei verdadeiramente feliz em tocar com ele de novo. Olhando para trás, desde a estreia em uma grande gravadora em 2005 até esgotar 17 arenas nesta turnê, qual foi a maior lição ou mudança na dinâmica do Radwimps como banda? Yusuke: A mudança na formação com certeza foi marcante. Yojiro: O Radwimps sempre absorveu muitos gêneros e formatos como nutrientes. Eu também lancei um álbum solo em 2024, o que me fez pensar ainda mais sobre quais coisas interessantes podemos fazer agora como banda. Isso coincidiu com o momento do aniversário de 20 anos, e eu quis reexperimentar aquele sentimento de invencibilidade de quando começamos, com todo mundo tocando “junto e ao mesmo tempo”. O filme da turnê apresenta faixas do álbum mais recente de vocês, Anew. O que o título deste álbum representa para a banda neste momento? Vocês estão entrando em uma “nova era” após atingirem o marco de 20 anos? Yojiro: Assim como o título e a capa (um ovo) representam, nós queríamos recuperar a inocência que tínhamos quando começamos a banda. Se de alguma forma eu acabei solidificando ou engessando a imagem do Radwimps, queria genuinamente começar do zero de novo, como um ovo recém-chocado. O álbum é movido por essa intenção. Suas trilhas sonoras para os filmes de Makoto Shinkai (Your Name, Weathering With You, Suzume) são aclamadas mundialmente. Como a experiência de compor para o cinema influenciou a maneira como você escreve músicas para os álbuns de estúdio regulares? Yojiro: Não há dúvidas de que o Makoto Shinkai me ajudou a abrir horizontes na minha visão artística dentro da música pop. Durante a produção de Your Name., quando estava na verdade lutando contra um conflito interno, ele conseguiu quebrar todas as barreiras que eu tinha imposto a mim mesmo. Acho que foi uma experiência fantástica, mas também percebi, enquanto fazia este álbum, que a música para mim sempre foi sobre anarquia e um sentimento antiestablishment, em outras palavras, contracultura, e essa sensação de alguma forma estava desaparecendo. Então, acho que fiz o álbum mais recente, Anew, tentando resgatar mais uma vez os sentimentos que eu tinha quando comecei a banda. Para Suzume, você colaborou com o compositor Kazuma Jinnouchi. Como foi essa experiência e o que ela trouxe para a identidade musical da banda? Yusuke: Ele tem muito conhecimento que nós não temos,
Entrevista | Gilla Band – “A produção nas batidas do funk brasileiro é muito inspiradora”

Mais de uma década se passou desde que o Gilla Band começou a implodir as barreiras do rock convencional no século 21. Flertando com o pós-punk, o noise rock e batidas eletrônicas industriais, o quarteto de Dublin consolidou uma reputação sólida na vanguarda da música alternativa. Agora, o grupo se prepara para o lançamento de seu quarto álbum de estúdio, Pugnello, com lançamento cravado para o dia 25 de setembro pela Rough Trade Records. O sucessor do aclamado Most Normal (2022) levou quatro anos para ganhar sua forma final. Gravado em três estúdios diferentes na capital irlandesa, o projeto teve produção assinada pelos próprios integrantes, com gravação e mixagem conduzidas pelo baixista Daniel Fox. Longe de ser um processo exaustivo, o hiato serviu para que os membros mergulhassem em “atividades extracurriculares”, como a pintura e a produção para outros artistas, oxigenando a criatividade que agora transborda nas novas faixas. O primeiro cartão de visitas dessa nova era é o single Placeholder, lançado no último dia 7. Acompanhada por um videoclipe oficial, a faixa traz o vocalista Dara Kiely em uma de suas performances mais honestas e viscerais. Na letra, o frontman investiga suas próprias peculiaridades mentais ao buscar refúgio na nostalgia da infância para escapar do peso da vida adulta cotidiana. É um mergulho que une traumas bobos de criança à clássica ironia autodepreciativa que já virou marca registrada dos irlandeses. Para além do barulho ensurdecedor e das guitarras desconstruídas, Pugnello carrega um forte DNA familiar. O intrigante título do disco foi emprestado de um livro de ficção de terror escrito pelo tio de Dara, que narra a história de uma fonte tipográfica mal-assombrada. De forma quase paradoxal, os integrantes revelam que é justamente dentro desse universo caótico e claustrofóbico que eles encontram o seu lugar de conforto e catarse musical. O que muitos fãs não imaginam é que o Gilla Band também mantém um forte laço afetivo com as terras brasileiras. O guitarrista Alan Duggan é casado com uma mineira de Uberlândia, cidade onde os dois subiram ao altar. Em Dublin, o músico consome feijoada e strogonofe com regularidade, celebra a crescente comunidade brasileira na Irlanda e revela que o som visceral do grupo bebe diretamente de fontes nacionais: desde o movimento Tropicalista de Os Mutantes, Gilberto Gil e Tom Zé, até o peso eletrônico e cru do funk moderno paulista. Em um bate-papo exclusivo, Dara Kiely e Alan Duggan abriram as portas desse processo de criação, riram de traumas de infância, confessaram prazeres culposos envolvendo Coldplay e reforçaram o desejo latente de, finalmente, trazer o caos controlado do Gilla Band para os palcos brasileiros. Confira a entrevista completa a seguir. Quatro anos se