A banda sueca Crazy Lixx retorna ao Brasil para sua maior apresentação no Brasil no dia 26 de abril no Bangers Open Air, em São Paulo. O grupo é um dos principais nomes do revival do hard rock escandinavo e construiu sua reputação apostando em refrões marcantes, guitarras afiadas e uma forte estética inspirada na cultura pop de filmes de terror dos anos 80. A passagem pelo festival marca um momento especial para a banda, que já realizou shows em casas menores no país e agora terá a oportunidade de apresentar seu repertório para um público ainda maior.
Formado em 2002 na cidade de Malmö, na Suécia, o Crazy Lixx ajudou a consolidar uma nova geração de bandas que resgatou o espírito do glam metal e do hard rock clássico. Ao longo de mais de duas décadas de carreira, o grupo liderado pelo vocalista Danny Rexon lançou uma série de álbuns que reforçam essa identidade sonora, mantendo viva a influência de bandas como Kiss, Def Leppard e Skid Row. A mistura entre nostalgia oitentista e produção moderna transformou o Crazy Lixx em um nome respeitado dentro da cena hard rock contemporânea.
Em entrevista ao Blog N’ Roll, Danny Rexon falou sobre a relação da banda com os fãs brasileiros, o processo criativo por trás das novas músicas e a influência da cultura pop dos anos 80 em sua carreira.
Não tinha melhor dia para falar contigo do que numa sexta-feira 13, né? Como você descreveria a relação do Crazy Lixx com os fãs brasileiros?
É isso (risos), verdade. É um bom dia. Já estivemos no Brasil algumas vezes e fizemos alguns shows em casas menores. Até agora não tínhamos tocado em um festival por aí, então isso vai ser muito legal. Sempre nos divertimos muito no país. Acho que os fãs brasileiros são um público particularmente bom para tocar. Eles são muito receptivos, muito gratos e extremamente energéticos e entusiasmados durante os shows e também depois deles. Normalmente encontramos muitas pessoas querendo interagir com a banda, tirar fotos, pedir autógrafos e conversar. Então eu diria que temos lembranças muito positivas dos fãs brasileiros e das interações que tivemos até agora.
Muitos artistas internacionais dizem que o público brasileiro é mais barulhento e apaixonado do que em qualquer outro lugar. O que mais te surpreendeu quando tocaram aqui?
A primeira vez que tocamos aí fiquei surpreso com a quantidade de fãs que apareceram, não só no show, mas também em um evento de autógrafos que fizemos em uma loja de discos antes da apresentação. E depois do show também, com pessoas querendo tirar selfies, pegar autógrafos e conversar com a gente. Em muitos lugares você pode ter um bom público durante o show, mas as pessoas simplesmente vão embora quando termina. Já os fãs brasileiros querem interagir com a banda antes e depois da apresentação. Eles também compram bastante merchandising e demonstram muita paixão pelo evento como um todo. Isso é algo realmente muito legal.
E o que passa pela sua mente quando sabe que vai tocar em um grande festival de rock como o Bangers Open Air?
É uma grande oportunidade para nós. Como eu disse, só tocamos em clubes no Brasil até agora, então esse será nosso primeiro festival no país. Na verdade, já estávamos tentando conseguir um festival por aí há algum tempo, então estamos muito animados por finalmente ter dado certo. É um festival grande, com muita gente que naturalmente vai para ver outras bandas, então é uma ótima oportunidade de mostrar o que podemos fazer para pessoas que talvez não estejam lá especificamente para ver o Crazy Lixx. Vai ser um festival muito empolgante e também uma boa forma de ampliar nosso público. Espero conseguir aproveitar o evento antes e depois do nosso show também. Vi, por exemplo, que Rick Springfield toca no evento. Espero conseguir assistir antes de voltarmos para casa. Parece ser um festival muito legal e acho que o público vai se divertir bastante.
Falando sobre o último álbum, Thrill of the Bite, ele mostra uma banda muito confiante. O que mudou no seu processo criativo ao longo dos anos?
Eu diria que hoje trazemos muito mais da produção para dentro da própria banda. Não trabalhamos mais com produtores externos. Esse foi o primeiro álbum que eu mesmo mixei do começo ao fim. Também fazemos todas as gravações por conta própria. Acho que crescemos bastante como produtores e aprendemos melhor o que precisamos fazer para alcançar o resultado que queremos. Hoje em dia os músicos também precisam aprender esse tipo de habilidade, porque não existe mais tanto dinheiro na indústria como antigamente para contratar pessoas externas para fazer todo o trabalho. Além disso, a visão artística de quem está na banda costuma ser a melhor para definir onde você quer chegar. Então o melhor caminho é aprender as técnicas e desenvolver essas habilidades por conta própria. Essa é uma grande diferença em comparação com dez ou quinze anos atrás.
