Pai da turma toda, 311 entrega show repleto de hits no Allianz Parque

A presença do 311 na Loserville Tour foi muito mais do que um simples show de abertura; foi um acerto de contas histórico com o público brasileiro. Sendo apenas a segunda visita da banda ao país, a primeira ocorreu há longos 14 anos, no festival SWU em 2011, a expectativa era palpável tanto para os fãs veteranos quanto para os admiradores do Limp Bizkit, que puderam testemunhar a fonte onde Fred Durst bebeu para moldar sua própria visão musical. Em um setlist conciso de 50 minutos, o quinteto não desperdiçou um segundo sequer. Abrindo com a dobradinha de peso Beautiful Disaster e Come Original, a banda reafirmou a força de seu repertório híbrido, que funde rock, reggae e hip-hop com uma fluidez invejável. A dinâmica vocal entre Nick Hexum e Doug “SA” Martinez continua sendo um dos grandes trunfos do grupo: a dupla esbanjou vigor físico e entrosamento, dominando o palco com uma energia que desmentia o hiato de décadas longe do Brasil. Para o público da pista, as comparações foram inevitáveis. A sonoridade solar do 311 ecoou referências que vão desde o Sublime até os brasileiros do Forfun (declaradamente influenciados pelos americanos). Um dos momentos de maior coro coletivo veio com a interpretação de Lovesong, clássico do The Cure que ganhou contornos icônicos na voz de Hexum pela trilha sonora do filme Como se Fosse a Primeira Vez. O ápice técnico da apresentação ficou por conta do baterista Chad Sexton. Seu solo vigoroso transformou-se em uma celebração coletiva no palco com a “invasão” dos integrantes do Slay Squad, que já haviam dado as caras no set da Ecca Vandal, reforçando o clima de camaradagem que permeia toda a turnê Loserville. O desfecho não poderia ser diferente: uma sequência de hinos como Amber e a explosiva Down, encerrando uma performance que provou que, mesmo após 30 anos de estrada, o 311 permanece relevante, técnico e absurdamente contagiante. Setlist   Beautiful Disaster Come Original Freak Out Lovesong (The Cure) Applied Science Drum Solo (Slay Squad (+ crew) on stage before full band drum act) Amber Creatures (for a While) Feels So Good Down

Ecca Vandal estreia no Brasil misturando The Distillers com hip hop, mas deixa a desejar

Embora muitos brasileiros tenham tido o primeiro contato com Ecca Vandal apenas no anúncio da Loserville Tour, a artista sul-africana radicada na Austrália carrega uma trajetória de uma década marcada por um ecletismo radical. Com apenas um álbum de estúdio lançado, o elogiado disco homônimo de 2017, e um longo período de hiato que interrompeu sua ascensão, sua vinda ao Brasil cercava-se de curiosidade sobre como seu “caos organizado”, que funde punk rock, hip hop e música eletrônica, se comportaria em um estádio. A proposta de Ecca é fascinante: em seus melhores momentos, sua agressividade vocal remete à crueza de Brody Dalle (The Distillers), mas envelopada em batidas eletrônicas e uma estética urbana moderna. No entanto, no palco do Allianz Parque, no último sábado (20), abrindo para o Limp Bizkit, a execução esbarrou em questões técnicas que comprometeram a experiência. A escolha por um formato reduzido de banda, focada essencialmente em bateria e baixo, com alternâncias pontuais para guitarras e sintetizadores, acabou soando esvaziada. O excessivo volume da bateria engoliu as camadas mais ricas do som, tirando o peso industrial e a profundidade que tornam seu trabalho de estúdio tão impactante. Apesar dos problemas de mixagem, a presença de palco de Ecca foi inegável. O ponto alto da apresentação foi o single Cruising to Self Soothe, lançado no início de 2025. A faixa injetou uma dose necessária de energia pesada no set, permitindo que a cantora explorasse seus vocais rasgados e demonstrasse a atitude visceral que a tornou uma queridinha da crítica internacional anos atrás. Econômica nas interações para otimizar os 40 minutos de palco, Ecca Vandal não deixou de prestar sua homenagem à cultura anfitriã. Em um gesto de reverência à música pesada brasileira, apresentou-se vestindo uma camiseta do Sepultura, reforçando sua conexão com as raízes do metal e do punk. Foi um show de contrastes: uma artista talentosa e visualmente impactante, mas que ainda parece buscar o equilíbrio ideal para transpor sua complexidade sonora para arenas de grande porte.

