Entrevista | Erasmo Carlos – “Não posso parar. Só sei fazer isso”

Muito se fala sobre a vitalidade de Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones, ambos com 68 anos. O que dizer de Erasmo Carlos, 70 anos recém completados, que continua fazendo rock and roll como poucos e mostra que o gás está longe do fim? Ele garante: “Não posso parar. Só se fazer isso”. Por telefone, Erasmo Carlos falou das ligações com Santos, do show que será apresentado, amanhã no Ginásio do Sesc, dos novos projetos e sobre a nova geração do rock brasileiro. Nas próximas semanas, o cantor encerra a turnê de Rock and Roll, lançado em 2009, mas já solta mais dois trabalhos para os fãs: o DVD 50 Anos de Estrada e o CD Sexo. O que esperar de Sexo? Rock and roll ou alguma experiência nova? O álbum tem parcerias com Arnaldo Antunes, Chico Amaral, Liminha e Adriana Calcanhoto. Eu deixei para cada um mostrar como vê o sexo, cada um com sua visão. Já o som é na linha rock and roll. Não tem como ser diferente. O CD chega em agosto nas lojas, mas quem quiser, já pode ouvir uma canção no meu site. Esperava manter uma carreira tão extensa? Nunca imaginei nada. As coisas foram acontecendo. Dou um crédito à minha vontade e o sonho de seguir com a música. Soube me comportar, tirar proveito de várias derrotas. Dei sorte na vida, mas claro que tenho talento. Jamais imaginei que chegasse a tanto. Muitos te consideram o pai do rock brasileiro. Concorda? Isso é carinho das pessoas. Esse título é pelo carinho que elas têm por mim. Me considero um compositor que faz as músicas e as interpreto. Só. Lembra do primeiro contato como rock? Sim. Quando eu ouvi pela primeira vez, senti na hora que era uma coisa importante. Aquilo me arrepiou e me tornei escravo na hora. Depois que fui descobrir outras pessoas que gostavam e o que estava se tornando aquilo em todo o mundo, que os jovens gostavam. Foi o início da liberdade dos jovens. Eles descobriram que podiam ser livres. Era só abrir a portinha da gaiola e voar. Ainda existe algum problema entre Erasmo Carlos e Roberto Carlos? Isso é tão antigo! Já houve mais de 500 mil provas da nossa amizade. A última foi no meu show de 50 anos. Roberto estava lá. Impossível achar que não temos uma amizade verdadeira depois de tantas parcerias. Isso é coisa de quem não entende nada e fala besteira. E com o Tim Maia? Como era o relacionamento? Muito bom, mas não quero falar sobre isso. Se eu revelar tudo aqui, ninguém vai comprar o meu livro Minha Fama de Mau (risos). Então, comprem dois. Um para ler e outro para dar de presente. Como você analisa bandas como Restart e Cine? Eles estão começando. Acho legal cada um começar como pode. Uns fazem música para arrumar namorada, outros porque querem viver disso. Só o tempo dirá para o que vieram. Analiso a partir do terceiro disco gravado, quando descubro se é puro comércio ou idealista. Destaca algum nome da música atual? Marcelo Jeneci, a Silvia Machete e a Maria Gadú. Espero muito para perceber se o trabalho é bom. Só agora, por exemplo, senti consistência no som da Maria Rita. E a geração 1980? O que acha dela? Quem está aí até hoje em dia é bom pra caramba. Paralamas, Barão, Titãs e Kid Abelha são ótimos. O que lembra de Santos? Além de ter imortalizado As Curvas da Estrada de Santos com o Roberto, lembro de algo inusitado. Foi em Santos que dei meu primeiro autógrafo em um seio. O primeiro de muitos, aliás. E as bocas de Santos? Você as frequentou nos anos 1960 e 1970? Eu fui duas vezes para as bocas, mas não fui atrás de mulheres. Eu fui buscar o pessoal do Caribe Steel Band, uma banda da Guiana Inglesa que tocava sempre aí. Eles tinham um som muito bom. O que os fãs podem esperar no show do Sesc? Músicas de Rock and Roll, meu último álbum, da Jovem Guarda e sucessos dos anos 1970. SERVIÇO – HOJE, ÀS 21 HORAS. OS INGRESSOS VARIAM ENTRE R$ 7,50 E R$ 30,00. O GINÁSIO DO SESC SANTOS FICA NA RUA VERGUEIRO STEIDEL, 300, NA APARECIDA. INFORMAÇÕES PELO TELEFONE 3278-9800.

