Entrevista | Rodox – “Santos testemunhou minha transformação. Vamos levar algo que ainda não mostrei na cidade”

Santos sempre foi uma bússola na trajetória de Rodolfo Abrantes. Foi no palco do M2000 Summer Concerts, em 1994, que ele viu sua vida mudar ao dividir o line-up com gigantes mundiais e conhecer um jovem Chorão na grade do show. Foi também na cidade que ele enfrentou seu momento mais sombrio, após a tragédia durante o lançamento da turnê Lapadas do Povo, em 1997. Agora, mais de duas décadas depois, o ciclo se fecha, e se renova. O Rodox, banda que marcou o início dos anos 2000 com uma mistura explosiva de hardcore, nu metal e letras viscerais, está de volta. O que começou como uma ideia de turnê pontual de reencontro para o segundo semestre de 2026, transformou-se em um renascimento criativo. Com a química restabelecida e a promessa de um novo álbum de inéditas, Rodolfo e seus companheiros desembarcam nesta sexta-feira (15) no Arena Club. Ainda há ingressos à venda. Nesta entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, o vocalista abre o jogo sobre as cicatrizes do passado, a energia da fase atual e o que esperar de um show que promete lavar a alma dos fãs santistas com a potência característica de uma das bandas mais emblemáticas do rock nacional. * O retorno do Rodox é pontual para esses shows ou você já pensa em gravar um álbum de inéditas? Quando tivemos a ideia de voltar com a turnê, pelo tempo todo que ficamos longe, sem nos vermos, a gente teve que se conhecer de novo, né? Por mais que existisse o carinho, tivemos que nos redescobrir. Então, a princípio, antes de tudo começar, a ideia era fazer alguns shows só de reencontro mesmo no segundo semestre. A questão é que a gente se reencontrou, cara, e todo mundo se amou. Meu, a gente está hoje muito melhor do que já foi algum dia, entre a gente, né? Então a coisa tomou outra proporção: o que era para ser só o primeiro semestre já virou o ano inteiro. E a gente só pensa em gravar músicas novas, estamos doidos para curtir esse momento. Talvez seja um reencontro do público com as músicas antigas, mas percebemos que estamos muito mais afiados. O entendimento do que a banda é e de onde queremos chegar está muito mais claro na cabeça de todo mundo. Então, sim, vai ter álbum novo. A gente quer fazer um retrato, um registro do que está vivendo hoje. Tem sons guardados da primeira fase da banda ou pretendem começar do zero? Já tem faixa nova pronta? Seria algo com composições completamente inéditas. Existem aquelas músicas que rolam na internet, como Taco Bell e Psychobilly, mas aquilo foi sobra de estúdio. Foram faixas que gravamos e achamos que não tinham muito a ver com o álbum na época, então as deixamos de fora e elas acabaram indo para a internet. Temos um carinho por elas, principalmente pelo carinho que as pessoas têm com essas músicas, mas queremos fazer algo que seja um registro deste momento da nossa vida. Como você define o som do Rodox nessa nova fase? O que você tem escutado de som e tem influenciado você no dia a dia? Uma das coisas mais legais sobre o som do Rodox é que ele é muito eclético. Não temos nem como rotular ou dizer que é uma banda de nu metal ou de hardcore, porque tem nu metal, tem hardcore, tem punk rock, tem hardcore melódico, hardcore berrado… tem ska, tem música alternativa, tem balada… Enfim, acho que quando conquistamos isso, passamos a ter uma liberdade absurda para fazer o que quisermos. Mas de uma coisa você pode ter certeza: é a energia que estamos vivendo ao vivo. Essa é uma banda de verdade, não é uma banda de estúdio que vai levar uma coisa pronta para o palco. Não, estamos fazendo aquele caminho natural de experimentar ao vivo para registrar isso depois em estúdio. Você tem uma relação muito marcante com Santos em vários sentidos. Qual é o sentimento de retornar a Santos, que foi palco de muitas alegrias e uma tristeza marcante na sua carreira? A cidade de Santos é uma daquelas no Brasil que me viram em todas as minhas fases, né, cara? Desde o começo da minha carreira, sempre estive passando por aqui. A cidade foi testemunhando a minha transformação ao longo do tempo. Então, vai ser incrível poder retornar com o Rodox agora, sendo que, ok, é uma banda que existiu há mais de 20 anos, mas é uma banda completamente nova. O que a gente vai levar para o público santista é algo que realmente ainda não mostrei em Santos. Em Santos, o Raimundos fez um dos seus primeiros shows, no M2000 Summer Concerts, em 1994. O que você recorda desse show? Tem alguma história curiosa desse show com o Rollins Band, Mr Big e Lemonheads? Eu me lembro que foi o primeiro show gigante que a gente tocou, né? Tinha um ônibus para levar a gente de São Paulo para Santos e depois trazer de volta. Ficamos em um hotel, meu… top! Tudo isso era um absurdo de novo para nós naquela época. Ver o Henry Rollins tocando, eu era muito fã dele e do som dele, e ver aquilo acontecendo ao vivo foi muito didático. Aprendi muita coisa. Lembro que caiu uma chuva terrível naquela noite, que alagou a cidade toda. E tem uma coisa muito interessante: quando eu saí do palco, foi a primeira vez que encontrei o Chorão. Ele estava ali na grade com o pessoal, ouviu o som da minha banda e me deu um CD do Charlie Brown, quando o Charlie Brown ainda era bem metal. Foi muito legal. Essas coisas não saem da memória, não. A tragédia em 1997, no lançamento da turnê do Lapadas do Povo, certamente foi um dos momentos mais tristes da sua carreira. Como foi superar a tristeza daquele momento e seguir em frente? Realmente acho que foi o pior momento da minha vida. Aquele acidente

