Entrevista | Banda 365 – “A música São Paulo virou um hino porque fala da vida real de quem mora na cidade”

A banda 365 construiu uma trajetória sólida dentro do punk e rock nacional desde sua formação nos anos 80, marcada por uma relação direta com a cidade de São Paulo. Lançada originalmente em 1987, no álbum de estreia do grupo, a música São Paulo atravessou décadas e foi eleita como a canção que melhor representa a capital paulista, tornando-se um hino informal da cidade. A faixa sintetiza o cotidiano, as contradições e o afeto de quem cresceu e vive na metrópole, ajudando a consolidar o 365 como uma banda de estrada, ativa e em constante diálogo com seu público ao longo de mais de 40 anos de carreira. Hoje, a canção ganhou uma nova roupagem em um relançamento especial com a participação de Dinho Ouro Preto, celebrando os 472 anos da cidade. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Miro de Melo, fundador da banda, fala sobre o relançamento de São Paulo como homenagem à capital, a longevidade do 365 no cenário do rock brasileiro e a forte ligação da banda com Santos e a efervescência cultural dos anos 80, período que marcou a consolidação do grupo e de toda uma geração do rock nacional. A música São Paulo foi eleita o hino informal da cidade e agora está sendo relançada com uma nova versão com outra lenda do rock. Fale um pouco sobre esse lançamento. Ela foi lançada em 87, no primeiro disco do 365, e se tornou um clássico. É uma das três maiores músicas em homenagem a São Paulo. Uma vez a gente ganhou na Kiss FM em primeiro lugar com essa música e, recentemente, mais ou menos em julho, a gente começou a gravar com a participação do Dinho Ouro Preto. É uma homenagem à cidade de São Paulo, aos 472 anos, uma homenagem do 365 para a cidade onde a gente cresceu, vive, ri, chora, mas ama. Muitas bandas dos anos 80 acabaram ficando alheias ao tempo. Como você vê a nova geração em relação à história do rock nacional dessa época? O 365 está fazendo quatro décadas e mais dois anos, 42 anos. A gente sempre foi uma banda de estrada e continua sendo. Viemos de bairros distantes e, naquele boom do rock dos anos 80, a gente tinha uma música boa e um repertório legal. A gente nunca parou, porque ama fazer isso, ama fazer rock and roll. Muitas bandas regravaram nossas músicas, como os Inocentes. A gente continuou na estrada e, a cada dia, se reinventa com a própria música e com a própria história. Você tem uma relação forte com Santos. Como foi essa fase da banda por aqui? Foi um auge da carreira. Antes do disco, tocamos no Heavy Metal e depois conhecemos o empresário do Legião, o Rafael Borges, que fazia shows no Caiçara. Ele é um grande manager do rock and roll. A gente veio para Santos, lotou o Caiçara, estava em turnê do primeiro disco. Foi muito bacana. Cada vez que a gente vem para cá é maravilhoso. Como você descreve a Santos nos anos 80? Fervia rock and roll. Estava tudo novo, bandas novas, surgimento de muitas bandas do Sul, de Brasília, nós em São Paulo, Ira, 365, Inocentes. Acho que tudo isso está sendo resgatado. Claro que o novo tem que vir, a gente precisa reciclar, mas estamos de passagem fazendo música e amando fazer rock and roll. Para encerrar, alguma história de bastidores marcante aqui em Santos? Com o primeiro disco, tinha o disco single, com duas faixas, uma de cada lado, a gente chegou no Caiçara e lotou. A gente pensou: “é isso mesmo?” Tinha lambe-lambe na cidade inteira, era isso que estava acontecendo com a gente. A gente tinha uma banda para tocar, qualquer palco era palco. De repente, estava estourado, com toda a receptividade da época, e de lá para cá estamos aí, há 42 anos.
