Fresno abraça o analógico e a memória em “Carta de Adeus”

Fresno abraça o analógico e a memória em “Carta de Adeus”

A trajetória da Fresno, iniciada em 1999, ganha hoje um de seus capítulos mais maduros e esteticamente corajosos. O trio gaúcho, Lucas Silveira, Vavo e Guerra, disponibilizou nas plataformas digitais o álbum Carta de Adeus. O trabalho, que já havia sido apresentado na íntegra em um show histórico no Espaço Unimed no último dia 18, revela uma banda que não tem medo de abandonar as ferramentas digitais modernas para buscar o que é essencial.

Diferente dos álbuns anteriores, marcados por camadas densas de sintetizadores e edições precisas, Carta de Adeus é um exercício de organicidade. As guitarras soam como guitarras, a bateria respira e as vozes ocupam o espaço de forma nua e crua.

>> LEIA ENTREVISTA

Tonalismo dos anos 80

A sonoridade do disco foi moldada pelo uso de equipamentos analógicos da década de 80, como câmaras de eco e unidades de chorus. Esse “relicário” sonoro não é apenas um capricho vintage, mas uma forma de Lucas Silveira revisitar sua própria adolescência em Porto Alegre, cercada por sons de bandas como The Cure, New Order, Titãs e Engenheiros do Hawaii.

Destaques do repertório

  • “Tentar de Novo e de Novo”: uma síntese perfeita entre a new wave oitentista e o DNA emocional da banda. A letra traz a força da resiliência: “eu peço perdão para mim mesmo / por esquecer quem eu era antes de conhecer você”.
  • “Carta de Adeus (Bye Bye Tchau)”: a faixa-título desafia as expectativas do gênero com levadas rítmicas pouco usuais no emo, explorando registros vocais mais graves e uma dramaticidade contida.
  • “Pessoa” (cover): um marco histórico na discografia. Pela primeira vez, a Fresno incluiu um cover em um álbum de estúdio. A canção, eternizada por Marina Lima e composta por Dalto e Cláudio Rabello, foi incorporada ao universo da banda, diluindo as fronteiras temporais.

Obra coletiva

Apesar do nome sugerir um encerramento, Carta de Adeus é um disco de expansão. Ele vocaliza e potencializa o trabalho de uma rede criativa potente: Camila Cornelsen (direção criativa), Giovanna Cianelli (design), André Figueiredo (filmmaker) e Gabriel Rolim (direção visual).