Your Favorite Toy: Foo Fighters lança álbum cru, porém sem um grande hit

O Foo Fighters sempre soube transformar crises em combustível criativo. Foi assim após a morte de Taylor Hawkins em But Here We Are, e volta a ser assim em Your Favorite Toy, décimo segundo álbum de estúdio da banda. O problema é que, desta vez, a descarga emocional vem embalada em um disco competente, intenso e por vezes visceral, mas que raramente alcança o impacto necessário para criar um hit a ser cantado nos estádios. Há energia de sobra. Desde a abertura com “Caught in the Echo”, Dave Grohl parece decidido a devolver a banda ao terreno do rock mais cru, urgente e nervoso, com riffs secos, bateria em primeiro plano e um senso de velocidade que remete ao DNA mais punk do grupo. O álbum soa menos polido, mais humano, quase como uma reação instintiva aos últimos anos turbulentos. Ainda assim, a sensação que fica é a de um trabalho bom, mas sem o brilho de um disco que vá sobreviver no imaginário do fã por muito tempo. Esse talvez seja o principal ponto de Your Favorite Toy: ele funciona no presente, mas assim como But Here We Are, ele não parece ter o peso de futuro. É um disco que se ouve bem agora, que certamente renderá bons momentos ao vivo nos próximos meses, porém dificilmente deve ocupar espaço relevante nos setlists daqui a alguns anos, especialmente quando a banda tem um catálogo tão dominante. Falta aquela música inevitável, aquele refrão instantâneo, aquela faixa que se impõe como clássico imediato. Faixas como “Of All People” e “Unconditional” estão entre os melhores momentos justamente por conseguirem equilibrar urgência sonora e densidade emocional. Já outras, embora interessantes, parecem passar sem deixar marcas profundas. É um álbum honesto, às vezes intenso, mas que não empolga na mesma medida em que tenta soar grandioso. No fim, Your Favorite Toy é menos sobre reinvenção e mais sobre sobrevivência. E talvez isso explique sua força e também sua limitação: é um disco de reação e revolta, não de ruptura. Veja o que a imprensa internacional falou Rolling Stone (EUA) Destacou o disco como um trabalho poderoso e de cura emocional, ressaltando a energia heroica e a forma como Grohl transforma ruído em catarse. Kerrang!Enfatizou o retorno ao rock noventista e elogiou especialmente “Unconditional”, apontando o álbum como um reencontro da banda com sua essência. NME / Louder SoundA leitura é de um retorno feroz às raízes pós-grunge, com bastante energia e senso de urgência. Vê o disco como forte, ainda que menos revelador emocionalmente que o anterior. El PaísFoi mais crítico, afirmando que a raiva por si só não basta e que faltam músicas realmente memoráveis. Washington Post Destacou como um retorno de alta energia, ressaltando que o Foo Fighters assume alguns riscos de produção e abraça uma sonoridade mais crua e acelerada. O texto elogia a vitalidade do disco e aponta faixas como “Caught in the Echo” e “Unconditional” entre os destaques, mas reconhece que algumas escolhas podem dividir o público. Faixa a faixa: a história por trás das letras Caught in the EchoA abertura do álbum já mergulha em um território emocional pesado. A letra trabalha a ideia de ecos do passado, lembranças que voltam com força e sentimentos que parecem impossíveis de silenciar. É uma música sobre viver cercado por memórias, como se a mente insistisse em revisitar feridas antigas. Of All PeopleAqui, o foco está na decepção e na quebra de confiança. A canção fala sobre a dor de ser ferido justamente por alguém de quem se esperava acolhimento ou lealdade, o que torna a letra uma das mais confessionais do disco. WindowA faixa traz uma atmosfera contemplativa e melancólica. A imagem da janela funciona como metáfora para distância e observação, como se o narrador enxergasse uma relação, uma lembrança ou até uma fase da vida já fora de alcance. Your Favorite ToyA faixa-título usa uma metáfora forte ao transformar a ideia de um brinquedo favorito em símbolo de desgaste afetivo. A letra sugere a sensação de ter sido usado, valorizado por um tempo e depois deixado de lado. If You Only KnewÉ uma música sobre sentimentos não revelados e palavras que ficaram presas. A letra gira em torno do arrependimento e da frustração de não conseguir expressar tudo aquilo que ficou guardado. Spit ShineCom uma abordagem mais crítica, a faixa fala sobre aparências e a necessidade de manter tudo “brilhando” por fora, mesmo quando internamente as coisas já não estão bem. É quase um comentário sobre máscara emocional. UnconditionalUma das músicas mais abertas emocionalmente do álbum. A letra fala sobre entrega, amor e vínculos que permanecem mesmo em meio ao caos, trazendo um respiro mais sensível dentro do disco. Child ActorA canção reflete sobre identidade e performance. A sensação é de alguém vivendo um papel, preso entre aquilo que o mundo espera e aquilo que realmente é, quase como uma crítica à fama e à exposição. Amen, CavemanMais agressiva e instintiva, a letra parece mergulhar em impulsos primários, sobrevivência e reação visceral. É uma música mais física, quase um grito bruto dentro da narrativa do álbum. Asking For A FriendO encerramento tem um tom confessional e vulnerável. Ao usar a ideia de estar “perguntando por um amigo”, a letra revela inseguranças e dúvidas pessoais, funcionando como uma despedida introspectiva.

