Lolla BR | Bruno Martini – “Não segui nenhuma tendência e segui o meu coração”

Pela primeira vez em sua carreira, Bruno Martini sobe ao palco do Lollapalooza Brasil — e a estreia promete ser em grande estilo. Um dos principais nomes da música eletrônica nacional, Bruno Martini celebra o momento especial com o lançamento de um remix da faixa On The Way, do duo australiano Hollow Coves, e prepara a estreia de sua nova turnê, intitulada Mix Tape Tour, diretamente no festival. Com passagens por grandes eventos internacionais como EDC Las Vegas, Tomorrowland Bélgica e EDC México, Bruno Martini já havia marcado presença em palcos como o do Rock in Rio, mas faltava o Lolla na lista. Agora, o DJ promete entregar um set vibrante, com faixas voltadas para as pistas e sonoridades que marcaram o início de sua trajetória. Em entrevista ao Blog n’ Roll, Bruno Martini falou sobre as expectativas para o festival, o processo criativo do EP Anto, lançado em fevereiro, as influências que moldaram sua carreira e a emoção de remixar uma música que já fazia parte da trilha sonora da sua casa. Como está a expectativa para o Lollapalooza? O que os fãs podem esperar do set? Tô muito feliz de participar do Lollapalooza. É a primeira vez que participo desse festival na minha carreira. Tive a oportunidade de participar de vários festivais ao longo do mundo, pelo mundo, EDC Las Vegas, Smollin na Bélgica, EDC México, enfim. Vários festivais e faltava o Lollapalooza pra mim, assim. Sempre foi o festival que eu quis e queria muito tocar, mas nunca tive a oportunidade. Então é muito especial pra mim esse ano poder fazer parte do Lollapalooza, ainda mais no Brasil, né? E soma-se também aos festivais que eu disse, no Brasil já participei do Rock in Rio, de vários outros festivais aqui e faltava o Lollapalooza. Então, assim, esse ano é muito especial pra mim poder participar do Lollapalooza. Ainda mais com esse line-up incrível, Justin Timberlake, Rufus, uma galera super legal. Então tô muito contente e preparando um show muito, muito especial. A minha ideia também é estrear minha tour nova no Lolla, chama Mix Tape Tour. Está ansioso para assistir algum show do seu dia? Qual? Por que? Com certeza, tô super ansioso pra ver Alanis Morissette, gosto muito. É muito legal ver também o Zerb tocando depois de mim. Ele fez bastante sucesso esses últimos tempos, é um cara que merece todo sucesso que está acontecendo na vida dele. O próprio Zedd também, sempre fui muito fã das produções dele e das músicas dele e ver ele tocar também vai ser bem legal. Como foi o processo de produção do EP Anto? Esse último EP que lancei é mais alternativo, bem focado para música eletrônica mesmo. São músicas para tocar numa pista, segui muito o meu coração, fiz músicas que quando comecei a tocar gostava muito de ouvir. Fiquei muito feliz com o resultado, teve uma recepção muito boa entre os DJs, fiquei muito contente. São músicas instrumentais, não tem vocal, é bem alternativo mesmo e bem voltado para as pistas e para os DJs. O que mais te influenciou na hora de compor esse projeto? Sinto que me reconectei comigo e, sei lá, poder fazer esse EP foi realmente muito especial porque trouxe várias lembranças de quando comecei a tocar. Era um tipo de som que gostava bastante, que me influenciou bastante nas minhas músicas. Não segui nenhuma tendência e segui o meu coração. Também no início do ano, você lançou um remix do Hollow Coves. Como chegou nessa escolha? Surgiu através de um pedido, eles chegaram junto através de pessoas que trabalham comigo, rolou essa ideia de a gente fazer uma versão, sempre gostei muito da banda, tinha uma música que escutava bastante, minha esposa adora, chama Coastline, então poder trabalhar com eles foi muito especial e muito legal. E isso hoje em dia, com a internet, com a gente fazendo música no computador, não precisa de tanta coisa como antigamente, quando você produzir, essas conexões de eles estão na Austrália, eu tô aqui no Brasil, do outro lado, a gente fazendo música, então é muito legal. Gostei tanto de fazer que até fiz outra versão depois, fiz uma deep mix, é para os DJs tocarem e também traz um pouco de uma sonoridade que a gente chamava de Brazilian Bass. Quais os três álbuns que mais te influenciaram na carreira? Por que? Meu primeiro instrumento foi a guitarra. Tive a oportunidade de trabalhar com Duran Duran e tinha um álbum deles que gostava muito, então colocaria o Rio (1982), do Duran Duran. Tenho um carinho muito especial por Thriller, do Michael Jackson, porque foi o primeiro álbum que tinha em casa, ganhei de presente do meu pai e ficava ouvindo o dia inteiro. Não precisava ficar roubando os discos vinis dele, então era o meu primeiro cdzinho. Tenho um carinho muito grande por esse álbum também. Por fim, vou colocar também o álbum do Timbaland. Pra mim é muito especial, marcou minha adolescência, trabalhei com ele, então por isso coloco um álbum que chama Shock Value.