TBT – Dez anos sem Scott Weiland: relembre o show do Velvet Revolver em São Paulo

Scott Weiland, de 48 anos, ex-vocalista do Stone Temple Pilots e do Velvet Revolver, foi encontrado morto em 3 de dezembro de 2015, dentro do ônibus de sua banda, a Scott Weiland & the Wildabouts, no estado de Minnesota, nos Estados Unidos. A causa da morte foi overdose. Hoje, dez anos após a morte do vocalista, relembramos o histórico show do Velvet Revolver no estádio do Morumbi, em São Paulo, quando abriu para o Aerosmith. A apresentação rolou em 12 de outubro de 2007. Velvet Revolver prova que supergrupos podem ter alma Quando as luzes do Morumbi se apagaram para a abertura, a sensação não era de um “show de aquecimento”, mas de um evento principal paralelo. O Velvet Revolver subiu ao palco trazendo a mística de ser a “banda mais perigosa do mundo” naquele momento. Scott Weiland, magro e com movimentos serpentinos que lembravam um lagarto elétrico, comandava a frente, enquanto a silhueta inconfundível de cartola e Gibson Les Paul à esquerda arrancava gritos de “Slash” da plateia. A chuva que caía não esfriou a recepção. A abertura com Let It Roll e a pesada Do It for the Kids mostrou que, apesar da acústica do Morumbi engolir um pouco a guitarra base de Dave Kushner, o entrosamento entre baixo (Duff) e bateria (Matt Sorum) continuava sendo uma parede de concreto. A banda sabia o que o público queria. Embora as músicas autorais como Sucker Train Blues fossem bem recebidas, o estádio veio abaixo quando o passado foi invocado. Os covers do Stone Temple Pilots, Vasoline e Interstate Love Song, serviram para lembrar a todos que Weiland era uma das maiores vozes dos anos 90. Sua performance era errática e hipnótica, contrastando com a solidez da banda instrumental. Mas foi o legado do Guns N’ Roses que gerou a catarse. It’s So Easy (com Duff nos vocais rasgados) e Mr. Brownstone transformaram o Morumbi em uma máquina do tempo. Ver Slash tocando esses riffs ao lado de Duff novamente foi, para muitos, o fechamento de um ciclo aberto desde 1993. Além da nostalgia O mérito do show, no entanto, foi provar que o Velvet Revolver tinha vida própria. Fall to Pieces foi o momento “isqueiros para o alto” (ou celulares, na época começando a dominar). O solo melódico de Slash sob a garoa fina foi uma daquelas cenas cinematográficas que só estádios proporcionam. A banda também testou material novo com She Builds Quick Machines (do disco Libertad, que sairia meses depois), mostrando que ainda havia gasolina no tanque criativo. O encerramento com Slither foi a prova definitiva de força. Com seu riff arrastado e refrão explosivo, a música já soava como um clássico instantâneo, equiparando-se aos covers tocados anteriormente. Scott Weiland, regendo a massa com seu megafone, saiu de cena deixando a impressão de que tínhamos visto uma das últimas grandes encarnações do rock and roll perigoso e visceral. O Aerosmith, que veio na sequência, teve trabalho para superar aquela energia. Edit this setlist | More Velvet Revolver setlists

Entrevista | Nanda Moura – “O que aconteceu para a gente ter encaretado tanto?”