Mortification volta à América Latina e confirma quatro shows no Brasil

Após mais de uma década longe dos palcos, o Mortification está oficialmente de volta. Pioneira do death/thrash metal e uma das bandas mais influentes da história do metal extremo, a banda australiana anunciou uma turnê pela América Latina com quatro datas confirmadas no Brasil. O retorno marca uma nova fase do grupo, agora com uma formação especial que celebra o legado construído por Steve Rowe, fundador e principal nome da trajetória da banda. A volta acontece após um longo período de hiato, motivado pelo estado de saúde de Rowe, que se aposentou definitivamente das apresentações ao vivo. Mesmo fora dos palcos, o músico segue diretamente envolvido no projeto, supervisionando detalhes como repertório, identidade visual e direção geral da turnê. Para assumir os vocais e o baixo, o Mortification recrutou Luke Renno, conhecido pelo trabalho no Crimson Thorn. A nova formação reúne ainda nomes históricos que passaram por diferentes fases da banda: os guitarristas Lincoln Bowen e Mick Jelinic, além do baterista Jayson Sherlock, integrante da formação clássica do início dos anos 1990. A excursão também celebra os 35 anos do icônico álbum Scrolls of the Megilloth, um dos discos mais importantes do metal cristão extremo e peça fundamental da discografia do grupo. No Brasil, a turnê terá quatro apresentações em fevereiro de 2027: 17/2 em Recife, no Downtown Recife; 19/2 em Belo Horizonte, no Mister Rock Bar; 20/2 em São Paulo, no Burning House; e 21/2 em Curitiba, no Basement Cultural. Os shows contarão ainda com as bandas Terraphobia, da Austrália, e Antidemon, do Brasil, como atrações de abertura. A produção executiva é assinada pela En Hakkore Rec, responsável por recentes turnês de nomes como Stryper, P.O.D., Demon Hunter e Narnia. Para os fãs de metal extremo, o retorno do Mortification representa um dos anúncios mais relevantes do gênero para 2027, resgatando um nome fundamental na construção do death/thrash mundial. Histórico Formado na Austrália no fim dos anos 1980 a partir das cinzas do Lightforce, o Mortification se consolidou como um dos nomes mais importantes do metal extremo mundial nos anos 1990. Liderada por Steve Rowe, a banda ganhou notoriedade ao misturar death, thrash e grindcore em discos que se tornaram referência, especialmente Scrolls of the Megilloth (1992), considerado um clássico do gênero. Ao longo da carreira, o grupo lançou mais de uma dezena de álbuns e ajudou a expandir o alcance do metal australiano para o mercado internacional, incluindo lançamentos pela Nuclear Blast. Além do peso sonoro, o Mortification também se tornou pioneiro por sua forte identidade cristã, sendo uma das primeiras bandas a levar mensagens de fé para dentro do death metal extremo. Em um cenário historicamente associado a temáticas sombrias e anticlericais, o grupo abriu caminho para o chamado christian death metal, transformando-se em referência para diversas bandas que surgiram depois dentro do nicho. Essa combinação entre brutalidade musical e letras voltadas à espiritualidade foi um dos principais elementos que ajudaram a construir o status cult e a relevância histórica da banda. Serviço17 de fevereiro — Recife | Downtown Recife19 de fevereiro — Belo Horizonte | Mister Rock Bar20 de fevereiro — São Paulo | Burning House21 de fevereiro — Curitiba | Basement Cultural Ingressos: venda pela Clube do Ingresso.

Julio Meloni transforma São Paulo em protagonista no novo single “Nome de Santo”