Entrevista | Ye Vagabonds – “Da coxinha ao café, aqui em Dublin somos muito conectados com o Brasil”

O Ye Vagabonds se prepara para lançar All Tied Together no próximo dia 30. O álbum aprofunda a relação da dupla irlandesa com o folk contemporâneo e aposta em gravações ao vivo, arranjos mais encorpados e uma abordagem direta tanto no som quanto nas narrativas. O disco do Ye Vagabonds amplia o alcance artístico dos irmãos Brían e Diarmuid Mac Gloinn, equilibrando intimismo, força coletiva e temas sociais que dialogam com o presente, como a crise habitacional e o sentido de comunidade em tempos instáveis. Em entrevista ao Blog N’ Roll, a dupla Ye Vagabonds falou sobre o processo de gravação ao vivo do novo álbum, as experiências ao dividir a estrada com artistas como Boygenius e I’m With Her, além da relação entre folk, comunidade e a forte conexão que sentem com o Brasil. Como foi a decisão de gravar ao vivo e evitar overdubs, moldando o som final do álbum em comparação com os trabalhos anteriores do Ye Vagabonds? Foi definitivamente uma decisão importante no processo de fazer o álbum. Quando estávamos escrevendo as músicas, queríamos que elas fossem o mais diretas possível e que o disco fosse muito claro na forma como as histórias são apresentadas. A ideia era que fossem íntimas e imediatas ao mesmo tempo. Quanto menos coisas colocássemos no caminho entre nós, a história e o público, melhor. Para nós, o lugar onde isso sempre funcionou melhor foi no ambiente ao vivo. Então, se pudéssemos recriar o melhor dessa experiência ao vivo, mas com a energia e a atmosfera colaborativa de um estúdio, era exatamente isso que queríamos tentar. E acho que funcionou. Foi muito divertido. A abordagem mais sólida deste disco foi uma escolha consciente ou uma evolução natural depois de excursionar com o I’m With Her? Na verdade, o disco já estava pronto antes da turnê com o I’m With Her. Mas todas as experiências de estrada acabam influenciando. Já tínhamos excursionado com Hozier, Phoebe Bridgers e feito alguns shows com a Boygenius. Fazer shows de abertura é uma experiência muito valiosa, porque você toca para um público diferente e passa a ouvir suas próprias músicas de outra forma. Quando você toca para pessoas que talvez estejam mais acostumadas com um certo tipo de composição, elas respondem de maneira diferente, e você sente isso. Esse retorno ensina coisas novas sobre suas próprias músicas. Sempre que tocamos para públicos diferentes, isso influencia o que fazemos a partir dali. A turnê com o I’m With Her foi incrível nesse sentido, porque o público escutava com muita atenção, reagia às letras em tempo real. Isso te deixa mais presente no momento. Além disso, elas são artistas incríveis, extremamente profissionais, grandes compositoras e musicistas. Foi uma experiência muito bonita. A colaboração com a Boygenius ajudou a expandir ainda mais o alcance de vocês. Como foram os bastidores desse encontro? No começo, quando tocamos com a Phoebe Bridgers, ainda era período de Covid, então foi tudo meio estranho. Não havia muita interação nos bastidores, exceto conversas rápidas, mantendo distância. Já na época da Boygenius, conseguimos nos aproximar mais. A Phoebe é extremamente generosa, focada, inteligente e muito clara nas ideias que tem sobre música. Foi ótimo poder interagir mais e entender um pouco do processo dela. Algo muito especial nessa colaboração foi que, normalmente, quando somos convidados para colaborar, querem nossas vozes. Mas a Boygenius queria o som da nossa banda, a atmosfera que criamos, com cello, contrabaixo e todos os arranjos. Foi a primeira vez que alguém reconheceu isso de forma tão direta, e foi muito especial. E com quem vocês gostariam de colaborar no futuro? Temos muitos amigos incríveis. Na Irlanda, gostaríamos muito de trabalhar com Joshua Burnside e Laura Quirke, da banda Lemoncello. Também começamos colaborações em um festival em Cork focado justamente nisso, e dali surgiram trabalhos com artistas como Memorial e Neve Reid. Gostaríamos muito de fazer mais coisas com Sam Amidon, somos grandes fãs de Big Thief, Adrianne Lenker e Buck Meek. E, honestamente, adoraríamos