A banda Asfixia Social segue ampliando sua conexão internacional em maio ao embarcar em uma nova turnê ao lado dos britânicos do The Varukers, um dos nomes mais influentes do punk mundial desde o fim dos anos 1970.
Após abrir shows do grupo inglês em 2024 e realizar apresentações na Inglaterra, incluindo um show em Nottingham, cidade natal do Varukers, o coletivo paulista volta a dividir os palcos com a banda liderada por Anthony “Rat” Martin em dez datas pelo Brasil. A parceria reforça o elo entre o anarcopunk britânico e o crossover de rap, hardcore, ska e reggae criada pelo Asfixia Social nas periferias de São Paulo.
A turnê também marca o lançamento de “Mess Bigger”, novo álbum do Asfixia Social, que chega cercado de expectativa após os singles “Walls Won’t Make You Safe” e “Revolutionary Rapport”, este último acompanhado de imagens da passagem do grupo pela Europa em 2025. Formada em Diadema, a banda se consolidou como um dos nomes mais ativos da cena underground brasileira ao unir discurso político, crítica social e influências multiculturais.
Em entrevista ao Blog N’Roll, o vocalista e trompetista Kaneda Mukhtar define o projeto como uma tentativa de conectar diferentes vertentes da cultura de rua sem limitações de gênero ou estética e fala sobre o punk, a parceria com MV Bill e as experiências internacionais da banda.
A agenda da turnê segue nesta terça (12) em Uberlândia, depois gira por Patos de Minas, Divinópolis, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e finaliza em São José dos Campos no domingo (17). Além das apresentações ao lado do Varukers, o Asfixia Social também carrega no repertório músicas dos álbuns “Da Rua Pra Rua” e “Sistema Sangria”, trabalhos que ajudaram a projetar a banda em turnês pela Europa e América Latina, incluindo uma histórica passagem por Cuba em 2015.
Como surgiu a identidade sonora do Asfixia Social que é um mix de vários estilos diferentes?
A gente também é uma banda crossover. O Varukers faz crossover dentro do punk e nós acabamos levando isso para vários outros caminhos. Misturamos reggae, ska, hip hop e música brasileira. Nós éramos uma molecada que se encontrava nas praças de Diadema ouvindo de tudo. Aquela atmosfera de rua, jogando bola, tocando violão, convivendo com diferentes sons, acabou virando esse caldeirão musical. Nunca quisemos segregar. Não era montar uma banda só de punk ou só de rap. A ideia sempre foi mostrar que não existe limite ou rótulo para a música.
E como dois movimentos de rua como o punk e o hip hop se conectam dentro da proposta da banda?
Essas culturas têm uma mensagem muito forte. O hip hop no Brasil sempre esteve ligado ao movimento negro, às causas sociais. O punk sempre teve relação com a luta contra injustiças. Quando você olha as letras de hardcore e rap brasileiro, muitas vezes elas falam das mesmas dores. Para nós, a música é uma ferramenta de transformação. Ela ajudou na nossa formação política e social, muitas vezes preenchendo lacunas que a escola não alcançava.
E as músicas em inglês surgiram pensando em uma expansão internacional?
Não foi algo planejado no começo. Os primeiros discos eram em português. Mas quando começamos a tocar na Europa, muita gente queria entender as letras. Depois dos shows, os caras perguntavam o significado das músicas. Então começamos traduzindo refrões e isso evoluiu para composições em inglês. Nunca deixamos de cantar em português, mas percebemos que cantar em inglês também ajudava a fortalecer a comunicação com o público de fora.
E entre as experiências internacionais, está Cuba. Como é o país e como foi a experiência de levar o som do punk brasileiro?
Foi uma experiência transformadora. A gente foi para Cuba em 2015 para gravar o documentário “Cuba Punk”. Fizemos dez shows por lá e tocamos até na Bienal de Artes de Havana. Encontramos um povo muito conectado com cultura, educação e consciência política. É um país com dificuldades materiais, mas que nos surpreendeu pela segurança e pelo senso coletivo das pessoas. Culturalmente, nos sentimos muito próximos deles.
E para quem quiser assistir o documentário, como faz?
Está no YouTube e gratuito. O nome é “Cuba Punk”. A gente mostra um pouco das viagens, dos shows e das dificuldades que enfrentamos por lá. Foi uma vivência muito intensa e importante para a banda.
E vocês também fizeram uma grande parceria com o lendário MV Bill, como surgiu essa aproximação?
Nós sempre fomos fãs dele. Conhecemos o MV Bill em um festival e depois criamos uma conexão maior quando ele tocou no nosso festival “Da Rua Pra Rua”. A parceria nasceu de uma música inspirada no clima político de 2018. Quando mostramos a ideia para ele, rolou uma identificação imediata. O mais legal foi perceber como ele também tem ligação com o rock. Ele falava de Black Sabbath, Cólera, trocava referências conosco. Foi uma experiência muito forte e uma das músicas mais importantes que já fizemos.