U2 transforma o Morumbi em nave espacial e entrega noite de comunhão e tecnologia

Não existe nada comparável à estrutura da 360° Tour. Quando as luzes se apagaram e a fumaça começou a sair da “garra”, ao som de Space Oddity (David Bowie), o Morumbi parecia estar prestes a ser abduzido. O U2 entrou em cena com Even Better Than the Real Thing, e imediatamente o telão cilíndrico se expandiu, criando uma experiência visual que fazia a arquibancada se sentir dentro do palco. Diferente da chuva torrencial da primeira noite (sábado), o domingo ofereceu um clima mais ameno, o que permitiu à banda e ao público uma conexão mais limpa e eufórica. Clássicos e raridades O setlist foi um equilíbrio fino entre o gigantismo do pop e a nostalgia. O bloco inicial com I Will Follow e Get On Your Boots manteve a energia alta, mas foi em Magnificent e Mysterious Ways que a banda mostrou seu “groove” de estádio. Para os fãs mais dedicados, a noite reservou pérolas. A execução de Zooropa, uma faixa que passou anos fora dos repertórios, foi um momento de transe psicodélico, casando perfeitamente com a estética futurista do palco. Coração político e emocional Como de costume, Bono transformou o show em missa. Sunday Bloody Sunday foi cantada com a urgência de sempre, mas o momento de maior impacto visual veio em City of Blinding Lights e Vertigo, onde a “garra” parecia pulsar luz. A homenagem aos direitos humanos e a conexão com o Brasil apareceram em Miss Sarajevo, com Bono assumindo a parte lírica de Pavarotti de forma surpreendentemente competente. O estádio, iluminado por milhares de celulares (e isqueiros), virou uma galáxia particular durante Pride (In the Name of Love). Apoteose O bis foi uma sequência de golpes baixos emocionais. One, com seu discurso de unidade, fez 90 mil pessoas se abraçarem. Em seguida, a introdução de sintetizador de Where the Streets Have No Name causou a explosão habitual: as luzes se acenderam e o Morumbi pulou como se fosse gol em final de campeonato. O encerramento solene com Moment of Surrender trouxe a nave de volta à terra. O U2 provou, mais uma vez, que entende a arquitetura da emoção como ninguém. A 360° Tour não foi apenas um show de rock; foi um evento de engenharia, marketing e fé, executado pela maior banda do planeta em seu auge técnico. Edit this setlist | More U2 setlists

Muse ignora a ‘garra’ do U2 e faz show de headliner com peso e virtuosismo

Colocar o Muse para abrir um show é um risco para qualquer banda principal, até mesmo para o U2. Na noite deste domingo (10), o trio britânico subiu ao palco montado no centro do gramado não para aquecer o público, mas para competir. Com a luz do dia ainda presente, Matt Bellamy, Chris Wolstenholme e Dominic Howard entregaram um som maciço que fez a estrutura da “garra” tremer. A banda vivia o auge da turnê The Resistance, e a confiança era visível. A abertura com Plug In Baby foi um ataque sônico: o riff agudo e distorcido cortou o ar do Morumbi, acordando até quem estava nas arquibancadas mais distantes apenas esperando por Bono. Prog-rock de estádio O que impressionou foi como o som do Muse preencheu o estádio. Em Uprising e Supermassive Black Hole, o baixo distorcido de Wolstenholme funcionou como um terremoto controlado. A banda não se intimidou com o palco 360º; eles o usaram a seu favor, correndo pelas passarelas e interagindo com os fãs que cercavam a estrutura. Momentos mais teatrais, como United States of Eurasia (com sua pegada Queen), mostraram a versatilidade vocal de Bellamy. Mas foi nos hits radiofônicos, como Time Is Running Out e Starlight, que o público, majoritariamente fã de U2, se rendeu e cantou junto, batendo palmas no ritmo. Final épico O encerramento já se tornou folclore em shows de estádio. A introdução de gaita de Man with a Harmonica (Ennio Morricone) preparou o terreno para a cavalgada espacial de Knights of Cydonia. Com um final frenético e pesado, o Muse saiu de cena deixando a sensação de que aquele palco também pertencia a eles. Foi uma abertura curta, grossa e tecnicamente impecável, elevando o sarrafo lá no alto para os donos da festa. Edit this setlist | More Muse setlists