passaram desde Most Normal. Como foi o reencontro de vocês no estúdio para dar vida a Pugnello? E em que momento vocês perceberam que tinham um álbum pronto em mãos? Dara Kiely: Nós meio que voltamos a escrever logo em seguida do último disco. Mas a gente simplesmente leva muito tempo para escrever e finalizar as coisas. Então, para ser honesto, nós escrevemos até o último segundo no estúdio. Sabíamos que o álbum estava pronto no último dia de estúdio (risos). E o álbum foi gravado ao longo de quatro anos em três estúdios diferentes em Dublin. Como essa mudança de cenário e o próprio passar do tempo influenciaram a atmosfera e a coesão do disco? Alan Duggan: Acho que grande parte foi feita no nosso espaço de ensaio. O que nós meio que fizemos ao longo da maior parte do Most Normal para aquele disco, foi começar a comprar um monte de equipamentos de gravação, o que significava que poderíamos gravar para sempre, sabe? Tipo, nós temos todos esses microfones e coisas do tipo para podermos fazer isso consistentemente. Conforme íamos trabalhando na música, nós também já vínhamos gravando. Então, você fazia um take de guitarra, ou talvez um take de voz, ou algumas coisas de bateria eletrônica, e depois a gente não mudava aquilo. Era tipo: “Bom, isso tá aí. Ficou bom”. Então foi algo em que fomos trabalhando de forma consistente. E o que é interessante sobre o nosso espaço é que ele não tem janelas. Você fecha a porta e está lá dentro. Então a sensação lá dentro hoje é exatamente a mesma de 10 anos atrás. De certa forma, o tempo não existe lá. Quando começamos a trabalhar no disco, você fecha a porta e pensa: “Ah, sim, estou de volta a este mundo estranho onde estou apenas trabalhando em música de novo”, sabe? E você vai trabalhando dessa forma. Então, sim, acho que isso faz parte, de qualquer jeito. Vocês possuem projetos paralelos, como a pintura do Dara e o trabalho de produção dos outros integrantes. Como essas outras formas de arte entraram no processo criativo do Gilla Band? Dara Kiely: Sobre a pintura, eu sempre me aventurei um pouco com pintura e coisas do tipo, mas foi sugerido que eu fizesse a arte do álbum. Basicamente, eu pegava as demos em que estávamos trabalhando e pintava ao mesmo tempo em que as escutava, o tempo todo. Nós tínhamos essas câmeras de filme que levamos para a turnê e, se você tirasse uma foto e ela ficasse ruim, tipo com o dedo na lente ou fora de foco, eu pintava por cima dela. E parecia um pouco melhor. Por alguma razão, parecia melhor pintar em uma foto ruim do que em uma foto genuinamente bonita. Então meio que juntei todas essas fotos terríveis e pintei sobre elas. Fiz cerca de 100 e depois selecionamos as que iriam para o single, para o disco e tudo mais. Foi muito legal. Tentei meio que pintar o som do disco, se é que isso faz sentido. Sim, faz sentido. Acho que com a IA tudo é tão polido, que agora, quando vemos algo espontâneo, é muito bom, né? Dara Kiely: Espero que sim (risos). O título do álbum, Pugnello, tem uma sonoridade forte e intrigante. O que essa palavra representa para
Em duas passagens por Santos, Bad Religion vestiu a 10 do Peixe, enfrentou apagão e deixou legado

De todas as lendas internacionais que pisaram em Santos, nenhuma criou uma conexão tão profunda e passional quanto o Bad Religion. A banda e o público santista guardam com muito carinho tudo o que rolou por aqui nas duas turnês que passaram pela cidade, em 1999 e 2014. A primeira passagem foi tão surreal que parece roteiro de filme de ficção, a ponto de merecer destaque na biografia oficial da banda, Do What You Want: The Story of Bad Religion. A segunda, 15 anos depois, foi a coroação de uma história de amor entre os reis do punk melódico californiano e a capital do hardcore no Brasil. Em resumo, esta é a história das duas noites em que Greg Graffin e seus comparsas descobriram, na prática, o que significa ser a “Califórnia Brasileira”. ATO I: 1999 – Apocalipse na “Floresta Tropical”, a primeira vez do Bad Religion em Santos O dia 11 de março de 1999 tinha tudo para ser uma noite histórica na extinta casa Jump (ex-Reggae Night), no Morro da Nova Cintra. A produtora da banda, Michelle Ceasan, havia convidado os locais do White Frogs para abrir os trabalhos, e mais de 4 mil ingressos haviam sido vendidos. O êxtase dos músicos locais, que pegaram até equipamentos emprestados do pessoal do Altered Mind para a grande noite, logo se transformou em desespero. A chuva começou sem aviso prévio antes mesmo de qualquer instrumento ser tocado. O vocalista Greg Graffin relatou os bastidores de terror: “Nós estávamos no nosso backstage, uma mini-cabana, desfrutando uma caipirinha, quando um estrondoso trovão e raio desceram dos céus e colidiram com o nosso telhado”. A situação escalou rapidamente. “Se há uma coisa que aprendemos é esta: se os habitantes começam a olhar preocupados, as coisas podem rapidamente azedar”. Um apagão generalizado tomou conta da cidade. O promotor do evento entrou no camarim em pânico, sugerindo que a banda fugisse: “É melhor sair daqui, os fãs estão furiosos, eles certamente irão matá-los”. Com o som mecânico cortado e o público cantando e assobiando no escuro, o Bad Religion até cogitou um set acústico, mas