O The Casualties lançou nesta sexta-feira, 27 de março, o novo álbum Detonate, reforçando sua posição como um dos principais nomes do street punk mundial. O disco chega às plataformas com a proposta de traduzir em som e atitude as tensões sociais e políticas atuais, mantendo a identidade agressiva e direta que marcou a trajetória da banda desde os anos 1990.
Em Detonate, o The Casualties aposta em uma combinação de energia crua e senso de urgência, com letras que transitam entre revolta e consciência coletiva. A crítica internacional destaca o trabalho como um álbum que equilibra intensidade e reflexão, trazendo uma “explosão” que vai além do som e se conecta diretamente ao cenário global contemporâneo.
Formado no início dos anos 1990 em Nova York, a banda se consolidou como referência dentro do street punk. Ao longo das décadas, eles passaram por mudanças importantes na formação, especialmente após a saída do vocalista Jorge Herrera. Desde então, David Rodriguez assumiu os vocais e ajudou a redefinir a identidade do grupo, trazendo novas influências sem romper com a base construída nos primeiros anos.
Em entrevista exclusiva para o Brasil, o vocalista David Rodriguez fala com o Blog N’ Roll sobre o novo álbum, o tom político das composições, a relação com o público brasileiro e as transformações na dinâmica criativa da banda nos últimos anos.
O título do álbum sugere uma explosão. O que exatamente está prestes a explodir?
É algo interno, como uma combustão interna. Tudo o que está acontecendo no mundo faz a gente querer explodir. Nossos corações e mentes querem explodir de raiva, de tristeza, mas também com a ideia de que, juntos, podemos consertar isso.
O disco tem um tom político muito forte. Quando você percebeu que esse seria o caminho?
Eu sempre me senti assim, porque Estados Unidos e Brasil estão lidando com muitas questões, como Bolsonaro e Trump. E, pelo que foram esses últimos anos, eu sinto como se fosse quase uma ditadura, como se estivessem tentando chegar nisso. Então isso tem sido uma emoção muito forte desde o último disco, desde que entrei na banda. E vou te dizer também que estar no Brasil criou muito disso em mim. Eu consegui ver o que estava acontecendo no Brasil e comparar com o que estava acontecendo nos Estados Unidos, e isso teve muito a ver com a forma como esse disco saiu. Eu escrevi muito dele em Ubatuba e também em São Paulo.
Como foi trabalhar neste álbum com a formação atual da banda?
Eu estou na banda há oito anos, mas tenho uma relação com o The Casualties há uns 27 anos. Eu tinha uma banda chamada Crumb Bums, e lá por 2004 eles levaram a gente para uma turnê. Desde então sempre fomos amigos, sempre juntos. Eu, Jake e Meggers sempre estivemos muito próximos. A gente nunca tinha composto junto antes do último disco, mas foi muito natural escrever. Nós três escrevemos a maior parte desse álbum juntos aqui em Austin. Nosso baixista, Doug, é muito bom e trouxe o estilo dele para o que estávamos fazendo. Foi um processo muito natural. Com tudo o que está acontecendo no mundo, todos conseguimos nos expressar. Eu gosto muito desse disco.
É, eu como baixista prestei bastante atenção nas linhas de baixo e é um destaque a parte. Existe uma faixa que melhor representa o espírito do disco?
Cara, eu diria “People Over Power”. Eu acho que essa música representa quem a banda é. E também respeita quem a banda sempre foi antes de mim e quem somos agora. Dá pra ouvir o quanto o Jake evoluiu como guitarrista, o quanto o Meggers evoluiu, e dá pra ver do último disco pra esse o quanto eu também cresci. E é uma música simples. Tem aquela linha: “people over power”. É simples assim. Poder sobre as pessoas e a gente queima isso tudo. É uma música sobre união.
Você acha que a sua entrada na banda trouxe uma nova dinâmica criativa?
