The xx encerra sábado do C6 Fest expandindo o minimalismo em pista de dança

The xx

O The xx encerrou o recorte do sábado do C6 Fest com a elegância de quem entende que nem todo grande show precisa operar pelo excesso… Pelo menos não antes do fim. A banda sempre fez do espaço vazio uma linguagem: poucas notas, versos econômicos, luz precisa e uma intimidade que, curiosamente, cresce quando encontra uma multidão. Ao vivo, essa contenção ganha outra escala. O que em disco soa mínimo, no palco se expande sem perder a discrição. Esse magnetismo não se apoia apenas nas presenças frontais de Romy (guitarra e voz) e Oliver Sim (baixo e voz), mas ganha corpo pela “mão invisível” do produtor Jamie xx, capaz de transformar a atmosfera melancólica em uma pista de dança pulsante, onde o som reverbera e estremece a plateia. The xx desfilou sucessos que carregam o faro eletrônico de Jamie, como On Hold e Say Something Loving, ambas do álbum I See You (2017). O repertório também reservou espaço para a individualidade do grupo, contemplando faixas dos elogiados projetos solo de cada um dos três integrantes. Depois de um dia atravessado por chuva, atrasos, ruídos, confissões íntimas e encontros de diferentes gerações, o show funcionou como um fechamento coerente: não exatamente uma explosão óbvia, mas uma suspensão no tempo. Foi um jeito bonito de lembrar que a música pode recuar e avançar sem perder o encanto, restabelecendo a identificação que aproxima ídolos e fãs. No fim, sob as luzes do Ibirapuera, sobrou a certeza de que somos todos movidos pela arte e pelo contato humano. Edit this setlist | More The xx setlists

Matt Berninger transforma crise e desencanto em magnetismo confessional no C6 Fest

Matt Berninger

Depois da energia expansiva do Wolf Alice, Matt Berninger ocupou outro tipo de território: menos explosivo, mais interior. Vocalista do The National, ele carrega uma presença que não depende de euforia para ser magnética. Sua força está justamente nesse contraste: uma voz grave, quase conversada, que parece transformar insegurança, desencanto e humor seco em matéria de performance, com muitos movimentos, quase em um estado de urgência, de quem precisa tirar do peito uma série de palavras querendo sair do controle, de alguém em crise querendo ajudar alguém que também está nessa condição. No contexto de um festival, esse tipo de show pode parecer menos imediatamente arrebatador do que uma apresentação feita para levantar a plateia, mas há uma beleza particular em sua forma de sustentar tensão. Matt Berninger não tenta competir com o barulho do dia. Ele cria uma atmosfera própria, mais próxima da confissão do que do espetáculo. Costumo brincar que ele é quase um pai para quem procura afago dentro dentro de soms intimistas. Não existe um trovador como ele no cenário da música alternativa na atualidade.  É uma apresentação que pede outro tipo de atenção: menos salto, mais escuta, menos catarse coletiva, mais atenção à emissão da palavra. Ao longo do show, ele tocou várias músicas solo e alguns sucessos da carreira, como Gospel (em uma versão que em quase nada lembra a sonoridade de estúdio), do álbum Boxer, de 2007, e Terrible Love (onde atravessou a barreira que separa público de performer), do álbum High Violet, de 2010. Edit this setlist | More Matt Berninger setlists