Lolla BR | Giovanna Moraes – “Sou uma metamorfose ambulante, estou sempre mudando”

Com letras afiadas, presença de palco intensa e uma mistura sonora que transita entre o experimental e o rock visceral, a cantora Giovanna Moraes se prepara para um dos momentos mais marcantes de sua carreira: sua estreia no Lollapalooza Brasil. A apresentação acontece neste domingo (31), e promete ser um cartão de visitas impactante para quem ainda não conhece a potência artística da paulistana. “Vão ser gloriosos 45 minutos”, ela antecipa, animada. Com dois álbuns disponíveis nas plataformas e um histórico de reinvenção constante, Giovanna Moraes levará ao palco do festival faixas como As Minas no Poder, Bloquinho de Notas e Valentina — esta última, uma composição sensível sobre sua vivência com bulimia na adolescência. “Quero que as pessoas se sintam acolhidas e se identifiquem”, afirma. Giovanna Moraes também prepara surpresas no setlist, com músicas inéditas e medleys que refletem seu processo criativo livre, intuitivo e sempre em mutação. “Sou uma metamorfose ambulante”, diz. De um passado mais experimental, com influências que vão de King Crimson a Elis Regina, até um presente mais enraizado no rock alternativo com distorções vocais e atitude punk, Giovanna Moraes construiu seu caminho na marra — de forma independente, sem seguir as fórmulas do “music business”. Em conversa exclusiva com o Blog n’ Roll, Giovanna Moraes falou sobre as expectativas para o festival, o machismo persistente na cena roqueira, seu processo de composição e a importância de ocupar espaços como o do Lolla com autenticidade, coragem e presença feminina. Imagino que você esteja bem empolgada, né? Nossa, tô muito empolgada! Num momento especial como esse. Foram muitos anos até chegar até aqui. E vai passar muito rápido, vai passar rápido demais. O lance é aproveitar bem o tempo que tem. Você já sabe quanto tempo vai ter lá, não? Acho que é 45 minutos o set, curtinho. Vão ser gloriosos os 45 minutos. O público que está chegando ali no festival está lá por algum headliner e tal. Só que aproveitando bem esse momento, a gente sabe que pode fazer uma mudança, fazer a galera ir atrás, consumir mais o teu som. É o momento de dar aquele cartão de visitas legal. Eu tô fazendo algumas coisas um pouco diferentes. Vai ter As Minas no Poder, que é a minha música lá do calmativo. Vai ter Bloquinho de Notas: ‘na moral, eu sou original, você é a cópia’. Valentina, que é uma música que fala sobre a minha bulimia na adolescência e que conversa com muitas meninas que acabam entrando nesse sistema de sentir que elas estão erradas num mundo que às vezes deveria acolher mais do que apontar o dedo e dizer que a gente não é normal. Porque a gente não se encaixa dentro dos padrões da sociedade. Quero trazer um pouquinho de música nova também, algumas das outras tô preparando um medley. Em vez de tocar a música inteira, tô juntando e fazendo uma brincadeira um pouco diferente. As músicas têm muito disso de experimentar, como é o processo criativo. Você comentou que já está preparando músicas novas. Como é esse teu processo de composição? Tenho dois álbuns lançados no Spotify, mas tenho muito mais coisa que tirei do Spotify. Antes dessa Giovanna Moraes sair, eu fazia um som meio experimental. Fiz dois álbuns com uma pegada experimental, um que era em inglês e o outro que tinha uma pegada um pouco mais de brasilidade, mas era outra fita, teclado e um bagulho que é difícil de reproduzir ao vivo. E daí fui me encontrando dentro do rock por causa do show, sabe? Porque no momento de colocar e entender como aquelas músicas iam ser no palco. A partir daí já tirei o teclado, coloquei uma guitarra e fui ficando com essa cara mais rock’n’roll. É um caminho muito doido, muito longo até chegar até aqui. E o meu processo é de estar criando sempre, experimentando coisas novas, muito dessa pegada do improviso, de às vezes estar cantarolando e ver o que vem. Às vezes vem alguma melodia, ideia de provocação e daí anoto. Logo depois, repenso e recrio mais pra frente. Tenho muito isso mesmo desse processo de estar criando o tempo inteiro. A inspiração acho que vem de todos os lugares. Vem de um papo aqui com você, vem de algum comentário nas mídias sociais, um filme ou de uma história que ouvi na notícia. Pretende lançar mais álbuns ou focar nos singles? Não sei se vai ter um álbum por ano, não gosto muito dessa pressão de álbum. Mas música nova o tempo inteiro vai, porque gosto de fazer isso e acho que é massa poder ter um registro do crescimento do artista. Tem pelo menos umas seis músicas que estou pra lançar esse ano. Talvez algumas antes do Lolla, talvez algumas logo depois do Lolla. Não tô querendo chamar de álbum, porque não tenho um nome para essa coletânea ainda. Mas é isso, tem coisas novas. Trabalhar mais os singles é uma forma de atender o algoritmo das plataformas de streaming? Quando fui fazer o Fama de Chata, álbum que lancei em maio do ano passado, ele começou, na verdade, com uma música, Fala na Cara. Experimentei um negócio com uma linguagem um pouco mais agressiva, falando coisas que achava que não podia falar, e o negócio repercutiu muito. E daí fiquei um tempo meio que digerindo e pensando o que mais que essa chata tem pra dizer? Então já tinha essa ideia do nome do álbum, Fama de Chata, com esse conceito de trazer as coisas que gostaria de falar. Hoje não tenho um conceito para um novo álbum, mas talvez tenha um pouco mais pra frente. Tenho essas músicas e elas combinam desse jeito. Posso pegar algumas que já lancei, fazer algumas novas e juntar num álbum. Mas, por enquanto, quero estar lançando música nova, porque às vezes fica na gaveta por muito tempo e deixo de gostar. Sou uma metamorfose ambulante, estou sempre mudando. Não sou muito music business, não tô fazendo single pra
Lolla BR | Charlotte Matou um Cara – “Antes era bonito ser machista e escroto. Hoje é velado”

