Belém sempre foi um celeiro de misturas improváveis, mas o que a Tropikal Punk apresenta em seu álbum de estreia, homônimo, eleva o conceito de “fusão” a um novo patamar de urgência. Formada por veteranos da cena paraense (com passagens por bandas como Pig Malaquias e Mangabezo), o quarteto entrega um disco que é, ao mesmo tempo, um retrato visceral do Norte do Brasil e uma crítica ácida ao colapso global.
O álbum transita com naturalidade entre o punk rock direto, o dub pesado, o thrash metal e experimentações eletrônicas, tudo atravessado por um olhar distópico sobre a vida urbana em meio à floresta.
Da Crítica às Big Techs ao calor de Belém
A jornada começa com “Big Tech”, uma faixa que usa guitarras dissonantes para questionar nossa dependência digital. O tema retorna ao final do disco em uma versão eletrônica e dançante, com a participação de luxo de Aldo Sena, o ícone da guitarrada, criando uma ponte única entre o som de raiz e o futuro tecnológico.
Outro ponto alto é Burn, Belém, Burn. A canção transforma a capital paraense em protagonista de uma narrativa sobre as mudanças climáticas, um tema que ecoa forte após a cidade ter sido o centro das atenções mundiais com a COP30. Já em “Peter Tosh”, a banda funde o peso do metal com efeitos eletrônicos em uma fuga simbólica da realidade urbana.
Identidade e colapso do Tropikal Punk
Composto por Ruy Montalvão (vocais e beats), Márcio Maués (guitarras), Vladimir Cunha (baixo) e Renato Damaso (bateria), o Tropikal Punk não se contenta em ser apenas “mais uma banda de rock”. O álbum explora estéticas como o psycho blues dos anos 70 em Drones e o pós-punk em Poser, provando que a música feita no Pará é tão plural quanto complexa.
É um disco que exige atenção, feito de ruídos e grooves que tentam traduzir o que é viver em um país que oscila entre a tradição e o desastre iminente.