Entrevista | Chained Saint – “Dividir o palco com o Sepultura é extremamente gratificante”

A turnê de despedida do Sepultura ganha mais um capítulo histórico neste sábado (7), em São Paulo. O Suhai Music Hall recebe os veteranos do metal brasileiro para uma apresentação final. Entre os momentos mais aguardados da noite, a data reserva um encontro geracional de peso, a participação especial dos norte-americanos do Chained Saint dividindo o palco com Andreas Kisser e companhia. Formado no sul da Flórida, o quarteto, formado por Sean Sterling (vocal), Ethan Kahn (guitarra), Sebastian De Avila (baixo) e Cameron Cottrell (bateria), despontou como uma das revelações mais promissoras da cena pesada internacional. Com uma sonoridade que resgata a urgência do thrash metal oitentista aliada ao peso moderno, o Chained Saint gravou seu disco de estreia, Blindside (2024), 100% em fita analógica sob a produção de William DuVall (Alice in Chains). O talento precoce e a atitude visceral logo chamaram a atenção de nomes consagrados do gênero, entre eles, o próprio Andreas Kisser, que chegou a classificar a banda publicamente como um “mini Sepultura” e subiu aos palcos de festivais europeus vestindo a camiseta do grupo. A relação construída nos bastidores de turnês e festivais pelo mundo se materializa agora diante do público paulistano. Em passagem pela capital paulista para o show, o vocalista Sean Sterling e o guitarrista Ethan Kahn conversaram com o Blog n’ Roll e contaram em detalhes os bastidores dessa conexão com Kisser, a vivência no pit assistindo aos ídolos, a opção pelo som analógico e a produção autônoma do recém-lançado EP Rise to Fall. Confira a entrevista completa e saiba o que esperar dessa união de gerações no palco do Suhai Music Hall. Qual é o sentimento de compartilhar o palco e se apresentar ao lado do Sepultura neste show histórico de despedida aqui em São Paulo? Ethan Kahn: Bem, primeiro, para mim, o último show no México em que toquei com eles já foi um momento que nunca vou esquecer pelo resto da minha vida. E agora, ser convidado para tocar aqui no Brasil e fazer parte da história de verdade, da verdadeira história do metal… Essa é uma das maiores bandas a fazer isso, uma das melhores. Poder estar com esses caras, dividir o palco e fazer isso de novo é extremamente gratificante, e estou muito agradecido por estar aqui. Sean Sterling: E nós finalmente chegamos ao Brasil! Tipo, estamos aqui e vai ser incrível, vai ser um grande momento. Como surgiu a conexão com o Andreas Kisser depois que ele usou a camiseta da Chained Saint no palco do Leyendas del Rock, levando a essa apresentação juntos? Ethan Kahn: Tem toda uma história por trás disso. Primeiro, tocamos com o Metal Allegiance, e, a propósito, vamos vê-los novamente, um salve para o Mike Portnoy e para todo mundo da banda. Nós estávamos fazendo aquele show em Anaheim durante a NAMM. O Andreas faz parte do Metal Allegiance e nós éramos a banda de abertura, claro. Durante o nosso set, olhei para a minha direita e ele estava simplesmente sentado ali assistindo na lateral do palco, provavelmente só se aquecendo. Acho que ele estava fumando um baseado, só relaxando antes de tocar. Ele estava curtindo ali. Eu já estava usando uma camisa do Sepultura, aquela camisa do Brasil com o logo da banda. E aí tocamos Propaganda naquele show. Foi isso o que desencadeou tudo, porque depois disso tem até vídeo dele gravando no celular e falando tipo “isso aí, porra!”. A partir dali ele virou fã, conversamos com ele e demos aquela camiseta. Lembro que no Leyendas del Rock nós fizemos nosso show e eles provavelmente começaram assim que a gente terminou. Nós literalmente saímos correndo para o palco deles porque ouvimos Inner Self e eu pensei: “Beleza, preciso correr até lá porque essa música é incrível”. E aí nós o vimos usando a camiseta do Chained Saint e ficamos tipo: o quê?! Isso é insano! Muito foda. Ficamos extremamente felizes com esse apoio dele, e foi muito legal vê-lo usando a camiseta também com o Mr. Bungle, além de vê-lo por aí nos apoiando e falando de nós para as pessoas. Somos muito gratos. O que levou o Chained Saint a gravar o álbum de estreia 100% em fita analógica com o William DuVall, evitando completamente os computadores? Sean Sterling: Computadores são uma merda. Que se foda a Inteligência Artificial! (risos) Ethan Kahn: Na real, tudo se resumiu ao que queríamos soar, e queríamos soar como aquilo que nos inspirou a compor essas músicas em primeiro lugar. O William sugeriu a fita e, no início, nós não estávamos muito nessa vibe de “ah, sim, esse é o caminho, é isso que temos que fazer”. Mas assim que começamos o processo, percebemos que aquele era o método. Era exatamente assim que iríamos alcançar a sonoridade que buscávamos. A gente nem sabia como chegar nisso porque éramos todos muito jovens e nunca tínhamos gravado em fita antes. Foi algo novo, mas com certeza a decisão certa, e fico muito feliz por termos feito isso, porque não dá para superar aquele timbre quente e encorpado. Simplesmente não tem como. Sean Sterling: Foi provavelmente a melhor escolha para aquele disco. O que mudou na dinâmica da Chained Saint quando vocês mesmos assumiram a produção no EP Rise to Fall? Sean Sterling: Controle total e absoluto! (risos) Brincadeira, era piada. Na realidade, nada mudou de fato na dinâmica da banda em si, mas foi mais no sentido de que tudo o que tínhamos aprendido com o William… as rodinhas da bicicleta caíram e nós assumimos o controle. Claro que tínhamos o Rob Roy com a gente como coprodutor, tomara que ele veja isso, e ele esteve lá para nos orientar e nos ajudar a alcançar aquele som. Mas na verdade nós já sabíamos o que queríamos e entendíamos do assunto. A partir dali, quando entramos no estúdio, virou mais: “Beleza, como conseguimos aquele som? O que a gente usa para atingir essa sonoridade?”. Obviamente este trabalho não foi gravado em fita, mas
Entrevista | Ocean Alley – “O Brasil também tem uma relação muito forte com o litoral e o surf “

