Yungblud incendeia Interlagos e consagra sua relação de amor com o Brasil

Dias após destruir (no bom sentido) o Cine Joia em um sideshow caótico, o britânico Yungblud provou no Lollapalooza, em Interlagos, que sua energia não se dilui em palcos grandes. Vestindo uma camisa do Brasil (que virou quase uniforme), ele correu, gritou e cuspiu marra punk durante uma hora ininterrupta. O setlist foi um ataque frontal: The Funeral, Parents e Tissues foram tocadas em velocidade máxima. A conexão com o público foi visceral, ele desceu para a grade, regeu os mosh pits e exigiu participação total. O encerramento com Loner foi o ápice de uma performance que misturou a teatralidade do glam rock com a sujeira do punk. Yungblud saiu de cena como o nome mais vibrante da nova geração do rock no festival. Edit this setlist | More YUNGBLUD setlists
Wallows dribla o estigma de ‘banda de ator’ e faz estreia solar (mesmo com o tempo fechando) no Lollapalooza

Quando o Wallows foi anunciado para o Lollapalooza 2023, o ceticismo era inevitável. Afinal, bandas lideradas por atores de Hollywood costumam ser apostas arriscadas. Mas na tarde de sábado (25), Dylan Minnette (voz/guitarra), Braeden Lemasters (voz/guitarra) e Cole Preston (bateria/guitarra) subiram ao Palco Budweiser dispostos a enterrar qualquer preconceito. O horário (16h45) foi estratégico, pegando a transição da tarde. Curiosamente, o clima de Interlagos decidiu participar do show: o sol escaldante que castigava o público deu lugar a ventos frios e nuvens pesadas exatamente durante o set, criando uma atmosfera “london-indie” que casou perfeitamente com a sonoridade da banda. Início bem brasileiro do Wallows no Lollapalooza A banda ganhou o jogo antes mesmo de tocar a primeira nota. A entrada ao som de Sonho Meu, clássico de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho ecoando nas caixas, foi um aceno de respeito que pegou a plateia desprevenida e abriu sorrisos imediatos. Quando engataram I Don’t Want to Talk, ficou claro que o som ao vivo tinha mais “punch” do que nas gravações. A “cozinha” da banda funcionou como um relógio, sustentando a euforia dos fãs que se espremiam na grade. Momento meme O show não foi apenas uma reprodução do Spotify. O trio mostrou versatilidade com a troca de instrumentos, ver Dylan assumir o baixo ou Cole sair da bateria para a guitarra deu uma dinâmica visual interessante, provando que são músicos reais, não apenas rostos bonitos. O setlist navegou bem entre o indie dançante de Talk Like That e Quarterback (cantada por Cole). Mas o momento de catarse coletiva, e um tanto cômica para os brasileiros, foi o cover de What Makes You Beautiful, do One Direction. Para o público local, impossível não associar a melodia ao meme “Nissim Ourfali”, o que transformou a pista em um karaokê caótico e divertido. Clímax Diferente da postura tímida (e até meio ranzinza) que Dylan apresentou em algumas entrevistas pré-festival, no palco ele foi um frontman completo. Desceu para a grade, cantou com os fãs e prometeu voltar “o mais rápido possível”, promessa que a banda pareceu fazer com sinceridade. A reta final foi uma surra de hits indies. Remember When e Pleaser prepararam o terreno para o encerramento obrigatório com Are You Bored Yet?. Sem a participação de Clairo (apenas a voz gravada), o público assumiu os vocais femininos, criando o momento mais bonito da apresentação. O Wallows saiu de Interlagos maior do que entrou. Em suma, eles provaram que sua base de fãs é real e barulhenta, e que seu som, uma mistura inteligente de post-punk revival com pop moderno, funciona muito bem em grandes festivais. Para quem duvidava, ficou a lição: o Wallows é uma banda de verdade, e das boas.
Twenty One Pilots espanta o fantasma do blink-182 com show acrobático e homenagem aos veteranos

A missão era ingrata: substituir o blink-182, a banda mais esperada da década, aos 45 do segundo tempo. Mas o Twenty One Pilots não apenas segurou a bronca, mas fez o público esquecer a ausência. O show do Twenty One Pilots foi uma aula de entretenimento. Desde a escalada suicida de Tyler Joseph na estrutura do palco até a bateria montada sobre a plateia, o duo entregou tudo. Musicalmente, foram respeitosos: tocaram um trecho de All The Small Things, ganhando o respeito dos fãs órfãos do blink. Na parte do trompetista, que costuma prestar pequenas homenagens locais, Garota de Ipanema, Más que nada e Baile de Favela foram lembradas. Hits como Stressed Out, Heathens e Ride foram executados com a precisão de sempre, mas foi a energia de “temos que vencer esse jogo” que tornou a noite especial. Saíram ovacionados, não como substitutos, mas como titulares absolutos.
Entre o deboche e a genialidade, The 1975 entrega o show mais estiloso do festival

Matty Healy subiu ao palco com uma garrafa de vinho, um cigarro e a postura de quem não liga para nada, exatamente o que os fãs esperavam. O show do The 1975 foi uma viagem estética e sonora. Com um setlist que privilegiou o álbum Being Funny in a Foreign Language, a banda soou impecável. A trinca inicial com If You’re Too Shy (Let Me Know) e TooTimeTooTimeTooTime colocou todo mundo para dançar. Mas os pontos altos foram os hits da era “Tumblr”, como Robbers e Sex, que causaram histeria na grade. Healy, equilibrando-se entre o personagem arrogante e o frontman carismático, provocou, bebeu e entregou um dos shows mais visualmente coesos do evento. O encerramento com Give Yourself a Try deixou aquele gosto de rock de arena moderno e inteligente. Edit this setlist | More The 1975 setlists
Gilsons transforma Lollapalooza em fim de tarde na Bahia com hits de ‘Pra Gente Acordar’