A banda Charlotte Matou um Cara está prestes a viver um dos momentos mais marcantes de sua trajetória: uma apresentação no Lollapalooza Brasil. Com dez anos de estrada no cenário underground, o grupo tem conquistado reconhecimento com suas letras combativas e sua sonoridade intensa. Em entrevista ao Blog n’ Roll, as integrantes Dori (bateria) e Camis (baixo) falaram sobre a expectativa para o festival, o impacto da viralização no TikTok e a importância de ocupar espaços na cena punk e hardcore, historicamente dominada por homens. O convite para o festival, aliás, pegou a banda de surpresa – tanto que, no início, acharam que fosse um golpe. “A gente até pesquisou para ver se era real, porque parecia bom demais para ser verdade”, conta Dori. Mas era oficial: o Charlotte Matou um Cara subiria ao palco de um dos maiores festivais do país, levando seu punk combativo e sua energia visceral a um novo público. O setlist do show promete um panorama completo da discografia da Charlotte Matou um Cara, com músicas dos dois álbuns e uma participação especial. “Vai ser um show para quem já nos acompanha e também para quem conheceu a gente pelo viral”, explica Camis. A viralização, aliás, foi um fenômeno inesperado: “Descobrimos porque o filho da nossa vocalista avisou que tinha vários vídeos com a nossa música rolando no TikTok”, explica Dori. Confira a entrevista completa abaixo. Como está a expectativa para o Lollapalooza? Camis: A gente está completando dez anos, tocou em vários palcos, vários lugares. A trajetória no underground é bem extensa. Mas um palcão assim, num festival tão grande quanto o Lollapalooza, é algo bem novo para a gente. É um grande festival que a gente talvez só tinha no imaginário. Como chegar nisso dentro de uma cena underground? É bastante maluco. Tá meio que caindo a ficha ainda, assim. Acho que só vai cair a ficha mesmo no Lollapalooza. Dori: O convite do Lollapalooza acabou vindo por conta dessa viralização do Punk Mascuzinho que a gente teve no TikTok. Vocês já têm um set definido? O que o público pode esperar do show da Charlotte Matou um Cara? Dori: A gente vai tocar praticamente os dois discos completos. A gente também conta com uma participação especial de uma pessoa que foi bem importante para a nossa existência. Camis: O repertório está bem legal, é uma hora de show. Acho que ficou pouquíssimas coisas de fora. Então, tanto pra quem já conhece a banda, quanto para quem veio pelo viral, acho que vai gostar muito do que a gente vai apresentar. O viral do Charlotte Matou Um Cara fala sobre um tipo muito comum no cenário punk, o machão hipócrita que não segue “o que defende”. Vocês conseguem enxergar alguma melhora no cenário punk hardcore se comparado com 20 anos atrás? Camis: Acho que está mais mascarado. Antes era bonito ser machista e escroto, deixava o cara bem com os amigos. Mas hoje é um pouco mais velado, porque não pega muito bem. A gente sabe que na rodinha dos caras, quando não tem mina envolvida, ainda rola muita conversinha, tem essa questão do stage dive e tudo mais. Nos nossos shows, a Déa sempre fala: ‘reserva espaço para as minas, chama as minas para frente’. Tem que ser um espaço mais acolhedor. Então, assim, na superfície melhorou, mas a gente sabe que muita coisa ainda precisa ser feita para melhorar. Dori: Na cena é muito velado, muito pela punição. Hoje a gente não fica mais calada, querendo ou não, rola um apontamento imediato, principalmente, nos nossos shows. Toda vez que a gente toca, sempre quando acontece alguma coisa que não está legal ali no meio, inclusive no stage dive, aquela coisa da turma se empolgar e tal, a gente acaba parando o show na hora. Para, observa, percebe o que rolou e pede o afastamento dos caras. Não que eles não sejam bem-vindos, porque acho que o importante é o fortalecimento. As mulheres precisam do apoio dos homens. Camis: Nosso show é para as mulheres. Se for para ter alguém segurando a mochila, que sejam os caras segurando as mochilas das mulheres lá no fundo, porque sempre foi o inverso. As mulheres, namoradas, lá no fundo, enquanto os caras ficavam na roda. O nosso show também é um grito, um berro para furar essas barreiras. A gente está com muita raiva e queremos pôr para fora essa história toda. Tem que chegar meio na cotovelada ainda para poder angariar um espaço. E o que que você acredita que pode ser feito para melhorar isso? Camis: Não tem uma cartilha de bons modos, tal como os Dez Mandamentos de Como… Mas acho que os caras darem suporte é um ponto muito importante. É suportar as mulheres, dar apoio, deixar no momento de fala as meninas falarem, não interromper as mulheres enquanto elas falam, sabe? Não tirar sarro porque é uma dor que não dói nas pessoas. Acho que as pessoas acabam se esquecendo de certas situações e deixam passar. E é por isso que existe toda essa luta até hoje, e vai permanecer. Acho que estou para morrer e não vou ver uma grande evolução. Se for pensar, tantas mulheres aí que vieram para a revolução feminista e morreram na luta. Hoje está numa quarta onda feminista dentro de um cenário, inclusive, que foi um livro que a Heloísa Buarque de Holanda escreveu, o Explosão Feminista, e ela cita a Charlotte Matou um Cara. Dá até umas engasgadas quando a gente tem que falar o que os caras têm que fazer para ajudar, né? Mas é necessário estar na força juntos, a união faz a força como um todo. Se a gente está num campo progressista, acho que é para tudo que seja o melhor. O último álbum da Charlotte Matou um Cara é Atentas, de 2021. O fato da Déa (vocalista) morar na Alemanha é um complicador na hora de pensar no sucessor? Camis: Quando a gente lançou o segundo disco,
Lolla BR | Picanha de Chernobil – “O comércio local se beneficia muito com as bandas”