Pouco mais de um ano após esgotar a Audio com uma estreia eletrizante em São Paulo, o Ocean Alley está de volta ao Brasil para uma turnê ainda mais abrangente. Consolidado como um dos maiores fenômenos do rock psicodélico e costeiro da Austrália, somando mais de 1,5 bilhão de streams, o sexteto desembarca no país nesta semana com apresentações no Rio de Janeiro (05/11, no Circo Voador), Porto Alegre (07/11, no Bar Opinião) e São Paulo (08/11, retornando à Audio). A nova passagem celebra o sucesso de Love Balloon, quinto disco de estúdio da Ocean Alley. Gravado sob a produção do lendário Nick DiDia (Bruce Springsteen, Rage Against The Machine) e lançado de forma 100% independente pelo selo próprio do grupo, o Community Music, o álbum levou o grupo ao topo das paradas australianas e impulsionou a maior turnê de sua carreira até aqui. O trabalho transita com naturalidade entre o funk suingado à la Nile Rodgers, o blues rasgado e o clima ensolarado e nostálgico das guitarras slide, atmosfera traduzida com perfeição no single Drenched. Direto de Buenos Aires, na concentração para o início da perna sul-americana da turnê, o guitarrista Mitch Galbraith conversou com o Blog n’ Roll sobre a conexão imediata com o público brasileiro, os bastidores da produção com Nick DiDia, a autonomia artística do grupo e a expectativa para os shows desta semana. Confira o bate-papo na íntegra a seguir: Vocês esgotaram a Audio em São Paulo no ano passado e agora voltam tocando no Rio, em Porto Alegre e em São Paulo. O que mais marcou naquele primeiro show do Ocean Alley no Brasil para trazê-los de volta tão rápido? Fizemos um grande show aquela noite. A casa estava super cheia, e o local lá é muito legal. E, claro, o público brasileiro foi barulhento e estava se divertindo muito. Então, quer dizer, por que não voltaríamos tão rápido? Estamos muito animados para tocar aí de novo. Sim, é verdade. E Mitch, como foi trabalhar com o lendário produtor Nick DiDia em Love Balloon, e de que forma ele incentivou a Ocean Alley a buscar um som mais cru e espontâneo? Foi muito bom trabalhar com o Nick. Essa foi a primeira vez que trabalhamos com um produtor diferente, então foi um pouco estressante no começo, especialmente porque sabíamos que o currículo dele era enorme. Mas foi bem divertido. Ele era super tranquilo e não ficava tentando nos dizer o que fazer. Ele apenas oferecia as opiniões dele como um membro da equipe. O conhecimento e o ritmo de trabalho dele foram realmente impressionantes, e isso com certeza nos deu tempo para continuar lapidando as ideias que tínhamos, até mesmo na hora de gravar dentro do estúdio. Então, foi muito legal. O Lach descreveu o tema do disco como um “rio do amor”, cobrindo da alegria à desilusão. Como os marcos pessoais recentes de vocês moldaram as composições desta vez? Antes de começarmos a compor esse disco, a vida de todos nós estava mudando de certa forma. Vários de nós estavam começando famílias, mudando de casa e se estabelecendo em regiões diferentes de onde crescemos originalmente, em Sydney. Então acho que todos nós aproveitamos essas experiências e tentamos refletir nossos estados de espírito e sentimentos atuais na música. Foi um processo de composição muito colaborativo, com contribuições de todo mundo. Naturalmente, é isso que os artistas fazem: eles tendem a refletir seus humores e sentimentos do momento na sua arte. Love Balloon vai do funk à la Nile Rodgers na faixa-título ao blues em Left Of The Dealer e slide country em Drenched. Vocês planejaram explorar tantos gêneros ou isso fluiu organicamente nas jams? Nós sempre tivemos uma vontade de explorar gêneros diferentes, mas acho que ainda não tínhamos colocado isso em um disco. Então, quando as músicas começaram a sair dessa forma, nós abraçamos o fato de que algumas delas se encaixavam em certos estilos e fomos nessa direção. Foi algo libertador podermos finalmente fazer isso, porque ao longo de todos esses anos juntos, nos aquecimentos, ensaios e jams, a gente sempre experimentava vários estilos por diversão. Poder registrar isso em um álbum foi algo que nos deixou muito amarradões. Por que escolher Drenched tanto como a faixa de encerramento do álbum quanto como o single principal de divulgação? Drenched foi a última faixa que escrevemos. Faltavam poucos dias de estúdio, quando praticamente já tínhamos terminado de gravar o disco inteiro. Aí decidimos compor Drenched. O Baden teve uma ideia para alguns acordes e a música tomou forma muito rápido, acho que levou só um ou dois dias para criar a canção inteira. Decidimos que seria um ótimo encerramento porque ela tem uma pegada meio nostálgica, e o Baden tocou violão de 12 cordas nela. Sentimos que deu um arremate bonito para o disco, bem suave. É uma faixa com muito significado para a gente, porque fala da nossa nostalgia de quando crescemos juntos como crianças e coisas do tipo. Achamos que fechou o álbum muito bem. A minha próxima pergunta era justamente sobre essa nostalgia. O quanto o clipe reflete a própria juventude de vocês crescendo nas praias do norte de Sydney? É bem parecido com o que fazíamos, essa era a proposta do vídeo. O diretor com quem trabalhamos viajou até Sydney, voltou para a área onde crescemos, para pesquisar um pouco, conversar com as pessoas, visitar locais onde costumávamos ficar à toa e captar algumas imagens. Não sei se muito desse material entrou na edição final, mas o Duncan mandou muito bem nisso. Foi um direcionamento simples: ele perguntou o que a gente fazia quando era garoto, e nós respondíamos que era basicamente surfar, andar de skate e ficar de bobeira fazendo besteira. Foi um roteiro bem fácil para ele e retrata com muita fidelidade como crescemos juntos e como nos conhecemos antes da banda existir. Mitch, depois de arrastar mais de 80 mil fãs em arenas na Austrália e Nova Zelândia, o que mais anima a Ocean Alley
Entrevista | Rodrigo Cerveira – “A beleza de ser um artista solo é a possibilidade de fazer o que quiser na própria obra”