Com atitude de sobra, Wolf Alice entrega show mais descolado do C6 Fest

Wolf Alice

Se o Horsegirl tratou a herança indie com uma juventude embalada em ruído ansioso, como se ainda estivesse em formação, o Wolf Alice levou a Tenda MetLife para outro patamar: o do rock como espetáculo de corpo inteiro, evocando os ídolos de outras décadas que atuavam enquanto cantavam. A vocalista Ellie Rowsell mantém a energia lá em cima o tempo todo, passeando das baladas mais íntimas às canções que flertam com o hard e o soft rock dos anos 1970, sem que a performance soe calculada ou refém de poses clichês. No repertório, a banda equilibrou faixas de seu álbum mais recente, The Clearing (2025), que tira um pouco o pé do acelerador em relação ao aclamado Blue Weekend (2021), mas se mostra muito preocupado com a dinâmica do espetáculo, como a energética White Shoes, além da catártica e obrigatória Don’t Delete the Kisses, do disco Visions of a Life (2017). O restante do grupo acompanha esse movimento com a mesma entrega, e o ponto mais interessante é que o protagonismo nunca fica centralizado em uma única figura. Cada integrante tem seu espaço na engrenagem. Todos parecem se divertir com o peso dos holofotes, como se a potência meio antiga, meio eterna, de simplesmente “fazer rock n’ roll” jamais tivesse deixado aquele palco. Os músicos impregnaram o lugar com uma certeza quase física: o verdadeiro estrelato passou por ali. Sem esnobismo, sem cara amarrada. Apenas muita atitude, estilo e a naturalidade de quem é genuinamente descolado, algo que você e eu tentamos ser diariamente, sem o mesmo sucesso. Mesmo com um leve atraso no cronograma, o Wolf Alice transformou a espera em um detalhe menor. Quando o quarteto entrou em cena, a sensação compartilhada era de que esse tipo de presença ainda faz muita falta na música atual: guitarras barulhentas, postura, carisma e uma confiança inabalável que não pede desculpas por querer ser gigante. Talvez seja hora de montar uma banda. Edit this setlist | More Wolf Alice setlists

Mano Brown domina C6 Fest com o groove do Boogie Naipe e impõe respeito

Mano Brown

Era difícil não notar a mudança de densidade que a simples presença de Mano Brown provocava na Arena Heineken, no C6 Festival, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, no começo da noite de sábado (23). O público, que foi chegando aos poucos e em cima da hora, transformou o espaço assim que o homem pisou no palco. Acompanhado por uma extensa banda de apoio e pela ilustre presença do rapper Rincon Sapiência, Brown acionou uma reação imediata de flashes, celulares erguidos e olhares atentos. Um registro que já se repetiu inúmeras vezes, mas que nunca perde o impacto. Naquele momento, ficou nítido que sua figura ultrapassava o status de mera atração de festival, era a partilha viva de uma história sobre território, linguagem e diversidade. Há artistas que precisam conquistar a plateia a cada acorde, Brown parece partir de outro lugar. Antes mesmo de qualquer grande gesto ou palavra, existe uma espécie de respeito institucionalizado e tácito no ar. Logo cedo, ele se apoiou ao microfone para conduzir Dance, Dance, Dance, faixa emblemática do clássico moderno Boogie Naipe. O groove sofisticado e dançante que marcou essa fase solo de sua carreira dominou a apresentação. O momento funcionou como um respiro e, ao mesmo tempo, como uma afirmação política e estética dentro do sábado: uma lembrança contundente de que, em um festival marcado por forte presença internacional e pela linha editorial indie, a presença de Brown desloca o eixo da programação. Ele não ocupa apenas uma linha no line-up. Mano Brown é um acontecimento em si. Aliás, a surpresa durante o show ficou para o anúncio que Brown fez já no fim da apresentação: em breve “tem disco novo” do Racionais MCs. Ainda sem título definido, o sucessor de Cores e Valores (2014) deve ser lançado no segundo semestre deste ano.