Entre tantas guitarras distorcidas e batidas eletrônicas, o show dos Gilsons funcionou como um oásis. O trio (filhos e netos de Gilberto Gil) trouxe a brisa da MPB contemporânea para o palco principal, provando que o som orgânico tem, sim, espaço em megafestivais. O hit Várias Queixas foi cantado em uníssono, transformando o gramado em uma roda de samba gigante. Mas a força do show residiu nas faixas do álbum Pra Gente Acordar, como Proposta e a faixa-título, que misturam a sofisticação harmônica da família Gil com o pop radiofônico. Foi uma apresentação leve, solar e dançante, que serviu para “limpar o paladar” do público antes da maratona de rock que viria a seguir.
Pitty comanda coro de milhares e prova que o rock brasileiro tem dono (e é uma mulher)

Se havia alguma dúvida sobre a longevidade do rock nacional, Pitty tratou de dissipá-la. Com um dos maiores públicos do dia no Palco Adidas (que ficou visivelmente pequeno para ela), a baiana entregou um setlist “sem firulas”, focado na memória afetiva. A abertura com Ninguém é de Ninguém já mostrou a banda afiada, mas foi quando os acordes de Admirável Chip Novo e Máscara soaram que Interlagos tremeu. Pitty, regendo a massa com elegância, atualizou a letra de Na Sua Estante (trocando “cê acha que eu sou louca” por “não diga que eu sou louca”), um detalhe sutil mas poderoso. O encerramento com Me Adora não foi apenas um show; foi um grito de desabafo coletivo de uma geração que cresceu ouvindo essas músicas.
Medulla abre os trabalhos com “bicicletada” sonora e rock visceral em Interlagos
Abrir o palco principal (Chevrolet) é uma tarefa para poucos, e o Medulla fez isso com a urgência de quem tem algo a provar. Os gêmeos Keops e Raony trouxeram seu rock experimental e cheio de groove para um público que ainda chegava, mas que foi capturado pela energia de faixas como Faça Você Mesmo e Paralelo ao Chão. A banda apostou na intensidade física, compensando o sol forte com performance. O destaque ficou para Eterno Retorno e Um Leão Por Dia, músicas que ganharam peso extra na acústica aberta do autódromo. Entre discursos sobre liberdade e a estética urbana (com referências às bicicletas que são marca da banda), o Medulla fez um show curto, grosso e suado, honrando o rock independente nacional no mainstream.
Carol Biazin espanta o sol do meio-dia com R&B sensual e cover poderoso de Cássia Eller

Quem encarou o sol a pino das 13h no Palco Adidas não encontrou uma artista iniciante, mas uma popstar pronta. Carol Biazin trouxe para Interlagos a complexidade de seu álbum Reversa, dividindo o show em atos que narram as fases de um relacionamento. Apesar do horário ingrato, a cantora paranaense entregou visuais e coreografia de gente grande. A sequência Garota Infernal e Tentação mostrou que seu R&B pop tem “pegada” ao vivo. Mas o momento que furou a bolha dos fãs foi o cover de Malandragem (Cássia Eller). Com arranjo moderno e vocais rasgados, Carol provou que tem envergadura para dialogar com o rock nacional clássico, preparando o terreno para o hit Mala Memo. Foi uma apresentação curta, mas que deixou claro: o palco secundário já ficou pequeno para ela.
Yungblud faz show de corpo e alma no Cine Joia, em São Paulo

Atração do Lollapalooza 2023, o britânico Yungblud testou seu poder de fogo em São Paulo na última quinta-feira (23), no Cine Joia. Com a casa abarrotada, o artista de 25 anos mostrou que já tem uma fanbase poderosa no Brasil. Curioso notar o quão Yungblud tem crescido em popularidade em todo mundo. No segundo semestre de 2021, assim que os shows foram retomados na Europa, o Blog n’ Roll acompanhou uma das quatro noites de sold out no O2 Forum Kentish Town, em Londres. O giro pela América do Sul não tem sido diferente. Protagonizou shows incríveis no Chile e Argentina, ambos com muito apoio dos fãs também. No Cine Joia, Yungblud manteve o set que tem funcionado perfeitamente pelo mundo todo. O início é pulsante com 21st Century Liability,The Funeral e parents. Yungblud não para um segundo sequer. Pula, dança, vibra enquanto enfileira hits. Tissues, outro single marcante do terceiro álbum, homônimo, coloca ainda mais pilha no público, que permaneceu em perfeita sinergia com o artista do início ao fim. strawberry lipstick, do segundo álbum, weird! (2020), também virou sing along com o público do Cine Joia. A apresentação de Yungblud se mantém forte do início ao fim. Com o repertório na ponta da língua dos fãs e a energia inesgotável do britânico, fica até difícil elencar os pontos altos. No entanto, fleabag, California, I Think I’m Okay (feat com Machine Gun Kelly) e Loner conseguiram chamar ainda mais a atenção. Ao término da apresentação, o público aguardou o músico na porta do Cine Joia. E ele apareceu. Subiu em cima de um carro e vibrou muito com o carinho dos fãs. Se cumprir com a promessa, teremos Yungblud em São Paulo em 2024, 2025, 2026, e assim por diante.