Após apresentar sua estreia com Life e consolidar parcerias de peso como o duo Silver, ao lado de Felipe Machado (Viper), o cantor e compositor Rodrigo Cerveira dá um passo definitivo em sua trajetória solo com o lançamento de The Searcher. Produzido por Val Santos, o segundo álbum chega às plataformas digitais canalizando uma veia muito mais visceral e direta, na qual a urgência do punk californiano e do pós-punk se funde a melodias marcantes e guitarras enérgicas. No centro da obra reside o movimento contínuo de deixar o passado para trás e abraçar novas descobertas. Esse ímpeto se reflete tanto na potência de faixas urgentes quanto em momentos de engajamento e sensibilidade. Um dos grandes destaques é Animals, faixa que conta com solo avassalador de Andreas Kisser (Sepultura) para denunciar a violência contra a mulher, projeto cuja arrecadação de direitos autorais e de streaming é revertida diretamente para ONGs de apoio e acolhimento a vítimas. O disco ainda reserva homenagens e contrastes bem calibrados: a faixa-foco traz uma releitura intimista de Say Hello 2 Heaven, clássico do Temple of the Dog, celebrando Chris Cornell como bússola vocal, além da densa balada acústica Rolling Dice, com violão solo de Hugo Mariutti (Shaman). Para completar o momento, Cerveira já estrutura a nova fase nos palcos acompanhado por Claudio Leal (guitarra), Daniel Botelho (baixo) e Fred Zara (bateria). Em entrevista exclusiva, Rodrigo Cerveira detalha o processo de composição e produção de The Searcher, comenta os bastidores das participações especiais e reflete sobre o papel transformador da arte diante de temas urgentes. Confira a íntegra da conversa a seguir: Antes de mais nada, parabéns pelo álbum The Searcher. Achei o trabalho incrível, especialmente as faixas com pegada mais punk como a faixa-título, Sad Girl e Animals, que ficou sensacional. O que você estava procurando, em termos pessoais e artísticos, quando começou a compor esse disco? Muito obrigado pela oportunidade de conversar. Fico muito feliz que tenha gostado do som. Eu comecei há pouco tempo nessa trajetória solo: meu primeiro disco, Life, saiu em 2023, seguido pelo EP Save The Fire. Depois fiz um projeto com meu grande amigo Felipe Machado, o Silver. Paralelamente, já compunha as músicas que se tornariam o meu próximo álbum solo, The Searcher. A música nasce muito de um lugar em que acredito profundamente: precisamos estar sempre abertos a novas experiências, descobertas e aprendizados. Ficar estagnado no mesmo lugar, repetindo sempre a mesma rotina, tende a nos deixar desanimados e sem rumo. O conceito de The Searcher é justamente abraçar o novo com empenho e entusiasmo. Quando nos abrimos a novas vivências, evoluímos pessoal e psicologicamente; nos tornamos pessoas melhores. O refrão sintetiza isso: deixar o passado para trás e libertar a alma para viver uma nova fase. Nota-se uma proposta diferente em relação ao seu álbum de estreia, com influências mais evidentes de punk, pós-punk, grunge e até uma releitura de Temple of the Dog. Como foi essa transição musical do primeiro para o segundo trabalho e quais referências moldaram essa virada sonora? O rock sempre esteve presente na minha trajetória. Fui criança nos anos 1980 e lembro da minha mãe tocando Hit the Road Jack, do Ray Charles, enquanto eu brincava de tocar guitarra com uma raquete de tênis. Meu pai era baterista focado em jazz e em casa sempre se ouviu muita música. Na adolescência, comecei a andar de skate, uma cultura intrinsecamente ligada à música. Naquela época, o punk californiano estava em alta com Dead Kennedys, Black Flag e Misfits, somado ao movimento new wave de bandas como Devo e The B-52’s. Isso ficou gravado no meu DNA. Mais tarde, fui absorvendo rock inglês, heavy metal clássico como Iron Maiden e Black Sabbath, além de Led Zeppelin. É um caldeirão amplo. Componho basicamente no violão, o que me faz estruturar as canções a partir da melodia. O grande desafio surge na hora de definir os arranjos. O primeiro álbum teve um tom mais acústico em várias faixas justamente por essa gênese, embora já contasse com sons diretos como Today e We Are The Hurricane. Para este segundo disco, decidi assumir uma pegada mais pesada, voltada ao hardcore e ao punk californiano, que refletem melhor a minha essência. Eu me considero um vocalista acima de tudo. Por isso, prezo muito por melodias bem construídas e interpretações fortes, sem abrir mão da crueza e da energia do punk. Uma grande referência para mim é o Chris Cornell, capaz de aliar técnica, potência e nuances emotivas. Decidi fazer um disco com essa sonoridade mais robusta, mantendo apenas uma balada acústica e trazendo uma homenagem ao Temple of the Dog totalmente descolada da versão original. Em Say Hello 2 Heaven, quis fugir do padrão habitual. Fiz uma versão mais despojada (stripped), com vocal sem drive e clima quase intimista de blues, deixando o arranjo crescer em intensidade até um desfecho épico. Já a faixa acústica Rolling Dice nasceu no violão com forte inspiração na poesia sóbria e nos graves de Leonard Cohen. Convidei o Hugo Mariutti para gravar o violão solo e a química foi imediata; ele imprimiu uma identidade brilhante à canção. Chama a atenção essa versatilidade: você transita da energia crua do início do disco até a modulação mais intimista e contida de Rolling Dice, além de encarar o repertório de Chris Cornell. Como você enxerga o trabalho da voz e a dinâmica de surpreender o ouvinte dentro de uma mesma obra? Para mim, o mais importante na música é transmitir energia e autenticidade. O próprio Chris Cornell exemplificou muito bem essa evolução: começou cantando sempre nos limites dos agudos no Soundgarden e, aos poucos, foi refinando nuances e quebras de dinâmica sem comprometer a força melódica. Gosto dessa variedade. Não aprecio vocais lineares, onde todas as faixas soam previsíveis. Dentro de um disco, criar essas alternâncias é essencial: você abre com a voltagem alta de The Searcher, Sad Girl e Animals, e de repente insere o recolhimento acústico de Rolling Dice, apoiado apenas em voz,
Catarse política e sonora marca estreia do Kneecap no Cine Joia