Ruído e personalidade do Horsegirl resgatam o indie dos anos 90 no C6 Fest

Horsegirl

O primeiro dia do aguardado fim de semana do C6 Festival, em sua quarta edição na capital paulista, entregou personalidade e irreverência, tanto por parte dos artistas quanto por parte do público. Nem mesmo a forte chuva que caiu à tarde, os atrasos e os problemas técnicos foram capazes de ofuscar a sinergia do evento, embora tenham testado o planejamento da organização no Parque Ibirapuera. Mais do que uma sequência de apresentações, o sábado funcionou como um estudo sobre presença de palco. O público observou como cada atração constrói, tensiona ou confirma sua própria mitologia diante de uma plateia disposta a resistir, mesmo quando o céu não colaborava. >> LEIA ENTREVISTA COM HORSEGIRL Entre a Tenda MetLife e a Arena Heineken, essa linha do tempo foi atravessada por diferentes gerações: da exuberância rockstar do Wolf Alice à melancolia elegante de Matt Berninger (distribuindo seus habituais conselhos para adultos deprimidos), passando pela imponência de Mano Brown e o minimalismo acelerado do The xx. No entanto, o grande mérito de renovação do festival ficou por conta do frescor das guitarras do trio americano Horsegirl. O som autoral e a estranheza segura do Horsegirl O Horsegirl abriu esse percurso com uma proposta que, à primeira vista, poderia facilmente cair na armadilha do saudosismo vazio. O trio americano parte de referências muito claras, que passeiam pelo noise pop, pelo twee e pelo indie rock de guitarras ásperas e versos truncados, preservando o clássico espírito universitário dos anos 1990. No entanto, a banda escapa do pastiche. Elas reverenciam esse legado cultural de forma direta, sem soar como apenas mais um grupo perdido na fusão de estilos, o som entregue é essencialmente autoral. O trio, formado por Penelope Lowenstein (voz e guitarra), Nora Cheng (guitarra e voz) e Gigi Reece (bateria), interagiu pontualmente com o público. As integrantes demonstraram entusiasmo, especialmente ao executarem os sucessos Switch Over (do álbum Phonetics On and On) e Anti-Glory (de Versions of Modern Performance), duas canções estrategicamente posicionadas no encerramento do repertório para incendiar a plateia. Em uma indústria ávida por transformar referências em fórmulas prontas, entregar frescor ao mercado é um feito raro. No caso do Horsegirl, há algo mais vivo na performance: uma energia ainda em formação, mas já muito segura de sua própria estranheza. A banda não parece interessada em repaginar o passado para torná-lo palatável. O objetivo delas parece ser habitá-lo, bagunçá-lo e devolvê-lo com uma assinatura própria. Edit this setlist | More Horsegirl setlists

Entre amigos e ritmos globais: Drink the Sea valida a nostalgia e prioriza veia autoral

Na música, uma colisão de talentos de várias bandas recebe o nome de “supergrupo”. O que se espera é que a identidade desse coletivo junte, no mesmo espaço, uma combinação de entretenimento que não esconda a densidade dos ritmos com a entrega de um espetáculo consistente. Para os músicos experientes do Drink the Sea, atração na Casa Rockambole, em São Paulo, na última quarta-feira (25), existe um claro compromisso com o frescor do improviso. A reunião de velhos amigos transforma-se em uma sessão onde cada faixa fomenta um enigma identitário: o que aquele som quer expressar em termos convencionais? Para o bom público presente, as músicas resvalavam mais em uma esfera espiritual do que narrativa: eram densas e indissociáveis de um mesmo ímpeto criativo. Itinerância cultural como catalisador O projeto conta com nomes de peso: Peter Buck (R.E.M.), Barrett Martin (Screaming Trees/Mad Season), Alain Johannes (Them Crooked Vultures), Duke Garwood (Mark Lanegan Band), Abbey Blackwell (Alvvays) e Lisette Garcia. Embora famosos pelo rock alternativo, o grupo se revela virtuoso e estudioso de suas influências. O principal catalisador do Drink the Sea é a itinerância. Há um recorte geográfico claro que foge do lugar-comum: Entre o experimentalismo e o Jangle Pop Não é o tipo de show para pular, mas para acompanhar. Logo na abertura, Shaking for the Snakes explorou o groove e o jazz. Saturn Calling seguiu o caminho, mas com um toque sutil de brasilidade. Com raras exceções, como em Where We Belong, faixa muito próxima ao Jangle Pop clássico do R.E.M. de Buck, o som se mostra cristalino e acessível. Aqui, a melodia é simples e poderia pertencer a bandas menos ousadas, mas há beleza em um projeto sofisticado que se ramifica até tocar a memória afetiva do público. Já House of Flowers cativa pelo inverso: ela vence pela exaustão e pela doçura de um riff repetitivo, onde nenhum integrante estabelece liderança, mantendo uma horizontalidade sonora rara. Interlúdio nostálgico e a participação de Nando Reis O show também contou com um longo interlúdio dedicado ao passado. O setlist reviveu clássicos de Mad Season, R.E.M., Queens of the Stone Age e Desert Sessions. O ponto alto de celebração foi a subida ao palco de Nando Reis, acompanhado de seu filho Sebastião Reis. Amigo pessoal dos integrantes, Nando trouxe hits como O Segundo Sol e All Star. Embora o contraste entre o som experimental do Drink the Sea e o autoral de Nando fosse evidente, a transição funcionou pela cumplicidade. A banda saiu estrategicamente dos holofotes para que o convidado brilhasse, provando que a existência de um supergrupo passa, acima de tudo, pela validação das amizades e das memórias compartilhadas.

