Caroline Rose construiu uma carreira marcada pela constante transformação, transitando da Americana dos primeiros trabalhos para o indie rock, synth-pop e experimentações que tornaram cada álbum uma espécie de reinvenção. Depois do introspectivo The Art of Forgetting e de year of the slug, gravado de maneira caseira no celular, a cantora e compositora norte-americana inicia agora outra fase da trajetória, desta vez com ainda mais controle sobre a própria carreira. Além de preparar um novo disco, Rose criou a SUCK Records, selo próprio que amplia sua independência artística e comercial.
Gentling the Horse at the Walt Whitman Mall será lançado em 23 de outubro pela SUCK Records e apresenta o que Rose define como uma espécie de “Hyper-Americana”. Produzido ao lado de John Congleton, o álbum combina guitarras surf, referências aos westerns spaghetti, humor, estranheza e imagens da vida suburbana dos Estados Unidos. O contraste também está presente no próprio título, que coloca a delicadeza de domar um cavalo ao lado do Walt Whitman Mall, shopping real próximo de onde Rose cresceu. As primeiras faixas reveladas, “Yip Yip Yow” e “Chow Mein”, reforçam essa abordagem, transformando experiências pessoais, situações constrangedoras e elementos aparentemente banais do cotidiano em caricaturas de uma América cada vez mais absurda.
Em entrevista ao Blog N’ Roll, Caroline Rose falou sobre o processo de abrir mão do perfeccionismo para gravar o novo álbum em poucos dias, detalhou a experiência dos shows pop-up sem taxas de ingressos e discutiu como algoritmos mudaram a sensação de descobrir uma banda ou um disco por acaso. A artista também revelou que sua equipe trabalha para viabilizar uma passagem pelo Brasil em 2027 e explicou como year of the slug, lançado inicialmente pelo Bandcamp, acabou gerando os recursos que possibilitaram a criação da SUCK Records.
Você descreveu o novo álbum como uma espécie de “Hyper-Americana”. Que tipo de América você queria retratar neste disco?
O tipo de América, ou de música “Americana”, entre aspas, que me interessa é aquela mais bizarra e estranha, ou muito mais agressiva do que o material tradicional, mais voltado ao folk. Porque é assim que o país parece hoje. Tudo é muito mais absurdo e muito mais energizado do que a música Americana que eu ouvia enquanto crescia.
Eu simplesmente tenho precisado dessa energia, de muita energia, e já faz algum tempo que tenho me aproximado desse tipo de música. É o tipo de música que quero fazer. Algo absurdo, exagerado. É assim que parece viver aqui atualmente.
Fale um pouco sobre o título Gentling the Horse at the Walt Whitman Mall. Qual é a história por trás do cavalo e do shopping?
Uma pessoa com quem eu estava conversando sobre o álbum criou uma imagem muito boa sobre o significado dele. Na verdade, achei que ela conseguiu explicar melhor do que eu conseguiria.
Na minha cabeça, eu tinha mais uma sensação. Quando penso em gentling a horse, penso em domar um cavalo sem usar violência. É algo muito delicado e baseado em confiança. Achei uma maneira muito bonita de falar sobre adolescência e sobre crescer neste mundo extremamente consumista e, de certa maneira, violento.
O Walt Whitman Mall é um shopping que realmente existe no lugar onde cresci. É um grande centro comercial que recebeu o nome de um famoso poeta americano conhecido por escrever sobre a classe trabalhadora e os direitos dos trabalhadores. Acho muito engraçado colocar essas duas imagens juntas.
Essa pessoa com quem conversei falou sobre a imagem de uma América antiga, de cavalos e cowboys, e uma nova imagem da América, feita de shoppings, fast-food e rodovias. Achei que ela definiu perfeitamente. É como essa personalidade antiga e nova do lugar onde cresci, que é um lugar selvagem, louco. Resumidamente, é disso que se trata.
O cowboy e o cavalo me fazem lembrar aqueles antigos comerciais de cigarro…
Totalmente! É tudo exagerado. Aqui, tudo parece uma propaganda.