trabalhar de novo com a Phoebe em algum momento. A música The Flood aborda a crise habitacional. Você acredita que o folk tem o papel de documentar esses problemas sociais? Eu não diria que a música folk tem um dever de documentar questões sociais, mas acho que isso acaba sendo uma consequência natural de escrever sobre a vida real. Muitas experiências humanas intensas são negativas e estão ligadas a estruturas sociais. Então é natural que essas músicas tenham um elemento político. A política não vem primeiro, vem a experiência emocional e humana. Ser completamente apolítico é, muitas vezes, uma posição de privilégio. Para nós, a música folk está muito ligada à ideia de comunidade. Em irlandês, a palavra para música folk significa literalmente música comunitária. E se você está falando sobre comunidade, inevitavelmente está falando de política, porque tudo o que afeta uma comunidade é político. O título All Tied Together sugere união, mas também pode indicar aprisionamento. Que sentimento o Ye Vagabonds quer que prevaleça para o ouvinte? Existe sempre uma tensão entre comunidade e liberdade pessoal. Não acho que seja papel da arte responder isso de forma definitiva, mas sim oferecer espaço para reflexão. Queríamos chamar atenção para a ideia de que tudo está conectado e que a comunidade está no centro de tudo. É algo muito poderoso. Ao mesmo tempo, comunidade pode significar muitas coisas diferentes. Para quem vive viajando, como nós, o conceito muda. Pode ser uma rede mais espalhada, menos fixa. Parte do mais empolgante de lançar um álbum é justamente ver como as pessoas interpretam isso e o que o disco se torna para elas. Há planos de shows no Brasil? O nosso país tem uma conexão forte com o mar e com a natureza. Eu, por exemplo, pratico canoagem havaiana e sinto que a música de vocês combina muito com o oceano e também com a comunidade do surf. Vocês já tiveram contato com a música brasileira? Nós adoraríamos fazer uma turnê pela América do Sul. Nossa relação
Poppy consolida fase pesada no novo álbum Empty Hands

Poppy chega ao seu novo álbum, Empty Hands, no momento mais sólido de sua trajetória. Depois de transitar por pop, experimentalismo e diferentes abordagens do rock pesado, a artista finalmente parece ter encontrado seu verdadeiro som. A cantora, que se apresentou recentemente no Brasil tanto solo quanto como abertura para o Linkin Park, apresenta uma fusão consistente de metalcore com metal moderno, sustentada por riffs pesados, produção densa e vocais que alternam com naturalidade entre melodias acessíveis e screams agressivos. É um disco que soa seguro, confiante e alinhado com a identidade que Poppy vinha construindo nos últimos lançamentos. Empty Hands reforça essa evolução ao apostar em uma sonoridade direta, menos fragmentada e mais coesa. As músicas caminham entre explosões agressivas e momentos de respiro melódico sem perder intensidade, mostrando uma artista confortável dentro do peso. A produção ajuda a dar unidade ao álbum, valorizando tanto a força das guitarras quanto a performance vocal, que segue sendo um dos grandes diferenciais do trabalho. Poppy não apenas canta, ela conduz o disco com personalidade e controle emocional. Ainda assim, o álbum não escapa de algumas limitações. Em determinados momentos, a estrutura das músicas se apoia em fórmulas já bastante conhecidas do metalcore atual, o que pode gerar uma sensação de previsibilidade. O peso é eficiente, os refrães funcionam, mas nem sempre há espaço para riscos maiores ou surpresas que levem o disco além do que já se espera do gênero. A produção polida demais em alguns trechos também tira parte da aspereza que poderia tornar certas faixas mais marcantes. Mesmo com essas ressalvas, Empty Hands cumpre um papel decisivo na discografia de Poppy. O álbum não busca reinventar o metal moderno, mas confirma que a artista encontrou um território onde sua voz, sua estética e sua intensidade emocional fazem sentido. Mais do que chocar ou dividir por contraste de estilos, Poppy entrega um trabalho que consolida sua fase mais pesada e estabelece, de vez, sua identidade dentro do metal contemporâneo.