Julio Meloni apresenta um novo capítulo de sua trajetória artística com o lançamento de “Nome de Santo”, single que transforma São Paulo em personagem central de uma narrativa sonora marcada por contrastes, simbolismo e atmosfera urbana. Na faixa, o cantor e compositor parte da experiência cotidiana na capital paulista para construir uma leitura que vai além do concreto, convertendo a cidade em uma paisagem ao mesmo tempo real e imaginária. O resultado é uma canção que oscila entre pertencimento e estranhamento, refletindo a complexidade de uma metrópole em constante movimento. A nova música reforça a identidade de Meloni dentro do pop psicodélico, agora com um olhar ainda mais voltado para a vida urbana. Guitarras eletrizadas e sintetizadores expansivos conduzem a sonoridade de “Nome de Santo”, criando uma atmosfera que alterna tensão e contemplação. A proposta é acompanhar, no plano musical, os extremos sugeridos pela letra, que apresenta São Paulo como um organismo vivo, capaz de ser acolhedor e ameaçador ao mesmo tempo. “São Paulo é minha casa faz 25 anos. Me sinto parte dela, mesmo que uma milésima parte. O que me atrai são os seus extremos: uma doce menina ou um poderoso dragão? Foi para entender a cidade onde eu vivo que eu decidi cantá-la”, afirma o artista. Produzida em parceria com Iran Ribas e Kaneo Ramos, a faixa dá sequência a uma colaboração já consolidada na carreira do músico, equilibrando densidade sensorial, textura e impacto melódico em uma produção que dialoga com o indie contemporâneo e o pop experimental. Inserido na cena independente desde 2022, Julio Meloni vem construindo uma obra que cruza referências da música brasileira com elementos do pop internacional e do universo dos sintetizadores. Após o álbum de estreia “Herdeiro da Lua”, lançado em 2023 e revisitado em versão deluxe em 2025, o artista avança agora para uma fase mais provocativa, em que a cidade assume papel central em sua construção estética e conceitual. Com mais de 200 composições autorais e ouvintes em mais de 30 países, Julio Meloni chega a este lançamento em um momento de consolidação. Indicado ao Prêmio Profissionais da Música em 2024, na categoria Pop-Sudeste, e presente na programação da 36ª Bienal de São Paulo em 2025, dentro do projeto Varanda Bienal, o cantor prepara novos lançamentos e o desenvolvimento de seu próximo show. “Nome de Santo” surge, assim, como a abertura de uma nova fase, em que São Paulo deixa de ser pano de fundo e passa a ocupar o centro da narrativa.

Entrevista | Crypta- “A Victoria já entrou contribuindo criativamente, isso foi a chave para efetivá-la”

A Crypta se prepara para encerrar no Brasil o ciclo de shows do álbum Shades of Sorrow, trabalho que consolidou ainda mais a força do grupo no cenário do death metal mundial. Após uma sequência intensa de apresentações, incluindo 31 shows em 39 dias nos EUA, a banda chega à reta final da turnê nacional antes de voltar para a Europa e suas atenções integralmente ao próximo disco. Depois dessas datas, o repertório do álbum atual deve dar espaço ao novo material, que já está em fase avançada de composição. O encerramento dessa etapa em território nacional acontece com duas datas de peso em São Paulo: um show no Hangar 110 e a participação no Bangers Open Air, festival que se tornou uma vitrine importante para a banda no país. As apresentações marcam a despedida ao vivo do repertório dos dois últimos discos e também de algumas músicas mais antigas. Em entrevista ao Blog n’ Roll, a baterista Luana Dametto falou sobre a reta final da turnê de Shades of Sorrow, o processo de composição do novo álbum e a entrada definitiva da guitarrista Victoria Villarreal na formação. Como você avalia esse momento final da turnê de Shades of Sorrow? Houve algum show mais marcante nessa reta final? É difícil apontar um show mais marcante, porque com certeza teve, mas a gente toca tanto que minha memória dura no máximo até o que eu fiz ontem à tarde. Depois eu já deleto tudo. Essas últimas turnês do Shades têm sido muito boas. Já estamos tocando essas músicas há bastante tempo, então é como um impulso final, sabe? Tipo: beleza, vamos tocar essas agora e depois focar totalmente no disco novo. Também é a última chance de tocar algumas músicas que a gente não vinha tocando há um tempo, inclusive faixas do Echoes of the Soul que estavam mais abandonadas. A gente pensou: vamos colocar de volta no setlist, já que é a última turnê dessa fase. Ainda tem uma sequência importante na Europa, entre junho e agosto, e aí sim eu acredito que essa turnê do disco se encerra de vez. Os shows finais no Brasil serão no Hangar 110 e no Bangers Open Air. Existe um peso especial por serem datas em casa? Estou achando muito massa que, nessa última sequência de shows no Brasil, a gente teve a oportunidade de tocar no Bangers, que é um festival grande. Como são as últimas datas no Brasil com esse disco, foi importante conseguir uma vaga forte assim para divulgar esse final de turnê. Além do Bangers, também tivemos o festival em Friburgo, que foi muito bom, e ainda teremos esse show do Hangar. Talvez não sejam tantas datas no Brasil, mas são datas muito boas para fechar esse ciclo. Também existe a empolgação do público pela oficialização da nova integrante. A gente já tinha tocado com a Victoria antes, então não foi exatamente uma surpresa, mas a confirmação dela trouxe um novo olhar para a banda, inclusive de pessoas que ainda não conheciam o trabalho. Por que decidiram efetivar a Vitória agora, nessa reta final da turnê? A gente já queria há algum tempo ter uma nova integrante na banda. Desta vez, ao invés de simplesmente chamar alguém direto, resolvemos fazer diferente: testar em turnê, testar em várias situações e depois decidir. Tecnicamente, muitas pessoas poderiam assumir o posto. Tivemos músicos testados até mesmo pela internet. Mas o que estávamos procurando ia muito além da parte técnica. Queríamos alguém que agregasse nas composições, alguém com background no death metal e experiência na cena. A Victoria já entrou contribuindo criativamente. Ela compôs, mandou ideias, e a gente percebeu que aquilo combinava muito com a banda. Isso foi a chave final para efetivá-la. Então deu tempo dela conseguir colocar o DNA dela no próximo álbum? Sim. Embora tenha sido oficializada agora, ela já vinha participando desse processo há algum tempo. Durante essa fase de testes, ela já estava compondo com a gente. Quando ela mandou algumas composições, a reação foi imediata: “isso aqui combina”. Foi aí que entendemos que era o momento certo para efetivar. Então, sim, deu tempo de ela deixar a marca dela no disco. É, se teve essa química, é melhor não perder a oportunidade. Você pode contar em que estágio está o próximo álbum? A gente já tem quase o disco todo. Talvez mais um mês para terminar a composição e mais uns dois meses para acertar todos os detalhes. As demos principais da maioria das músicas já estão prontas. O maior desafio é realmente encontrar tempo, porque estamos sempre em turnê. Nos intervalos entre as datas, a ideia é finalizar tudo para conseguir gravar ainda este ano. O lançamento, muito provavelmente, fica para o ano que vem, porque depois da gravação ainda existe todo o processo de produção, prensagem e lançamento. Então a ideia é entrar em estúdio após os shows finais na Europa? Exatamente. Talvez um pouco depois, para dar tempo de colocar tudo em ordem e também descansar o corpo após a turnê. Mas o plano é esse: finalizar os shows, organizar tudo e partir para a gravação. Existe uma ligação enorme de vocês e o Bangers. O show no Bangers terá algo especial? Sim. Como é um show focado nos dois últimos discos, a gente mudou o setlist em comparação ao que vinha fazendo até agora. Estamos trazendo algumas músicas que fazia muito tempo que não tocávamos, faixas que a gente achou que talvez nunca mais voltassem ao repertório. Como é a última oportunidade de tocar esse material, resolvemos aproveitar. Tem como dar um spoiler? Dá sim. Uma das músicas é “I Resign”, que voltou ao set. Fazia muito tempo que eu não tocava essa música, precisei até assistir ao meu próprio playthrough para lembrar como era. Ainda bem que tinha vídeo, pois eu já tinha esquecido. E além da Crypta você tem realizado sonhos, né? Como foi participar da homenagem ao Joey Jordison? Foi uma das coisas mais importantes que já me