Li que você se considera perfeccionista, mas este álbum foi gravado em cerca de dez ou doze dias. Houve alguma música em que seu antigo instinto perfeccionista apareceu e John Congleton (produtor) precisou dizer: “Caroline, acabou”?
Sim, mais ou menos. Na verdade, você acertou em cheio. O meu produtor, John Congleton, é conhecido por fazer discos muito rapidamente, e eu comecei este álbum sabendo disso. Foi necessário um grande esforço para conseguir abrir mão do controle e confiar que as decisões dele eram boas.
Assim que essa confiança apareceu, tudo aconteceu muito rapidamente. Conseguíamos lançar ideias de um lado para o outro. Ele dizia: “Vamos tentar isso. O que você acha daquilo?”. Era como ficar jogando uma bola de um lado para o outro, e funcionou muito bem.
Mas algumas decisões foram difíceis para mim porque eram completamente diferentes do que eu teria feito se estivesse trabalhando sozinha. No fim, fico feliz por ter feito dessa maneira, porque colaborar com mais pessoas em quem confio me força a ser uma artista melhor.
Então, sim, é difícil para uma perfeccionista, mas também é algo bom e muito saudável.
Eu já conhecia toda a história de “Yip Yip Yow”, então queria abordar o assunto de outra maneira. Você pediu a músicos excelentes que tocassem como adolescentes de 16 anos em uma garagem. Temos exemplos como o punk e os Ramones, com músicas de poucos acordes. O que músicos profissionais desaprendem ao longo dos anos que os adolescentes ainda sabem fazer?
A coragem. Acho que existe algo realmente incrível nos músicos que estão começando. Você pode nunca ter tocado um instrumento antes e, mesmo assim, criar partes muito interessantes. O estilo e a energia ficam muito evidentes justamente porque você não sabe exatamente o que está fazendo.
Eu adoro música assim. Adoro os Ramones. Existe uma razão pela qual pessoas muito jovens, adolescentes, conseguem criar grandes obras de arte e grandes músicas: elas simplesmente estão colocando aquela energia para fora. É elétrico. Existe uma sensação de vida ali, mesmo quando as notas estão erradas.
Quando você se torna um músico muito, muito bom, às vezes perde essa capacidade de abordar o instrumento colocando a energia em primeiro lugar. Você começa a pensar demais ou suas mãos ficam tão treinadas que você nem está mais emocionalmente envolvido com aquilo que está tocando. Tudo se torna técnico.
Então tentei fazer com que eles tocassem da maneira como abordavam seus instrumentos quando tinham acabado de aprender. E eles foram muito bons nisso. Eu pensava: “Isso está ótimo”. Eles eram músicos tecnicamente incríveis, mas também sabiam colocar a energia em primeiro lugar, acima de tudo.
Falando sobre outra música do álbum, “Chow Mein” trata dessa tentativa desesperada de parecer legal e normal enquanto tudo está dando errado. Você também disse que os personagens das suas músicas geralmente são versões de você mesma. Nessa música, quanto existe de exagero e quanto realmente aconteceu?
Acho que a criatividade é uma dessas coisas estranhas em que você quase nunca sabe exatamente de onde algo veio. Todos estamos vivendo nossas vidas e passando por experiências, e essas coisas simplesmente acabam saindo de nós.
Existe algo interessante na maneira como nos conectamos com uma história. Muitas vezes essa conexão acontece porque conseguimos relacioná-la à nossa própria vida. Por isso, fica muito difícil distinguir se você escreveu alguma coisa a partir da sua própria perspectiva, sobre algo que realmente aconteceu na sua vida, ou se aquilo foi inspirado pela vida de outra pessoa cuja experiência era muito parecida com a sua.
É uma espécie de sopa estranha e turva de inspirações acontecendo constantemente. Acho que isso acontece muito nas coisas que escrevo e nas músicas que faço.
Pode ser uma combinação da história de um amigo que ouvi e que me lembra muito alguma coisa antiga que aconteceu quando eu era adolescente, que também se parece bastante com um filme que assisti. No fim, aquilo se torna uma fusão de todas essas coisas.