O Picanha de Chernobil nasceu em Porto Alegre, mas foi em São Paulo que a banda consolidou sua identidade e ganhou espaço na cena musical independente. Com uma trajetória marcada pela performance nas ruas da capital paulista, o trio encontrou na Avenida Paulista um palco natural para sua sonoridade, que transita pelo blues, rock e psicodelia. Agora, Matheus Mendes (vocal e baixo), Chico Rigo (guitarra) e Fernando Salsa (bateria) estarão no Lollapalooza Brasil. A banda se apresenta no sábado (29), às 12h, no Palco Samsung Galaxy, que terá Alanis Morissette como atração principal, às 20h10. Ao longo dos anos, o Picanha de Chernobil enfrentou diversos desafios, desde mudanças na formação até a recente tentativa de restrição à música de rua na cidade. Mesmo com as dificuldades impostas por regulamentações e pressões políticas, a banda segue na luta pelo direito de se apresentar nos espaços públicos. Paralelamente, o reconhecimento de sua trajetória os levou a grandes festivais, incluindo o Rock in Rio e turnês internacionais. Em entrevista ao Blog n’ Roll, Matheus Mendes falou sobre a origem do Picanha de Chernobil, a experiência de tocar na rua, os desafios impostos pela prefeitura de São Paulo e a expectativa para o show no Lolla. O Picanha de Chernobil surgiu em Porto Alegre, mas ganhou mais destaque quando veio para São Paulo. Como foi esse início? A gente era bem iniciante em Porto Alegre. É muito diferente o cenário das bandas, era outro universo. Não dá nem para comparar. A gente era bem mais jovem também, mas foi legal. A gente fez o Circuito Fora do Eixo, viemos para São Paulo e conhecemos bastante gente, acabou dando um incentivo para a gente vir morar aqui. A ideia de vir para São Paulo foi aquela padrão de toda banda que está fora do eixo Rio-São Paulo: ter mais visibilidade, mais oportunidades? Foi, total. Tínhamos muito mais gente aqui, era um universo a se explorar. Lá estava fechando muita casa. Está foda ainda, Porto Alegre desmantelou muito. Parte da cultura e tal, oportunidade de show, rádio, fechou tudo. Antigamente não, era bem promissor. Teve várias fases em Porto Alegre, mas nunca foi o polo do mainstream. Sempre foi uma referência pela quantidade de bandas boas que surgiram por lá desde os anos 1980. Realmente, sem dúvida, mas isso foi enfraquecendo com o tempo. Mudou muito o mundo, e também a cabeça dos jovens. Porque a música sempre foi consumida pelas camadas mais jovens. O pessoal precisa consumir mesmo, ir nos shows, comprar as coisas, ficar falando. O lance de tocar na rua começou em São Paulo? Ou o Picanha de Chernobil já fazia isso em Porto Alegre também? Em Porto Alegre rolava para algumas bandas. Eu até acompanhava, era um negócio bem provinciano. Aqui em São Paulo já era bem diferente. Como a cidade já tem muito ruído, a gente começou a levar amplificadores e tal, e fazer uma coisa que não tínhamos visto ainda, uma banda de rock tocando na rua. E começamos ali no (Largo do) Paissandu, só que era bem legal, eu ia em galera, não tinha muita noção do que estava fazendo. Mas 2014 foi muito revelador para nós, muito produtivo do ponto de vista de saber os nossos limites na rua. A lei da música de rua estava sendo promulgada. Com a entrada do (Fernando) Haddad e da Nádia (Campeão), como vice-prefeita, eles deram um gás nisso. E em 2015 a gente já começou a fazer totalmente diferente. Começamos a tocar todo dia, a gente ia no Centro de São Paulo tocar no horário do almoço dos trabalhadores. Meio-dia, 13h, das 10h até umas 14h. Depois, passamos a levar violão, contrabaixo acústico, aquele rabecão, bateria reduzida, uma coisa bem mais tranquila, mais acústica, até para não causar muito alvoroço. Foi a partir de 2016, já com a Paulista Aberta, que a gente começou a tomar essa forma atual de banda, algo mais padronizado, como o público vê hoje. Essa proibição recente na Paulista afetou o Picanha de Chernobil? Estão conseguindo tocar? Como somos a banda que está há mais tempo na rua, em grupo de trabalho com a prefeitura, a gente está discutindo alguns pontos para melhorar. Na verdade, não rolou uma proibição, rolou uma ação da prefeitura, meio arbitrária, baseada num termo de ajuste de conduta. Ele diferencia o que é evento e o que não é. E aquilo foi usado contra nós, através da polícia de choque. Desde o ano passado está tendo uma resistência da prefeitura contra os artistas. Mas isso está cessando porque como a gente reuniu as pessoas, estamos na luta para promulgar a lei. Mas não temos o poder de regulamentar, nem autoridade para isso. Então estamos buscando apoios para isso. Em 2025, todo músico de rua usa equipamento de som. A gente está na maior cidade da América do Sul, uma metrópole. Como é que a gente vai cantar tudo no gogó, né? É difícil, ninguém é o Pavarotti. Mas, respondendo sua pergunta, tem três semanas que rolou aquele negócio de proibir, mas faz duas semanas que a gente tem tocado na Paulista. Tudo indica que a gente vai conseguir manter. A gente é muito educado, todo mundo ali da música de rua é muito educado. Tenta conversar, dialogar, explicar. E a gente tem argumentos muito válidos pra cidade, para a economia também. Acho que o que mais pega é o ponto da economia, né? E realmente gera muita grana, para os próprios, para as lojas. O comércio local se beneficia muito com as bandas, com a arte rolando. E no meio desse impasse para tocar na rua, o Lollapalooza chamou o Picanha de Chernobil. Como foi esse convite? A gente foi no Caldeirão do Huck, Sabrina Sato, Roberto Justus, Ratinho. Fomos para a Europa três vezes, estamos vendo de irmos a quarta ainda este ano. Lollapalooza é uma construção de dez anos, dez anos se fudendo muito: na chuva, no sol, de tudo que é jeito. Essa construção tem a ver
Nostalgia, técnica e hits marcam show do Garbage ao lado do L7 e The Mönic