Entrevista | American Football – “É sobre convidar as pessoas certas e confiar nelas”

​Os gigantes do math rock e do midwest emo estão de volta. O American Football lançou o aguardado LP4, um trabalho que mergulha nas complexidades da maturidade e nas “duras realidades da vida” sob uma perspectiva de meia-idade. Com uma sonoridade mais encorpada e camadas rítmicas profundas, o novo álbum reafirma a posição do grupo como arquitetos de uma melancolia sofisticada, equilibrando a precisão técnica que os consagrou com uma entrega emocional ainda mais direta e visceral. ​Em entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, o baterista e trompetista Steve Lamos abriu o jogo sobre o processo de criação no estúdio e a busca por uma sonoridade autêntica. Lamos revelou como a parceria com o produtor Sonny DiPerri foi fundamental para reconstruir sua confiança atrás do kit, resultando em performances que ele considera as mais honestas de sua carreira até hoje. Entre compassos quebrados e melodias de trompete, o músico descreve o novo disco como um retrato fiel de quem a banda é no momento. ​Um dos pontos altos da conversa foi o clima de celebração em torno das colaborações de peso no álbum, que conta com nomes como Brendan Yates (Turnstile) e Beth Orton. Steve detalhou como a banda deu liberdade total para que esses artistas deixassem suas marcas, transformando as faixas em diálogos orgânicos entre diferentes gerações do rock alternativo. O resultado é um disco que, embora denso, encontra momentos de alívio em faixas mais solares, como o single Wake Her Up. ​A conexão com o público brasileiro também ganhou destaque no papo. Mesmo a milhares de quilômetros de distância, Lamos descreveu a recepção dos fãs na América do Sul como “mágica” e confessou que a banda está ansiosa para retornar. Ele relembrou a última passagem por São Paulo e expressou o desejo genuíno de explorar outras cidades brasileiras na próxima turnê. * O material de divulgação do LP4 menciona que o American Football enfrentou realidades duras da vida sob uma perspectiva de meia-idade. Como o seu processo criativo na bateria e no trompete refletiu esse clima mais denso e introspectivo deste novo disco? Uau, essa é uma ótima pergunta, eu agradeço. Uma perguntinha fácil para começar, né? Nossa, sabe, acho que estamos todos mais velhos, fazemos isso há muito tempo e acho que a única razão para continuar é fazer música nova que pareça, sabe, autêntica de alguma forma. ​Não sei se entramos nessas músicas pensando deliberadamente: “Ah, vamos fazer um hino adulto” ou algo assim, mas acho que todos querem fazer música que soe sincera ou autêntica. Algumas dessas músicas vieram de partes de bateria que eu talvez estivesse… eu amo ir para a garagem e fazer barulho, e às vezes penso “ah, gostei desse barulho”, gravo e tento desenvolver algo. Então algumas faixas foram geradas assim. ​O trompete é meu amigo e meu inimigo; sempre que crio uma melodia nele, eu o trato como — em inglês dizemos frenemy [amigo-inimigo], certo? — trato o trompete como meu frenemy. Uma dessas melodias o Mike [Kinsella] escreveu para mim, mas no “meu estilo”, e foi impressionante. Eu pensei: “Meu Deus, é exatamente o que eu teria tocado”. No final da música chamada Wake Her Up, ele escreveu aquela melodia e eu fiquei tipo… foi estranho ter algo escrito por outra pessoa que fosse tão certeiro. Mas a primeira música, a do meio chamada Patron Saint of Pale e a última são especiais para mim, porque todas vieram de levadas de bateria que eu tinha guardadas há muito tempo. No fim, acho que só queremos criar coisas interessantes; se as acharmos interessantes, esperamos que pareçam sinceras para as outras pessoas. Trabalhar com o produtor DiPerri trouxe um som mais encorpado, mais “carnudo” para o álbum. De quais formas a colaboração dele influenciou a maneira como você estruturou as camadas rítmicas desta vez? ​Puxa, outra ótima pergunta. Eu não conhecia o Sonny. O Mike e o Nate conheceram o Sonny quando eu saí do American Football por um tempo para lidar com outras coisas. Eles o conheceram para trabalhar no disco do Lies [projeto paralelo]. Então o Mike e o Nate fizeram um disco juntos, em dupla. E quando voltamos, eles disseram: “Ei, ele é ótimo, né? É muito fácil trabalhar com ele”. E eu não o conhecia. No fim das contas, ele trabalhou em discos que eu conhecia, só não sabia que era ele. ​É difícil expressar o quanto gostei de trabalhar com ele. Ele também é baterista e está muito interessado, durante a gravação, em takes que soem autênticos. Mesmo que não sejam perfeitos, há alguns erros neste disco. Eu os ouço e penso: “Ah, cara…”. Mas foram erros que, espero, façam parte de algo maior; eu não quis descartar a performance. Tudo pareceu muito… esse foi o disco que mais pareceu com o primeiríssimo álbum, talvez até melhor que o primeiro no sentido de que me senti muito confiante. Me senti bem com o que estava fazendo, me senti pronto para gravar. E acho que isso transparece. ​Eu amo este disco, talvez seja o meu favorito. E espero que as pessoas gostem. Elas têm todo o direito de não gostar, eu entendo. Mas já disse isso antes: se alguém pedisse “ei, me toque uma coisa que represente quem você acha que é como baterista”, eu daria este disco com certeza. Porque acho que este soa mais autêntico em relação a quem eu sou no momento. Talvez pela maturidade que você construiu na sua carreira. ​Espero que sim. E disse ao Sonny também: senti que, depois que saí, tinha perdido um pouco da confiança. Não me sentia eu mesmo atrás da bateria. E acho que ele foi muito encorajador. Foi muito significativo para mim ele dizer: “Ei, apenas confie em si mesmo, não fique preso dentro da sua própria cabeça”. Às vezes eu ficava frustrado e ele dizia: “Ei, vá fazer uma pausa”. ​Estávamos perto do oceano. Eu estava contando para a última pessoa com quem falei: estávamos em um estúdio com vista para uma baía linda.