Mas tudo retorna ao fato de que estou tentando contar uma história sobre a minha vida. Porque existe um alívio em conseguir expressar alguma coisa através da minha arte. E a única maneira de isso continuar sendo autêntico para mim é se for algo que realmente estou tentando dizer.
Não sei se isso responde à sua pergunta, mas é assim que funciona.
Responde sim, com certeza. Bom estamos conversando e eu estou aqui no Brasil, então preciso perguntar: você conhece a música ou artistas brasileiros?
Tenho uma coletânea… É um álbum maravilhoso. Provavelmente escuto uma vez por mês. Está constantemente tocando por aqui.
Provavelmente conheço vários músicos brasileiros muito famosos que fariam todo mundo revirar os olhos, mas, para mim, é algo realmente único. Também adoro a música folk brasileira. É muito bonita.
Aqui no Brasil temos o famoso meme “Come to Brazil”. Você recebe esse tipo de mensagem no Instagram? E já houve alguma conversa concreta sobre tocar no Brasil ou na América do Sul?
Sim. Acho que todos os anos temos alguma conversa sobre tocar no Brasil. A questão é que é caro. É caro levar uma banda de avião até aí, então acaba sendo sempre difícil.
Provavelmente digo isso todos os anos, mas o próximo ano será o ano! Na verdade, acho que estamos tentando de verdade. Estamos realmente tentando ir ao Brasil em 2027. Então espero que aconteça.
Falando sobre seu selo, você criou a SUCK Records para conquistar mais liberdade, certo? Agora que ninguém precisa aprovar suas ideias, você descobriu que liberdade absoluta também traz um tipo diferente de responsabilidade ou pressão?
Pressão, com certeza. Estou assumindo praticamente toda a pressão porque agora sou eu quem está liderando tudo.
Então, sim, existe muita pressão. Mas gosto muito de ter controle criativo sobre todos os aspectos, inclusive na formação das equipes. Trabalho muito próxima do meu empresário, e várias das coisas mais interessantes que fizemos surgiram simplesmente porque conversamos sobre alguma ideia e, em determinado momento, pensamos: “Vamos simplesmente fazer e ver o que acontece”.
Foi daí que tudo começou: ter ideias e querer experimentá-las.
Há alguns anos, lancei um pequeno álbum que fiz no meu iPhone. Fiz tudo no GarageBand pelo celular e colocamos no Bandcamp sem fazer nenhuma divulgação. E funcionou muito bem. O disco gerou o dinheiro de que precisávamos para começar nosso próprio selo.
Foi um experimento muito divertido e bem-sucedido, que acabou nos dando tudo aquilo de que precisávamos para colocar as coisas sob a SUCK Records.
Agora podemos simplesmente experimentar. E, se alguma coisa fracassar, podemos nos adaptar, tentar algo diferente na próxima vez e torcer pelo melhor. Não sei. Vamos ver como será.
Você acabou de fazer uma série de shows pop-up em espaços independentes e sem taxas de ingressos para os fãs. Depois dessa experiência, sente que provou que existem outras maneiras de organizar pequenos shows?
Com certeza existem outras maneiras de fazer shows. Acho que é algo que queremos experimentar ainda mais: maneiras talvez mais experimentais de realizar apresentações que sejam menos caras para as pessoas.
Ou, se o preço do ingresso for o mesmo, que esse dinheiro vá diretamente para a casa de shows e para o artista, em vez de ser dividido entre várias empresas diferentes.
É mais justo. É mais justo para os fãs, para os funcionários das casas e para os artistas.
Adoro experimentar coisas que considero mais interessantes. Talvez fazer shows em lugares mais estranhos. Eu adoraria fazer algum tipo de festival itinerante ou um show itinerante em que pudéssemos simplesmente aparecer em um estacionamento e tocar para as pessoas ali. Você não precisaria se preocupar em alugar um clube ou qualquer coisa do tipo. Simplesmente faria acontecer.
Tenho uma lista enorme de coisas que quero experimentar. Vamos ver quantas delas vou conseguir realizar, mas até agora está sendo muito divertido.