The Adicts anuncia último show no Brasil para março

O The Adicts confirmou um show de despedida em São Paulo no dia 18 de março de 2026, no Carioca Club. A apresentação integra a Adios Amigos Tour, que marca o encerramento da trajetória de quase 50 anos de uma das bandas mais emblemáticas do punk rock britânico. A turnê passa pela América Latina como um adeus oficial aos palcos, reunindo fãs de diferentes gerações. Formada no fim dos anos 1970, a banda ganhou destaque não apenas pela sonoridade direta e energética, mas também pela identidade visual inspirada no filme Laranja Mecânica. Ao longo das décadas, o The Adicts se consolidou como um nome cult dentro do punk, mantendo relevância mesmo após mudanças no cenário musical e no próprio gênero. O show em São Paulo deve reunir um repertório focado nos principais clássicos da carreira, como Viva la Revolution, Bad Boy, Chinese Takeaway e Johnny Was A Soldier, músicas que ajudaram a construir a reputação da banda ao redor do mundo. A performance do vocalista Keith Monkey Warren segue como um dos pontos altos das apresentações, marcada pelo carisma, interação com o público e clima festivo no palco. A última passagem do The Adicts pelo Brasil aconteceu em 2019, com shows bem recebidos pelo público. Agora, a despedida em 2026 ganha contornos históricos, não apenas pelo peso do nome da banda, mas também pelo simbolismo de encerrar uma carreira longeva em um país que sempre demonstrou forte conexão com o punk rock internacional. Foto da capa: Flávio Santiago SERVIÇO | The Adicts em São Paulo Data: 18 de março de 2026 (quarta-feira) Horário: 19h (abertura da casa) Local: Carioca Club (Rua Cardeal Arcoverde, 2899, Pinheiros – São Paulo/SP) Ingresso: https://fastix.com.br/events/the-adicts-em-sao-paulo
Nine Lives resgata a energia do Goldfinger, mas capa vira alvo de protestos

Com mais de três décadas de carreira, o Goldfinger retorna ao centro do debate com Nine Lives, seu nono álbum de estúdio. Lançado hoje (23), o disco funciona como uma tentativa clara de reconectar a banda com a energia que a transformou em um dos nomes mais populares do ska punk nos anos 1990, sem ignorar o cenário atual e suas contradições. Nine Lives aposta em músicas diretas, refrões fáceis e um clima que alterna entre a leveza pop punk e momentos mais reflexivos. Faixas como Chasing Amy recuperam o espírito radiofônico que sempre foi uma das marcas do grupo, enquanto outras músicas trazem letras mais pessoais e maduras, refletindo o tempo e a experiência acumulada pelos integrantes. A presença de convidados conhecidos ajuda a dar variedade ao álbum. Destaque para nomes como El Hefe (NOFX), Mark Hopus (Blink-182) e Jim Lindberg (Pennywise). Porém as collabs não tiram o foco da identidade central do Goldfinger. Musicalmente, o disco não busca reinventar o gênero. Pelo contrário, Nine Lives soa confortável em sua própria fórmula, apostando na nostalgia como principal motor criativo. Para parte do público, isso funciona como um retorno bem-vindo às origens e, de certo modo, irá agradar por isso. Porém, para os mais críticos, o álbum carece de ousadia e soa excessivamente seguro, reforçando a sensação de que a banda prefere olhar para trás em vez de avançar. Polêmica na capa de Nine Lives, do Goldfinger Um ponto negativo está na capa. Logo após o lançamento, fãs passaram a acusar o Goldfinger de ter utilizado inteligência artificial na criação da arte. A suspeita ganhou força nas redes sociais e em fóruns, com protestos online de ouvintes que consideraram o possível uso de IA incompatível com a ética e a estética do punk, tradicionalmente associadas ao faça você mesmo e à autoria humana. A polêmica acabou se tornando parte da narrativa de Nine Lives, ampliando o debate para além das canções. Mesmo sem ofuscar completamente o conteúdo musical, o episódio evidenciou como questões tecnológicas e artísticas hoje caminham lado a lado, especialmente em bandas com um público fiel e atento a cada detalhe. No fim, Nine Lives não é um disco revolucionário, mas cumpre seu papel ao reafirmar que o Goldfinger ainda sabe escrever boas músicas e manter relevância em um cenário que mudou drasticamente desde seus primeiros passos. Entre acertos, controvérsias e nostalgia, o álbum confirma que, em 2026, o Goldfinger continua vivo no debate cultural, para o bem ou para o mal.