Entrevista | Dave Fenley – “Acho que temos algumas das canções mais incríveis guardadas”

Dave Fenley não é apenas uma voz que ecoou nos palcos do The Voice e do America’s Got Talent, ele é um contador de histórias que encontrou o equilíbrio exato entre a crueza do Texas e a suavidade do soul. Após anos lançando coleções menores de canções, o artista agora apresenta seu álbum mais robusto e pessoal, Rest of My Life, um projeto que serve como uma fotografia nítida de sua maturidade artística e pessoal. Neste novo disco, Dave Fenley mergulha em uma sonoridade que ele define como um “soulful country”, quase beirando o gospel. O álbum não apenas compila singles de sucesso, como a impactante releitura de Stuck On You, mas também apresenta cinco faixas inéditas que revelam um lado mais profundo do cantor. Segundo ele, o processo de curadoria das faixas foi guiado por uma nova percepção de mundo, agora moldada pela família e pela espiritualidade. A paternidade, inclusive, é o fio condutor que trouxe calor e novas camadas à sua voz. Dave Fenley reflete com honestidade sobre como a chegada da filha transformou sua compreensão sobre o amor incondicional, influenciando diretamente a forma como ele compõe e se apresenta. Para o músico, cada verso gravado hoje é um legado que sua filha poderá acessar no futuro, o que elevou sua responsabilidade com a integridade de sua obra. Em entrevista ao Blog n’ Roll, Dave Fenley também detalhou o impacto de sua passagem pelos grandes reality shows americanos e como o aprendizado nessas vitrines moldou sua gestão de carreira independente. Com um olhar generoso sobre a cultura brasileira, ele revela planos de trazer sua turnê ao país em 2027, prometendo uma experiência que vai além dos covers virais que o tornaram um fenômeno nas redes sociais. * Dave, seu novo álbum se chama Rest of My Life. Esse título traz um senso de longevidade e compromisso. O que este disco representa para sua vida e carreira neste momento? É algo realmente impactante, porque ao longo dos anos fiz muitos EPs pequenos, coleções de seis músicas, porque costumava escrever sobre algo que estava acontecendo na minha vida e lançava aquilo. Mas, desde o meu último álbum, me casei, tive um bebê e muita coisa aconteceu. Participei de diferentes programas de TV e minha carreira tomou rumos diferentes. Então, realmente quis lançar algo que parecesse: ok, aqui está um momento no tempo onde tudo me trouxe para quem e onde estou agora. E, a partir deste ponto, quem sabe como será a vida. Mas o “resto da minha vida” é tão empolgante por causa da música, da família e do meu Senhor. Simplesmente tudo parece estar dando tão certo agora que estou realmente ansioso pelo que o próximo capítulo reserva. Queria ter algo agora que transmitisse esse momento específico. O álbum tem 11 faixas, mas seis delas já haviam sido lançadas como singles. Como foi o processo de criação das outras cinco faixas inéditas? Elas seguem a mesma sonoridade ou trazem surpresas? Sabe, este álbum inteiro acabou se transformando em um disco de country com alma (soulful country), quase gospel. Eu sempre fiz o que chamaria de álbuns “mais country”. Mas, assim que começamos a olhar para as canções e escolher o que colocar no disco, ele pareceu um pouco mais voltado para o soul. Por isso, algumas músicas tiveram que ser completamente mudadas em relação à forma como as escrevi. Estamos muito empolgados com o que ainda não lançamos, porque meio que instigamos o público com as primeiras cinco ou seis músicas para ver se as pessoas ficariam animadas com o que viria. Mas acho que temos algumas das canções mais incríveis guardadas. Nunca estive tão animado com nada na minha vida. Sim, isso é incrível. Stuck On You tem sido um marco na sua jornada desde o The Voice. Por que você decidiu lançar uma versão com banda completa agora, sete anos depois? E como sua interpretação dessa letra mudou com a maturidade que você tem hoje? Sabe, não tinha ideia de que, quando cantei essa música no The Voice, ela teria tanto impacto. Como qualquer outra coisa na indústria musical ou qualquer obra artística que você cria, você a coloca no mundo e espera que alguém preste atenção. E, pela graça de Deus, fomos tão afortunados de ter tido essa resposta. Mas o motivo de termos feito uma versão com banda completa foi, em parte, porque as pessoas a estavam usando em casamentos. E eu pensei: “Quero dar a eles uma versão mais polida do que apenas um violão acústico”. Então, lançamos uma versão completa com a banda para dar aos belos casamentos a bela canção que eles merecem. Acho que liderar com o coração primeiro, sabendo que tínhamos um motivo, uma motivação de amor, foi o que guiou o álbum todo. Oh, isso é tão lindo. Imagino que muitas pessoas cheguem até você para dizer que se casaram ao som da sua versão de Stuck On You. Absolutamente! É uma loucura! Já viajei o mundo todo cantando essa música em casamentos também, porque as pessoas simplesmente a amam. Isso é um testamento ao Lionel Richie, que escreveu a canção. Uma música atemporal assim é perfeita. Acho que não importa quem a cante, será um sucesso. Só fico muito orgulhoso de poder ser uma das vozes para ela. Você é frequentemente rotulado como um artista “country soul”. Como você equilibra a crueza do country com a suavidade e o groove do soul ao compor músicas autorais? Eu não foco muito no que “fui”, foco em quem sou. E quando estou compondo, nem penso no estilo de música que estou escrevendo. Porque, hoje em dia, qualquer música pode ser de qualquer gênero. Se a música é boa, ela é boa. Stuck On You é um ótimo exemplo. Originalmente, era um R&B puro, uma música linda do Lionel Richie. Quando chegou nas minhas mãos, eu a tornei mais country. Acho que as fronteiras entre os gêneros estão muito borradas agora. Então, apenas tento escrever uma boa música e