“Springsteen: Salve-me do Desconhecido” e o ciclo de vida de uma criação

Os discos, assim como os filmes, têm vida própria. Ou pelo menos é nisso que o público, que os consome e, às vezes, os venera, acredita quando tem o contato com a obra final, lapidada e definida. Para o artista, que trabalha incansavelmente em algum projeto, no entanto, o que ocorre é um processo de transferência de ideias que se somam ou se separam durante uma transição de momentos, que podem resultar em uma turnê em larga escala ou um mergulho individual na zona criativa e deprimida que habita o semblante e o interior de um músico deprimido.  O filme Springsteen: Salve-me do Desconhecido, do nem sempre inspirado diretor Scott Cooper, opera nesse universo de indecisões com prazo de validade. Bruce Springsteen precisou de apenas duas semanas enfiado dentro de um quarto que o aproximava de memórias dolorosas e também de notícias de crimes reais, para gravar seu disco mais aclamado pela crítica, mas o preço da libertação máxima das convenções, do manual de como “seguir a fórmula do sucesso” quase foi muito alto para sustentar a profundidade de sua visão. Com 31 anos de idade no início dessa jornada, Bruce viveu o ciclo todo de um ano, e passou a ter 32, quando o álbum finalmente foi lançado.  Partindo desse princípio, de um confinamento de expectativas substituídas pela insistência e teimosia de um cara que sabia exatamente o que queria de sua música, Springsteen: Salve-Me do Desconhecido é muito mais um recorte de uma história com múltiplas narrativas do que uma série de ações sequenciadas para ter cadência de cinema.  O filme de Scott Cooper, acostumado a um certo “refinamento técnico”, que ilude mais do que convence (como pôde ser visto em outro filme com fundo musical, o esforçado Coração Louco), mais uma vez conta muito com a eficiência (e, por vezes, o brilho, mesmo) de seu elenco, tanto de Jeremy Allen White transmitindo o mistério e a rebeldia imponente de Bruce desfilando com seus casacos de couro, cara de poucos amigos e mãos nos bolsos, quanto de Jeremy Strong, no papel de Jon Landau, produtor, empresário e até conselheiro afetivo do cantor. As personagens precisavam umas das outras para se ampararem na indústria e nos caminhos da vida, e os dois atores nasceram para atuar juntos. As soluções para retratar o dilema que Bruce enfrentava, de como transformar gravações caseiras, com voz, gaita, violão e uma sonoridade caseira, lo-fi, com ecos nas vozes estão todas ali, em cena: Bruce vai ao estúdio, e, de repente, Bruce vai ao parque, e Bruce volta ao estúdio (com uma banda, com o empresário, com um violão, com um canal de gravação, com… sua voz, no fim das contas), com um amor de fachada, mas sempre com muitas lembranças que parecem bater na porta, querendo levar a tristeza embora, mas aí você percebe que Nebraska não é um álbum sobre acerto de contas com o pai, com a família ou sobre aquele momento que não aconteceu.  Nebraska representa um limbo, onde assassinos ganham a forma de fantasmas e saem impunes, onde pais amam os filhos sem usufruir do amor, onde fantasias de cinema importam mais do que a realidade concreta do dia-a-dia. Mas nada disso tem cor, e nem é muito claro. O preto e branco da capa é quase negativo. Se não tem vida, não tem julgamento. Essa não é a mesma narrativa de The River, 1980, ou Born in the U.S.A., de 1984, os avassaladores sucessos que antecederam e sucederam, respectivamente, o “patinho feio” de 82. Não há vilões e mocinhos, não há o Romeu que quer impressionar a Julieta e morrer em seus braços, tampouco. Nebraska é apenas um pedacinho de poeira dentro do porta-luvas de um carro onde estão guardadas algumas canções em uma fita-cassete bem velha. Acho que o filme poderia ser um pouco mais errático e menos didático se quisesse traduzir com exatidão o sentimento descrito, mas, além do elenco principal, há um elenco de apoio fantástico, com aparições de Stephen Graham, Gaby Hoffman e Paul Walter Hauser que ajudam bastante um diretor aquém da demanda a trabalhar melhor e fazer o filme funcionar um pouco mais do que eu esperava, mas ainda menos do que deveria. Springsteen: Salve-me do Desconhecido é uma pretensa biografia musical, em um primeiro momento, se mostrando muito mais uma ruminação pessoal de memórias, sobre um artista se recuperando de um período de cansaço físico e emocional, se colocando como protagonista, pela primeira vez em muito tempo, de sua história, ao mesmo tempo que é personagem de tantas outras, de mocinhos e mocinhas procurando seu lugar na América.