Supercombo faz primeiro show da segunda parte de Caranguejo neste domingo

A Supercombo sobe ao palco da Casa Natura Musical neste domingo, 26 de abril, para o show de lançamento de Caranguejo (Parte 2), novo capítulo do álbum dividido em duas etapas e já disponível nas plataformas de streaming. A apresentação, marcada para as 19h, será a primeira oportunidade para o público acompanhar ao vivo as oito faixas inéditas que completam o projeto lançado pela Deck. Depois de circular por seis estados ao longo de 2025 com a primeira metade do disco, a banda encerra agora o ciclo de um trabalho concebido desde o início como uma obra em dois tempos. A segunda parte se conecta diretamente ao repertório já apresentado, mas propõe uma mudança de atmosfera, explorando novos climas, ritmos e texturas sem perder a unidade estética do álbum. O resultado amplia a proposta sonora de Caranguejo, mantendo a identidade que consolidou o grupo entre os principais nomes do rock alternativo nacional. Em entrevista ao Blog N’ Roll (relembre aqui), o vocalista Léo Ramos afirma que com as duas partes juntas, Caranguejo é um dos álbuns mais incríveis da banda. Musicalmente, o rock continua como eixo central da Supercombo, mas as novas canções apostam em contrastes de dinâmica, mudanças de andamento e diferentes camadas de ambiência. Entre momentos mais diretos e passagens introspectivas, a banda preserva o equilíbrio entre riffs marcantes, melodias fortes e letras conectadas ao cotidiano, características que acompanham sua trajetória. O trabalho mostra bem a ideia de caranguejo, que vai de um lado ao outro, indo do metal à MPB. O show na capital paulista marca não apenas a estreia ao vivo do novo repertório, mas também o início de uma fase importante do projeto. ServiçoSupercombo – lançamento de Caranguejo (Parte 2)Data: 26 de abril de 2026 (domingo)Local: Casa Natura MusicalHorário: 17h30 (abertura da casa) | 19h (show)Classificação: 18 anos

Entrevista | Rafael Witt – “Fui escolhido pelo próprio Lumineers. Foi um sonho que virou realidade”