Air Supply transforma Vibra SP em baile de gala e prova que o amor não envelhece

Graham Russell (75) e Russell Hitchcock (76) estão na estrada há quase 51 anos, celebrando o amor com algumas das mais famosas love songs da história. Na noite de domingo (10), eles retornaram a São Paulo para uma apresentação repleta de sucessos no Vibra SP, com a turnê alusiva aos 50 anos de carreira do Air Supply. Aliás, foi o último show da celebração de meio século, já que o aniversário de 51 anos da banda acontece nesta terça-feira (12). Em uma configuração diferente da apresentada nos últimos dias, como nos shows de Men at Work e Dream Theater, o Vibra transformou-se em um baile de gala, com mesas espalhadas no lugar da pista. Uma escolha acertada, considerando que a média de idade do público era próxima à da dupla. Os dois amigos têm papéis bem definidos no palco. Graham é o mais comunicativo: conta histórias, lê poemas e arrisca palavras em português. Já Hitchcock é a grande estrela. Os primeiros versos de Sweet Dreams, canção que abriu a noite, foram suficientes para impressionar. É notável como ele mantém o vigor vocal após cinco décadas de dedicação aos palcos, potencializado pela excelente acústica da casa. No palco, a dupla é acompanhada por duas violinistas, baterista, baixista e tecladista, músicos técnicos que ganharam momentos de solo para mostrar seu virtuosismo. Even the Nights Are Better, segunda faixa do set, confirmou que a noite seria guiada pela nostalgia. Enquanto a dupla distribuía sorrisos, o telão resgatava videoclipes antigos, uma sacada visual que já havia funcionado bem no recente show de Bryan Adams. Just as I Am (cover de Rob Hegel) manteve o nível elevado, com o público cantando em coro e algumas lágrimas já surgindo nas mesas, cena que se repetiria ao longo de 1h40 de apresentação. Em I Can Wait Forever, Hitchcock testou os limites de seu alcance vocal com sucesso absoluto. Na sequência, Graham Russell assumiu a linha de frente enquanto Hitchcock poupava a voz e tomava um chá, conforme revelado pelo companheiro. Graham leu um poema e exaltou a amizade com o parceiro, reforçando o que já havia dito em entrevista ao Blog n’ Roll: “Nunca tivemos uma briga em 50 anos. Acho que o motivo é que não competimos. O Russell não quer escrever músicas, ele só quer cantar. E eu amo escrever. Não há ego envolvido”. Com o retorno de Hitchcock, o Air Supply trouxe seu primeiro hit mundial, Lost in Love. A música, de estrutura simples (apenas um verso e uma seção B, sem refrão), nasceu de um conselho de Willie Nelson: “Se você pode dizer algo no menor número de linhas possível, faça isso”. A simplicidade, de fato, funcionou. Após apresentações solo das violinistas e do baterista, veio o ápice com Making Love Out of Nothing at All, encerrando a primeira parte. O bis do Air Supply, com Without You (Badfinger) e All Out of Love, garantiu a apoteose: as mesas foram deixadas de lado e os fãs terminaram a noite em pé, colados ao palco. Edit this setlist | More Air Supply setlists

