Entrevista exclusiva | Dr. Chud – “Estávamos todos no auge naquela fase do Misfits. Poderíamos ter feito pelo menos mais cinco discos.”

Entrevista exclusiva | Dr. Chud – “Estávamos todos no auge naquela fase do Misfits. Poderíamos ter feito pelo menos mais cinco discos.”

O ex-baterista dos Misfits, Dr. Chud, confirmou sua volta ao Brasil com a turnê “South America/Italia Tour”, marcada para agosto. O músico se apresenta em São Paulo dia 16, no tradicional Hangar 110, espaço histórico da cena punk e hardcore nacional. A passagem marca o retorno do artista ao continente após anos afastado de turnês próprias.

Conhecido por sua atuação em uma das fases mais populares dos Misfits, Dr. Chud promete um show voltado ao horror punk, com repertório que mistura clássicos da banda com composições autorais e material de seus projetos mais recentes. A proposta, segundo o próprio músico, é entregar uma apresentação energética e acessível, dialogando diretamente com o público que acompanhou sua trajetória desde os anos 1990 até sua fase atual.

Dr. Chud participou de álbuns como “American Psycho” e “Famous Monsters”, além de registros como “Cuts from the Crypt”. Multi-instrumentista, produtor e compositor, ele também integrou bandas como Blitzkid e desenvolveu projetos autorais ao longo das últimas décadas. Sua formação inclui passagens por diferentes estilos e estudos aprofundados de percussão, o que ajudou a moldar sua identidade musical tanto na bateria quanto na composição.

Em entrevista exclusiva para o Brasil, Dr. Chud fala com o Blog N’ Roll sobre os shows no país, o repertório da turnê e sua relação com o legado dos Misfits.

O que vem a sua mente ao se preparar para voltar ao Brasil em agosto e reencontrar seus fãs? O Hangar 110 é uma espécie de CBGB brasileiro.

Eu quero oferecer um show de horror punk acessível e incrível com a minha banda de horror punk. É algo que eu sempre quis fazer, levar minha banda internacionalmente e minha música para o mundo. Vai ser divertido e intenso. Eu tenho muitos amigos no Brasil, então vou me divertir bastante.

Qual será a formação da sua banda nos shows no Brasil? Você vai cantar, tocar bateria ou ambos?

Eu vou cantar o set inteiro. Talvez eu toque bateria em algumas músicas no final. Ainda faltam quatro meses, então estou trabalhando com muitas ideias diferentes. Mas sim, gostaria de ir para a bateria em algumas músicas. Eu nunca fiz isso antes.

Sobre o repertório, você pretende focar apenas nos álbuns dos Misfits ou haverá surpresas?

Eu tenho mais de 50 álbuns. Do Misfits eu participei de quatro álbuns: “Cuts from the Crypt”, “Evil Eye II”, “Famous Monsters” e “American Psycho”. Eu vou tocar as músicas que escrevi para esses álbuns. Vou tocar também coisas do X-Ward e outros álbuns que fiz, como Sacred Trash. Eu estive em muitas bandas, então vou escolher coisas aqui e ali. Mas principalmente quero tocar todo o meu álbum do X-Ward e talvez algumas músicas novas do X-Ward também

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Mas sim, vai ter, talvez 10 músicas dos Misfits. Mas eu escrevi todas elas, então vai ser divertido mostrar minha interpretação dessas músicas para pessoas que nunca ouviram, da forma como eu escrevi ou como eu mudei elas 30 anos depois. Isso é divertido.

Você já tocou no Brasil com outros projetos?

Eu toquei quando eu estava em turnê com o Blitzkid. Acho que essas foram as duas bandas com as quais estive aí, Misfits e Blitzkid.

Você adapta sua performance para diferentes públicos dependendo da cidade que você vai se apresentar?

Eu ainda não sei. Eu ainda não toquei pelo mundo todo com a minha banda atual. Eu gosto de mudar as coisas. Posso fazer sets acústicos em encontros com fãs. Gosto de mudar isso, talvez tocar quatro músicas. Mas o setlist provavelmente vai se manter o mesmo nesta turnê. Depois eu vou mudando conforme as turnês avançam e novas músicas são lançadas.

Como foi entrar nos Misfits em um momento tão importante da banda?

Pareceu natural. Foi uma boa combinação para mim. Eu me diverti muito. Eu pude escrever músicas para eles e tocar com eles. Eu honro esse período. E eu acabei de receber um disco de ouro por American Psycho.

Como era o processo criativo e de gravação naquela época com essa nova formação?

Foi incrível. Nós ensaiávamos muito e trabalhávamos nas músicas o tempo todo. Era uma máquina de composição. Todos escrevíamos músicas naquele período. Todos tinham uma parte igual nisso. Foi divertido e tudo aconteceu de forma bem tranquila. Foi mágico, na verdade. Um momento mágico. E esses álbuns vendem melhor hoje do que jamais venderam.

Como você define seu legado nos Misfits?