Harvey lança Ecos do Silêncio e amplia presença na cena independente

A banda Harvey, de Botucatu, interior de São Paulo, lançou hoje (23) o álbum Ecos do Silêncio, trabalho que marca uma nova fase criativa do grupo dentro do rock alternativo nacional. O disco reúne composições escritas ao longo de anos e transforma experiências pessoais, sentimentos atravessados e silêncios cotidianos em canções de forte carga emocional. Disponível nas plataformas digitais, Ecos do Silêncio parte de temas como amadurecimento, deslocamento emocional, escolhas e a necessidade de seguir em frente quando permanecer deixa de fazer sentido. As letras adotam uma abordagem aberta à interpretação, convidando o ouvinte a encontrar seus próprios significados a partir das vivências apresentadas pela banda. Musicalmente, a Harvey dialoga com o rock alternativo contemporâneo, combinando peso, melodia e introspecção. As influências passam por nomes do rock brasileiro como Charlie Brown Jr., CPM 22 e Scalene, além de referências internacionais como Foo Fighters, Red Hot Chili Peppers e Silverchair. O álbum foi lançado pela gravadora independente Yellowtone Music e gravado nos estúdios da Midas Music, selo fundado por Rick Bonadio e responsável por projetos marcantes do rock nacional. Entre os destaques do trabalho estão os singles Janela do Quarto, que aborda isolamento e observação interna, e Outro Caminho, faixa que trata do desgaste de insistir em situações que já não fazem sentido. Formada por Renan Piovan no vocal e guitarra, Pablo Oliveira na guitarra e backing vocal, Gustavo Tija no baixo e Eduardo Rossi na bateria e backing vocal, a Harvey segue ampliando sua presença no circuito independente, apostando em shows que priorizam conexão e entrega ao público. Ouça Ecos do Silêncio, do Harvey
Falchi lança EP de estreia Solace e apresenta nova fase instrumental de Jéssica Falchi

Lançado hoje nas plataformas digitais, Solace marca a estreia oficial da Falchi, banda instrumental idealizada pela guitarrista brasileira Jéssica Falchi. Com quatro faixas, o EP apresenta um trabalho que prioriza construção narrativa, identidade sonora e interação coletiva, afastando-se da lógica da exibição técnica isolada comum ao metal instrumental. Concebido como um registro coeso, Solace articula peso, experimentação e variação de atmosferas ao longo de suas faixas, transitando entre o rock e o metal contemporâneo com forte presença de elementos progressivos. O Blog N’ Roll conversou com a Jéssica Falchi antes do lançamento: “Nunca pensei nessas músicas como faixas soltas. A ideia sempre foi criar um conjunto que tivesse começo, meio e fim, com uma narrativa clara”, explica a guitarrista. A Falchi é formada por Jéssica Falchi na guitarra, João Pedro Castro no baixo e Luigi Paraventi na bateria. O EP tem produção de Jean Patton, ex-Project46, nome conhecido da música pesada nacional. O resultado é um trabalho que valoriza dinâmica, textura e arranjos, com espaço para experimentação de timbres e mudanças rítmicas que reforçam a identidade da banda. Entre as quatro faixas, a inédita Sweetchasm, Pt. 1 se destaca como o momento mais técnico e progressivo do EP. A música conta com a participação especial do guitarrista canadense Aaron Marshall, do Intervals, considerado uma das principais referências do metal instrumental contemporâneo. “A participação do Aaron aconteceu de forma muito natural. Ele trouxe a identidade dele sem descaracterizar a música, somando à ideia que eu já tinha para a faixa”, comenta Jéssica. Sweetchasm, Pt. 1 dialoga diretamente com Sweetchasm, Pt. 2, lançada anteriormente. As duas composições funcionam como movimentos complementares, compartilhando riffs e ideias melódicas reinterpretadas sob diferentes abordagens. Essa conexão reforça o pensamento estrutural que atravessa todo o EP, evidenciando a preocupação com continuidade e desenvolvimento musical. As demais faixas exploram diferentes facetas da proposta da Falchi. Moonlace aposta em uma abordagem mais direta e moderna, com apelo melódico e momentos de peso bem definidos. “É a música mais acessível do EP, flerta com um público que gosta de bandas mais atuais, mas sem perder identidade”, define Jéssica. Já Sunflare segue por um caminho mais introspectivo e contemplativo, com uma linha melódica contínua que conduz a narrativa instrumental. “Eu penso essa música quase como uma história sendo contada do começo ao fim, sem interrupções”, afirma a guitarrista. Sweetchasm, Pt. 2, por sua vez, resgata uma linguagem mais próxima do thrash metal, com estrutura que remete a canções com vocal, riffs marcantes e um solo pontual, dialogando com trabalhos anteriores de Jéssica. Além da música, Solace também apresenta um conceito visual bem definido. A identidade do EP é assinada por Lauren Zatsvar, com artes que dialogam diretamente com a sonoridade e o clima de cada faixa. O lançamento do EP coincide com a presença de Jéssica Falchi na NAMM 2026, nos Estados Unidos, principal feira global da indústria musical, onde a guitarrista participa de sessões de autógrafos e ações oficiais do evento. No Brasil, 2026 também marca a estreia da Falchi nos palcos. No dia 21 de março, a banda abre o show dos suecos do Katatonia, em São Paulo, no Cine Joia. Com Solace, a Falchi se apresenta como um novo projeto que amplia o vocabulário do metal instrumental brasileiro, apostando menos na demonstração técnica isolada e mais em identidade, narrativa e construção coletiva.