Djavan celebra 50 anos com show grandioso no Allianz Parque

Em 1976, o Brasil era apresentado a A Voz, o Violão, a Música de Djavan. Cinquenta anos depois, o cantor alagoano ocupa o Allianz Parque, em São Paulo, não apenas como um ícone, mas como uma entidade da nossa música. A turnê comemorativa, que se iniciou oficialmente na última sexta (8), trouxe para este sábado (9) uma atmosfera de consagração. ​“Considero ter uma carreira vitoriosa”, cravou Djavan logo no começo da apresentação, lembrando do início da trajetória em São Paulo, quando ficou em 2º lugar no Festival Abertura de 1975, realizado no Teatro Municipal, com a música Fato Consumado. ​A sinergia entre o artista e o público rendeu destaques emocionantes, como os coros em Meu Bem Querer e Oceano, que vieram em sequência no momento de voz e violão. Sob a direção artística de Gringo Cardia, o palco reflete a sofisticação das harmonias djavanianas. O trabalho de iluminação de Césio Lima e Mari Pitta cria o cenário perfeito para a banda de elite que o acompanha: Felipe Alves (bateria), Marcelo Mariano (baixo), Torcuato Mariano (guitarra/violão), Paulo Calasans e Renato Fonseca (teclados), além do trio de sopros Jessé Sadoc, Marcelo Martins e Rafael Rocha. ​Assisti a alguns shows de Djavan nos últimos 30 anos, muitos deles em Santos, do ginásio e teatro do Sesc à Praia do Boqueirão. Mas a grandiosidade que o espetáculo ganhou com a turnê Djavanear é impressionante. O telão é de padrão internacional, daqueles que os fãs costumam reclamar que artistas estrangeiros nem sempre trazem em suas turnês por aqui. ​A qualidade sonora é impecável. Aos 77 anos, Djavan não dá sinais de cansaço. Mantém a voz presente, com ótimo suporte das backing vocals (que garantem a sustentação necessária enquanto ele dança e interage com os fãs). Com um setlist focado exclusivamente em sucessos, não há espaço para momentos mornos. A estrutura do show traz uma curiosidade marcante: Sina é a escolhida tanto para abrir quanto para encerrar a noite, criando um ciclo perfeito de celebração. ​Sina, inclusive, carrega o famoso neologismo criado por Djavan: “Caetanear”. O termo, feito para homenagear Caetano Veloso, significa compor ou cantar com a maestria, poesia e leveza características do baiano. Quando a música volta ao palco no bis, serve como uma deixa para o público trocar “Caetanear” por “Djavanear” na letra. O mestre alagoano merece a exaltação que ele mesmo criou para o amigo. ​Djavan também emociona em canções mais recentes, como Um Brinde. Na época do lançamento dessa faixa, o artista liberou um trecho de um minuto cantado apenas com silabados, convidando os fãs a criarem versões sobre a melodia. Já em O Vento, ele relembrou a saudosa Gal Costa, que gravou a faixa (composta em parceria com Ronaldo Bastos) em 1987. Recentemente, a canção ganhou uma nova roupagem no álbum Improviso. ​Momentos de destaque: Meu Bem Querer, Oceano, Eu Te Devoro, Linha do Equador, Nem Um Dia, Samurai, Lilás, Flor de Lis e Açaí. ​A turnê, realizada pela Live Nation e Luanda Promoções, cumpre a promessa de entregar exatamente o que o fã deseja: uma antologia viva com estrutura digna de sua história. Assistir ao show Djavanear é obrigatório para quem deseja ver a história da música brasileira sendo celebrada em tempo real. A turnê agora segue para Salvador, passa por Fortaleza, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Florianópolis, Belém, Recife, Maceió, antes de retornar para o show derradeiro no Pacaembu, em São Paulo, no dia 12 de dezembro.