Ozzy Osbourne encharca o Anhembi com espuma e clássicos do Sabbath

Havia uma dúvida no ar, no sábado (2), no Anhembi, em São Paulo: como o público brasileiro, órfão do carisma ogro de Zakk Wylde, receberia o novo guitarrista, o grego Gus G.? A resposta veio logo nos primeiros acordes de Bark at the Moon. Gus G. é um virtuoso, técnico e preciso, e embora não tenha o “peso visual” de Zakk, entregou cada nota com perfeição cirúrgica. Mas a estrela, claro, é Ozzy. Aos 62 anos, o Madman subiu ao palco correndo, pulando seus “polichinelos” e, claro, armado com sua mangueira de espuma e baldes d’água. A turnê Scream trouxe um repertório equilibrado. Faixas novas como Let Me Hear You Scream funcionaram bem, mas o Anhembi queria história. E Ozzy entregou. A trinca do Black Sabbath com Fairies Wear Boots, War Pigs e Iron Man transformou o sambódromo em um templo profano. Ouvir a sirene de War Pigs ecoando no concreto de São Paulo é uma daquelas experiências religiosas do metal. A voz de Ozzy, sempre uma incógnita, estava em uma noite boa. Ele desafinou aqui e ali (como é de lei), mas manteve a potência e, principalmente, o carisma inabalável, regendo a plateia com seus gritos de “I can’t hear you!”. A calmaria veio com Mama, I’m Coming Home, iluminada por milhares de isqueiros e celulares. Foi o respiro necessário antes da tempestade final. Crazy Train colocou o Anhembi abaixo. Gus G. brilhou no solo icônico, provando que o posto estava em boas mãos. Para o bis, a rápida e visceral Paranoid encerrou a noite. Ozzy, encharcado e sorridente, prometeu voltar.

Sepultura ignora posto de ‘banda de abertura’ e massacra o Anhembi com clássicos e a estreia de ‘Kairos’

Não existe banda de abertura melhor para Ozzy Osbourne no Brasil do que o Sepultura. Às 20h30, no Anhembi, em São Paulo, quando as luzes do Anhembi se apagaram, o quarteto não entrou para pedir licença; entrou para dominar. A escolha de abrir com Arise e Refuse/Resist foi uma declaração de guerra: o som estava alto e definido, algo raro para bandas de abertura no Anhembi. Derrick Green, imponente como sempre, comandou o público com seu português cada vez mais afiado. A banda vive a transição da era A-Lex para o vindouro Kairos, e a formação com Jean Dolabella na bateria mostra um entrosamento técnico impressionante. A coragem da banda apareceu ao testar a faixa inédita Kairos. Pesada e cadenciada, a música foi recebida com respeito, mas foi nos clássicos que a “roda” se abriu na pista. Choke e Territory mantiveram a energia no topo, com Andreas Kisser desfilando riffs que são o abecedário do metal para muitos ali presentes. O momento tribal, marca registrada da fase Derrick, veio com a jam de percussão, preparando o terreno para o final apoteótico. Roots Bloody Roots fez 30 mil pessoas pularem simultaneamente, criando aquela visão assustadora e bela de um mar de gente em transe. Edit this setlist | More Sepultura setlists