Megadeth fecha o ciclo de sua discografia e inclui música do Metallica

O último álbum do Megadeth deixa uma sensação ambígua. Há momentos em que Dave Mustaine e companhia soam afiados, conscientes do próprio legado e tecnicamente seguros. Em outros, a banda parece confortável demais em repetir fórmulas que ajudou a criar, mas que já não surpreendem como antes. O disco funciona mais como um fechamento de ciclo do que como uma obra disposta a ampliar fronteiras. A turnê de despedida passará pelo Brasil dia 2 de maio com ingressos esgotados. As faixas mais rápidas reforçam a identidade clássica do grupo, com riffs cortantes e andamento agressivo que remetem ao thrash metal tradicional. A atual formação mostra entrosamento, especialmente nas guitarras. Os fãs estavam curiosos após a saída de Kiko Loureiro, porém Teemu Mäntysaari, indicado pelo próprio brasileiro, ajuda a sustentar boa parte da energia do álbum. Ainda assim, a inspiração não se mantém constante. Em alguns momentos, as músicas soam previsíveis, com estruturas e soluções que dão a impressão de piloto automático ou de quem não preferiu arriscar. Polêmico “cover” do Metallica Curiosamente, o momento mais comentado do disco não está nas faixas autorais. O “cover” de Ride the Lightning, do Metallica, acabou se tornando o centro das atenções por motivos que vão além da música. Por conta da rivalidade histórica entre as duas bandas, fãs do Metallica passaram a ocupar fóruns e redes sociais para atacar a versão, classificando a gravação como vergonhosa, desnecessária e até desrespeitosa. A reação escancara como a relação entre Megadeth e Metallica segue viva no imaginário do metal, mesmo décadas depois da separação de Mustaine. O que poderia ser visto como um aceno ao passado virou combustível para debates inflamados, com críticas direcionadas à interpretação vocal, à produção e à própria escolha da faixa. Em entrevistas recentes, Mustaine afirmou que a música não é um cover, já que ele é co-autor, e rasgou elogios a James Hetfield como um guitarrista fantástico. Ele reforça ainda que gostaria de uma turnê unindo as duas bandas e selando a paz. No fim, o álbum entrega exatamente o que se espera de um Megadeth em fim de estrada: competência, identidade e peso, mas também limitações criativas evidentes. Não é um encerramento grandioso, tampouco um tropeço. É um disco que resume a banda como ela sempre foi, com seus méritos e suas repetições. Tem força suficiente para agradar fãs antigos, mas dificilmente será lembrado como um capítulo essencial da discografia.
Dead Fish faz show de 25 anos do Afasia neste sábado em São Paulo

O Dead Fish sobe ao palco da Audio, em São Paulo, neste sábado, 24 de janeiro, para um show especial que celebra os 25 anos de Afasia, um dos álbuns mais importantes da história do hardcore brasileiro. Anunciada em novembro, a apresentação terá repertório dedicado ao disco lançado em 2001, responsável por consolidar a banda capixaba no cenário nacional com músicas como Tango e Noite. A noite também contará com shows da Budang e da Bullet Bane, representantes da nova geração do punk e do hardcore nacional, que se apresentam antes do Dead Fish. O encontro entre diferentes momentos da cena reforça a influência duradoura de Afasia, disco que segue como referência para bandas que surgiram décadas depois de seu lançamento. Lançado há 25 anos, Afasia marcou uma virada na trajetória do Dead Fish ao ampliar o alcance da banda para além do circuito underground, sem perder o caráter político e direto que sempre definiu sua obra. O álbum se tornou um dos registros mais celebrados do hardcore brasileiro e permanece atual tanto pelas letras quanto pela intensidade das composições. O show na Audio celebra esse legado e reafirma o papel do Dead Fish como um dos nomes centrais do hardcore nacional, reunindo fãs de diferentes gerações em uma data simbólica para a história da banda e do gênero.