percebeu que a bateria ensurdecedora de Bobby Schayer abafaria as guitarras sem energia. Retorno inesperado A banda voltou para o hotel com a certeza de que o show estava cancelado. João Veloso Jr., do White Frogs, sentiu a tristeza do cancelamento iminente, pois a banda americana tinha voo cedo no dia seguinte. Mas o improvável aconteceu. “Era meia-noite e a tempestade havia passado. A energia ainda estava desligada, por isso foi à luz de velas e um telefone celular que recebemos a ligação em torno de 1h: ‘Vocês devem voltar para o local agora, nós temos energia’”, relembrou Graffin. O retorno ao morro foi digno de um cenário pós-apocalíptico. Sem semáforos ou iluminação pública, as ruas estavam caóticas. Punks descontentes que já desciam a montanha faziam o retorno imediato ao ouvirem no boca-a-boca que o show iria continuar. No palco, a redenção. O White Frogs foi convocado às pressas para subir e tocar enquanto o público retornava à Jump. E, às 2h da manhã, com a casa ainda lotada, o Bad Religion entregou um espetáculo inesquecível, tocando pérolas raras como Anesthesia. “Tocamos um show inteiro e tivemos o tempo de nossas vidas”, cravou Graffin. “O caos, entusiasmo, emoções oscilantes e a floresta tropical, tudo conspirou naquela noite para nos oferecer uma experiência incrível. Não vamos esquecer tão cedo dele”. ATO II: 2014 – Redenção, açaí e camisa do Peixe no segundo show Quinze anos depois, o Bad Religion era anunciado para retornar a Santos, desta vez na Capital Disco, no dia 7 de fevereiro de 2014. A cidade entrou em polvorosa e os ingressos esgotaram rapidamente. O responsável por trazer o grupo foi Celso Bernardes, fundador da produtora Rock Show e, coincidentemente, um dos “sobreviventes” do apagão de 1999. Celso viveu a saga não apenas como produtor, mas como fã devoto de sua banda favorita. Os bastidores dessa segunda passagem foram marcados por um clima muito mais amistoso e curioso do que o apocalipse climático de 99. O baixista Jay Bentley desceu ao palco de chinelos para o reconhecimento do terreno e, em poucas palavras trocadas com Celso, perguntou sobre açaí. A resposta do produtor foi exagerada: ele mandou buscar um fardo de dez quilos do produto para o camarim. O nível de fanatismo do produtor chegou à pele. Em uma sala ao lado do camarim, antes do show, Celso tatuou o famoso logo da “Crossbuster” no braço esquerdo. O barulho da máquina atraiu Brian Baker, Jay Bentley e o baterista Brooks Wackerman, que ficaram honrados com a atitude. Greg Graffin chegou em seguida, surpreendeu-se com a homenagem e posou para fotos com o produtor tatuado. Bayside Kings, NLO e o caldeirão na Capital Disco Na madrugada de sábado, a casa noturna ferveu com o encontro de gerações de fãs. Quem abriu os trabalhos foi o Nem Liminha Ouviu (NLO), liderado pelo radialista Tatola Godas. A banda apresentou versões nostálgicas como O Concreto Já Rachou (Plebe Rude) e Surfista Calhorda (Replicantes). Em seguida, a prata da casa: o Bayside Kings. Recém-chegados de uma turnê bem-sucedida na Argentina, a banda liderada por Milton Aguiar incendiou o moshpit. O setlist brutal, mesclando faixas dos discos The Way Back Home e Warship, incluiu ainda um cover furioso de Cyco Vision, do Suicidal Tendencies. O Bayside Kings provou estar pronto para ser uma das principais representantes do hardcore santista. À 0h30, ao som de música clássica, o Bad Religion assumiu o palco. Com 35 anos de carreira e 16 álbuns nas costas, os californianos engataram um show coeso, técnico e empolgante, descarregando 30 canções em uma hora e meia. Eles abriram de forma agressiva com Fuck You, puxando logo na sequência uma quadra de clássicos absurda: I Want to Conquer the World, New America, Stranger Than Fiction e Los Angeles Is Burning. Pista e palco viraram uma verdadeira piscina de suor. O clima era de tanta interação que o baixista Jay Bentley até
Entrevista | Usted Señalemelo – “Sempre tentamos buscar coisas novas”

Um dos maiores nomes do indie rock e da música alternativa sul-americana contemporânea, o trio argentino Usted Señalemelo aterrissa em São Paulo na noite deste sábado (27) para uma apresentação que promete ser histórica no Bar Alto. Acostumados a lotar arenas na Argentina e a rodar grandes festivais pelo mundo, incluindo uma passagem recente pelo Lollapalooza Chicago, os músicos trazem à capital paulista um formato intimista. O grande combustível da noite é o quarto álbum de estúdio do grupo, Términos & Condiciones, lançado no início de 2026. Sucessor do aclamado TRIPOLAR (indicado ao Latin Grammy), o novo trabalho marca uma virada corajosa do trio em direção às pistas de dança. Com uma sonoridade retrofuturista rica em synth-pop, texturas sombrias de eletrônica e batidas de drum and bass, o álbum quebra as fórmulas do rock tradicional e convida o público a habitar o movimento e a experimentação digital. Para esquentar os motores antes de subirem ao palco, o baterista, Lucca Beguerie Petrich, conversou com o Blog n’ Roll. Em um papo franco e descontraído, Lucca revelou os bastidores do processo de composição feito inteiramente em computadores, detalhou as inéditas parcerias de estúdio com o mexicano Jay de la Cueva e com os norte-americanos