Compor em casa em vez de compor em sala de ensaio teve um grande impacto nas novas músicas? E hoje você escreve grande parte das músicas da banda, isso traz mais liberdade criativa ou mais pressão?
Eu diria que um pouco das duas coisas. Alguns anos atrás eu escrevia ainda mais músicas sozinho. No último álbum tivemos uma divisão um pouco melhor entre os compositores do que no passado. Eu ainda escrevo a maioria das músicas, mas há contribuições do nosso baixista Jens e do guitarrista Chrisse, além de duas colaborações com compositores externos. Então está um pouco mais equilibrado agora. Por um lado, isso é positivo, porque como produtor posso pensar no que o álbum precisa. Talvez falte uma balada ou algum tipo específico de música para deixar o disco mais equilibrado. Mas também existe pressão, porque esperam que eu entregue a maior parte das músicas. Quando chega o momento de reunir as demos para um álbum, existe naturalmente a expectativa de que eu apresente muitas ideias.
E suas músicas têm refrões muito fortes. Você costuma começar uma nova composição pelo riff ou pelo refrão?
Normalmente começo pelo gancho da música, como uma linha vocal. Geralmente começo com algumas palavras e a melodia básica do refrão. Às vezes começo por um riff, mas eu não sou guitarrista em primeiro lugar, então raramente fico tocando guitarra esperando surgir alguma ideia. Normalmente acrescento isso depois que a estrutura da música já existe. Muitas ideias surgem em momentos inesperados. Posso estar passeando com os cachorros, caminhando ou na academia, e de repente surge uma melodia na cabeça. Aí preciso pegar o celular rapidamente e gravar antes de esquecer. Às vezes tudo começa com uma gravação muito simples, apenas algumas palavras e uma melodia. Depois eu desenvolvo a música a partir disso. Os versos geralmente são a última coisa que escrevo, quando sinto que o refrão é forte o suficiente, porque isso costuma ser o que define se a música funciona ou não.
Hoje mudamos da era da MTV para a era do Spotify. Você prefere lançar singles ou ainda faz sentido lançar álbuns completos?
Essa é uma questão complicada. Estamos em um gênero em que ainda vendemos bastante mídia física, como vinil e CD. Ao mesmo tempo, o ambiente musical atual é muito baseado no lançamento de singles. Pensando em streaming e visualizações de vídeos, a melhor estratégia seria lançar um single por mês durante um ano inteiro. Mas não podemos fazer isso porque também precisamos motivar as pessoas a comprar o álbum. Se lançarmos todas as músicas antes, perde o sentido. Então é sempre um equilíbrio entre divulgar alguns singles para promover o disco e manter interesse do público, e ao mesmo tempo guardar parte do material para o lançamento do álbum físico. Em outros gêneros isso não é um problema, porque eles quase não vendem mídia física. No nosso caso ainda é importante. Por isso geralmente lançamos três ou quatro singles e alguns videoclipes antes do álbum. Acho que é um bom equilíbrio.
O Crazy Lixx sempre abraçou a cultura pop dos anos 80. O que mais te fascina naquela década?
Acho que não foi exatamente uma escolha. Eu nasci em 1982, então vivi parte daquela época. Foi algo que ficou muito marcado na minha infância. Até meados dos anos 90, tudo aquilo ajudou muito a formar quem eu sou hoje, o tipo de música que gosto, os filmes, o visual. Então foi meio natural. Se eu tivesse nascido nos anos 60, talvez tivesse um corte de cabelo estilo Beatles e quisesse fazer música como eles. Sou uma pessoa bastante nostálgica com as coisas que vivi quando era jovem. Claro que hoje escuto música nova e assisto a filmes atuais, mas eles nunca me dão exatamente a mesma sensação que as coisas antigas me davam quando eu estava crescendo. Acho que isso acontece com muita gente, mas talvez no meu caso a nostalgia seja um pouco mais forte.
Você é fã de filmes de terror e disse que assiste filmes atuais. Existe algum filme recente do gênero que você recomendaria?