Nome consolidado no cenário do blues contemporâneo, a cantora e guitarrista Nanda Moura atravessa uma fase de profunda inquietação artística. Após levar seu talento para palcos europeus e marcar presença em grandes festivais como o Best of Blues and Rock, a artista mergulha em uma sonoridade mais visceral e provocativa com seus lançamentos mais recentes, os singles Chega e Louca. Nesta nova etapa, Nanda Moura deixa de lado as fórmulas prontas para confrontar o que chama de “caretice” dos tempos atuais, um estado de anestesia emocional alimentado pela obrigação das redes sociais e pelo domínio dos algoritmos. Com referências que vão do surrealismo de Salvador Dalí à crueza do blues de Muddy Waters, Nanda Moura propõe um retorno à autenticidade e ao erro como marcas da verdadeira humanidade. Acompanhada por nomes de peso como Nasi (Ira!) e o produtor Apollo 9, a artista prepara o caminho para seu próximo álbum, apropriadamente intitulado Deglutir, Digerir e Devolver. Em um bate-papo exclusivo para o Blog n’ Roll, Nanda Moura falou sobre o impulso criativo por trás de suas novas composições, a parceria com ícones do rock e do rap, e por que a arte continua sendo nossa maior ferramenta de resistência. Seus últimos lançamentos, Louca e Chega, trazem uma sonoridade e letras muito fortes. Louca soa quase como um grito de libertação. De onde veio o impulso para compor essa música que confronta tão diretamente a anestesia emocional dos nossos tempos? Louca nasceu de uma inquietação que começou a me incomodar muito. Essa coisa da rede social, sabe? No início, a gente fica empolgado, mas depois de um tempo ela acaba sufocando. Me sinto assim hoje: sufocada pela obrigação da rede social. O estalo final veio após visitar uma exposição sobre os 100 anos do Surrealismo. Fiquei de frente para obras de artistas como Salvador Dalí e Remedios Varo, que pintavam coisas exageradas, exuberantes e “descaralhadas” há um século. Pensei: “Caramba, os caras já eram tão loucos há 100 anos. O que aconteceu para a gente ter encaretado tanto?”. Parece que andamos em círculos; evoluímos em alguns pontos, mas retrocedemos na liberdade. Vivemos com medo do julgamento, nos mascarando na arte e nas relações. Louca é uma provocação contra esse retrocesso. Você diz que Louca é também uma declaração de princípios. O que representa pessoalmente essa busca por autenticidade que você canta na letra? É o meu momento de prezar por ser verdadeira, mais do que nunca, com o tipo de som que faço e como quero soar. Sendo bem aberta, não tem outra forma de fazer Louca se não for sendo sincera. É um grito para as pessoas, mas principalmente para mim mesma, dizendo: “Não seja medíocre, não seja careta, não se deixe misturar na multidão”. Quero que as minhas marcas de “loucura” apareçam sem eu ligar para os apontamentos alheios. É uma provocação de mim para mim mesma que acaba atingindo todo mundo. Esse single teve a produção de Apollo 9 e a coprodução de Nasi. Como foi trabalhar com eles e como essa parceria influenciou o resultado final? O Apollo é um cara muito antenado, experiente, já trabalhou com Seu Jorge, Rita Lee, Paralamas… Ele tem uma visão muito ampla e sensibilidade para entender o que queremos colocar na música. Já o Nasi tem aquela coisa visceral e crua do rock que eu adoro e que busco muito no blues. Fiz o arranjo com músicos incríveis: o Otávio Rocha (guitarra) e o César do Baixo, ambos do Blues Etílicos, e o Gil Eduardo (primeiro baterista do Blues Etílicos e ex-Erasmo Carlos). Quando o Apollo e o Nasi entraram, eles trouxeram “pitacos” que deram uma certa estranheza à música, um clima mais incômodo, pesado e provocador. Eu sou muito instintiva; quando ouvi, senti que aquele incômodo era exatamente o que a música pedia. No single anterior, Chega, você também teve o Nasi e ainda contou com a participação do Thaíde, gerando uma mistura interessante de blues, rock e rap. Como surgiu esse encontro? Eu e o Nasi já temos uma parceria estabelecida. Nos conhecemos no Best of Blues and Rock, quando ele estava gravando o projeto solo Rock Soul Blues. Ele buscava uma cantora para um dueto em Coração de Caveira (versão de Martinho da Vila) e o santo bateu na hora. Sobre Chega, queríamos fazer uma versão de I’m Be Satisfied, do Muddy Waters. Como o Nasi foi o primeiro produtor de rap no Brasil, surgiu a ideia de colocar uma inserção do gênero. Ele chamou o Thaíde, que topou na hora. Casou perfeitamente: blues, rock e rap são música negra, não tem erro. Em Chega, você fala sobre retomar o controle da própria atenção. Você acredita que a arte é uma das poucas formas de resistência contra a automatização da vida? Com certeza. E se não nos atentarmos, pode piorar. As pessoas estão muito automatizadas. Hoje nos entregamos ao algoritmo: ouvimos o que nos é sugerido e oferecido, e isso nos torna medíocres. Cadê a curiosidade de ir atrás de um assunto, de buscar conhecimento? Temos acesso a tudo, mas estamos acomodados. Procuro usar a minha linguagem, que é a música, para “cutucar” e fazer as pessoas refletirem, saindo um pouco do automático. Você é um nome consolidado no cenário do blues contemporâneo. O que você acha que falta no Brasil para o gênero ter um alcance maior ou mais comercial? Historicamente, o blues nunca foi mainstream; ele sempre esteve à margem, em um nicho. Ao mesmo tempo, é a origem de tudo: do rock, rap, soul, country, pop e jazz. Acho que falta conhecimento das pessoas sobre isso. Existe a barreira da língua, já que a língua-mãe do blues é o inglês, mas ele é um estilo universal porque comunica emoções puras, do improviso à melancolia. O caminho é ocupar espaços e mostrar como o blues conversa com os nossos elementos culturais. Para encerrar, o que vem por aí? Quais são os planos após Chega e Louca? Estou trabalhando no meu próximo álbum, que está sendo