Em sua quarta passagem pelo Brasil (veio em 2012, 2016 e 2023), o Garbage retornou acompanhado das veteranas do L7 e ainda adicionou a brasileira The Mönic (leia sobre esses dois mais abaixo) para compor a programação, no último sábado (22), no Terra SP, em São Paulo. Com a casa lotada, o evento foi uma grande celebração do rock and roll dos anos 1990. Shirley Manson, com um figurino extravagante, como já é de costume, entregou uma apresentação memorável. Deu grande atenção para os dois primeiros álbuns da carreira, Garbage (1995) e Version 2.0 (1998), ambos com seis músicas cada no set. Ao longo dos 90 minutos de show, Shirley Manson não escondeu a alegria de reencontrar um dos públicos mais fiéis da banda. Totalmente recuperada da cirurgia que fez no quadril em 2023, ela falou sobre a “honra de ter o L7 na mesma turnê”, além de fazer discursos fervorosos de apoio à comunidade trans e minorias, mesmo em tempos tão sombrios no mundo. A sinergia entre Shirley e seus parceiros de longa data, Duke Erikson (guitarra), Steve Marker (guitarra) e Butch Vig (bateria) facilita muito o entendimento no palco. As canções soam como se estivessem sendo reproduzidas do álbum. O único empecilho nesse meio foi a mesa de som. No início da apresentação, principalmente, Shirley cobrou com gestos discretos uma melhora no som. A baixista Nicole Fiorentino, com passagens por Veruca Salt e Smashing Pumpkins, é a novidade. Caiu muito bem nessa formação e mostrando muita técnica nas linhas de baixo. No dia 30 de maio, o Garbage lançará o álbum Let All That We Imagine Be The Light, sucessor de No Gods No Masters (2021). Mesmo faltando pouco mais de dois meses para a chegada do disco, Shirley e companhia optaram por não testar nenhuma novidade em São Paulo. Para quem foi pela nostalgia, o show foi um prato cheio, com hits do início ao fim. Queer abriu a apresentação, que ainda contou com Vow, Special, Stupid Girl, Only Happy When It Rains (que há anos tem uma introdução mais acústica), I Think I’m Paranoid, Cherry Lips (Go Baby Go!), Push It e a conclusão com When I Grow Up. Aliás, When I Grow Up, foi responsável pela única frustração dos fãs, que esperavam que Shirley fosse para o meio da galera, tal como fez no Rio de Janeiro, na noite anterior, mas não rolou. No entanto, nada que tire o brilho da apresentação. O Garbage sabe como agradar o público brasileiro e faz isso como poucos. Certamente entregou um dos melhores shows da temporada. E ainda estamos em março. L7 esquenta público para o Garbage Em entrevista ao Blog n’ Roll, a vocalista e guitarrista do L7, Donita Sparks, já havia adiantado: o álbum Bricks Are Heavy teria grande destaque no repertório do show em São Paulo. Das 16 faixas, seis vieram do maior sucesso comercial do grupo, lançado em 1992. Instituição do punk rock californiano, o L7 está na estrada celebrando os 40 anos de carreira. E mesmo que lançar álbuns não seja mais uma prioridade, muito em função da falta de tempo e dinheiro, a banda segue com a mesma intensidade dos anos 1990, quando estreou no Brasil, no Hollywood Rock 1993. Donita Sparks, Suzi Gardner, Jennifer Finch e Demetra Plakas dividem o protagonismo ao longo do show. Com exceção da última, todas cantam pelo menos uma canção de destaque da discografia do L7. >> LEIA ENTREVISTA COM DONITA SPARKS, DO L7 Mas queria destacar a presença de Jennifer Finch ao longo da apresentação, que teve pouco mais de uma hora de duração. A baixista entrou no palco de salto alto, chutou longe antes de iniciar o show e passou os 60 minutos descalça, indo de um lado para o outro, interagindo com as integrantes da The Mönic, que estavam no pit, além de ter mostrado muita intensidade nas linhas de baixo e nos vocais. Logo após Fast and Frightening, música que encerrou o show, Jennifer calçou o salto novamente e foi embora. Em Pretend We’re Dead, maior hit da banda, Lovefoxx, vocalista do Cansei de Ser Sexy, subiu ao palco quase que no susto. Não parecia estar acreditando na situação e não soube nem o que fazer enquanto esteve ao lado de Donita, que a incentivou a cantar junto. Para os fãs foi um pouco decepcionante a entrada de Lovefoxx em cena. Na pista alguns se disseram frustrados com a não participação do Garbage no show do L7, como ocorreu na noite anterior, no Rio de Janeiro. Mas a mini tour do L7 com o Garbage no Brasil, que incluiu também shows no Rio de Janeiro e Curitiba, teve um gosto especial para as integrantes. Tal como havia comentado na entrevista para o Blog n’ Roll, Donita queria que Butch Vig, produtor de Bricks Are Heavy e baterista do Garbage, escutasse as canções 33 anos depois de sua gravação. Certamente ficou orgulhoso. O L7 soa atual e intenso tal como no início dos anos 1990. Edit this setlist | More Garbage setlists The Mönic A banda paulistana The Mönic foi a responsável por abrir os trabalhos no Terra SP. Com um show de 30 minutos, o grupo conseguiu mostrar um pouco de sua trajetória para um público que abraçou a banda do início ao fim. O show marcou o retorno de Daniely Simões, que havia sido substituída por Thiago Coiote em 2021. De volta à bateria, Daniely demonstrou muita alegria no banquinho, nem parecia estar longe do The Mönic há quatro anos. O repertório foi todo em cima do segundo álbum de estúdio, Cuidado Você, lançado em 2023. Foram sete das 11 músicas do disco no setlist. A oitava canção tocada no Terra SP foi Marte, single divulgado no ano passado. Aposta da Deck, a The Mönic tem em sua linha de frente Ale Labelle (guitarra e voz), Dani Buarque (guitarra e voz) e Joan Bedin (baixo e voz). E foi Dani quem mais colocou pilha no público, indo para o meio
“O Calendário do Rock Brasileiro”: Paulo Marchetti lança livro de efemérides musicais

Em 2025 o rock nacional completa 70 anos, e para marcar esses dados, Paulo Marchetti anunciou o lançamento do livro O Calendário Do Rock Brasileiro, que reúne uma coleção de efemérides com mais de 1.800 fatos dos mais diversos, que cobrem os 365 dias do ano, de 1º de janeiro até 31 de dezembro. Em O Calendário do Rock Brasileiro há dados curiosos, dados importantes, há os lançamentos dos grandes clássicos; os problemas entre polícia e artistas desde as confusões da Jovem Guarda, nos anos 1960, até a prisão dos integrantes do Planet Hemp, em 1997; os primeiros artistas de rock do Brasil como Bob Bolão, Betinho e Seu Conjunto, Ronnie Cord, The Snakes, The Clevers; os álbuns, festivais e toda história do progressivo e psicodélico de 1970, e os grandes nomes das gerações 80 e 90. O livro inclui ainda, uma cena alternativa desde os anos 1950. “Fazer sozinho um documento desse tamanho não foi fácil, é uma responsabilidade enorme, inclusive com os detalhes” , revela Marchetti, que lançou o livro de forma independente. “Cada dados traçado a busca de outras fontes precisava e possível encontrar dentro das minhas possibilidades. Não foi apenas pesquisa, foi também investigação. Ir atrás de cada artista, de cada década, de toda discografia de todas as cenas musicais, inclusive que