“Deadbeat” e a era do relaxamento desacelerado para Kevin Parker, do Tame Impala

Na música, quando um artista supera o status dele esperado, passando a agir como um guia para o que há de mais moderno na indústria, e não apenas como um mero instrumentista ou compositor, mas também como um produtor, colaborador que atravessa gêneros e convenções, chega um momento em que ele pode muito bem querer descansar, e abrir mão de jogar de acordo com as expectativas. É justamente aí em que pode haver um desentendimento, um desacordo, entre a idolatria do público, sempre querendo o máximo, e o olhar mais íntimo que pode haver, de minimizar o esforço, mesmo, ser menos colorido, menos preocupado em ser genial, e mais sarcástico, autodepreciativo, que está no cerne da existência de Deadbeat, quinto álbum do Tame Impala (primeiro a ser lançado pela Sony Music), de Kevin Parker. O relapso pode ser uma forma de cuidado, pelo menos é o que está estampado na capa, que já começa contrariando o perfeccionismo usual ao “quebrar” com as artes conceituais padronizadas com nome da banda e do álbum alinhados simetricamente, com a mesma fonte. Dessa vez, Parker aparece segurando sua filha, em paz consigo mesmo, sem querer trazer nenhuma mensagem através das cores da imagem, entusiasmo ou vibração. Na verdade, o universo familiar é o da estabilização, e o que é estável não se sobressai, assim como as batidas repetitivas de cada música, ou o groove cansado e insistente, pouco criativo da faixa Loser, derivativa de um mesmo riff animado que é gostoso de ouvir, mas não se transmuta na faixa que muitos esperavam, com vigor criativo. Parker, vocalista, multi-intrumentista, compositor e tudo o mais que uma única pessoa pode ser (não custa dizer a essa altura que a banda só o acompanha em shows) um dia furou a bolha e, pela primeira vez desde que isso aconteceu, resolveu olhar para trás e se isolar nela. Para uma parte do público, não está tudo bem. A outra parte está tentando decidir como se sente, mas o fato é que, apesar de ainda existir vestígios de psicodelia e rock alternativo no projeto, Parker sacrificou o ritmo previamente estabelecido, dinâmico e acelerado, pela paz e a liberdade que a música house, em conjunto com a produção eletrônica e a cultura das raves australianas, pode e pôde oferecer a ele. A princípio, soa aleatória a escolha de não “criar” uma arte própria para o disco, mas nunca antes Parker se importou menos com coerência. As letras não acompanham a acomodação do ritmo, quando muito refletem um disparo alucinado para todos os lados, com referências a pessoas famosas, seriados de televisão e ligações diretas com canções de outros músicos. Sem dúvidas, Deadbeat é um disco camaleônico, que aborda romance com um pé no esotérico em Piece of Heaven, aludindo a Enya com harpas, teclados saturados e também acenando para Phil Collins e clássicos da madrugada de estações saudosas de rádio. Parker também quer incorporar Michael Jackson, temática e sonoramente, em faixas como Dracula (o funk aqui é contagiante) e Afterthought (uma versão de Thriller malhada no sintetizador), mas dificilmente se contenta em ser ele mesmo. Kevin Parker se enxerga (ou ao menos quer que você o veja assim, talvez com um certo cinismo), como um fracassado, um perdedor, alguém que tentou e agora parou. O recado está claro: não espere mais nada de Tame Impala. Dê um tempo às ilusões, ao maximalismo, às convenções. Essa é a era do desapego, mesmo que você não acredite nisso ou ache o álbum uma farsa. Talvez ele seja, mas nem tudo tem que ter personalidade formada.