Oasis em São Paulo: dezesseis anos de espera e um show que vai ficar na memória para sempre

Oasis em São Paulo 2025

Foram 16 anos de espera para poder rever o Oasis, a maior banda de rock dos últimos 30 anos. Sim, isso mesmo que você leu. Concorde ou não, os irmãos Gallagher são os responsáveis por tornar o rock grande mais uma vez e ocupando grandes arenas pelo mundo. E isso foi dito por muitos jornalistas especializados mundo afora e artistas acostumados a lotar estádios em todos os continentes, como Jon Bon Jovi. Na primeira noite no Brasil, no estádio do Morumbis, em São Paulo, o Oasis manteve a receita utilizada nos últimos cinco meses de turnê. O set não muda, as falas são quase iguais, Liam e Noel entram de mãos dadas no palco, o Poznan está presente em Cigarettes and Alcohol. Para não falar que não tem alterações, o homenageado em Live Forever sempre muda. Em São Paulo, o escolhido foi Gary Mani, baixista do Stone Roses, que morreu na sexta-feira (21). Says it’s good to be back, good to be back. Hello abriu o show após um breve vídeo no telão ao som de Fuckin’ in the Bushes, característica mantida das turnês passadas do Oasis. A sequência é arrebatadora do início ao fim. Após Hello, Liam puxou Acquiesce, Morning Glory e Some Might Say, dando o tom do show, quase todo focado em Definitely Maybe e (What’s the Story the Morning Glory). Mas com bom destaque também para The Masterplan e Be Here Now. Aqui cabe uma observação para os críticos amargos de jornalões de São Paulo, que vivem escrevendo que o Oasis só tem quatro álbuns e por isso focam neles nessa turnê. Quais bandas com 30 anos ou mais não fazem o mesmo? Temos algumas exceções, mas priorizar os maiores hits em uma turnê de reunião é a coisa mais comum do mundo. Standing on the Shoulder of Giants, Heathen Chemistry, Don’t Believe the Truth e Dig Out Your Soul, apesar de ignorados (exceções foram Fuckin’ in the Bushes e Little by Little), contam com ótimas canções. Mas o show de 2h05 contemplou muito bem a primeira e mais gloriosa fase da banda. A pesada Bring it on Down aparece na sequência, mas sem tanto apoio na cantoria dos fãs, que passaram a vislumbrar o momento histórico no palco. Aliás, muito legal ver a renovação do público. Muitos que estavam presentes na pista A certamente não eram nascidos na época da separação ou não haviam assistido um show do Oasis até então.  Cigarettes and Alcohol, também do Definitely Maybe, álbum de estreia da banda, foi precedida por um pedido de Liam para todos fazerem o Poznan. E, quem não é fã do Oasis, deve estar se perguntando o que é isso, certo? Fanáticos pelo Manchester City, os irmãos Gallagher se divertem com as comemorações dos torcedores, que se abraçam, viram de costas e pulam. A inspiração da torcida do City, no entanto, veio dos fãs poloneses do Lech Poznan. Em 2010, o Lech Poznan enfrentou o Manchester City no Etihad Stadium, em Manchester, na Inglaterra. Seis mil torcedores poloneses viraram de costas para o campo, entrelaçaram os braços e começaram a pular em sincronia. A ação era um protesto silencioso contra a diretoria do clube, mas também uma demonstração incomum de lealdade: mesmo de costas, eles não deixavam de torcer. A torcida do City adotou tal comemoração para celebrar as vitórias, agora replicada nos shows do Oasis. Fade Away, Supersonic e Roll With It formaram mais uma trinca de respeito no setlist, com Liam no comando do vocal e sempre tentando discursar rapidamente com o seu sotaque carregadíssimo e impossível de entender. Na sequência, Liam deixou o palco para o seu irmão, Noel, assumir o protagonismo: Talk Tonight, Half the World Away e Little by Little vieram em sequência. Muito importante notar aqui a banda de apoio, com trio de metais e piano, que dão um peso generoso no som. Com Liam novamente de protagonista, o Oasis emendou mais uma série maravilhosa: D’You Know What I Mean?, Stand By Me, Cast No Shadow, Slide Away e Whatever. Em um dos momentos mais emocionantes do show, Liam dedicou Live Forever para Gary Mani, que teve seu rosto estampado no telão na parte final da canção. Liam estava visivelmente emocionado, nunca escondeu de ninguém que considera os integrantes do Stone Roses seus verdadeiros heróis. Rock and Roll Star, que já havia sido cantada pelo público durante o comercial de um carro antes do show do Oasis, fechou a apresentação, antes do bis. A volta ao palco foi ainda mais poderosa: The Masterplan, Don’t Look Back in Anger, Wonderwall e Champagne Supernova, que encerrou o set com uma linda queima de fogos e mais afagos entre os irmãos Gallagher no palco.  Hoje tem mais Oasis em São Paulo e o Morumbis certamente vai ferver com mais 70 mil pessoas. Edit this setlist | More Oasis setlists