Poucas bandas no cenário contemporâneo provocam reações tão impactantes quanto o trio norte-irlandês Kneecap. Conhecidos por rimar primariamente em irlandês (Gaeilge) e por adotar uma postura anti-imperialista inflexível, Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí transformaram o hip-hop em trincheira de resistência republicana, anticolonialista e pró-Palestina. Essa postura combativa cobra seu preço: o grupo já enfrentou censura governamental e tentativas judiciais de veto a repasses de fomento cultural no Reino Unido, além de episódios mais drásticos, como a detenção de Mo Chara sob a draconiana Lei de Terrorismo britânica após uma polêmica sobre a exibição de uma bandeira do Hezbollah durante uma apresentação em Londres, no final de 2024. Reduzir o Kneecap ao ativismo panfletário, contudo, seria um erro grosseiro. Musicalmente, a performance do trio no Cine Joia, em São Paulo, provou que a força do projeto reside na confluência rítmica implacável: há a malícia e a dinâmica coletiva dos Beastie Boys, o peso urgente e rebelde do Rage Against the Machine e as batidas aceleradas de techno, big beat e rave que remetem ao ápice do The Prodigy e do Underworld. O punk, o rap e a música eletrônica colidem com precisão milimétrica. Encerrando a perna sul-americana da turnê, que passou por México, Colômbia, Argentina e Chile, a estreia no Brasil, na noite da última sexta-feira (23), caiu em momento emblemático: a antevéspera da votação das eleições. No Cine Joia, a atmosfera carregada transformou a pista em uma grande assembleia de catarse coletiva. Kneecap fez show bem político e intenso Enquanto DJ Próvaí comandava as bases escondido atrás de sua icônica balaclava tricolor (nas cores verde, branco e laranja da bandeira irlandesa), o telão disparava ataques visuais diretos a figuras históricas e atuais da direita e do conservadorismo internacional, como Margaret Thatcher, Benjamin Netanyahu e Donald Trump. O contraponto veio com a projeção de “Bora Lula” e os integrantes fazendo o “L”, gesto recebido por um coro ensurdecedor de “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”. Camisetas, bonés e bandeiras pró-governo arremessados ao palco foram empunhados pelo trio com muito entusiasmo. Em 1h20 de intensidade contínua, o grupo desfilou 22 faixas. A espinha dorsal do repertório se apoiou no aclamado álbum Fine Art (2024), que consagrou o grupo globalmente com produção refinada de Toddla T, e em canções do trabalho seguinte, Fenian (2026), que reforça a identidade republicana histórica da banda. Houve espaço ainda para resgates pontuais do debut 3cag (2018), com a debochada Your Sniffer Dogs Are Shite, e para hinos de pista como H.O.O.D, recebida sob moshpits frenéticos. O aquecimento, com a gravação de Favourite dos conterrâneos do Fontaines D.C. cantada em coro pelo público, e o encerramento ao som da clássica gravação antifascista Bella Ciao emolduraram perfeitamente a noite. O cartão de visitas do Kneecap no Brasil foi impecável: som alto, discurso afiado, zero concessões comerciais e conexão genuína com o público local. Uma banda pronta tanto para incendiar palcos de grandes festivais quanto para transformar clubes fechados em verdadeiros caldeirões. Setlist — Cine Joia, São Paulo (23/10) Intro (PA): Favourite (Fontaines D.C.) Outro (PA): Bella Ciao
Entrevista | Opeth – “Estar no palco e vivenciar isso traz uma sensação indescritível”

Consagrado como um dos nomes mais vitais e imprevisíveis do metal progressivo global, o Opeth está de volta ao Brasil no início de novembro para encerrar o ciclo do The Last Will & Testament. Desta vez como atração principal, o quinteto sueco sobe ao palco da Ópera de Arame, em Curitiba (5/11), e do Espaço Unimed, em São Paulo (6/11), trazendo uma produção visual completa e um repertório que ultrapassa as duas horas de duração. Lançado com enorme impacto crítico e vencedor do prestigiado Grammis sueco de Melhor Álbum de Hard Rock/Metal, The Last Will & Testament é o 14º trabalho de estúdio do grupo e o primeiro totalmente conceitual de sua trajetória de mais de três décadas. Ambientada nos anos 1920 como um thriller psicológico sobre ganância familiar e herança, a obra marcou época tanto pela atmosfera claustrofóbica e participações estelares (como Ian Anderson, do Jethro Tull) quanto pelo aguardado retorno dos vocais guturais de Mikael Åkerfeldt. Para dissecar essa fase criativa, os bastidores de gravação e os detalhes da reta final da turnê sul-americana, o Blog n’ Roll conversou com com o guitarrista Fredrik Åkesson. Do seu estúdio particular na Suécia, onde aproveita os intervalos de turnê para finalizar seu primeiro disco solo, o músico detalhou a construção dos solos e riffs do novo trabalho, a química de palco com a cozinha rítmica, resgates de pérolas antigas no repertório e a relação apaixonada que mantém com o público brasileiro. Confira a entrevista completa com o guitarrista da Opeth abaixo: Fredrik, como funciona a divisão dos solos de guitarra entre você e o Mikael no The Last Will & Testament? Ele já traz as ideias totalmente prontas ou você tem liberdade total para compor suas partes? Eu diria que tenho praticamente liberdade total para criar minhas partes. Geralmente ele delega para mim os solos mais técnicos, mais rápidos (shreddy), e prefere tocar os solos mais calmos, com uma pegada mais relaxada. No meu primeiro álbum com a banda, o Watershed, nós fazíamos mais aquelas trocas de licks, duelo de guitarras, o que eu adoro. Sou um grande fã da velha guarda do Iron Maiden, Judas Priest e coisas do tipo, e acho o Mikael um guitarrista solo extraordinário também. Mas diria que tenho total liberdade quando o assunto são os solos. Às vezes ele tem algum pedido específico, tipo: “Pensei nisso aqui, você conseguiria começar nessa nota específica e sustentá-la?”, ou algo assim. O que é muito divertido. Eu gosto de ser criativo, alguns solos são mais improvisados e outros são mais planejados. Depende muito da música e da seção. No The Last Will & Testament, os solos são curtos. Se eu apenas sustentar uma nota, o solo já