Ao aliar hits com renegadas, Teenage Fanclub entretém em show empolgante no Cine Joia

Muitas bandas que fizeram sucesso no passado e desenvolveram um nicho de fãs fieis, devotos à identidade estabelecida e ao som tradicional dos primeiros álbuns, sustentam o resto da carreira, depois de lançarem as consagradas obras-primas, com uma postura conservadora. Optam por não lançar nada de muito revolucionário, mas marcam shows e gravações de álbuns com frequência. No caso do Teenage Fanclub, banda escocesa que se apresentou na última quinta-feira (4), no Cine Joia, em São Paulo, o lema adotado do fim da década de 90 em diante sempre foi o de achar um pico de estabilidade e se acomodar em melodias cada vez mais cantaroláveis, em uma toada acústica, com menos guitarras e mais efeitos de vozes, uso de teclados e sintetizadores expressos em canções melancólicas, agridoces e muito sinceras.  Fundado em 1989 por Norman Blake (vocal e guitarra) Raymond McGinley (vocal e guitarra solo) e Gerard Love, os Fannies, como são popularmente conhecidos, passaram por alterações no lineup, especialmente em um passado recente. Em 2018, Love, que atuava como compositor, vocalista e baixista em doses imensuráveis, deixou a banda por não suportar mais a escala de viagens e acumular divergências com os outros integrantes. Como resultado dessa dissolução, os membros restantes, entre eles o baterista Francis McDonald, que os acompanha desde o princípio, tomaram a decisão de não tocarem mais nenhuma música composta por Love, mas é difícil fazer uma plateia inteira ignorar tantas faixas icônicas que faziam parte do repertório do ex-baixista. Certamente, o público que encheu a casa de shows ontem queria mais é que canções como Sparky’s Dream, do clássico álbum Grand Prix, de 1995, ou Star Sign, do ainda mais icônico Bandwagonesque (o que eles já venderam de camiseta com a estampa da capa não está escrito), de 1991, mas não é assim que funciona. Felizmente, Norman Blake é um líder extremamente carismático, ainda que tímido nas palavras de agradecimento, e sabe como satisfazer o público. Mais do que entregar o que as pessoas querem, ele ouve cada pedido, cada chamado, desde que consiga correspondê-los, claro. No show do dia anterior, no Circo Voador, alguém pediu por duas vezes para a banda tocar Baby Lee, canção fofíssima, acústica, baladinha para esquentar o coração com acolhimento e ternura, do álbum Shadows, de 2010, e o frontman não pensou duas vezes e recrutou seus colegas para alterarem o setlist e, de última hora, proporcionarem essa quebra de expectativa muito bem-vinda para quem não aguenta mais a mesmice de um show para outro. As surpresas não pararam por aí, felizmente. Verisimilitude, grande clássico do Grand Prix, composta e cantada por Raymond, deu às caras ainda no início, bem antes da metade da duração, para o delírio de adultos que já foram jovens como os responsáveis pela atração, e também declararam versos sarcásticos de rebeldia como uma suposta prova de amadurecimento, típica de quem não sabe nada ainda, mas já quer tentar se virar pelo mundo. Também rechearam a seleção faixas ansiadas por todos e presentes em todos os shows, de qualquer turnê, como as contagiantes What You Do to Me e About You, com seus refrões que incendeiam fãs até mesmo à distância. O repertório foi muito variado, dentro das possibilidades de faixas a serem tocadas e, para variar, encerraram a apresentação com Everything Flows, o primeiro single, pulsando uma energia cheia de distorção e sentimento nos instrumentos.  Foi uma noite bonita, de distribuição de sorrisos, um apego ao saudosismo da disposição e da esperança ingênua que tomava conta do corpo lá atrás, e que agora sorri à adolescência, mas amplia a perspectiva para as necessidades da vida adulta, e a principal delas, para o Teenage Fanclub, é manter a constância. Setlist do Teenage Fanclub Home About You Endless Arcade Alcoholiday I Don’t Want Control of You Everything is Falling Apart 120 Mins Verisimilitude Baby Lee It’s a Bad World Middle of my Mind What You Do To Me See the Light Neil Jung My Uptight Life The Concept God Knows It’s True Falling into the Sun Mellow Doubt Everything Flows