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Crédito: Marcos Hermes

Entrevistas

Entrevista | Rodrigo Pancho (Black Pantera) – “O rock é caro e elitista”

No fim de maio, a banda mineira Black Pantera lançou o quarto álbum da carreira, Perpétuo, que aumentou ainda mais o alcance fora do underground. Se Fogo nos Racistas foi o carro-chefe de Ascenção, disco lançado em 2022, a balada Tradução, com uma letra pesada sobre o racismo estrutural no Brasil, é a grande estrela da vez.

Desde 2022, quando lançou o primeiro álbum pela Deck, o grupo vem marcando território nos principais festivais do Brasil. Foi atração no Rock in Rio, Lollapalooza e Knotfest. Aliás, no último, eles retornam em outubro para a segunda edição.

Para falar sobre esse momento importante da carreira, o baterista do Black Pantera, Rodrigo Pancho, conversou com o Blog n’ Roll.

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Perpétuo marca a consolidação da carreira do Black Pantera. É um álbum que traz muitos elementos interessantes, explora outras sonoridades. Na tua opinião, qual é o grande mérito deste álbum?

Quando terminamos o álbum, e ouvimos na Deck, dissemos para nós mesmos: ‘caramba, conseguimos superar o Ascensão’.

Porque o Ascensão já tinha sido o ponto de virada para nós, o primeiro álbum gravado na Deck, vindo depois de uma pandemia que nem sabíamos se sairíamos com vida.

Então, o Ascensão já foi maravilhoso para a banda. Abriu várias portas, Rock in Rio, Lollapalooza, Knotfest. Esse é o desafio.

Acho que desde o primeiro ano da banda temos dado um passo em frente. Nós nunca voltamos. Acho que foi muito natural a forma como Perpétuo surgiu. Porque a banda vem se aprofundando cada vez mais nas palestras, temos estudado mais, lido livros, assistindo documentários.

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Os próprios fãs apoiam muito a banda, sabe? Sempre que vamos aos shows recebemos livros, as pessoas dos movimentos trocam ideias. Eles sempre trocam ideias conosco e indicam caminhos de como podemos nos aprofundar nos temas. 

Pra mim, o Chaene foi o grande diferencial do Perpétuo, a maioria das músicas dele está nesse disco. No primeiro álbum, todas as músicas são do Charles. O álbum Ascensão já foi mais dividido.

A banda toca junta há dez anos, a cada ano que passa estamos mais interligados. Temos esse desafio de estar sempre criando coisas novas, não ficamos muito presos. Por exemplo, nesse álbum, queria gravar uma percussão. Tem algumas músicas com percussão, mas em Candeia está mais presente.

Na Deck tinha alguns instrumentos, estava pesquisando sonoridades, foi aí que Candeia apareceu. Acho que é uma das melhores músicas do álbum.

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É um álbum onde pudemos ousar mais, colocar outras sensações, diferente dos outros. Acho que tem um pouco de cada álbum. Ainda está pesado, com boas letras, mas tem novas sensações. Aí está a música Tradução, com uma melodia mais bonita. Tem a Candeia, com a percussão mais presente.

Por falar em Tradução, essa música é muito linda. Como surgiu essa faixa? 

Já tínhamos o álbum pronto para a pré-produção, sempre fazemos uma pré-produção em Uberaba (MG). Antes de irmos para a Deck, passamos alguns meses aqui em Uberaba, ensaiando e compondo. Depois mandamos para o Rafa (Rafael Ramos, produtor). 

O álbum estava praticamente pronto e o Chaene veio com isso no violão. Depois nos mostrou apenas voz e baixo.

Na hora, eu disse: ‘Chaene, que música linda! Parece que você está falando da minha mãe’. Porque é uma história muito parecida. Minha mãe também é trabalhadora doméstica até hoje.

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E o mais louco é que depois fomos ver os comentários no YouTube e várias pessoas falando sobre isso: ‘parece que você está falando sobre a história da minha vida’.

Concluímos que é a história de vida da maioria das mães no Brasil. Muitas pessoas se identificaram muito com essa música.

Mas foi muito simples, a música mais simples de se fazer na banda. Porque o Chaene já veio com ela pronto. Queríamos apenas voz e violão, mas o Rafa sugeriu de entrar guitarra e bateria também.

É uma letra muito forte, embora seja uma bela melodia, é uma letra que fala sobre racismo estrutural, está falando da história da mãe dele. Ela trabalha há anos e tem mais tempo para cuidar da família do que da própria família. É uma das letras mais pesadas do álbum.

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Aliás, é uma música que abriu mais portas, começou a tocar nas rádios. Antes de lançarmos, em maio, antes do Dia das Mães, as principais rádios do Brasil já tocavam. Novos fãs vieram desta música.

O Black Pantera tem na sua base a sonoridade punk e hardcore, mas com alguns elementos de metal também. Na sua opinião, por que não existe tanta representatividade negra nessas bandas no Brasil? 

Estávamos conversando outro dia com o Clemente, ele foi um dos precursores do punk rock no Brasil. E ele é um cara negro, certo? O Cólera também, o Redson era um vocalista negro. Então, no meio do underground, você acaba encontrando diversas bandas por lá.

Acho que não sabemos, por exemplo, como o Black Pantera conseguiu emergir para festivais maiores. Nesses eventos você realmente não vê isso.

Em shows, por exemplo, a gente escuta o pessoal falando que não se vê representado nas bandas de rock. A partir disso, eles migram para o rap, por exemplo. O rap é um negócio que parece conversar mais com as pessoas, algo mais popular, menos elitista.