acabou! Então precisei pensar em algo cheio de ação, porque queria colocar muitos ingredientes ali dentro. Gosto de enxergar o solo como uma pequena composição em si. Pode soar um pouco pomposo, talvez, mas acho solos fundamentais e é instigante tentar evoluir e trazer novidades a cada disco novo. Esse é meu objetivo, pelo menos. E como o retorno dos vocais guturais do Mikael impactou a sua dinâmica com os backing vocals nos shows da Opeth? Sim! Ao vivo, tendo a fazer os backing vocals de forma mais agressiva, especialmente nas músicas novas. No álbum, nas partes em que canto, você está perguntando sobre os vocais de apoio, certo?, tenho tentado fazer algo mais rasgado. Quando tocamos a §1 (Paragraph 1), por exemplo, tento colocar uma voz mais distorcida e potente, em vez de reproduzir exatamente aqueles vocais limpos, quase em falsete, que estão no disco. Em algumas faixas reproduzo como está lá, mas nessas músicas mais agressivas acho que funciona muito bem ao vivo. E é divertido testar o que consigo fazer vocalmente. Não pretendo ser vocalista principal nem nada disso, mas se traz uma energia legal no palco, por que não? Com certeza! E o que significou para a banda faturar o Grammis sueco de Melhor Álbum de Hard Rock/Metal com esse disco? Já tínhamos sido indicados algumas vezes antes e não levamos o prêmio. O Opeth só havia vencido uma vez, com o Ghost Reveries, que foi o trabalho anterior à minha entrada. Então a gente sempre ficava com aquela postura de: “Nem vamos perder tempo indo a essa premiação boba”. Mas, desta vez, nós ganhamos. Foi muito divertido, teve uma festa ótima e foi bacana ver que quem nos entregou o troféu em mãos foi o Tobias Forge, do Ghost, com quem trabalhei um pouco, como você deve saber. Somos amigos, então foi especial. E, claro, na Suécia isso tem um peso grande; as pessoas comentam bastante. É um prêmio com um apelo mais comercial aqui, bem focado no pop, mas eles têm a categoria de metal e hard rock. Ficamos contentes, sem dúvida, embora isso não seja tudo na vida. É apenas uma conquista legal. E o que é mais importante para você na Opeth, musicalmente falando? No que diz respeito ao Opeth, o mais importante é darmos o melhor de nós e, se possível, ir além. Seja gravando um álbum ou tocando ao vivo, nossa intenção é sempre elevar o nível, ser extremamente perfeccionista com os detalhes e entregar a melhor performance possível. Temos essa obrigação moral com quem gosta do nosso trabalho; precisamos fazer o ingresso do fã valer a pena. Por exemplo: nós nunca bebemos antes dos shows. Jamais valeria a pena cometer um erro no palco por causa de álcool, isso não seria correto com o público. Depois do show, aí sim podemos tomar umas cervejas. Uma postura muito profissional e atenciosa. É que são muitas partes para lembrar e muito do material do Opeth é delicado. Você salta de um riff pesadíssimo direto para uma passagem acústica dedilhada, e muitas vezes precisa cantar ao mesmo tempo. No fim das contas, trata-se de fixar tudo na memória muscular. Com frequência, no palco, a gente se pega conversando: “Como é que eu consigo lembrar de tudo isso?”, porque as músicas têm
Entrevista | Thera – “Há muito mais confiança e segurança pessoal de que sei o que estou fazendo”

Aos 19 anos e recém-formada no ensino médio, a cantora e compositora tcheca Thera vive a transição mais decisiva de sua carreira. Revelada na internet ainda no início da adolescência diretamente de seu quarto em Praga, a artista agora consolida passos mais ambiciosos no cenário pop internacional com o lançamento de Heartless Romance, faixa que dita o tom estético e temático de uma fase mais confiante e provocativa. Produzida em parceria com nomes tarimbados do pop global como Jake Erickson e Toru, a nova faixa de Thera combina batidas encorpadas com influências de hip-hop e uma atmosfera dançante, servindo de cartão de visitas para o segundo álbum de estúdio da artista. Em conversa exclusiva com o Blog n’ Roll, Thera conta que teve certeza imediata da escolha assim que deixou a sala de gravação, guiada por uma intuição forte e pelo desejo de transformar sentimentos conflitantes em música de pista. Na entrevista, a artista reflete com franqueza sobre a dinâmica por trás da letra, que aborda a vulnerabilidade de relações modernas presas entre a amizade e o compromisso real. Sem filtros, Thera explica como tem usado a composição como diário aberto para falar de experiências reais, conectando-se diretamente a uma geração de ouvintes que cresce junto com ela. Além dos bastidores criativos e do desafio inusitado de batizar o novo disco, que já conta com 11 das 13 faixas finalizadas, Thera relembra a trajetória improvável de furar a bolha da cena musical de seu país cantando em inglês. A nova fase também marca sua estreia com coreografias e performances de dança, ampliando o repertório visual e de palco. Confira entrevista abaixo. Heartless Romance marca o início de um capítulo totalmente novo na sua carreira. O que te deu a certeza imediata de que essa faixa precisava ser o cartão de visitas dessa nova era, Thera? Essa é uma das melhores perguntas, porque eu sei que já disse várias vezes que, quando saí do estúdio, sabia que Heartless Romance seria a primeira. Foi uma intuição muito forte. Ao longo dos anos, aprendi a confiar nisso, porque componho todas as minhas músicas e elas vêm genuinamente do coração. Foi simplesmente algo que senti que era o certo; eu conseguia visualizar os elementos de dança, conseguia imaginar tudo. Então pensei: “Essa parece ser a primeira prévia de tudo o que está por vir”, porque escrevemos Heartless Romance enquanto estávamos compondo o álbum inteiro. Estava convicta: “É essa, e ninguém vai me fazer mudar de ideia”. Eu estava determinada de que era essa e que iríamos com ela. A faixa carrega uma atmosfera mais sombria, temas marcantes e batidas pesadas com influência de hip-hop. Como você descreveria a evolução do seu som desde os seus trabalhos de estreia até onde você está agora? Acho que diria simplesmente que está mais maduro e confiante. Escrevi