envolve os formatos compactos e EP; pesquisar sobre os membros de todas as bandas desde 1955, isso em um período que a imprensa ainda não tinha arquivo digital, época em que o conteúdo da internet ainda estava sendo construído, e que linda idas a bibliotecas e bancos de dados de jornais; caça de conteúdo em sebos literários e de discos de vinil, enfim, todos os modos confiáveis que possam enriquecer minha coleção de efemérides”. O trabalho de Marchetti, que teve início em 1998 e complexidade, dedicação e muita personalidade, compilado em 358 páginas, a maior parte dos acontecimentos que escrevem a história do rock brasileiro, através do dia a dia, neste calendário, que é o 1º do gênero no Brasil. A pesquisa priorizou o período pré-internet, entre 1955 e 2000, mas há muitos acontecimentos importantes de 2000 a 2024. “Comecei a juntar algumas efemérides de forma curiosa, durante meus trabalhos de direção, pesquisa e texto na MTV Brasil, onde estive entre 1993 e 2000. Foi no arquivo da MTV que conheci livros que abordam unicamente efemérides do rock desde os primeiros ídolos do blues até aquele momento, início dos anos 1990” , conta o autor. Nascido em Piracicaba (SP) em 1970, Paulo Marchetti é diretor artístico e diretor de conteúdo para televisão e projetos especiais. Atualmente na TV Cultura, já passou pela MTV Brasil, SBT, Band, Discovery, History, Multishow, Disney e Record. Morou em Brasília (DF) de 1974 a 1987 e cresceu com a Turma da Colina, assistindo aos primeiros ensaios e shows de Plebe Rude, Capital Inicial e Legião Urbana. Formou os Filhos de Mengele em 1985, banda de punk rock da qual Digão foi baterista, antes de se dedicar aos Raimundos, já como guitarrista. Em 2001, Marchetti lançou seu primeiro livro, O Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília (Conrad, 2001 e Pedra na Mão, 2013). O livro faz parte do acervo da biblioteca da Universidade de Berkeley, na Califórnia (EUA), um dos poucos em língua portuguesa. De acordo com o autor, O Calendário Do Rock Brasileiro é um livro diferente, mas com farto conteúdo para as mídias que trabalham com música e cultura jovem. “Este não é um livro pra ficar na estante, mas sim em cima da mesa, para consultar diariamente. É um livro atemporal que vai deixar viva a memória do rock brasileiro em seus mínimos detalhes e que, com a distância do tempo, ganhará mais valor”, alerta. Livro: O Calendário do Rock Brasileiro (358 páginas)Autor: Paulo MarchettiEditora: Lançamento independentePreço: R$ 100,00 + R$ 15,00 (envio)Para comprar: calendárioiodorockbr@gmail.com
Entrevista | Mudhoney – “Por favor atualizem minha foto no Wikipedia”

Uma das bandas mais autênticas e influentes da geração grunge, o Mudhoney está prestes a chegar ao Brasil para apresentações em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Ainda há ingressos disponíveis. O último álbum do Mudhoney, Plastic Eternity (2023), será uma parte importante do repertório da apresentação, mas o setlist não está 100% definido. Segundo o vocalista, Mark Arm, a banda pretende cobrir diferentes fases da carreira, resgatando músicas do início e dos anos intermediários. “Temos 35 anos para cobrir. Trabalho duro”, brincou o artista em entrevista ao Blog n’ Roll. Além de falar sobre o show, Mark Arm relembrou uma situação inusitada que viveu no Brasil: durante uma passagem pelo país, ele percebeu que havia esquecido sua guitarra nos Estados Unidos, mas só se deu conta disso ao abrir o case vazio em São Paulo. “Imediatamente pensei que alguém tinha roubado minha guitarra”, contou. A solução foi improvisar com instrumentos emprestados, um dos quais aparece na foto de sua página na Wikipedia até hoje, fato que o incomoda bastante. Na mesma entrevista, Mark Arm compartilhou suas expectativas para os shows no Brasil e relembrou momentos marcantes da trajetória do grupo. Quais são suas expectativas para os shows no Brasil? Você já tem um set list definido? Não temos um set list pronto em particular, mas temos uma ideia geral e esperamos nos divertir. Pretende priorizar algum álbum? Tocaremos uma boa quantidade de músicas do último disco, Plastic Eternity, mas tocaremos coisas dos primeiros álbuns e dos anos intermediários. Temos 35 anos para cobrir, é um trabalho duro. Você se recorda de alguma história memorável no Brasil? Você já veio com o Mudhoney e também com o MC5. Uma vez voamos para cá e eu tinha um case de guitarra muito pesado, tipo um case tipo bigorna com metal ao redor. E estávamos na passagem de som em São Paulo e abri meu case e ele estava vazio. Eu imediatamente pensei que alguém tinha roubado minha guitarra. E fiquei, tipo, puta merda. Então meio que me recompus, isso foi antes de ter um celular que ligasse para o exterior e confirmasse. O André Barcinski (jornalista) me ajudou a ligar para casa e perguntei para minha esposa se ela poderia descer e dar uma olhada na sala da banda. E lá estava a guitarra. O case era tão pesado que não percebi que não tinha uma guitarra dentro. E como você conseguiu tocar? Tive que pegar emprestada as guitarras das pessoas. Na foto principal da minha Wikipedia estou com uma das guitarras emprestadas daquela turnê, uma SG. Eu não tenho uma SG, toco com uma Gretsch, por favor atualizem essa foto. Foi uma estupidez da minha parte esquecer essa guitarra. Mudhoney sempre foi uma das bandas que representou o grunge de uma forma mais autêntica e crua. Como você descreveria a evolução do som da banda desde o começo até hoje? No começo, nós apenas pensávamos em nós mesmos como uma espécie de banda punk rock e underground, nós não pensávamos nessa coisa chamada grunge. Isso nem era uma coisa que existia em termos de marketing ainda. Nós apenas sentíamos que fazíamos parte daquela tradição underground realmente ampla que incluiria Butthole Surfers, Sonic Youth, Big Black, The Replacements, entre outras. Quero dizer, essas são algumas das bandas mais conhecidas, mas tinha também Killdozer e Scratch Acid, além de muitas australianas como Feedtime, The Beasts of Suburban, The Scientists e Cosmic Psychos. Essas eram as coisas com as quais sentíamos afinidade. Assim como nossos