Men At Work entrega noite de nostalgia e conexão em São Paulo

​A banda australiana Men At Work é, sem dúvida, um dos nomes mais emblemáticos dos anos 1980, tendo construído um legado inabalável de hits em um curto intervalo de tempo. No entanto, a falta de química e uma guerra de egos fizeram com que o núcleo formado por Colin Hay, Ron Strykert e Greg Ham se dissolvesse com a mesma velocidade com que alcançou o estrelato. ​Dos três, Colin Hay é o único que segue na ativa, preservando o legado do grupo através de suas composições. Hoje, ele se apresenta acompanhado por uma competente banda multinacional, que inclui músicos peruanos, cubanos e norte-americanos. Greg Ham faleceu em 2012, enquanto Ron Strykert, afastado dos holofotes, chegou a ser brevemente detido em 2009 por supostas ameaças contra Hay. ​Mesmo com um histórico conturbado, Colin Hay, aos 72 anos, demonstra vigor e felicidade no palco. Na última quarta-feira (6), no Vibra SP, o músico chegou a arriscar passos de samba durante a execução de Down Under, encerrando a noite em clima de celebração. ​O despertar do público ​Com a casa cheia, o Men At Work demorou a engrenar. A escolha de abrir com Touching the Untouchables e No Restrictions — faixas menos comerciais dos principais álbuns — resultou em uma recepção fria. O público apenas observava, sem a conexão imediata que se espera de um show repleto de clássicos. ​O jogo começou a virar em Broken Love, a primeira incursão pela carreira solo de Hay. Cecilia Noël, a carismática backing vocal peruana, assumiu o papel de tradutora e convocou a plateia para o coro do refrão. Foi o estopim necessário para conectar a banda ao público pelo restante da apresentação. ​Intercalando lados B e faixas solo, Hay ficou visivelmente mais à vontade. Down by The Sea e Into My Life vieram em sequência, criando as primeiras “ilhas” de smartphones erguidos para registrar momentos icônicos. ​Nota de etiqueta: Não se trata de ser o “chato do celular”, até porque também registro canções para o Blog n’ Roll, mas o bom senso é fundamental. Um espectador de estatura média não precisa esticar os braços ao limite para filmar, muito menos realizar giros de 360 graus que resultam em registros de péssima qualidade e atrapalham a visão alheia. ​Virtuosismo e hits ​Voltando ao espetáculo, Colin Hay deu espaço para que seus músicos brilhassem. Os destaques ficaram para a saxofonista norte-americana Rachel Mazer e o baixista cubano Yosmel Montejo, ambos com sólida bagagem no jazz, que elevaram o nível técnico das canções. ​A reta final foi arrebatadora. O setlist foi estrategicamente montado para guardar os hinos do Men At Work para o desfecho: Dr. Heckyll & Mr. Jive, Overkill, It’s a Mistake, Who Can It Be Now?, Down Under e Be Good Johnny. ​Nesse momento, as barreiras geracionais sumiram. Pais, filhos e amigos cantaram em uníssono. Eram memórias de uma década memorável, mas também um deleite para os fãs da série Scrubs, que utilizou exaustivamente a trilha da banda e teve em Colin Hay quase um personagem recorrente.

Entrevista | Metric – “Temos que tocar no Lollapalooza”

