Ruído e personalidade do Horsegirl resgatam o indie dos anos 90 no C6 Fest

Ruído e personalidade do Horsegirl resgatam o indie dos anos 90 no C6 Fest

Horsegirl

O primeiro dia do aguardado fim de semana do C6 Festival, em sua quarta edição na capital paulista, entregou personalidade e irreverência, tanto por parte dos artistas quanto por parte do público. Nem mesmo a forte chuva que caiu à tarde, os atrasos e os problemas técnicos foram capazes de ofuscar a sinergia do evento, embora tenham testado o planejamento da organização no Parque Ibirapuera.

Mais do que uma sequência de apresentações, o sábado funcionou como um estudo sobre presença de palco. O público observou como cada atração constrói, tensiona ou confirma sua própria mitologia diante de uma plateia disposta a resistir, mesmo quando o céu não colaborava.

>> LEIA ENTREVISTA COM HORSEGIRL

Entre a Tenda MetLife e a Arena Heineken, essa linha do tempo foi atravessada por diferentes gerações: da exuberância rockstar do Wolf Alice à melancolia elegante de Matt Berninger (distribuindo seus habituais conselhos para adultos deprimidos), passando pela imponência de Mano Brown e o minimalismo acelerado do The xx. No entanto, o grande mérito de renovação do festival ficou por conta do frescor das guitarras do trio americano Horsegirl.

O som autoral e a estranheza segura do Horsegirl

O Horsegirl abriu esse percurso com uma proposta que, à primeira vista, poderia facilmente cair na armadilha do saudosismo vazio. O trio americano parte de referências muito claras, que passeiam pelo noise pop, pelo twee e pelo indie rock de guitarras ásperas e versos truncados, preservando o clássico espírito universitário dos anos 1990. No entanto, a banda escapa do pastiche. Elas reverenciam esse legado cultural de forma direta, sem soar como apenas mais um grupo perdido na fusão de estilos, o som entregue é essencialmente autoral.

O trio, formado por Penelope Lowenstein (voz e guitarra), Nora Cheng (guitarra e voz) e Gigi Reece (bateria), interagiu pontualmente com o público. As integrantes demonstraram entusiasmo, especialmente ao executarem os sucessos Switch Over (do álbum Phonetics On and On) e Anti-Glory (de Versions of Modern Performance), duas canções estrategicamente posicionadas no encerramento do repertório para incendiar a plateia.

Em uma indústria ávida por transformar referências em fórmulas prontas, entregar frescor ao mercado é um feito raro. No caso do Horsegirl, há algo mais vivo na performance: uma energia ainda em formação, mas já muito segura de sua própria estranheza. A banda não parece interessada em repaginar o passado para torná-lo palatável. O objetivo delas parece ser habitá-lo, bagunçá-lo e devolvê-lo com uma assinatura própria.