Achei uma ótima ideia porque esses shows pop-up também parecem recuperar algo que está desaparecendo: descobrir um show quase por acaso. Quando eu era mais jovem, descobria shows caminhando pela escola, encontrava um cartaz em um poste e pensava: “É domingo, vamos nessa”. Hoje é muito diferente. Com campanhas, pré-vendas e algoritmos, você sente falta desse elemento de surpresa na música?
Com certeza sinto falta do elemento de surpresa de descobrir álbuns. Hoje, grande parte daquilo que experimentamos acontece online.
Eu estava conversando justamente sobre isso com alguns amigos, sobre descobrir música através de algoritmos. Continua sendo uma maneira muito boa de encontrar música, mas uma coisa de que sinto falta é descobrir algo que pareça realmente uma experiência única.
Eu estava contando a eles que o primeiro carro que dirigi só tinha toca-fitas. Era um aparelho de cassete, então a única música que conseguia ouvir eram fitas.
Eu ia a brechós e comprava fitas cassete por 25 centavos. Eram muito baratas. Você simplesmente comprava uma pilha enorme. Descobri muitos artistas dessa maneira, muitos compositores incríveis. Descobri Bruce Springsteen assim, inclusive algumas músicas menos conhecidas dele.
Hoje é diferente porque, quando você encontra alguma coisa através de um algoritmo, provavelmente milhares e milhares de outras pessoas estão descobrindo exatamente aquela mesma coisa da mesma maneira. Então parece um pouco menos especial.
Mas continua sendo uma maneira realmente boa de descobrir música. Acho que a combinação de diferentes formas de descoberta é muito divertida para mim. Pode ser através de um show pop-up, por exemplo. Acho que precisamos de mais maneiras de recuperar essa empolgação de descobrir alguma coisa nova.
É muito divertido. Quando você descobre algo novo e sente que aquilo é seu, essa é a melhor sensação.
Adoro isso. Adoro descobrir uma banda ou um álbum e sentir que aquilo foi colocado ali especificamente para mim. Seria uma honra se meus discos provocassem essa sensação nas pessoas.
Por outro lado, eu descobri você pelo algoritmo do Spotify (risos)
O que é ótimo! É ótimo.
Agora você está saindo dos pequenos shows pop-up para abrir apresentações do Modest Mouse em espaços maiores. O que muda na Caroline que sobe ao palco quando você sai de um local pequeno para uma grande turnê?
Provavelmente muda muito pouco. Adoro tocar em shows pequenos e adoro tocar nos grandes.
A única coisa realmente diferente é que, nos clubes pequenos, tudo parece mais íntimo. Você quase consegue conversar com o público. Isso não funciona muito bem em espaços grandes porque simplesmente existem pessoas demais.
Todo mundo está conversando ou, mesmo quando não está, pode estar completamente envolvido com o show, mas ainda assim não existe aquela mesma sensação de conversa. O espaço simplesmente é grande demais.
Por outro lado, é divertido tocar em lugares enormes com a minha banda porque podemos tocar muito alto e eu posso explorar mais esse lado de performer no palco. É muito divertido. É como exercitar músculos diferentes.
Mas, no fim das contas, continuo sendo a mesma pessoa e é a mesma música. O que muda bastante é a experiência do público.
Para terminar: se você pudesse escolher uma década para nascer, qual seria?
Nossa, é muito difícil responder a algo assim porque sempre existe um lado bom e um lado ruim em qualquer época em que uma pessoa pudesse nascer.
Meus amigos e eu estávamos literalmente conversando sobre isso ontem à noite. Minha resposta foi que eu adoraria ter nascido em uma época menos industrializada. Talvez quando existissem mais coisas naturais para explorar, porque adoro a ideia de explorar um lugar que nunca tivesse sido visto antes.
Isso é impossível hoje. Tudo já foi visto. Existem muitas pessoas no planeta.
Mas, ao mesmo tempo, eu não teria os mesmos direitos que tenho hoje. Seria uma sociedade completamente diferente. Então é difícil responder.
Acho que, se eu não precisasse conviver com outras pessoas, provavelmente escolheria algo como os anos 1500, quando existiam tantas coisas para explorar.
Mas, como alguém que valoriza muitos dos benefícios da sociedade moderna, não estou reclamando de ter nascido na época em que nasci. Há muita coisa pela qual ser grata.