Com mais de duas décadas de estrada, o Metric consolidou-se como um dos pilares da independência artística no rock alternativo. No fim de abril, a banda liderada por Emily Haines alcançou a marca histórica de dez álbuns de estúdio com o lançamento de Romanticize the Dive. Mais do que um novo capítulo, o disco representa um acerto de contas com o passado e um abraço à maturidade que só o tempo permite. O cenário para essa nova jornada não poderia ser mais emblemático: o Electric Lady Studios, em Nova York. Ao retornar ao local onde gravaram clássicos do início da carreira, Emily e o guitarrista Jimmy Shaw reencontraram os “fantasmas” de suas versões mais jovens. Entre as paredes que já ecoaram as vozes de ícones como Jimi Hendrix e o mentor da banda, Lou Reed, o grupo buscou resgatar a urgência sonora dos discos Fantasies e Synthetica. Nesta entrevista ao Blog n’ Roll, Emily Haines refletiu sobre o processo de “destruição do ego” sob a tutela do produtor Gavin Brown. Ela revelou como a Metric busca despir as composições de metáforas complexas para atingir um estado de vulnerabilidade absoluta, transformando o estúdio em um espaço de cura e introspecção filosófica. Um dos pontos altos da conversa é a discussão sobre o papel da “mulher durona” na indústria musical atual. Emily compartilha sua visão sobre o amadurecimento e a transição de quem antes estava na linha de frente para uma posição de mentoria, como uma “irmã mais velha” que observa a nova geração enquanto aprecia um chá de camomila nos bastidores da própria história. Encerrando o papo com um olhar carinhoso para o público sul-americano, Emily não esconde o desejo de trazer a nova turnê para o Brasil. Entre reflexões sobre o desapego e a celebração da trajetória percorrida, a artista nos convida a deixar o rancor de lado e “ficar no alto”, uma mensagem que define perfeitamente o espírito de Romanticize the Dive. Oi, Emily, como você está?  Ótima, obrigada! Onde você está agora? Em casa?  Estou de volta ao estúdio. Acabamos de encerrar nossa turnê de imprensa na Europa e o lançamento do álbum em Nova York. Estou feliz por entrar agora no “modo ensaio”. Tem sido muito corrido. Imagino! Romanticize the Dive marca o 10º álbum da Metric e um retorno ao Electric Lady Studios, em Nova York. Como foi entrar naquele estúdio em 2026 e confrontar a “fome” da sua juventude, de quando vocês começaram no início dos anos 2000?  Foi como entrar em uma casa mal-assombrada onde alguns dos fantasmas eram versões mais jovens de nós mesmos. E outros eram pessoas com quem gravamos lá, como o Lou Reed.  Também conhecemos todos os álbuns que foram feitos ali, Patti Smith, D’Angelo, Jimi Hendrix. O Jimmy (Shaw) e eu sempre dizemos que aquele lugar é como ter um “grupo de foco”: quando damos o play em uma música na sala, recebemos informações sobre se ela é boa ou não sem precisar de ninguém lá, porque as paredes guardam essa história para nós. Vocês trabalharam novamente com o produtor Gavin Brown. O que ele traz ao som do Metric que ajuda a capturar o caos e as possibilidades de antes, mas com a maturidade que vocês têm hoje?  A última vez que trabalhamos com ele foi no Fantasies (2009) e no Synthetica (2012), que são os discos que tentamos “revisitar” como conceito neste novo álbum. O grande diferencial do Gavin é que ele me desafia como compositora, ele sempre me pede para tirar as camadas e dizer o que realmente sinto.  É difícil, porque prefiro escrever em códigos e me esconder atrás deles. Ele me ajuda a ter coragem de dizer o que realmente quero dizer, em vez de me ocultar. Chamamos esse processo de “destruir o ego”. Crush Forever é descrita como uma carta de amor para “garotas duronas” (tough girls). Em uma indústria que mudou tanto, o que define uma garota durona no contexto atual de 2026?  Acho que uma das mudanças é que, quando começamos, as pessoas eram obcecadas pelo fato de não acreditarem que (o rock) pudesse ser feito por uma mulher. Isso mudou, vimos muitas estrelas massivas surgirem. Mas, nessa música, não escrevo para alguém da indústria, mas sim para uma “irmã mais nova” que tenta descobrir como ser ela mesma, sem medo de causar problemas, de irritar algumas pessoas, de ser forte ou cometer erros.  Falar com essa irmã mais nova me ajudou a encontrar minha voz como irmã mais velha. Entender que talvez tenha que ficar mais nos bastidores agora, ainda estou no bar, mas bebendo chá de camomila. A faixa Tremolo parece ser o coração filosófico do disco, falando sobre aceitar o quão pouco podemos controlar. Compor essa música foi um processo de cura ou de resignação?  Eu diria cura, com certeza. Em qualquer momento da vida, você pode se fixar em grandes decisões passadas ou em coisas pequenas e arbitrárias que te levaram por outro caminho. Você pode gastar todo o seu tempo reimaginando essas coisas, o que é exaustivo e danifica sua capacidade de estar no presente. Espero que a música ajude as pessoas a se libertarem disso. É sobre dizer: “estou aqui, é aqui que quero estar, o resto já aconteceu. E agora?”. O Metric mantém a mesma formação original há duas décadas e sempre priorizou a independência artística com selo próprio. Qual foi o momento mais crítico em que essa independência foi testada? Acho que foi com o Fantasies, em 2009. Recebemos ofertas de grandes gravadoras, como a Interscope, mas não conseguíamos entender como seria se eles fossem donos da nossa música. Nosso empresário na época foi muito corajoso, cuidou de toda a parte legal para nos tirar dos contratos e criar a MMI. Somos donos da nossa música desde então. O fato de aquele ter sido nosso maior álbum tornou tudo mais significativo. Hoje trabalhamos com a Thirty Tigers, que segue a lógica de: “vocês são donos da música, dividimos os lucros e pronto”.