Sim, com certeza. E digo isso com respeito. Na internet, as pessoas gostam de falar mal. Ninguém chega pra dizer que você está bem, só querem dizer que você é ruim. Vão dizer que eu não pareço o Jorge. Ainda bem. Eu não quero soar como ele. Ele tem a identidade dele. Eu tenho a minha. Eu não estou aqui para substituir ninguém, estou aqui para ser eu mesmo. Tenho uma visão de mundo diferente.
O que os fãs podem esperar da nova turnê?
Shows mais rápidos e pesados do que nunca. Espero que as pessoas escutem o álbum com atenção, leiam as letras e absorvam a mensagem. Não é um álbum para você ouvir e ficar fazendo outras coisas, precisa de concentração.
Há planos de trazer a nova turnê para o Brasil?
Com certeza nós vamos voltar. Queremos tocar mais. Infelizmente perdemos o show de Curitiba devido ao mau tempo, o avião não podia levantar voo. Então queremos compensar o que perdemos e viver mais experiências por aí.
Como marido de uma brasileira, como foi tocar no Brasil no ano passado?
Eu me diverti muito, porque tudo o que minha esposa, Renata, tinha me contado sobre os shows era verdade. Todo mundo fazendo a dança punk em São Paulo, todo mundo cantando. Eu podia jogar o microfone e o público cantava. Eles conheciam o disco que eu gravei e também as músicas antigas. Eu sinto muita saudade (fala em português).
E você sabia que a palavra saudade só existe em português?
É isso. Não dá pra explicar, só sentir.
Como você compara o público da América do Sul com o dos EUA e Europa?
O público sul-americano é muito mais selvagem, muito mais divertido. Existem bons shows nos Estados Unidos, mas quase todo show na América do Sul é incrível. Muito mais energia, muito mais entrega.
Quais foram as suas melhores memórias do Brasil?
Ver todo mundo cantando junto e poder me jogar na multidão. É uma conexão única. Você nem pensa em cair porque todo mundo está junto. Espero que possamos passar mais tempo juntos, compartilhar histórias, comida e bons momentos. Saudade sempre.
O punk sempre foi ter voz e dar voz. Como você enxerga o papel do punk dentro das redes sociais em um mundo tão polarizado?
Elas têm dois lados. Permitem compartilhar ideias, mas também ampliam a polarização. Muitas pessoas acham que só a opinião delas importa. Isso mostra como as pessoas estão solitárias.
Vocês enfrentam dificuldades políticas nos Estados Unidos sendo uma banda punk? Pelas suas ligações latinas, vocês já tiveram a vista do ICE em algum show?
Acho que pode piorar. Eu sou cidadão americano, então é diferente. Mas me preocupo muito com minha esposa, que é brasileira. Se a gente estiver viajando, podem parar ela e eu não poderia fazer muita coisa. Está um clima tenso por aqui.
Integrantes de bandas como The Misfits e Agnostic Front se aproximaram de ideias fascistas. Como você vê a presença de ideologias extremistas de direita dentro da cena punk e hardcore hoje?
Cara, pra mim isso é… Bem, eu sempre fui uma pessoa muito política. Eu cresci ouvindo música que falava sobre política e meu pai também era muito político. Eu sou do Texas e temos um movimento chicano muito forte por lá, então isso sempre fez parte da minha vida. E eu nunca entendi por que alguém acreditaria nessas coisas da direita.
Então ver o fascismo dentro do punk rock… eu dei uma entrevista ontem falando sobre o Michael Graves dizendo que ele é um nacionalista orgulhoso dos Estados Unidos, e isso me machuca, cara. Eu fico envergonhado. Eu fico envergonhado que pessoas que não são do punk pensem que isso é o punk rock.
Pessoas como nossos pais podem pensar que punk e skinhead são nazistas. E não é. A ideia real do punk é união e lutar juntos contra o fascismo. Meu pai sempre dizia que a gente vive para falar por aqueles que não podem falar por si mesmos. É isso que eu acho que é o punk. Eu não acredito em nada dessas coisas estranhas. Pra mim isso parece algo alienígena.