algumas das minhas primeiras músicas quando tinha 12 ou 13 anos. Aquela garota não sabia que iria lançar músicas e compartilhá-las com o mundo todo. Então acho que agora não sou necessariamente mais cautelosa, mas simplesmente tenho mais noção do que estou fazendo. Eu componho muito, e boa parte não é lançada, porque meu processo atual é: escrevo bastante e depois vejo o que realmente quero lançar. Mas acredito que com todas as faixas que estão por vir, não só Heartless, mas todas as próximas, há muito mais confiança e segurança pessoal de que sei o que estou fazendo. Provavelmente não sei tudo, mas estou bem mais segura disso agora. Thera, na letra você mergulha naquela zona cinzenta de ser mais do que amigos, mas menos do que namorados. Essa dinâmica emocional veio de uma experiência pessoal ou de observar como os relacionamentos modernos funcionam? Veio de uma experiência pessoal. Quase todas as minhas músicas nascem de coisas pelas quais passei ou estou passando. Eu realmente queria muito escrever Heartless. É sobre uma situação pessoal que, de certa forma, ainda estou vivenciando. Mas realmente não queria que a música soasse pesada ou negativa, e é por isso que ela é mais dançante e pop. Justamente porque acho que, por mais complicada que a situação possa ser, também acaba sendo meio divertida. Então pensei: “Quer saber? Vamos escrever uma música chamada Heartless Romance“, e fomos em frente. Há uma vulnerabilidade crua em cantar sobre alguém que te deseja muito, mas hesita em se comprometer de verdade. Como é transformar sentimentos tão conflitantes, atração e frustração, em uma faixa pop tão dançante e contagiante? Sinceramente, eu adoro. Acho que a parte mais divertida para mim ao compor é, claro, ter uma história para contar, mas principalmente ver a faixa ganhar vida por si só. Sinto que a música retrata muito bem os altos e baixos e o que passa pela sua cabeça quando você está vivendo essa situação. É sempre muito legal ver de onde eu talvez comece com a música e onde conseguimos chegar com ela. Acho que ela traduz essa situação perfeitamente, então estou muito feliz com o resultado. Para essa faixa você colaborou com Jake Erickson, que tem um histórico impressionante no pop internacional. Como foi a química de vocês no estúdio e o que ele trouxe para o projeto que expandiu a sua visão artística? No primeiro dia com o Jake, fiquei muito, muito intimidada, porque a reputação dele o precede e ele trabalhou em faixas inacreditáveis. Então, só de estar na mesma sala com ele e dizer “beleza, vamos criar uma música juntos pela primeira vez” já foi incrível. Na verdade, fizemos nossa primeira faixa em novembro passado, então faz quase um ano. Mas, desde então, adorei trabalhar com ele. O Jake me desafia muito como artista, especialmente na parte vocal, até de maneiras que eu mesma não percebia. Ele vive me pedindo harmonias mais agudas e coisas do tipo, e eu sempre digo: “Não vai sair mais nada, não consigo ir mais alto!”. Mas no fim sempre sai. É maravilhoso ter alguém que sabe como te incentivar e como fazer você evoluir, gravando melhor mesmo
Robbie Williams entrega show impactante e divertido no Nubank Parque

Robbie Williams nunca precisou de estádio cheio para dominar uma multidão. Na noite de terça-feira (13), no Nubank Parque, em São Paulo, o público modesto em relação à capacidade total do espaço viu de perto um artista que não economiza entrega. Com uma mistura calibrada de humor britânico, interações constantes e uma potência vocal irretocável, o cantor fez valer cada minuto de um show que é puro entretenimento pop em sua forma mais madura. Escorado por uma banda irrepreensível, Williams brincou com o idioma local, desfilou simpatia e presenteou a plateia com covers inusitados, incluindo um trecho provocador de Wonderwall, do Oasis, lembrando a velha rixa com Liam Gallagher. É o retrato de um artista revigorado pelo sucesso de Better Man, filme biográfico que ajudou a repactuar sua conexão com o grande público e a recolocar sua carreira no trilho dos grandes espetáculos globais. O compromisso em São Paulo fechou a intensa maratona de seis semanas pelas Américas como parte da Britpop Tour. Entre o alívio sincero de quem admitiu não ver a hora de voltar para a família e o cansaço do fim de rota, Robbie deixou um recado claro de que a relação com o Brasil segue aberta: prometeu que sua intenção é voltar em dois anos para subir ao palco do Rock in Rio. Coincidência ou não, o curador e vice-presidente artístico do festival, Zé Ricardo, estava nos bastidores e se encontrou com Robbie. Logo que subiu ao palco ao som de Let Me Entertain You, faixa do seu álbum de estreia, Life Thru a Lens (1997), que abriu a apresentação, Robbie perguntou ao público se ainda lembrava dele, já que ficou 20 anos sem se apresentar por aqui. Distribuindo todos os seus hits ao longo de duas horas de apresentação, Robbie encontrou espaço para divulgar duas canções do Britpop, lançado no início do ano: Rocket, gravada com o guitarrista do Black Sabbath, Tony Iommi, e Pretty Face. Entre Better Man e Something Beautiful, o músico tentou aprender algumas palavras em português: “entretenimento” e “aplausos” saíram bem diferentes, mas “merda” teve a pronúncia correta. Robbie Williams brinca com Oasis no show Na sequência emendou o seu primeiro medley, com trechos de Tripping, Angels, Feel, Sexed Up e Candy. Em Sexed Up, ainda brincou com a reação do público peruano, no show de Lima, realizado no fim de setembro, dizendo que eles pareciam mais acanhados e cantavam baixinho com vergonha do refrão. O guitarrista de Robbie, ainda na passarela com o cantor, puxou os acordes iniciais de Wonderwall, do Oasis. Nesse momento, boa parte do estádio cantou junto. O artista interrompeu, pediu para o público parar e lembrou que era uma canção de outra banda. Não satisfeito, ainda brincou que quando o Oasis acabou, ele ligou para Noel se oferecendo para ser o vocalista e o guitarrista teria gargalhado e desligado o telefone na cara dele. Enquanto o público se divertia com a história, Robbie passou