Hoje começa no Rio de Janeiro um dos momentos mais simbólicos da trajetória de Rafael Witt. O cantor e compositor gaúcho dá início nesta terça-feira (22) à série de apresentações como atração de abertura da turnê brasileira do The Lumineers, com show no Vivo Rio. A participação de Witt nos três concertos da banda no país, que ainda passa por Curitiba e São Paulo, nasceu de uma mobilização nas redes sociais: após publicar um vídeo no Instagram pedindo a oportunidade, o artista viu sua comunidade de fãs impulsionar a campanha com centenas de comentários e compartilhamentos, movimento que chamou a atenção da produção da turnê. Mais do que um passo importante na carreira, a abertura dos shows carrega um peso afetivo e artístico. Foi justamente no indie-folk de The Lumineers e Mumford & Sons que Witt encontrou algumas de suas principais referências ainda na adolescência. Agora, a influência que ajudou a moldar sua identidade musical se transforma em realidade no palco, em uma conexão direta entre formação artística e projeção profissional. O momento também reforça a consolidação de seu nome dentro do circuito folk contemporâneo, após passagens recentes por turnês ao lado de Seafret e Hollow Coves no Brasil. Natural de Caxias do Sul, Rafael Witt vem construindo carreira de forma independente, com turnês pelo Brasil, Europa e América do Norte, além de números expressivos nas plataformas digitais. Seu álbum Wanderer, lançado em 2024, já ultrapassa 1,5 milhão de streams no Spotify, consolidando uma trajetória marcada por composições em inglês, forte apelo autobiográfico e temas como pertencimento, transformação e deslocamento. A estreia da turnê com The Lumineers nesta noite, no Rio, marca um capítulo decisivo e emblemático para o artista. Como surgiu a campanha para abrir o show do The Lumineers e como foi receber a notícia? Foi muito engraçado. Eu tenho essa tradição na minha carreira, desde o início, de compartilhar com os fãs os meus sonhos e vontades. Algumas coisas se concretizam, outras ainda não, mas a galera já está acostumada com a minha cara de pau de simplesmente dizer: “gente, eu quero isso, vamos ver se a gente consegue fazer acontecer”. Nesse caso, eu tive a audácia de gravar um vídeo bem produzido, falando em inglês diretamente para o Lumineers. Quase como um portfólio. Eu mostrei tudo o que já fiz, os shows que já abri, as cidades em que tenho público, as turnês na Europa e nos Estados Unidos, além de reforçar que meu som tem tudo a ver com eles. Inclusive mostrei um vídeo meu, com 14 anos, tocando uma música da banda. Pedi para a galera comentar, marcar o Lumineers e a Live Nation, e o vídeo acabou ganhando uma repercussão enorme. Duas semanas depois, recebi a mensagem da Live Nation perguntando se eu tinha as datas disponíveis. Falei brincando “Deixa eu olhar na minha agenda” (risos). Claro que eu tinha. Depois veio a confirmação de que eu tinha sido escolhido pelo próprio Lumineers. Foi um sonho de infância que começou na internet e virou realidade. Que conselho você daria para bandas e artistas que estão começando e sonham com oportunidades como essa? Eu acho que o principal é desenvolver a carreira de forma consistente. Não basta só querer estar naquele palco, você precisa estar preparado para isso. No meu caso, eu cuido muito das composições, da qualidade dos vídeos, da apresentação ao vivo e do meu posicionamento como artista autoral. Também acho importante jogar os sonhos para o universo. Falar sobre eles, compartilhar, fazer acontecer. Às vezes as pessoas têm vergonha de pedir, de tentar. Eu nunca tive isso. Mas claro que não é só pedir: você precisa mostrar que merece estar ali. No fim, a banda e a produção fazem uma curadoria, então tem que fazer sentido artisticamente. Como está sendo a preparação para abrir o maior show da sua carreira? Como você monta o setlist? Estou muito animado e, ao mesmo tempo, nervoso. É o maior palco em que já subi na vida. Acho que o palco é maior do que todos os shows que já fiz somados. Isso exige muita concentração e muita dedicação. Mas eu levo isso com humor. Nos shows de abertura, sempre falo para o público que sei que eles não foram ali para me ver, mas que já estão presentes e podem curtir aquele momento. Acho que essa honestidade aproxima as pessoas. Também preparei algumas surpresas no repertório, incluindo um cover inesperado de “Lose Yourself”, do Eminem, em uma versão bem diferente. É sempre um momento divertido e ajuda a quebrar o gelo. Além de Lumineers e Mumford and Sons, quais são as principais influências do seu trabalho? No meu som, as maiores referências são The Lumineers, Mumford & Sons e Of Monsters and Men. Também tem muita influência de Ed Sheeran, John Mayer e até de Taylor Swift. Mas quando eu era mais novo, era muito ligado ao rock e ao metal. Ouvi muito Metallica, Slipknot e Linkin Park. Acho que isso também aparece de alguma forma na minha identidade musical. Suas músicas são bem intimistas, como funciona o seu processo de composição? As histórias são verdadeiras e autobiográficas? Ele é muito autobiográfico. Eu comecei a escrever músicas como uma forma de terapia. Escrevia em inglês porque tinha vergonha de expor exatamente o que estava sentindo para as pessoas próximas. Sempre foi uma forma muito honesta de colocar para fora inseguranças, medos, amores, transformações pessoais e momentos difíceis. As músicas falam muito sobre a minha vida, sobre relações e sobre esse processo de amadurecimento. Pode dar um exemplo de história para gente? Eu escrevi “Space and Time” no começo de um relacionamento. Essa história é até engraçada e meio dolorida ao mesmo tempo. Eu sempre brinco que vou ter que tocar essa música pelo resto da minha vida e, inevitavelmente, lembrar da minha ex-namorada, porque é a música que as pessoas mais gostam e sempre pedem nos shows. Naquele momento, eu vinha de uma fase em que não queria me apaixonar de novo. Eu