amigos em Seattle, Portland e Vancouver. Seattle foi o centro das atenções entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990. Você acha que um novo movimento de bandas como o grunge é possível hoje? Eu não sei. Claro, tudo é possível. Para muitos críticos musicais, Mudhoney é o padrinho do grunge. Você acha que Nirvana, Alice in Chains, entre outros, teriam existido sem vocês? Sim, Alice in Chains estava em um caminho diferente. Quer dizer, eles começaram em meados dos anos 80. Pelo menos esse nome estava por aí, sabe, eles não mudaram o som. Acho que originalmente eram mais como uma banda de glam metal. O Soundgarden existia bem antes do Mudhoney começar. Eles eram contemporâneos do Green River. As pessoas estariam tocando música, quer existíssemos ou não. Mas o Mudhoney tem uma grande influência nessa geração de músicos, mesmo soando diferente, certo? Sim, acho que há muitas bandas de Seattle que soam diferentes o suficiente para nós. Pearl Jam, que são grandes amigos nossos, eles não soam como nós. Então talvez nós os influenciamos de uma forma que eles disseram: ‘nós não queremos soar assim. Isso não nos levará a lugar nenhum’. (risos) A morte de Kurt Cobain foi o começo do fim do grunge ou houve outros fatores que contribuíram para a perda de força da cena? Sim, tenho certeza. Essa foi uma lápide fácil de colocar e não acabou com nada para mim. Só me deixou terrivelmente triste. A energia do Mudhoney no palco é uma das mais comentadas sobre coisas dos fãs. O que você sente quando está no palco? É difícil colocar em palavras o que sentimos. É só que não consigo realmente analisar e destilar em algo que seja, mas é um show muito bom e o público gosta, então, nós nos alimentamos uns dos outros. Como se sentíssemos a energia deles. Espero que eles sintam a nossa. E isso meio que, conforme o show avança, fica meio mais forte e intenso. Esse é o marcador de um ótimo show. Como essa experiência ao vivo evoluiu ao longo dos anos? Ficamos muito mais velhos, não sou nem de longe tão flexível quanto costumava ser. Minhas articulações doem de vez em quando. Dói meu tornozelo e meu quadril. Não quero ter uma conversa de velho, onde fico sentado e reclamando, mas realmente me dói toda vez que acordo. Mas, por exemplo, acho que quando você envelhece, tem um entendimento melhor disso. Quando você é mais
Entrevista | L7 – “Seria muito horrível se aquele avião virasse”

Prestes a desembarcar no Brasil pela quarta vez, a banda californiana L7 acompanhará o Garbage em sua turnê pelo País a partir da próxima semana. Os shows acontecem nos dias 21, 22 e 23 de março, no Rio de Janeiro (Sacadura 154), São Paulo (Terra SP) e Curitiba (Ópera do Arame), respectivamente. A banda The Mönic fará a abertura dos eventos em São Paulo e Curitiba. Ainda há ingressos disponíveis. O grupo, formado por Donita Sparks, Suzi Gardner, Jennifer Finch e Demetra Plakas, não lança um álbum de inéditas desde 2019, quando divulgou Scatter the Rats. No entanto, gravar um sucessor não está nos planos. A ideia é seguir excursionando e tocando seus principais sucessos. As apresentações no Brasil, inclusive, devem ser focadas no maior sucesso comercial da banda, Bricks Are Heavy, de 1992. Sons novos também estão nos planos. Em entrevista ao Blog n’ Roll, a vocalista e guitarrista Donita Sparks falou sobre a expectativa para os shows, as lembranças da icônica passagem da banda pelo Hollywood Rock de 1993 e a relação com o produtor Butch Vig, responsável pelo álbum Bricks Are Heavy. Além disso, Donita comentou o atual cenário político dos Estados Unidos e a dificuldade de produzir novos álbuns de estúdio. Confira a entrevista completa abaixo. Como está a preparação para os shows no Brasil? Set já está definido? Hoje (dia 13) à noite é nosso primeiro ensaio para os próximos shows no Brasil. Então, ainda não temos o set list. Vamos trabalhar nisso hoje à noite. Mas vou te dizer que vamos adicionar algumas músicas novas no set que não tocamos no Brasil. Isso vai ser emocionante. No entanto, também temos uma baterista que acabou de fazer uma cirurgia no joelho em janeiro. Então, temos que ser muito eficientes com o que escolhemos, porque ela não pode tocar muito agora. Mas vocês pretendem priorizar algum álbum? Sim. Nós, provavelmente, tocaremos a maioria das músicas do Bricks Are Heavy, foi o nosso maior disco de todos os tempos. Além disso, Butch Vig, do Garbage, produziu esse disco. Gostaríamos que ele ouvisse algumas dessas músicas ao vivo. Depois de todo esse tempo, nós sempre tocamos mais coisas do Bricks Are Heavy do que nossos outros discos. Nós estamos realmente ansiosas para tocar com o Garbage. Nós conhecemos esses caras, conhecemos Butch há décadas. E os outros caras da banda estavam acostumados a trabalhar com Butch quando gravamos Bricks Are Heavy. Isso é muito emocionante. Conheci Shirley há cerca de dez anos e ela é muito divertida de se conviver. Apesar dessa relação, nós nunca tocamos com o Garbage antes. Você comentou sobre o Butch Vig. O quão importante ele foi para o sucesso do Bricks Are Heavy? Ele é um excelente produtor. E ele também não é um idiota, é uma pessoa muito legal, tem um bom senso de humor, além de ser muito diplomático em sua abordagem trabalhando com músicos. Alguns produtores são tiranos, simplesmente horríveis. Tivemos sorte de não termos trabalhado com nenhum desses tipos de pessoas. Butch não apenas é um cara legal, mas trouxe sons de guitarra realmente ótimos e agressivos, e também encorajou nosso lado melódico, nos encorajou a explorar isso um pouco mais do que outros produtores fizeram. E vocês planejam trabalhar juntos novamente? Ah, não agora. Butch é muito caro, não podemos pagar Butch. Você sabe o que quero dizer? Ele é um grande negócio, nós não somos. Não temos dinheiro para Butch Vig. Teríamos que ser um projeto de caridade dele para trabalharmos juntos. Eu adoraria em algum momento trabalhar com ele, mas isso está muito distante hoje. Uma das memórias mais marcantes que tenho do L7 no Brasil foi a apresentação no Hollywood Rock, em 1993. Você se lembra dessa primeira vez no país? Foi muito emocionante! Estávamos