a cantar Wonderwall. Mesclando seus hits com mais releituras, o ex-integrante do Take That cantou Theme From New York, New York (de John Kander, mas imortalizada na voz de Frank Sinatra) e No Regrets, antes de entrar em mais um medley, agora para apresentar a banda. A salada musical do segundo medley incluiu Ace of Spades (Motörhead), Seven Nation Army (The White Stripes), Hips Don’t Lie (Shakira), Livin’ on a Prayer (Bon Jovi), Take on Me (A-ha), Acenda o Farol (Tim Maia, aqui só com os metais) e Hey Jude (Beatles). A reta final do show rendeu outros grandes momentos, como She’s The One, na qual Robbie cantou inteiramente para Ana Cecília, uma fã que tatuou trechos de suas músicas no braço; My Way (de Paul Anka, mas também muito famosa na voz do The Voice, Frank Sinatra), que serve como uma homenagem emotiva do músico ao seu pai, Pete Williams, simbolizando a relação complexa, cheia de altos e baixos, mas profundamente marcada pela admiração e afeto entre eles. Na volta para o bis, Robbie cantou os seus dois maiores hits, Feel e Angels, garantindo um fim de show apoteótico para os fãs. Agora nos resta aguardar o retorno dele daqui a dois anos. SETLIST Let Me Entertain You Rocket Rock DJ Strong Supreme Pretty Face Love My Life Better Man Tripping / Angels / Feel / Sexed Up / Candy / Wonderwall (Oasis cover) Something Beautiful Millennium Theme From New York, New York (John Kander cover) No Regrets Ace of Spades / Seven Nation Army / Hips Don’t Lie / Livin’ on a Prayer / Take on Me / Acenda o farol / Hey Jude (Medley) Come Undone Kids She’s The One My Way (Paul Anka cover) BIS: Feel Angels
Sob chuva e muito groove, Jamiroquai transforma Nubank Parque em imensa pista de dança

Após nove anos de um longo hiato longe do público brasileiro, o Jamiroquai desembarcou em São Paulo com a energia renovada. Trazendo na bagagem o embalo de uma apresentação marcante no Palco Sunset do Rock in Rio, realizada na última sexta-feira, o grupo inglês liderado pelo carismático Jay Kay provou na noite de domingo (13) que o seu acid jazz continua à prova do tempo, e das tempestades. Debaixo de uma chuva insistente que castigou a capital paulista, a banda entregou uma apresentação de altíssimo nível, com duas horas de duração, no Nubank Parque, aquecendo uma arena lotada com doses cavalares de funk e disco. Acústica impecável para o show do Jamiroquai Como alguém que já esteve no estádio do Palmeiras centenas de vezes, a expectativa técnica era clara: o funk orgânico e cheio de linhas de baixo do Jamiroquai tinha tudo para casar perfeitamente com a acústica do local. E o prognóstico se confirmou. A engenharia de som do estádio, que favorece os graves, fez com que cada nota e cada slap no baixo soassem com perfeição e definição absolutas. Visualmente, a pista oferecia uma cena no mínimo curiosa. Com o retorno da banda, os icônicos chapéus de pescador felpudos, marca registrada do vocalista, multiplicaram-se entre os fãs. No entanto, diante do temporal, era impossível não sentir uma ponta de pena de quem tentava manter o estilo e o gingado carregando um adereço completamente encharcado na cabeça. Carisma de Jay Kay Desde o momento em que surgiu no palco (naturalmente, usando seu próprio chapéu felpudo combinando), Jay Kay injetou vida na noite de domingo. Para os desavisados de plantão, sempre vale o lembrete: Jamiroquai é o nome do projeto, não do vocalista. E a banda que o acompanha é um espetáculo à parte. O grupo de apoio é extremamente técnico, criando a cama sonora perfeita para que o frontman desfile um alcance vocal praticamente intacto em comparação aos anos 1990. Em seu elemento, Jay Kay brincou com a plateia, trocou de figurino diversas vezes e dançou como se não houvesse amanhã. O carisma também transbordou para fora do palco, com o vocalista descendo para interagir com o público e distribuir autógrafos em discos de vinil colados à grade. 30 anos de Travelling Without Moving O repertório foi uma ode à alegria, transitando sem esforço entre as novidades e os clássicos exigidos pelos fãs. Hits infalíveis como Cosmic Girl e Alright desceram perfeitamente bem, espantando o frio de São Paulo. O setlist, aliás, teve um dono claro: o antológico álbum Travelling Without Moving. Celebrando 30 anos de seu lançamento agora em 2026, o disco representou praticamente metade de tudo o que foi tocado na noite. O repertório ainda incluiu um provável single do primeiro álbum da banda em quase uma década, Disco Stays the Same, que deve ser lançado em 2027. No comparativo com o show do Rock in Rio, foram mais duas faixas inseridas, além da inédita: Seven Days in Sunny June e High Times, que não era tocada ao vivo desde 2018. Mas os verdadeiros trunfos do show foram as longas instrumentações. Space Cowboy, que já é uma composição brilhante por si só, foi elevada a um patamar superior. A banda estendeu a faixa para uma jam de nove minutos de duração. Decisão muito bem acertada. O clímax do show guardou não apenas o maior hit comercial da banda, mas também um momento de reflexão contundente. Antes de executar Virtual Insanity, Jay Kay assumiu o microfone para um belo e necessário discurso pedindo paz mundial, condenando de forma incisiva os chefes de Estado que estimulam e financiam conflitos. “A razão pela qual eles são criminosos de guerra é que eles estão matando mulheres e crianças todos os dias. 5, 10, mil, 10 mil. Eles não são as pessoas que queremos que nos liderem. Nós não queremos ouvi-los. Eu não quero ouvir o que eles têm a dizer, porque não há desculpas para o que eles fazem. E, nesse sentido, porque o mundo continua o mesmo de antes… Espero que um dia essa música não signifique nada, mas, no momento, ela faz mais sentido do que quando foi escrita”. Com essa introdução, Virtual Insanity ecoou não apenas como um convite irrecusável à dança, mas como um alerta ainda tragicamente atual. O Jamiroquai deixou São Paulo com a certeza de que música boa, quando executada com alma, supera o tempo, a chuva e o frio. Setlist
Entrevista | Angus & Julia Stone celebram fase solar com novo álbum e relembram laços afetivos com o Brasil