Richard Ashcroft faz abertura de luxo e transforma Morumbis em um karaoke gigante do The Verve

Antes dos irmãos Gallagher subirem ao palco para reescrever a história, o Morumbis recebeu uma realeza do rock britânico. Richard Ashcroft, eterno vocalista do The Verve e amigo de longa data do Oasis, não encarou a noite como um show de abertura comum. Com a confiança de quem possui alguns dos maiores hinos dos anos 90, ele entregou uma performance que, por si só, já valeria o ingresso. Ashcroft sabe que, em um estádio lotado esperando pela atração principal, não é hora de experimentalismos. O setlist foi um “best of” curto e grosso, desenhado para fazer o público cantar do início ao fim. Richard Ashcroft é a alma do The Verve A apresentação foi dominada pelo legado do Urban Hymns. A abertura com Weeping Willow e Space and Time trouxe a atmosfera psicodélica e emotiva característica de sua ex-banda. A única concessão à sua carreira solo foi a excelente Break the Night With Colour, que, apesar de bem recebida, serviu como uma ponte para a artilharia pesada que viria a seguir. Quando os acordes acústicos de The Drugs Don’t Work ecoaram, o estádio se iluminou com milhares de celulares. Foi o primeiro grande momento de comunhão da noite, seguido pela celebração existencial de Lucky Man e a melancolia pop de Sonnet. Ashcroft, com sua postura xamânica de sempre, comandou a massa com facilidade. Mega hit e homenagem O encerramento não poderia ser outro. Bitter Sweet Symphony, talvez um dos violinos mais reconhecíveis da história da música, colocou o Morumbis abaixo. Mas houve um toque especial de emoção: a introdução contou com um trecho de She Bangs the Drums, do The Stone Roses, dedicada a Gary “Mani” Mounfield. A homenagem conectou as gerações do “Madchester” e do Britpop em um gesto de respeito e luto, elevando a música final a um patamar quase espiritual. Richard Ashcroft saiu de cena deixando o público aquecido, emocionado e pronto para o Oasis. Uma aula de como abrir um show de estádio com dignidade e peso.