do Portugal. The Man, e analisou como o minimalismo estético do novo trabalho serve de manifesto contra o excesso de telas na sociedade moderna. A conexão do Usted Señalemelo com o Brasil não é de hoje, e Lucca fez questão de reforçar o carinho pelo público local. Relembrando o início da carreira, quando tocaram em São Paulo para apenas duas pessoas que já conheciam suas letras, o baterista celebrou o retorno à cidade ao lado de bandas parceiras da cena brasileira, como Boogarins e Terno Rei, e destacou o quanto o público do país é caloroso e aberto a novas e ousadas experiências sonoras. A apresentação de hoje no Bar Alto é uma oportunidade única de testemunhar a evolução de uma banda que se recusa a estagnar. Os ingressos para o evento estão disponíveis na Ingresse. Confira a seguir a íntegra da entrevista! Términos y Condiciones traz uma virada clara para as pistas de baile, mesclando synth-pop, drum’n’bass e disco. O que motivou o Usted Señalemelo a buscar essa sonoridade mais eletrônica e retrofuturista logo após o sucesso de TRIPOLAR? É um disco que, na hora de compor e começar a fazer as canções, nós o fizemos com muita gente. Foi a primeira vez que, na etapa de composição, incorporamos outros compositores ou produtores. Então isso nos deu um leque, uma quantidade de possibilidades de músicas que, quando começamos a pensar no álbum já como um corpo de trabalho e não como faixas isoladas, o eletrônico unia muito bem tudo o que tinha acontecido na composição. Além disso, nós sempre tivemos elementos eletrônicos nos nossos discos, sempre usamos sintetizadores, baterias eletrônicas, samplers, um pouco de tudo. Então, este disco foi uma aposta: vamos fazer com que o eletrônico seja um pouco o eixo do que está acontecendo a nível estético, algo que nunca tínhamos feito de forma tão explícita quanto agora. Foi um processo longo, muito digital. É um disco muito digital, feito inteiramente no computador e não em grandes estúdios, um processo bem diferente daqueles a que estávamos acostumados, que no geral eram mais orgânicos e de gravações clássicas de um disco de rock. Neste álbum foi como: vamos tentar fazer algo mais atual, com a forma como estamos trabalhando e as ferramentas que temos hoje, e ver o que acontece. O disco tem estruturas ousadas e mudanças inesperadas, como em Eso que llaman luz. Como foi o processo de composição e produção junto aos produtores para alcançar texturas complexas e imprevisíveis? Nós sempre nos caracterizamos por buscar dinâmicas nas músicas ou nos discos que talvez fujam do que estamos acostumados em termos de estruturas, melodias ou formas de compor. Sempre tentamos buscar coisas novas na hora de compor e gravar, caminhos que ainda não tínhamos trilhado para que nos levem a novos resultados. Sempre estivemos experimentando; há muitas músicas deste disco que tiveram várias versões, tanto em estrutura quanto em arranjos. Por isso, foi um trabalho que envolveu muito mais produção do que pré-produção. Foi muito mais sobre começar a gravar e começar a mudar tudo uma vez que já estava gravado, testando coisas novas. Há músicas que gravamos e terminaram completamente diferentes no disco, da primeira versão até a última. Nós nos damos essa liberdade de poder experimentar porque acreditamos que faz parte da nossa identidade e da nossa busca. Então não importa se é mais eletrônico, se é mais rock ou mais pop, sinto que sempre haverá esse selo nosso de buscar algo diferente, mesmo que esteja ligado a um gênero, entende? E, pela primeira vez na história do Usted Señalemelo, vocês tiveram colaborações de estúdio, com o mexicano Jay de la Cueva e com o Portugal. The Man. Como surgiram esses convites e como foi equilibrar a identidade de vocês com a deles? Nós assistimos ao show deles (Portugal. The Man) e tivemos uma conexão muito bonita. Eles são do Alasca, que fica bem ao norte dos Estados Unidos, nas montanhas, na neve, e nós somos de Mendoza, que é um pouco semelhante sob certo aspecto: somos da montanha, estamos longe das grandes cidades. Então já existia algo ali que nos conectava por si só, o fato de sermos bandas de rock de lugares fora do eixo onde as coisas costumam acontecer, com tudo o que isso custa para uma banda. Naquela noite, ficamos conversando um tempão sobre a vida, ficamos muito amigos, e eles estavam muito interessados em tudo o que estava acontecendo na cena alternativa em espanhol. Eles já tinham escutado bandas e artistas do México, da Argentina, então já estavam conectados com isso. Conversando, dissemos que um dia deveríamos fazer música juntos, como algo bem descompromissado, tranquilo, e eles toparam de primeira. Quando começamos a fazer essa faixa, que se chama Dando Vueltas, era uma música que imaginávamos com
Entrevista | Kelsey Lu – “Quando aquele violoncelo quebrou, não consegui levantar da cama”