Entrevista | Fresno – “Carta de Adeus é um disco de canções que tem um quê de confortável pensando no fã”

A Fresno viveu um momento marcante no último sábado (18), ao transformar o Espaço Unimed, em São Paulo, no palco de lançamento de seu novo álbum, Carta de Adeus. Em uma proposta não usual na trajetória da banda, o trio apresentou o disco ao vivo e na íntegra antes mesmo de seu lançamento nas plataformas digitais, oferecendo ao público a primeira audição coletiva das novas faixas. A noite também serviu como estreia oficial da nova turnê, que inaugura mais um capítulo nos 27 anos de carreira do grupo. O show foi pensado como uma experiência imersiva, reforçando a relação histórica da banda com os fãs. Além das músicas inéditas, o repertório passeou por clássicos que ajudaram a consolidar a identidade da Fresno ao longo das décadas. A proposta de lançar o álbum diretamente no palco ampliou o peso emocional da apresentação, transformando a estreia em um evento único para quem acompanhou a noite. O conceito do disco, centrado no processo humano da criação artística, também se refletiu no espetáculo, que valorizou a organicidade da música e a conexão direta com o público. Quem ouviu o novo álbum também pode observar uma forte referência aos anos 80 e, inclusive, teve processos de gravação no formato analógico. Com Carta de Adeus, a banda liderada por Lucas Silveira reafirma sua maturidade criativa e aposta em uma sonoridade que dialoga com nostalgia, emoção e novas possibilidades estéticas. A apresentação no Espaço Unimed consolidou esse novo momento, unindo a força do repertório inédito à memória afetiva construída ao longo dos anos com sua base de fãs, hoje formada por diferentes gerações. Nossa correspondente Fernanda Santana bateu um papo com a Fresno ainda no Espaço Unimed e trouxe a visão do trio em relação ao novo álbum. O público da Fresno hoje é mais velho do que no início da carreira, e esse novo álbum transmite uma grande sensação de maturidade. Há também elementos que remetem aos anos 80. O que inspirou esse trabalho? Lucas – Se uma banda com uns malucos de 40 anos fizer um álbum imaturo, tu pode acabar a banda, né? Eu acho que a maturidade vem com o tempo, e ela não pode ser um bagulho do tipo “vamos fazer um disco maduro”. Não é assim. A gente vai evoluindo, vai florescendo. Diferentemente de uma fruta, a gente vai só evoluindo mesmo. A coisa dos anos 80 veio porque a gente decidiu incorporar coisas com as quais cresceu ouvindo, e não necessariamente só bandas atuais que a gente gosta. Hoje também temos acesso a timbres e sonoridades que talvez há dez anos a gente nem soubesse fazer. É um disco de canções que tem um quê de confortável pensando no fã da banda. Para mim, tem elementos musicais que, assim como na comida, funcionam como um temperinho com gosto de vó. Nesse disco tem um pouco disso. A pessoa se sente em casa com um timbre de guitarra menos processado, que às vezes lembra coisas mais antigas, e a gente se colocando dentro dessa linguagem faz com que as músicas falem de uma forma diferente. Quais bandas e artistas serviram como referência para esse álbum? Lucas – Eu cresci indo em festas onde tocavam Legião Urbana, Plebe Rude, The Smiths, Joy Division e New Order. Depois, um pouquinho mais velho, todo mundo aqui via muita novela, então tem muita coisa incrível que tocou em novela e que a gente gosta bastante. Guilherme Arantes, para mim, é um dos maiores compositores do Brasil. Mesmo a gente gostando de algumas bandas de rock mais moderno, de coisas meio metal, a gente se baseia muito também em coisas que crescemos ouvindo, em referências que são universais. Vavo – Eu discordo da parte de que eu assisti muitas novelas, isso não é verdade. Mas eu conheço as músicas das novelas, isso eu acompanhei muito, porque elas ultrapassavam a novela. Elas chegavam até a gente de outras formas. Se Carta de Adeus fosse “irmão” de outro álbum da Fresno, qual seria? Lucas – Cara, são todos nossos filhos, então são todos irmãos. Eu acho que nessa nossa última passada de discos, desde Sua Alegria Foi Cancelada, são discos que eu considero bem irmãos. Enquanto banda, como pais da obra, a gente não consegue fazer muito essas relações de qual disco bate de qual maneira, porque a gente não consegue ouvir da mesma forma que um fã ouve, que sente as conexões de outro jeito. Eu já vi fãs relacionando esse disco até com trabalhos que não têm muito a ver, e às vezes eu nem sei de onde eles tiram isso. Mas eu não consigo responder de uma maneira totalmente satisfatória porque, para mim, todos fazem parte de uma mesma linhagem. Vavo – Eu vejo mais como Pokémon. Um é a evolução do outro, não necessariamente irmãos. Gostou da minha referência? Guerra – Acho que é isso mesmo. Existe uma linha que une todos, principalmente na escrita, nas canetadas do Lucas. Essa identidade foi sendo construída ao longo do tempo. Vejo como um processo evolutivo de dois ou três discos, uma fase que vai se transformando naturalmente. Setlist do Show de lançamento de Carta de Adeus Parte 1 Parte 2