Com harmonias vocais etéreas e composições que flutuam entre o sonho e a realidade, os irmãos australianos Angus e Julia Stone abrem um capítulo visivelmente mais festivo e solar em sua carreira. O ponto de partida dessa nova jornada é o álbum Karaoke Bar, lançado na última sexta-feira (4). Gravado em estúdios espalhados pela França, Austrália e pela mística ilha grega de Hydra, conhecida pelo refúgio histórico de Leonard Cohen, o álbum deixa de lado a introspecção melancólica do antecessor Cape Forester para abraçar um clima dançante, espontâneo e coletivo. Para falar sobre o novo momento, o processo de composição e as lembranças marcantes de suas passagens pelo país, o duo australiano conversou com o Blog n’ Roll. Durante o bate-papo, Julia revelou uma emocionante história de amizade construída no Rio de Janeiro antes mesmo do sucesso internacional da banda, enquanto Angus arriscou versos de Chris Isaak. O single Karaoke Bar fala sobre como a música quebra barreiras entre estranhos. Na era digital e das redes sociais, vocês sentem que a música ao vivo e esses momentos espontâneos se tornaram ainda mais urgentes e necessários? Julia Stone: Sim, acho que a música sempre serviu como uma espécie de tecido conectivo para o espírito humano. Em uma era de desconexão, onde passamos tanto tempo no mundo online, a música tem a capacidade de aproximar pessoas de diferentes origens, mesmo virtualmente. O lado bonito da interconectividade digital é que cada um consegue achar o som exato para si, encontrando sua comunidade. Quando éramos crianças, eu sentia com frequência uma sensação de não pertencimento. Aí ouvia Leonard Cohen e pensava: “Tem alguém lá fora dizendo algo que me conecta. Não estou mais sozinha”. A música faz você se sentir parte de uma família de pessoas que compartilham dos mesmos sentimentos. Em um ambiente de karaokê, todo mundo tem a oportunidade de cantar e ser ouvido. Como foi traduzir essa energia democrática e festiva para a assinatura dreamy folk de vocês? Julia Stone: Como o Angus e eu trabalhamos juntos há quase duas décadas, o próprio processo de gravação no estúdio é profundamente democrático. Criamos um espaço livre e justo onde ambos somos ouvidos. O respeito mútuo pela criatividade do outro se reflete diretamente na sonoridade das faixas. Quanto mais amadurecemos essa convivência ao longo dos anos, mais essa dinâmica transparece no resultado final do nosso som. Se vocês dois entrassem em um karaokê hoje à noite, longe dos palcos profissionais, qual seria a escolha de cada um no microfone? Julia Stone: Eu provavelmente cantaria qualquer faixa do Jagged Little Pill, da Alanis Morissette. (risos) Angus Stone: Para mim, seria Wicked Game, do Chris Isaak. “I never dreamed that I’d meet somebody like you…” A ilha de Hydra, na Grécia, tem uma mística musical enorme associada ao Leonard Cohen. Como a energia do local influenciou a composição do disco? Angus Stone: Havíamos acabado de encerrar uma turnê exaustiva e estávamos em Paris. Queríamos unir o melhor de dois mundos: curtir férias no Mediterrâneo, bebendo bom vinho e comendo bem, enquanto gravávamos no estúdio em Hydra. Foi uma atmosfera mágica que nos entregou exatamente o equilíbrio que estávamos buscando. O álbum foi registrado na Grécia, na França e na Austrália. Como conectar texturas de lugares tão distintos e ainda assim manter uma unidade estética? Angus Stone: Nossa vida profissional sempre aconteceu em trânsito e em diferentes estúdios pelo mundo. Para nós, a coesão de um disco não vem do espaço físico, mas das nossas vozes, dos instrumentos que escolhemos e das composições. Usamos métodos muito específicos de gravação. O que mantém a unidade de ponta a ponta é o sentimento que compartilhamos durante esses meses: estarmos profundamente felizes, gratos e celebrando a chance de fazer música juntos. O que mudou na engenharia de som e na dinâmica de produção em comparação ao intimismo de Cape Forester? Julia Stone: Cape Forester era mais introvertido e melancólico. Queríamos recriar a atmosfera dos nossos primeiros passos, quando tocávamos na sala de estar da casa do nosso pai ao voltar da escola. Todo o álbum e a turnê refletiram essa estética minimalista. Já este novo disco nasceu na estrada, tocando em teatros antigos e sentindo a energia da multidão. Nós nos sentimos muito mais solares. O disco convida o público a ficar de pé, dançar e compartilhar a experiência. Vocês começaram essa parceria oficial em 2007 com o EP Chocolates and Cigarettes. Qual é o maior superpoder e o principal desafio de manter uma carreira profissional com um irmão? Julia Stone: O maior desafio é exatamente a nossa maior recompensa. Quando você cresce na mesma casa e divide a mesma infância, é fácil cair na armadilha de achar que o outro ainda é aquela pessoa de 10 ou 15 anos atrás. O grande aprendizado foi dar permissão para o outro evoluir e mudar constantemente. Permitir que o outro se transforme em um novo artista a cada dia nos ajudou a transformar uma relação que poderia ser complexa em algo raro e afetuoso. É preciso aceitar quem a pessoa é hoje, não quem ela foi ontem. Para os fãs que se apaixonaram pela levada de Karaoke Bar, o que esperar do restante do álbum? Angus Stone: Encaramos cada disco como uma expedição pelas nossas próprias possibilidades. Neste projeto, mergulhamos de cabeça em nos divertir com a música. Pegamos o espírito despretensioso de “Karaoke Bar” e exploramos vários caminhos dentro dessa proposta. Estamos empolgados para ver como as pessoas vão receber essa energia. O público brasileiro é muito conectado com o folk e a obra de vocês. A turnê do novo disco deve passar pelo Brasil em breve? Julia Stone: Esse é o nosso grande sonho! Nós temos um amor verdadeiro pelo Brasil. Viajamos para o país quando éramos mais jovens. Houve uma época em que o Angus precisou voltar para a Austrália para terminar os estudos e eu passei uma temporada no Rio de Janeiro, morando com uma família brasileira. Eu ainda estava dando os primeiros passos na composição