A multi-instrumentista e artista visual Kelsey Lu está de volta com seu mais novo e aguardado projeto de estúdio, So Help Me God. Conhecida pela atmosfera suntuosa, devocional e orquestral de sua estreia com Blood, a artista agora convida o público a testemunhar uma virada radical em sua jornada criativa. Longe de ser um manifesto de cura pacífica, o novo trabalho é descrito como um verdadeiro acerto de contas com o passado, onde Lu decide caminhar pelas próprias sombras para resgatar a pureza de sua arte. O estopim para essa transformação profunda aconteceu em 2020, quando o violoncelo que acompanhava a artista há mais de duas décadas rachou em suas mãos logo no início da pandemia. Em entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, Kelsey Lu revelou que o incidente simbólico a mergulhou em um luto profundo, forçando-a a abandonar sua zona de conforto e a reconstruir sua identidade musical longe do instrumento que antes lhe servia como escudo. O resultado é uma produção multifacetada, moldada por anos de isolamento, superação e reconexão espiritual. Além das barreiras sonoras, o processo criativo do álbum transbordou para as artes plásticas. Kelsey Lu explicou como o tarô e desenhos em larga escala feitos em seu ateliê servem para que ela decifre as histórias visuais de suas composições. Essa fusão de linguagens já ganhou vida em performances imersivas na Europa, onde o público participou ativamente da criação de obras de arte sob o chão de palácios históricos, um conceito de “escavação de si mesma” que ela planeja estender para suas futuras apresentações ao vivo. Durante a conversa, a artista não escondeu o entusiasmo ao falar sobre o Brasil e o desejo de trazer a nova turnê ao país. Demonstrando grande admiração pela cultura local, Kelsey Lu revelou considerar o português um dos idiomas mais bonitos e rítmicos do mundo, destacando o “fogo” e a musicalidade natural do povo brasileiro. Para os fãs que aguardam ansiosamente por sua estreia em solo nacional, o aceno da cantora acende a esperança de uma performance histórica em breve. So Help Me God já está disponível em todas as plataformas digitais. Você pode conferir a entrevista completa com Kelsey Lu abaixo. Seus brincos são lindos, combina com o esse desenho aqui em cima. Sim, lindo! Eu pratico tarô. Então, quando estou no processo de tentar entender e descobrir qual é a história de cada música, quando estou tentando decifrar as histórias visuais e tudo mais, meio que me baseio no que está aparecendo nas minhas leituras diárias de tarô. Mas também escrevo as letras bem grandes. Eu meio que as deixo na minha parede por um tempo para, de certa forma, queimarem no meu subconsciente. Assim consigo tentar entender exatamente sobre o que estava falando, porque muitas vezes no meu processo de escrita e gravação, não sei necessariamente com quem ou sobre o que estou falando, ou ao que estou me referindo. Então preciso passar um tempo meditando sobre isso depois para entender melhor. E este é mais ou menos o meu processo. E com Portrait of a Lady on Fire, eu continuava tirando o Ás de Espadas. Então este é o meu desenho baseado nisso. E depois esse tipo de coração e fogo no centro. É lindo. É algo que você desenvolveu sozinha ou algo que aprendeu? Sim, é algo que desenvolvi por conta própria. Na verdade, tenho uma prática de desenho desde pequena. Meu pai é retratista. Então cresci nesse ambiente, e o ateliê dele ficava em casa. Por isso, cresci muito perto de pastel a óleo… ele trabalha com pastel a óleo, carvão e todo esse tipo de coisa. Cresci muito em torno disso e tive uma prática secreta por muito tempo. E isso tem sido, sim, a minha prática no que diz respeito à composição. Mas isso geralmente vem depois que escrevi uma música, ou até mesmo no meio da escrita, quando preciso tentar descobrir como será o resto dela. Gosto de fazer as coisas em grande escala. Assim consigo realmente sentir a emoção, especialmente enquanto estou escrevendo, sabe? Porque, por exemplo, esta aqui, Running the Pain, a escrita, o estilo, o sentimento e o movimento através das linhas das palavras são tão diferentes do que são nesta outra. Então, sim. Sim. E você pensa em usar isso nos seus shows ou algo assim? Sim, já pensei sobre isso. Fiz uma performance em Veneza há algumas semanas chamada Penumbra. E foi uma instalação em escala realmente grande, onde preenchi todo o espaço, o último andar deste palazzo, com terra. E debaixo da terra, coloquei esses rolos grandes de papel. Depois, espalhei pedaços de carvão e também um pouco de pó de carvão. E esse dançarino com quem colaboro, o Josh Johnson… ele e eu fizemos esses movimentos, esses diferentes tipos de movimentos sobre isso enquanto ouvíamos o álbum. Depois cobri com camadas finas de terra, mais um pouco de carvão e mais terra. Então, todos que estavam assistindo à performance também foram participantes ativos na criação do desenho que surgiu depois. E após a performance, eu escavei todos os desenhos e eles estão incríveis. Estão com uma aparência tão, tão… são realmente muito especiais. Vou voltar lá no começo de julho para fazer outra abertura e exibição das obras no palazzo. Mas acho que é algo que eu adoraria fazer porque, sabe, com o álbum em si, é uma profunda exploração e escavação de si mesma. E também um esforço para se conectar consigo mesma, mas também com o mundo. Acho que, enquanto fazia isso, percebi quantas paredes de medo construí ao longo do tempo. Isso como resultado da maneira como fui criada, que é temer o mundo e temer as pessoas. E, sabe, a música para mim sempre foi essa espécie de salvadora e uma forma de me conectar com as pessoas. Ao longo da minha jornada lançando música e me conectando com pessoas pelo mundo todo… sabe, quando lancei meu último álbum, houve muitas coisas vindas tanto da indústria quanto da gestão que