From Ashes To New abraça de vez o metal moderno e o nu metal no novo álbum Reflections

Com o lançamento de Reflections na última sexta (17), o quinto álbum de estúdio do From Ashes To New reforça a posição dos norte-americanos como um dos nomes mais consistentes do nu metal moderno e do metal moderno de apelo radiofônico. Longe de ser um disco de reinvenção, o trabalho aposta na consolidação de uma identidade já bem definida: riffs densos, bases eletrônicas, versos em rap e refrões construídos para grandes palcos. O resultado é um álbum que funciona pela eficiência e pela continuidade de manter sua essência. A abertura com “Drag Me” deixa clara essa proposta. A faixa começa com um impacto imediato, apoiada em texturas eletrônicas e um groove que remete ao metalcore contemporâneo. O contraste entre o vocal melódico de Danny Case e a entrega mais agressiva de Matt Brandyberry sustenta a música, especialmente no refrão, que tem clara vocação de single. Há um breakdown central que adiciona peso real à faixa e impede que ela se torne apenas mais uma canção de metal alternativo. É uma música pensada para o ao vivo, com refrão de destaque e um andamento feito para conquistar o público nos primeiros acordes. Na sequência, “Villain” surge como uma das composições mais interessantes do álbum. Aqui, a banda aprofunda uma atmosfera mais sombria e trabalha uma narrativa de ambiguidade moral, explorando o fascínio pelo caos e pela autodestruição. A música tem um acabamento mais sofisticado, com camadas eletrônicas e uma dinâmica que se aproxima do que nomes como Linkin Park e Bring Me the Horizon fizeram em suas fases mais acessíveis. É uma das faixas que melhor traduz o conceito de Reflections: olhar para dentro, confrontar os próprios impulsos e aceitar o lado escuro da personalidade. O meio do disco ganha força com “Black Hearts” e “Upside Down”, talvez os momentos em que o From Ashes To New melhor equilibra agressividade e apelo comercial. “Black Hearts” aposta em riffs mais rápidos e numa progressão que culmina em um breakdown pesado, enquanto “Upside Down” adiciona um tom emocional mais evidente sem perder a tensão instrumental. São faixas que demonstram maturidade na composição e ajudam a evitar que o álbum se torne apenas uma coleção de singles previsíveis. Há também bons destaques na reta final. “New Disease” trabalha uma crítica à fadiga geracional e ao desgaste provocado pela cultura digital, tema que a banda aborda com um viés mais cínico e contemporâneo. Já “Darkside” mergulha em um território mais introspectivo, com clima quase industrial, enquanto “Your Ghost” encerra o álbum em tom melancólico, trazendo um peso emocional que amplia a experiência do disco. O fechamento funciona justamente por não buscar uma resolução fácil, mas sim uma sensação de permanência do conflito interno apresentado ao longo das 12 faixas. Do ponto de vista crítico, Reflections acerta ao refinar a sonoridade do grupo e manter sua consistência com versos em rap, explosão melódica no refrão, ponte eletrônica e breakdown programado. O disco entrega exatamente o que seu público espera, com produção forte, refrões memoráveis e peso suficiente para manter a identidade da banda intacta.

Entrevista | Lúcio Maia – “A confiança do Chico Science foi decisiva para que eu continuasse”