Na verdade, não assisto muitos filmes de terror modernos, porque acho que eles não têm a mesma atmosfera dos clássicos. Não gosto muito desse tipo de terror mais gore, como Jogos Mortais ou O Centopeia Humana. Prefiro os filmes antigos, que eram um pouco mais simples e atmosféricos. Claro que ainda eram filmes de terror, mas não eram tão exagerados como muitos hoje em dia. Então raramente assisto terror moderno. Vejo filmes novos de outros gêneros, mas quando se trata de terror ainda prefiro os clássicos.
Existe algum filme que teria sido perfeito para ter uma música do Crazy Lixx na trilha sonora?
Já me fizeram essa pergunta antes e eu acabei mencionando Rocky IV. Fizemos um vídeo não oficial usando nossa música “Eagle” em uma montagem de treino do filme. Muita gente disse que gostou muito dessa combinação, e várias pessoas colocaram a música em playlists de treino. Acho que ela funcionaria muito bem dentro do próprio filme, naquela sequência de treinamento.
Você já se declarou fã do Kiss. A música “Who Said Rock and Roll Is Dead” é uma resposta ao Gene Simmons?
Eu diria que é uma resposta a ele e a muitas outras pessoas, porque ouvimos muito esse tipo de comentário. Eu entendo como alguém que viveu a era de ouro do rock nos anos 70, 80 e 90 pode sentir que o rock morreu. E, em certo sentido, eu até concordo com ele. Acho que o rock evoluiu na direção errada nos últimos vinte anos. Não gosto muito do caminho que o rock e o metal tomaram nesse período. Mas isso não significa que você não possa voltar ao ponto em que acha que as coisas ainda estavam boas e construir algo a partir dali. Então concordo com ele em parte. O rock morreu no sentido de que o que surgiu depois talvez não seja mais exatamente rock and roll. Mas ainda é possível tocar o estilo clássico. É isso que tentamos fazer. O mesmo poderia ser dito sobre outros gêneros. Alguém pode dizer que o country morreu ou que o jazz morreu, mas você ainda pode tocar esses estilos como eles eram. O problema talvez seja a direção que a evolução tomou.
Muitos vocalistas têm dificuldade para cantar músicas antigas com o passar dos anos. Como você se prepara para continuar cantando músicas altas como “Highway Hurricane”?
Hoje tento usar menos notas extremamente agudas nas músicas novas. Antigamente eu escrevia versos e refrões sempre muito altos. Ainda consigo alcançar essas notas, mas o problema com o tempo é mantê-las com consistência por longos períodos. Existem bandas como o Skid Row, por exemplo, em que muitas músicas têm partes muito agudas o tempo todo. Isso torna muito difícil para alguém como Sebastian Bach cantar essas músicas durante muitos anos. Então hoje tento escrever de forma um pouco mais equilibrada. Coloco uma ou duas notas muito altas em uma música, mas mantenho o restante um pouco mais confortável. Já nas músicas antigas não há muito o que fazer, porque elas foram escritas de outra forma. Então às vezes preciso simplesmente lidar com isso. É parte do desafio de ser um cantor de rock.
Se alguém estiver conhecendo o Crazy Lixx agora, qual música deveria ouvir primeiro?
É uma pergunta difícil. Normalmente digo para as pessoas ouvirem as cinco músicas mais populares no Spotify. Acho que isso acaba refletindo bem o que os fãs gostam. Para mim isso muda bastante, porque sempre tenho vontade de citar músicas mais novas. Mas sei que muitas vezes não funciona assim com outras bandas também. Se alguém me perguntasse minhas músicas favoritas do Kiss, por exemplo, eu provavelmente não escolheria as mais recentes. Então acho que olhar o top 5 no Spotify é um bom começo para quem quer descobrir a banda.
Olhando para toda a trajetória do Crazy Lixx, qual momento te deixa mais orgulhoso?
É difícil apontar um momento específico. Quando comecei, eu não conseguia viver de música. Precisava trabalhar com outras coisas para me sustentar. Alguns anos atrás finalmente consegui viver apenas da produção musical, dos shows e de tudo que envolve a banda. Não houve um momento exato em que isso aconteceu, foi um processo gradual. Mas acho que quando comecei a me considerar um músico profissional, vivendo exclusivamente disso, foi provavelmente o momento de maior orgulho para mim. Não foi um marco muito claro, mas sim uma construção ao longo do tempo.