Capacetes em chamas e pistola de raios alfa: a abdução do Man Or Astro-man? em Santos, em 1999

Considerada uma das maiores bandas de surf music do mundo, com repertório praticamente inteiro instrumental, o Man Or Astro-man? visitou Santos em sua segunda turnê ao Brasil, em 26 de setembro de 1999. A apresentação histórica aconteceu na extinta casa noturna Millenium (Av. Ana Costa, 554B, no Gonzaga), com abertura do Garage Fuzz e do Sonic Sex Panic. Menos de um ano antes, a banda do Alabama (EUA) havia feito sua primeira turnê no Brasil. O rolê foi tão bem-sucedido que eles não pensaram duas vezes antes de retornar, e o motivo era uma verdadeira paixão pelo país. Em entrevista para a Folha de Londrina, em 1999, o baterista e membro-fundador Brian Teasley (o Birdstuff) declarou que o Brasil era o seu país favorito. O músico fez questão de exaltar a energia local: “Nos Estados Unidos e na Europa, as pessoas sentam em suas poltronas e ouvem música de forma muito polida, muito correta. Vocês (brasileiros) aí vivem a música, todo mundo tem banda e parece que a música é uma parte significativa das vidas de vocês”. A ligação da banda com o país foi além das palavras. Revelando admiração por Mutantes e Chico Science, Birdstuff foi poético: “Minha vida não estaria completa se não fosse o Brasil. Funcionou como uma inspiração para nós, por isso gravamos o disco aí”. De fato, a segunda turnê, que passou por 12 cidades brasileiras, serviu para divulgar o nono álbum da banda, Eeviac, gravado no estúdio móvel deles (o Zero Return) em Belo Horizonte durante a primeira passagem pelo país. Risco do Garage Fuzz e a gafes da imprensa Apesar do status cult da banda, o show em Santos quase não aconteceu. Segundo resenha da época feita pelo fanzine Surfcore, assinada por Marco Casado e Victor Martins, se não fosse pelo esforço do pessoal do Garage Fuzz, o público da Baixada teria que “subir a Serra de novo”. O Surfcore detalhou que o aluguel dos espaços de shows estava muito caro e que a Millenium, local escolhido para o evento, era novata no ramo de rock, enchendo apenas “de vez em nunca de funkeiros ou playboys”. Isso fez com que os donos da casa duvidassem do sucesso do evento, mas a aposta do Garage Fuzz e a boa divulgação lotaram a discoteca, surpreendendo os proprietários. A ironia do evento, no entanto, ficou por conta da imprensa. O fanzine relatou, com indignação, que a rádio, os jornais e os cartazes trataram o gigantesco Man or Astro-man? como uma banda de suporte para o Garage Fuzz. “O jornal apenas dizia ‘uma banda bem legal que toca vestida de uniformes da Nasa’ e o resto do texto todo falando do GF”, destacou a publicação. Skate rock, mosh e os “roadies alienígenas” do Man Or Astro-man? A noite começou quente com o Sonic Sex Panic. A banda entregou um HC melódico e agressivo, definido pelo zine como “skate rock”, tocando músicas novas em português que retratavam problemas pessoais, uma possível influência do novo baixista, Medina (também do Sociedade Armada). O Garage Fuzz subiu na sequência, misturando os clássicos do primeiro CD com faixas mais recentes. A resenha pontuou, com certa irritação, que os fãs exaltados atrapalharam: “Mais uma vez os idiotas do stage diving atrapalharam o show”. Essa invasão repetiria-se no show principal, mas em menor escala, pois a “maioria dos chatos” já havia ido embora. A longa espera para a atração principal justificou-se pela complexidade do palco. “Os integrantes travestiram-se de funcionários de usina nuclear com macacões e capuzes brancos com máscara de oxigênio e óculos escuros”, relatou o Surfcore sobre a equipe técnica. Os “roadies alienígenas” montaram um verdadeiro laboratório sonoro, espalhando projetor de imagens super-8, um laptop ligado ao P.A., samplers e inúmeras mangueiras pelo palco da Millenium. Abdução: macacões da Nasa e espetáculo classe A Do nada, Birdstuff (bateria), Blazar the Probe Handler (guitarra), Trace Reading (guitarra) e Coco the Electronic Monkey Wizard (vocal e mentor) surgiram vestindo macacões vermelhos da Nasa. Para o Surfcore, o que se viu a seguir não foi um show, mas um espetáculo “Classe A”. Com movimentos robóticos enquanto tocavam, os integrantes entregaram um setlist focado no futurista Eeviac, mas recheado de faixas do aclamado Destroy All. Embora tenham deixado de fora clássicas como Popcorn Crabula, a destruição sonora foi garantida com músicas como Reverb 10,000, a viajante Bermuda Triangle Shorts, Bombora e Destination Venus. Os pontos altos da noite uniram técnica e insanidade. A plateia foi ao delírio quando Coco e Blazar dividiram o mesmo baixo de dois braços para tocar, e o choque foi total quando Coco incendiou seu “capacete combustível”, repleto de mangueiras, em cima da própria cabeça. Para resumir o nível daquela noite alienígena em Santos, o fanzine fechou sua resenha pegando emprestada uma frase do jornalista André Barcinski: “Quem perdeu este show merece ser dizimado por uma pistola de raios alfa”.