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Já faz algum tempo que o rock não estava mais abraçando essas pessoas, não se sentiam representadas nas letras. E aí a gente recebe essa história de muita gente falando que até tocou, tinha banda, mas as pessoas não ligavam para tocar, não pareciam ter muito interesse.

Rock é caro, se você pensar bem é elitista. Para nós foi muito difícil comprar instrumentos. Gravar é caro, depois de gravar tem que distribuir, e aí os shows não pagam bem. Acho que é por isso que às vezes não há muito.

Se pensarmos que a origem do rock é negra e os verdadeiros reis do gênero são negros, como Chuck Berry e Little Richard…

É isso, bandas no underground são várias, sabe? Sempre trocamos ideias com o povo de São Paulo, sempre tem bandas e representantes femininas também. Mas em grandes festivais acho que essa representatividade é reduzida.

O ideal seria se os festivais olhassem com mais carinho e atenção para o underground. Tem muitas bandas de qualidade falando de temas extremamente relevantes, como o Black Pantera, mas não tem espaço. Lutamos para não sermos exceção. Tem que ser a regra para ter diversidade.

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Tocamos no Rock in Rio em 2022 e já foi um Rock in Rio histórico. No Palco Sunset estavam Black Pantera, Devotos e Living Color, três bandas com representantes negros. Mas se você for ver o dia todo, deve ter tocado umas 40 ou 50 bandas em todos os palcos, você pode contar nos dedos quantos representantes negros estavam lá.

Há ainda um longo caminho a percorrer, mas o Black Pantera, de alguma forma, conseguiu furar isso, porque não ficamos presos apenas nesse estilo. O Perpétuo tem vários elementos, você não vê apenas punk, metal ou hardcore. Tem groove, percussão, muitas coisas.

Você vê vários elementos. Você não vê apenas punk, metal e hardcore. Tem groove aí.

Por falar em festivais, vocês vão retornar ao Knotfest, certo? Como receberam a notícia?

Esse foi um ótimo presente. Já havíamos tocado de última hora em 2022, quando rolou a primeira edição. Uma banda, infelizmente, não pôde comparecer e nos ligaram três dias antes. Fomos lá e demos conta do recado. Tocamos em alto nível, como as outras bandas. 

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Depois, mantivemos contato com a equipe do festival. E então, no ano passado, eles já haviam nos chamado, mas não rolou o festival. Este ano funcionou.

Acho que só funcionou porque continuamos produzindo, fazendo alguma coisa, sendo relevantes.

Acho que esse é o problema. Tem várias bandas que vão lá, tocam no festival e depois acham que está tudo bem. Pelo contrário, quando tocas num grande festival, o desafio fica maior. Você tem que ser capaz de voltar. E para isso é preciso estar sempre produzindo, o Black Pantera nunca parou.

Depois do Ascensão, em 2022, já lançamos o single O Legado. Posteriormente, divulgamos o EP em inglês, no final do ano passado, o Griô. E agora estamos lançando Perpétuo.

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Nesse ritmo vai ter coisa nova em breve, né?

Se precisasse de outro álbum em dois meses, já teríamos um. O Chaene disse: ‘estou aqui, escrevendo bastante’. E ele manda os rascunhos para nós, o Charles também.

Estamos no início da turnê, mas já pensando em como podemos continuar produzindo, certo? Porque são apenas dez anos, parece muito, mas dez anos passaram rápido. 

Faremos Perpétuo o ano todo, mas acredito que nesse segundo semestre ainda terá um single por aí. Até porque gravamos 15 músicas na gravadora, no álbum entraram 12, faltaram três aí. Podemos lançar essas músicas em algum momento, seja como um EP ou singles isolados.

Vocês precisam vir para Santos.

É um sonho nosso! Tocamos em Praia Grande há pouco tempo, num bar bem underground lá, e os caras colaram em peso, foi muito legal, mas em Santos nunca tocamos. 

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Conversamos com o Boca, batera do Ratos, ele é de Santos e está tentando montar alguma coisa para nós lá.

Às vezes a gente está em São Paulo, fica mais fácil para descer, até pelo custo, fica mais fácil para o produtor, mas é um sonho nosso. Tem muita gente de Santos que pergunta pelos nossos shows. 

Para encerrarmos essa entrevista, queria que você citasse os três álbuns que mais te influenciaram como artista. Por que? 

Comecei minha vida musical tocando samba, não sei se você vai acreditar, mas me ajudou muito nessa parte percussiva. Já fui músico de uma banda de baile aqui na minha cidade, você tem que tocar de tudo para poder sobreviver. O Black Pantera tem dez anos, mas eu toco há 20 anos. 

Tem um disco do Jorge Aragão que eu ouvia muito. Na época, até o Black Pantera gravou uma música desse álbum, a Identidade.

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É um disco do Jorge Aragão que tem essa música, Identidade, em formato ao vivo. Acho que se chama Jorge Aragão (1999) mesmo. Esse disco me influenciou muito como músico. 

O Roots foi o primeiro álbum do Sepultura que ouvi. A parte percussiva é sensacional! Nossa, Iggor Cavalera é meu maior mestre, sem saber. Ouvia muito esse álbum, foi o disco que me levou a querer ouvir coisas mais pesadas. Antes, como tocava mais samba, ouvia muito MPB, pop rock, Legião Urbana, muito rock nacional. E aí, isso me surpreendeu.

Pra fechar, tem aquele disco do Rage Against The Machine que tem um monge pegando fogo. Acho que é Rage Against The Machine (1992) mesmo. Tem todos os clássicos, Killing In The Name. Esses três álbuns foram os que mais me influenciaram.

E o baterista do Rage Against The Machine usa um kit bem parecido com o meu, um timbre, surdo, drum and bass e groove, sabe?

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