no mesmo avião com o Nirvana, Alice in Chains, Red Hot Chili Peppers… Quando voamos de São Paulo para o Rio, todas as bandas estavam naquele voo. E aquele voo, quando pousou, quase virou, foi realmente assustador. Imagina isso? Seria muito horrível se aquele avião virasse, todo mundo estava naquele avião. No fim, deu tudo certo e nós fomos ao show, mas foi bem assustador. Não esperávamos a recepção positiva do público no festival, foi muito legal. Meu Deus! Que horror essa situação Muito! Nós pousamos de lado, estávamos quase fora de nossos assentos. A inclinação era tão intensa. Nós estávamos totalmente apavorados, todos os músicos, mas os roadies estavam rindo, achando tudo divertido. Mas você acha que antes desse incidente foi divertido, estar todos juntos no mesmo avião? Nós saímos mais com o Nirvana, mas também um pouco com o Layne Staley (ex-vocalista do Alice in Chains), ele era muito divertido, essas lembranças que ficam. O L7 sempre foi muito associado ao grunge. Mas acho que é um erro, já que vocês vieram antes do movimento. Isso é algo que te incomoda? Não me incomoda mais. Acho que talvez na época incomodasse, só porque achava que era um jornalismo preguiçoso nos colocar todos juntos daquele jeito. Mas todo mundo precisa de uma porra como essa. Tenho certeza de que bandas que eram chamadas de punk também não gostavam do rótulo. O mesmo acontecia com a new wave. O feminismo sempre esteve presente na história do L7. Você acha que os tempos mudaram se comparado com o início da carreira do L7? Cresci com o feminismo na década de 1970, minha mãe e irmãs eram feministas, isso faz parte do meu DNA. Mas meu pai era feminista também. Então, cresci com direitos ao aborto na minha casa. E o direito ao aborto foi aprovado nos Estados Unidos em 1973 ou algo assim. Portanto, agora, o aborto só ser legal em alguns lugares dos Estados Unidos é muito bizarro para mim, muito doloroso. Nós temos um presidente fascista, isso também é inacreditável. É foda o que está acontecendo aqui. Em momentos como este, só tenho que fazer o que faço como artista, essa é minha contribuição. Vou continuar fazendo música, vamos
Com integrantes do Skank e Jammil, Trilho Elétrico aposta em mix de gêneros; leia entrevista

Depois de décadas como baixista do Skank, Lelo Zaneti resolveu embarcar em um novo desafio musical com a banda Trilho Elétrico. O grupo, que mistura influências de MPB, rock, reggae e pop, reúne músicos experientes de diferentes vertentes, como integrantes do Jammil e da cena do reggae baiano. Em entrevista ao Blog n’ Roll, Lelo falou sobre a formação da banda, a sonoridade e os planos para o futuro. Formada pelos mineiros Lelo e Rodrigo Borges (herdeiro e atual representante do Clube da Esquina) e os baianos Manno Góes (Jammil e Uma Noites) e Lutte (ex-vocalista da Mosiah), a banda Trilho Elétrico tem como objetivo criar um som que transite em diferente gêneros. Até o momento já lançou um álbum (homônimo, de 2023) e alguns singles. “Acho que tem algumas pontas que se conectam. Por exemplo, quando ensaiamos músicas do Jammil para um show, percebi que a condução do baixo poderia remeter a algo meio Paralamas do Sucesso. Esse ensaio nos levou a resultados muito interessantes, onde você se pergunta: ‘Isso é Jammil, Paralamas ou Skank?’. São linguagens que acabam se aproximando naturalmente”, explicou o baixista. A forte conexão da banda com a cena musical da Bahia também é um diferencial. Segundo Lelo, o Skank já participou de muitos eventos de axé e sempre teve afinidade com o ritmo. Além disso, o Trilho Elétrico tem integrantes que vêm do reggae baiano, como Lutte, da Mosiah, um fenômeno local. “A Bahia é um celeiro musical muito poderoso. Lá, a gente vê o brilho nos olhos das crianças quando elas enxergam algo relacionado à música. Tocamos no Carnaval de rua e nas praças do Pelourinho, onde há uma circulação forte de estrangeiros e do público jovem. Então, houve toda uma pesquisa e experimentação para chegarmos na identidade do Trilho Elétrico.” “Plot Twist” e a nova fase da Trilho Elétrico O primeiro single do Trilho Elétrico em 2025, Plot Twist, já começou a ganhar destaque, entrando em playlists editoriais do Spotify. A canção traz uma mescla de pop, reggae e MPB, refletindo a diversidade sonora do grupo. “O arranjo da música foi feito com muito cuidado. Gravamos no estúdio do Chico Neves, que trabalhou com Paralamas, Skank e até Peter Gabriel. Ele conseguiu tirar um som incrível. No final, percebemos que Plot Twist nasceu de forma muito natural, parecia que já estava dentro de nós”, contou Lelo. A estratégia da banda para os próximos lançamentos segue uma tendência do mercado digital: em vez de lançar um álbum completo de uma vez, o grupo pretende soltar singles ao longo do ano. “A leitura do digital hoje é essa: lançar quatro ou cinco singles por ano. Isso mantém o público sempre com novidades e favorece o engajamento nas plataformas. Nos anos 60, os Beatles impulsionaram o formato de singles. Depois, o Led Zeppelin veio e resgatou a força dos álbuns. Agora, voltamos a uma era onde os singles dominam de novo. A música precisa se adaptar ao tempo”, refletiu. Com uma forte presença em festivais e no circuito independente, o Trilho Elétrico quer expandir ainda mais seu alcance. Segundo Lelo, um dos objetivos é entrar em circuitos como o do Sesc, que oferece estrutura e visibilidade para artistas de diversos gêneros. “A gente tem que entrar em circuitos que mostram o trabalho para um outro público. O Sesc, por exemplo, é um espaço que permite um amadurecimento do som. O Emicida fez isso muito bem. É um projeto de longo prazo, mas estamos no caminho certo”, afirmou. Enquanto isso, o Trilho Elétrico já está de olho nos próximos lançamentos e até em colaborações especiais. “Estamos prospectando convidados para o próximo single e a ideia é seguir nessa linha do Plot Twist, algo que o brasileiro tem na veia. O primeiro disco teve um som mais aberto, com participações de Daniela Mercury, Tony Garrido e Luiz Caldas. Agora, queremos consolidar essa identidade pop rock e seguir lançando novas faixas ao longo do ano.”