Frutas, stage dives e “my mame is Dangerous”: a apoteose krishnacore do Shelter em Santos, em 1996

O ano era 1996 e o hardcore dominava a MTV Brasil. Se você ligasse a TV em qualquer tarde daquele ano, era questão de tempo até o clipe de Here We Go invadir a tela com sua energia contagiante. A faixa catapultou o álbum Mantra (1995) e transformou o Shelter, banda americana liderada por Ray Cappo (ex-Youth of Today), em um fenômeno global. A sonoridade agressiva contrastava com a mensagem pacifista e espiritual de orientação hindu, criando um subgênero próprio: o krishnacore. E foi exatamente no auge dessa febre, em junho de 1996, que a banda desembarcou no Brasil para uma turnê histórica. Além de capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, a rota incluiu uma parada obrigatória na Baixada Santista. O resultado? Um dos shows mais caóticos, divertidos e inusitados da história de Santos. Palco improvável e a ironia do destino do Shelter em Santos A ironia de uma banda estritamente vegetariana tocar em um antigo restaurante chinês não passou despercebida. O relato histórico do fanzine santista Surf Core detalhou perfeitamente a atmosfera daquela noite. O Cadillac Café, na Avenida Conselheiro Nébias, 788, provou ser um cenário impecável para o hardcore: com dois andares, palco na altura ideal e duas caixas de som gigantes, a estrutura parecia ter sido feita sob medida para os stage dives. A abertura foi uma celebração à parte. O Cólera, com o saudoso Redson, subiu ao palco em formato power trio e entregou um set rápido e agressivo. Em seguida, o Garage Fuzz, que estava há tempos sem tocar em casa por conta da composição de novas músicas, matou a saudade e fez “todo mundo pogar”, com o então vocalista Alexandre Sesper (Farofa) dedicando o show a todos os animais que haviam sido sacrificados ali no passado. O Blind fechou o suporte mostrando sua forte influência do punk rock dos anos 80. Quando o Shelter finalmente assumiu os instrumentos, a catarse foi imediata. Para Marco Casado Lima, fã que esteve presente, a escolha do local refletia a essência da cena na época: “Punk/HC é foda… sempre que um lugar abria espaço, é porque já tava ruim das pernas. Era tipo a última cartada dos donos desesperados”. Quando o Shelter subiu ao palco, a catarse foi imediata. “A galera dava stage dive do mezanino, aquilo me impressionou. Me senti num show do Bad Brains em Nova York no início dos anos 80”, relembra Marco. Camarim vegano para o Shelter em Santos e a ajuda divina Para o produtor do show, Alexandre Macia, o Pepinho, a noite marcou sua estreia com atrações internacionais. “Foi super bem-sucedido, deu sold out. Foi fácil de vender porque Here We Go estava tocando não só na MTV, como nas rádios de rock. Acabaram os ingressos e ainda tinha gente querendo”, conta. Mas se os números de bilheteria eram de rockstars, o rider (lista de exigências) do camarim pegou o produtor de surpresa. Acostumado a comprar cerveja e uísque para bandas de metal, Pepinho se viu em um cenário diferente com os devotos de Krishna, que na época contavam com ninguém menos que Roy Mayorga (que depois brilharia no Soulfly e Stone Sour) na bateria. “Os caras só queriam fruta! Eu fiz a feira pela primeira vez na minha vida graças ao Shelter, comprando mamão papaya, banana… E os caras eram muito gente fina, de boa”, diverte-se o produtor. A logística ainda contou com uma “intervenção divina”: “O templo Hare Krishna de Santos fez questão de levar a banda para almoçar no dia do show. Isso foi uma maravilha, economizei um bom dinheiro de rango!” “Hi, my name is Dangerous” O clima amigável de Ray Cappo rendeu uma das histórias mais hilárias dos bastidores santistas. Pepinho havia prometido ao seu funcionário da loja Metal Rock, apelidado de “Perigoso” e fã do Shelter, que o apresentaria ao ídolo. Durante a montagem do palco, Cappo pediu para tomar uma água de coco. Pepinho topou, com a condição de passarem na loja primeiro. “Quando eu entro na loja com o Ray Cappo, o Perigoso quase desmaiou”, relembra o produtor. Tomado pela emoção e querendo impressionar o ídolo em inglês, o fã cometeu um erro de tradução fatal na hora de se apresentar. “O Perigoso, em vez de falar o nome, traduziu o próprio apelido. Ele soltou um: ‘Hi! My name is Dangerous!’. O Ray Cappo chorou de rir de encostar na parede. Ele ria e falava: ‘Ok, sorry, you are dangerous!’. Puta, coitado do Perigoso”, gargalha Pepinho. Caos no mosh, cusparada e a debandada dos “modistas” O sucesso estrondoso de Here We Go nas rádios e na TV cobrou seu preço na pista. Se o produtor Pepinho celebrou o sold out, o fanzine Surf Core relatou o que isso significou na prática: foram mais de mil ingressos vendidos para um espaço que, teoricamente, não comportava aquele volume de pessoas. “Não cabe isso tudo, mas coube”, resumiu a publicação. Essa superlotação misturou a velha guarda do punk com o público novato atraído pela MTV, gerando atritos. A empolgação com os saltos do mezanino e invasões de palco fugiu do controle. Em determinado momento, os “babacas de plantão” invadiram tanto o espaço da banda que uma das músicas do Shelter acabou sendo tocada de forma quase totalmente instrumental, pois Ray Cappo mal conseguia cantar. O clima, que era de festa, atingiu um pico de tensão com uma atitude inaceitável. Sempre pregando o pacifismo e o respeito, o vocalista parou o show e ameaçou não continuar após um fã dar uma cusparada na intérprete que estava no palco tentando traduzir as mensagens da banda para o público. Apesar do estresse, a apresentação teve um “filtro” natural. Assim que o super hit Here We Go foi executado, ocorreu um fenômeno clássico dos anos 90 relatado pelo fanzine: os “modistas” deram a noite por encerrada e foram embora para casa. Foi só a partir desse momento, com a pista respirando um pouco mais, que os fãs reais de krishnacore puderam absorver a agressividade musical do Shelter