Lúcio Maia abre um novo capítulo da carreira solo com o lançamento de seu segundo álbum, disponibilizado nesta quinta-feira (16). O fundador e ex-guitarrista da Nação Zumbi apresenta um trabalho instrumental que mergulha em psicodelia, futurismo e diferentes atmosferas sonoras, ampliando ainda mais a identidade que construiu ao longo de décadas na música brasileira. O disco traz faixas como “Cogumelo de Vidro”, “Qítara”, “Fetish Motel” e “Tábua das Horas”, combinando texturas eletrônicas, riffs densos e uma abordagem cinematográfica. Em alguns momentos, o álbum flerta com o noir sessentista; em outros, aproxima baião, funk e ambiências psicodélicas, reforçando a proposta de um trabalho que se move entre tradição e futuro. Produzido pelo próprio Lúcio Maia, o álbum conta com mixagem de Mario Caldato Jr. e Daniel Ganjaman, além da participação de Arquétipo Rafa, Marco Gerez e Pedro Regada. O resultado é um disco que evidencia não apenas a assinatura de sua guitarra, reconhecível desde os tempos do manguebeat, mas também a inquietação artística de um músico que segue explorando novos territórios sonoros. Na história, o guitarrista foi um dos arquitetos da sonoridade que ajudou a projetar o manguebeat para o mundo. Sua guitarra foi peça central em discos fundamentais como Da Lama ao Caos e Afrociberdelia, obras que redefiniram os limites entre rock, maracatu, dub, funk e música eletrônica nos anos 1990, mesmo que o reconhecimento tenha sido tardio, como ele lembra. Além da trajetória com a banda, o músico também consolidou uma carreira paralela em projetos solo, trilhas sonoras para cinema, teatro e televisão, passando por trabalhos como Baile Perfumado, Amarelo Manga e Linha de Passe. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Lúcio Maia falou sobre o lançamento do novo álbum, a evolução de seu timbre ao longo das décadas, o motivo da saída da Nação Zumbi e a expansão de sua carreira para o cinema e as trilhas sonoras. É a primeira vez que eu falo com um artista que está lançando o álbum no dia. Como são essas primeiras horas e as primeiras impressões? Cara, eu acho que devo ter lançado uns 15, 20 discos na vida. Na real, para mim, o dia do lançamento é mais como um nascimento. A história começa a ser contada dali para frente. Então, falar do disco no dia em que ele já está nascido, com a criança já no mundo, é mais legal porque as pessoas podem ir ouvir imediatamente. Com a internet trazendo informação freneticamente 24 horas por dia, você avisa que vai lançar um disco e, no dia seguinte, muita gente já esqueceu. Por isso, eu prefiro falar quando ele já está na plataforma. A pessoa ouve e a conversa acontece no mesmo instante. O álbum traz uma fusão que vai de Pink Floyd ao baião. Como foi construir essa mistura e quais são seus objetivos de carreira neste momento? Isso nunca foi planejado. A música sempre flui de forma natural para mim. Eu nasci em Recife, cresci ouvindo a música pernambucana e Luiz Gonzaga. Depois vieram Iron Maiden, Black Sabbath, Led Zeppelin, James Brown, Isaac Hayes, drum and bass, house. Tudo isso vai entrando espontaneamente. Na hora de compor, as coisas se encaixam. Eu nunca sentei para pensar “agora vai virar baião” ou “agora vai soar reggae”. Vai acontecendo. Para mim, inclusive, reggae e baião têm uma sensação muito próxima, quase a mesma pulsação. Sua guitarra tem uma identidade muito marcante. Como você enxerga a evolução do seu timbre desde os anos 1990? Eu vejo isso como a minha digital musical, meu RG. É uma dádiva você ter uma identidade própria. Desde as demos que gravei ainda adolescente em Recife, isso já estava ali. Hoje, claro, com mais recursos e equipamentos, o timbre evoluiu, mas o DNA continua o mesmo. Eu nunca fui um cara preocupado em imitar alguém. Sempre preferi seguir meu instinto e preservar essa assinatura. Você comentou sobre seguir o seu instinto ao longo da carreira. Em algum momento do início você imaginava que se tornaria um dos guitarristas mais premiados da música brasileira? De forma alguma. Quando comecei a tocar, ali com 14, 15, 16 anos, eu nunca me enxerguei como alguém que fosse me profissionalizar. Na verdade, eu nem me achava um grande guitarrista. Sempre me considerei um músico regular, e não alguém tecnicamente impressionante. Quem teve um papel fundamental nisso foi o Chico. Ele sempre me incentivou muito e dizia que eu tinha alguma coisa diferente. Eu respondia que não sabia exatamente o que era, e ele dizia que isso não importava, que eu precisava seguir esse feeling. Essa confiança dele foi decisiva para que eu continuasse. A vida inteira eu fui muito movido por instinto e sensibilidade. Nunca foi sobre virtuosismo ou técnica pela técnica. Foi sempre sobre identidade, sobre ter uma voz própria na guitarra. Acho que, olhando para trás, uma das coisas mais certas que fiz foi confiar nisso. Muitos guitarristas estão abandonando amplificadores e migrando para setups em linha ao vivo. Como está o seu equipamento hoje? Eu sempre fui muito ligado ao analógico e ainda sou um cara do amplificador. Prefiro gravar com ampli. Mas a tecnologia evoluiu demais. Hoje uso bastante impulse response porque consigo levar para o palco praticamente o mesmo som do estúdio, sem depender da estrutura do lugar. Para quem toca no circuito alternativo, isso é uma liberdade enorme. Você comentou que, durante a pandemia, ampliou sua atuação para trilhas, teatro e outros projetos. Em que momento veio a decisão de sair da Nação Zumbi e buscar esse novo formato de carreira? Isso aconteceu muito durante a pandemia. Eu dei uma desencanada de viajar e estava de saco cheio de turnê, de ficar esperando empresário arrumar show, de depender dessa engrenagem toda. Também estava cansado da dinâmica de banda, de precisar conciliar agenda, negociar datas, esperar um ou outro poder viajar. Depois de 30 anos fazendo a mesma coisa, aquilo começou a me tolher criativamente. Chegou um momento em que eu percebi que não queria mais viver nessa dependência. Eu sempre fui