Esquenta para o Oasis no Brasil: relembre o dia que o Oasis transformou o Credicard Hall em Woodstock

Chegar ao estacionamento do Credicard Hall na noite de 15 de março de 2006 era uma missão para poucos. São Paulo desabou sob uma tempestade de verão que transformou a pista do show em uma lagoa de água barrenta, batendo na canela e, em alguns pontos, no joelho dos fãs. Mas quando as luzes se apagaram e a fita de introdução Fuckin’ in the Bushes começou a tocar, o perrengue virou combustível. O Oasis subiu ao palco não para tocar, mas para salvar a noite. A abertura com Turn Up the Sun e Lyla foi um ataque frontal. O som estava alto, sujo e, surpreendentemente, muito bem equalizado para um local aberto e improvisado. Liam Gallagher, vestindo sua parka (que dessa vez fazia todo o sentido climático), estava com a voz no auge daquela era: rasgada e arrogante. Mas o motor da banda estava lá trás: Zak Starkey. A presença do filho de Ringo Starr na bateria deu ao Oasis um peso que eles raramente tiveram antes ou depois. Em Bring It On Down e Morning Glory, ele espancou os pratos com uma ferocidade que fez a água do chão tremer junto com o bumbo. Hinos debaixo d’água Existe algo místico em cantar Champagne Supernova debaixo de chuva. Quando Noel Gallagher puxou os acordes, o estacionamento alagado virou um coral de vozes roucas. A banda, sentindo que o público estava “na mão” apesar do desconforto, entregou execuções emocionantes de The Masterplan e Wonderwall. Noel teve seu momento de brilho com The Importance of Being Idle e Little by Little, faixas que, ao vivo, ganharam uma dimensão de hino de estádio, com o guitarrista regendo o público ilhado. Final caótico Para os fãs mais dedicados, a inclusão de Acquiesce (com os irmãos dividindo os vocais no refrão, um milagre de harmonia fraternal na época) e Cigarettes & Alcohol foi o ápice da noite. A atitude punk da banda combinava perfeitamente com o cenário de desastre urbano ao redor. O encerramento não poderia ser outro: My Generation (cover do The Who). Com Zak Starkey honrando o legado de Keith Moon na bateria, a banda terminou o show em uma jam barulhenta e distorcida. Liam jogou o pandeiro, Noel deixou a guitarra apitando no feedback e o público, encharcado, sujo e exausto, saiu dali com a certeza de ter vivido a experiência rock and roll mais visceral dos anos 2000 em São Paulo. Edit this setlist | More Oasis setlists

Esquenta para o Oasis no Brasil: relembre a última passagem da banda por São Paulo