Megadeth inicia adeus com show poderoso em São Paulo

Na história do heavy metal, as “turnês de despedida” tornaram-se um gênero em si. Muitas vezes vistas com ceticismo pelo mercado, para o Megadeth, o anúncio da turnê This Was Our Life carrega um peso de realidade que transcende o marketing. Na noite do último sábado (2), um Espaço Unimed completamente lotado e com ingressos esgotados há meses foi testemunha do show de número 42 da banda em solo brasileiro. Mas este não foi apenas mais um capítulo, foi o início de um adeus que promete durar anos, mas que já carrega a urgência do fim. Superação no palco Aos 64 anos, Dave Mustaine é uma figura de resiliência. Lutando contra a artrite, a paralisia no nervo radial e as sequelas de um câncer na garganta, o líder do Megadeth subiu ao palco para provar que, embora o corpo sinalize limites, a mente e o espírito thrash continuam imbatíveis. Sua voz, compreensivelmente desgastada pelo tempo e pelas batalhas de saúde, funcionou com uma autoridade que apenas os veteranos possuem, uma rouquidão que hoje serve bem à narrativa sombria de suas letras. Nova dinâmica e o “maestro” finlandês A formação atual é, talvez, uma das mais técnicas da história do grupo. James LoMenzo (baixo) e Dirk Verbeuren (bateria) formam uma cozinha implacável. Verbeuren, em particular, reafirmou sua posição como um dos melhores bateristas que já sentou no banco da banda, trazendo uma precisão cirúrgica a clássicos e músicas novas. No entanto, os olhos estavam voltados para Teemu Mäntysaari. Substituir Kiko Loureiro não é tarefa fácil, mas o finlandês entregou uma performance de altíssimo nível. Em faixas como a nova Let There Be Shred, Teemu e Mustaine duelaram com solos que remeteram aos anos 90, celebrando o virtuosismo técnico que é a marca registrada do grupo. Destaques do setlist do Megadeth O show abriu com o “pé na porta” de Tipping Point, faixa do álbum homônimo, lançado em janeiro passado. Uma canção que mistura a fúria rítmica com uma letra reflexiva de quem olha para trás sem arrependimentos. Logo em seguida, a surpresa da noite, The Conjuring. A inclusão desta faixa é significativa. Por anos, Mustaine evitou tocá-la devido à sua conversão ao cristianismo, mas o retorno dela ao setlist em São Paulo foi recebido como um presente histórico pelos fãs. O material mais recente voltou a marcar presença com I Don’t Care, que trouxe uma energia quase punk ao local, mostrando que o Megadeth ainda tem “contas a acertar com o mundo”. Mas, claro, foram os hinos que transformaram o Espaço Unimed em um caldeirão. Da precisão de Hangar 18 ao coro ensurdecedor em Symphony of Destruction, o público paulista mostrou porque o Brasil é parada obrigatória na rota de Mustaine. A execução de Ride the Lightning (cover do Metallica que tem Mustaine como coautor) foi um momento de catarse e uma piscadela nostálgica para os fãs que acompanham a trajetória de Dave desde o início, quando ainda integrava o outro grande nome do Big Four. Por fim, o encerramento com o combo Peace Sells e Holy Wars… The Punishment Due selou a noite com a perfeição técnica habitual. Longo adeus do Megadeth Embora a turnê seja de despedida, Mustaine já sinalizou que o processo pode durar de três a quatro anos, com a promessa de retornar ao Brasil para visitar mais cidades. A ideia é “sair em alta”, preservando o legado intacto antes que as limitações físicas tornem as apresentações inviáveis. Nota: 9.5/10 Setlist:

Bad Religion entrega aula de punk rock para pais e filhos em São Paulo

Bad Religion 2026

Já se passaram quase 30 anos desde a primeira vez que assisti ao Bad Religion no Brasil. De lá para cá, houve mudanças na formação (principalmente na bateria), muitos cabelos brancos e diferentes formatos de show (de festivais a casas de diversos tamanhos). O que impressiona, no entanto, é como a banda jamais perde o gás. Seja na primeira ou na décima vez, o show continua sendo parada obrigatória para quem ama punk, hardcore e suas vertentes. Setlist atemporal do Bad Religion O aspecto mais interessante da apresentação é notar como o repertório soa atual. Das 1h20 de show, o arco temporal foi de Recipe For Hate, que abriu a noite, até o hino American Jesus, responsável pelo encerramento. Aula de história (com distorção) Essa atualidade explica a comoção de muitos pais na pista premium do Espaço Unimed. Era visível a presença de crianças e adolescentes acompanhando seus responsáveis para assistir a uma verdadeira aula de história ministrada por um PhD em Zoologia (Greg Graffin). Graffin conduz o espetáculo amparado pelo peso das guitarras de Brian Baker e Mike Dimkich, além dos backing vocals viscerais do baixista Jay Bentley. O baterista Jamie Miller, no grupo desde 2016, completa a cozinha com precisão absoluta. Estatísticas e ausências no set do Bad Religion Dos 17 álbuns de estúdio, a banda visitou 12 deles. The Gray Race foi o grande protagonista da noite, com cinco faixas. American Jesus para fechar o arco Para selar a atemporalidade, American Jesus (1993) fechou o set. A música, que nasceu como resposta à Guerra do Golfo (sob o comando de Bush pai), permanece dolorosamente precisa ao descrever o imperialismo norte-americano, independentemente de quem ocupe a Casa Branca. Como citado na biografia Do What You Want, o Bad Religion vive uma espécie de déjà vu constante. A obra relata que figuras como fundamentalistas e negacionistas climáticos sempre encontram eco no poder, tornando as letras de 30 anos atrás tão urgentes quanto as de hoje. O Bad Religion não suporta a ideia de que uma única nação possa determinar o futuro do mundo. Enquanto os integrantes deixavam o palco, Jay Bentley resumiu o espírito da noite com um discurso direto: “A mudança depende de vocês. Só vocês podem mudar o mundo.”