É o bom e velho rock and roll. Nós fizemos com intensidade. As melodias eram ótimas. Estávamos todos no auge. Tínhamos mais cinco discos dentro de nós. Poderíamos ter feito pelo menos mais cinco discos.

Qual sua visão sobre as polêmicas políticas envolvendo Glenn Danzig e Michale Graves com o nazismo e fascismo? Isso pode afetar o legado dos Misfits?

Eu não sei. Eu faço a minha própria coisa. Sempre fiz. Não sei. É a vibração deles. Eu estou em uma vibração diferente. Não falo com o Michale desde 2002. Então não sei o que ele está fazendo. E eu realmente não conheço o Glenn. Então não sei o que eles estão fazendo. Espero que estejam fazendo discos.

Você mantém contato com algum integrante dos Misfits?

Não, só para falar de negócios.

Por que “American Psycho” e “Famous Monsters” têm uma qualidade de gravação muito superior aos demais trabalhos? Houve uma preocupação nesse sentido?

Você está absolutamente certo, foi simplesmente melhor gravado. Tinha um orçamento maior também, a Geffen Records financiou o primeiro, acho que a Roadrunner fez o segundo. Eu gravei a minha vida inteira e também estou lá dando minhas ideias, pois tenho estúdio desde os 19 anos. Sempre gravei em casa, trabalhei com gênios da gravação e eu amo gravar. Amo todo o processo. Então sim, foi divertido gravar.

Os álbuns têm muita energia. Eles eram gravados ao vivo ou por partes?

Eu acho que gravávamos a banda inteira ao vivo. Depois o Doyle adicionava camadas de guitarra e fazíamos vocais de apoio. Era basicamente ao vivo.

Quais foram suas principais influências na bateria?

Eu sempre ouvi grandes bateristas. Isso foi uma coisa importante. Eu sempre estudei grandes bateristas. Eu fiz drum corps por um tempo, que é como as Olimpíadas da bateria. Fiz todo tipo de coisa. Shows com bongô, jazz. Eu tentei fazer o máximo possível e levei toda essa caixa de ferramentas comigo para onde eu fosse. Eu tinha uma grande caixa de ferramentas para usar. No começo de “American Psycho”, há um tímpano no início. Eu tirei isso dos meus dias no drum corps. Eu usei muitas coisas dessa caixa de ferramentas, estudei muito todo tipo de música, todo tipo de estilo de bateria. Isso acabou indo para quando eu escrevo música com guitarra. Eu toco de forma muito percussiva. Isso realmente contribuiu para minha forma de tocar guitarra.

Quais artistas você destacaria como influência geral?

Música, música, todo tipo de música. É tudo lindo. Eu amo Paul McCartney and Wings. Eu amo Queen. Eu amo Led Zeppelin. Esses são três bons nomes.

Você tem novos projetos em andamento?

Sim, eu faço todo tipo de coisa maluca. Minha banda The Karens está lançando o terceiro disco no próximo mês. Agora estou no estúdio mixando e gravando as faixas finais. Nosso último disco se chama “I Want a Refund”e é um ótimo álbum. Gravamos tudo ao vivo, uma tomada só, sem clique. É um ótimo disco.

Também gravei duas faixas de bateria na semana passada para o Circus Mickey, uma banda alemã muito boa. Tenho um single que vai sair no Natal com a Ada, com o baterista do The Go-Go’s. Vou gravar X-Ward no próximo mês, lançando finalmente música nova. Eu faço trilhas sonoras também.

Aliás, eu estava gravando um filme chamado “Jesus Cop”, que vai sair no verão, com Bam Margera, Bill Manspeaker do Green Jelly e Al Jourgensen do Ministry. Eu interpretei um personagem chamado Lance, um chefe. Foi divertido. Também faço convenções, vou para o Texas neste verão, em San Antonio, para uma convenção de horror. Faço umas cinco convenções por ano. Estou sempre ocupado. E agora essa turnê do X-Ward, de 2 a 20 de agosto de 2026, pela América do Sul e Itália.

Com tantos trabalhos, o que ainda te motiva a continuar em turnê após tantos anos?

Eu não sei. É o que eu faço. Eu tenho que tocar. Quando você faz algo a vida inteira, é para isso que você está aqui. Não há outra coisa para fazer. Eu poderia sentar no sofá e viver de royalties, mas não, eu tenho que criar o tempo todo. E preciso encontrar os fãs, encontrar as pessoas, porque a interação é incrível. Então vou fazer isso enquanto puder. Não sei, talvez mais 10 anos. Não vou morrer antes dos 100 anos.

Você acompanha a nova cena punk?

Eu acabei de me mudar para o Arizona, então estou focado na cena daqui. O Arizona tem uma cena punk incrível. Mas sei que existem grandes bandas de Misfits no Brasil, como Sangre e Evil Live. Muitos tributos aos Misfits. Eu amo todos. Eu assisto todos. Eu posto no meu site. Eu amo o quanto eles amam a nossa música. A paixão está lá.