Havia algo no ar do Anhembi, em São Paulo, além da chuva fria e incessante que castigou os fãs naquela noite de sábado (9 de maio de 2009). Quem observava o palco com atenção notava: Liam e Noel Gallagher não eram mais uma banda; eram dois exércitos ocupando o mesmo espaço. Mal se olhavam, não interagiam. Mas, ironicamente, essa tensão explosiva resultou em uma das performances mais barulhentas e viscerais que o Oasis já trouxe ao país. A turnê de Dig Out Your Soul chegou a São Paulo com a missão de provar que o rock britânico ainda respirava. E quando os acordes de Rock ‘n’ Roll Star rasgaram o silêncio, o Anhembi virou um caos de lama e pogo. Liam Gallagher, protegido por sua indefectível parka e com a postura de quem desafia o mundo, estava com a voz rasgada, no limite, mas cheia de atitude. Em faixas novas como The Shock of the Lightning, a banda soou pesada, quase psicodélica, com a bateria de Chris Sharrock preenchendo cada vácuo deixado pela acústica ruim do local. Noel, do outro lado, era a âncora melódica. Sua guitarra conduzia o público com frieza profissional. O setlist foi generoso com os lados B que o Brasil tanto ama: The Masterplan foi cantada como um hino religioso, com milhares de braços erguidos sob a chuva, criando um dos momentos mais bonitos da noite. Clássicos Não importa a fase, quando o Oasis toca os hits, a mágica acontece. Wonderwall e Champagne Supernova foram, previsivelmente, os momentos em que a banda pôde descansar: o público cantou mais alto que o sistema de som. Mas o destaque emocional para os fãs “raíz” foi Slide Away. A faixa, com sua letra sobre amor e perda, ganhou um peso extra considerando o desgaste visível da relação entre os irmãos. Noel, assumindo os vocais em Waiting for the Rapture e na versão acústica de Don’t Look Back in Anger, mostrou por que é o cérebro por trás da alma da banda. Caos final O encerramento não poderia ser outro. I Am the Walrus (cover dos Beatles) fechou a noite com uma parede de distorção e feedback ensurdecedor. Liam saiu do palco sem despedidas calorosas, jogando seu pandeiro para a plateia como quem se livra de um peso. Noel continuou tocando, concentrado, até o último segundo. Três meses depois, o Oasis acabaria. O show do Anhembi ficou marcado na história como o último ato da maior banda do Britpop em solo brasileiro. Foi frio, molhado e tenso. Mas, acima de tudo, foi rock and roll em sua essência: perigoso, imperfeito e inesquecível. Quem foi, viu a história desmoronar e se eternizar ao mesmo tempo. Edit this setlist | More Oasis setlists

Massive Attack entrega show pesado, visceral e necessário em São Paulo

O Massive Attack tomou São Paulo na quinta-feira (13) com um show que não era só esperado, mas necessário. No Espaço Unimed, a banda britânica de Bristol transformou o palco em um misto de ritual político, instalação audiovisual e viagem sonora que deixou o público sem saber se respirava fundo ou só aceitava o impacto. Trinta minutos após o término do show do Cavalera, as luzes se apagaram, mas ainda não era Robert “3D’ Del Naja e Daddy G no palco. Dinamam Tuxá, Luana Kaingang, Alana Manchineri e Ângela Kaxuyana, representantes de diferentes etnias indígenas de norte a sul do Brasil, tomaram o protagonismo. Fizeram discursos fortes, necessários e pediram o apoio do público nas causas, lembrando a realização da Cop 30, chamada de “Cop do Crime” por Dinamam Tuxá. Depois de quase 20 minutos, o Massive Attack assumiu o palco com o tom já estabelecido. A partir dali, 3D e Daddy G conduziram um espetáculo que misturava batidas hipnóticas, vozes históricas e um telão que cuspia mensagens contra o colapso climático, exploração econômica e a máquina de moer gente que impulsiona o mundo moderno. Elizabeth Fraser (Cocteau Twins), Horace Andy (lendário cantor de reggae jamaicano e quase membro fixo da banda) e Deborah Miller (Dave Stewart do Eurythmics e James Taylor) apareceram como presenças quase míticas, cada entrada arrancando um suspiro coletivo do público. A sinergia entre as camadas sonoras e a estética visual deixou claro que o Massive Attack não veio para oferecer conforto, veio para provocar. O dream team do Massive Attack contou ainda com o baterista Damon Reece (Echo & the Bunnymen) e o guitarrista Alex Lee (Suede, Placebo e Florence and the Machine). Enquanto o telão trazia denúncias de crimes ambientais e humanos no Sudão, Congo e Palestina, além de críticas contra Elon Musk, Vladimir Putin e Donald Trump, o supergrupo transitava entre uma versão emocionante de Song to the Siren (de Tim Buckley), na voz de Elizabeth, para um punk rock como Rockwrok, do grupo britânico Ultravox. O recheio do set ainda trouxe a dançante Inertia Creeps e os superhits Angel e Teardrop, que encerrou o show. No fim, o que São Paulo recebeu foi muito mais que um show. Foi um alerta, um manifesto, uma obra de arte política travestida de apresentação musical. Um lembrete de que certas bandas não voltam ao Brasil para revisitar hits: elas voltam para acender um fósforo na sala escura. Edit this setlist | More Massive Attack setlists