Entrevista | Jalen Ngonda – “Não quero ficar preso em uma caixa chamada soul”

Se você tem acompanhado as playlists de música preta ou os algoritmos de streaming nos últimos dois anos, as chances de ter esbarrado no falsete hipnotizante de Jalen Ngonda são gigantescas. O cantor e compositor norte-americano, criado em Maryland e radicado no Reino Unido, transformou seu álbum de estreia, Come Around and Love Me (2023), em um verdadeiro passaporte para o topo da nova cena soul mundial. Emplacando o hit viral If You Don’t Want My Love, o artista rapidamente deixou as pequenas salas de show para trás, carimbando aparições em programas icônicos da TV britânica e americana, como o The Late Show with Stephen Colbert. Agora, Jalen Ngonda se prepara para o teste mais desafiador na carreira de qualquer fenômeno recente: o segundo disco, Doctrine of Love, pela lendária gravadora Daptone Records, que chegou hoje às plataformas digitais. O trabalho promete consolidar o cantor não apenas como um intérprete talentoso, mas como um canal contemporâneo para os anos de ouro da música negra. Longe de ser um mero exercício de nostalgia ou um “clichê vintage”, o novo trabalho mergulha de Jalen Ngonda fundo na virada dos anos 1960 para os 1970, costurando a urgência do pop e do R&B modernos com a elegância de arranjos que remetem aos grandes tempos da Motown, da Stax e do Philly soul. A maturidade sonora apresentada nos singles recentes, como a suingada Hang it On The Shelf, reflete uma rotina intensa de quem passou os últimos meses cruzando continentes. A vida na estrada, inclusive, rendeu frutos que vão muito além de sua discografia solo. Apontado pela crítica como uma voz “uma em uma geração”, Jalen Ngonda recentemente chamou a atenção de ninguém menos que Damon Albarn, que o convocou para emprestar suas cordas vocais à faixa The Mountain, no mais recente e elogiado álbum do Gorillaz. Essa bagagem acumulada de Jalen Ngonda se traduz em um álbum feito com mais autonomia. Enquanto a estreia foi lapidada quase inteiramente em estúdio ao lado dos produtores de Nova York Vince Chiarito e Michael Buckley, quando mal se conheciam, Doctrine of Love começou a ganhar vida de forma solitária em hotéis ou em parcerias no Reino Unido. O resultado é um repertório que flerta discretamente com nuances de folk rock, doo-wop e a crueza do rock ‘n’ roll primitivo de Nova Orleans dos anos 1950, expandindo os limites daquilo que o público costuma rotular simplesmente como “soul music”. O Blog n’ Roll bateu um papo exclusivo com Jalen Ngonda às vésperas desse grande lançamento. No meio de uma concorrida agenda europeia, que inclui arenas lotadas ao lado de Olivia Dean e palcos principais de festivais como o Mad Cool e o North Sea Jazz, o músico destrinchou seu processo criativo, rechaçou os rótulos pesados da imprensa, falou sobre a liberdade que busca como artista e mandou um recado direto para os fãs brasileiros, garantindo que a turnê deve desembarcar em solo sul-americano muito em breve. Confira a entrevista na íntegra abaixo. Jalen Ngonda, parabéns pelo novo trabalho. O seu álbum de estreia, Come Around and Love Me (2023), teve uma recepção estrondosa. Como foi entrar em estúdio para criar o Doctrine of Love após todo esse sucesso? Você sentiu algum tipo de pressão ou o processo fluiu com mais naturalidade? Fluiu naturalmente. Para ser bem sincero com você, o sucesso (do primeiro disco) se resumiu a fazer shows. Eu acho que se esse sucesso significasse ir a várias cerimônias de premiação e coisas do tipo, eu provavelmente teria me sentido de um jeito diferente. Mas estava apenas tocando em tantos shows após o lançamento do álbum… Então, não senti nenhuma pressão para fazer o Doctrine of Love. Só escrevi algumas músicas, é simples assim. O release do álbum menciona que Doctrine of Love se situa cronologicamente no final dos anos 1960. O que especificamente nessa virada de década te fascina tanto musicalmente, e como você buscou traduzir essa atmosfera nas novas composições? Sendo o mais simples possível: eu apenas amo essa música. E eu não sei o porquê, não entendo por que meu cérebro é atraído por esse som, mas ele é. Quando fizemos o primeiro álbum, estávamos na época da covid. E havia aquela vibe de… naquele momento, nós estávamos ouvindo muito, e quando digo “nós”, me refiro aos produtores do álbum com quem estava no estúdio, havia muito Philly soul tocando por ali. Estávamos ouvindo muito daquele Marvin Gaye do início dos anos 70, aquele som de arranjos muito grandes e luxuosos de Tom Bell, Gamble & Huff, Curtis Mayfield… Tinha muito disso rolando na sala. E acho que a música refletiu isso. Tirando a faixa So Glad I Found You, que tem um som mais de meados dos anos 60, acho que estávamos todos sentindo aquele trem dos anos 70. Para complementar, grande parte do primeiro álbum foi escrita com eles. Acho que houve apenas duas músicas que escrevi com outras pessoas, o resto do álbum foi escrito com o Mike (Buckley) e o Vince (Chiarito). Já desta vez, passei muito mais tempo em turnê e muito mais tempo de volta ao Reino Unido, onde escrevi sozinho ou com outras pessoas que tinham influências de outras coisas, como indie rock ou algo assim. E quando escrevo sozinho, muito do que faço tem um estilo mais voltado para o início ou meados dos anos 60, não necessariamente todas as músicas, claro. Havia muitas canções que foram para o segundo álbum que eu meio que já trouxe prontas. E acho que, conforme a Daptone e os produtores foram me conhecendo melhor, porque mal nos conhecíamos quando escrevemos o primeiro álbum, tínhamos acabado de nos conhecer, eles perceberam que gostava mais dos sons mais antigos. Então, eles meio que defenderam e me apoiaram um pouco mais nesse som. É por isso que o disco tem um som ligeiramente mais antigo. Mas quem sabe? Talvez o terceiro álbum soe como os anos 80. Nós não sabemos, simplesmente não sabemos. Além do soul e do funk tradicionais,