O mês de julho de 2026 marca um divisor de águas definitivo na trajetória meteórica do Fcukers. O grupo nova-iorquino, que há apenas três anos dava seus primeiros passos se apresentando para pouco mais de 200 pessoas no intimista Baby’s All Right, no Brooklyn, desembarca no Brasil para o maior desafio de sua carreira. Eles foram os escolhidos para abrir as quatro aguardadas apresentações de Harry Styles em São Paulo, válidas pela badalada turnê Together Together.
A responsabilidade não é pequena: a banda comandada por Shanny Wise e Jackson Walker Lewis vai encarar um Estádio do MorumBIS cheio por quatro noites (ainda restam poucos ingressos). Conhecido internacionalmente por ser um dos públicos mais passionais, barulhentos e dedicados do planeta, os fãs brasileiros do astro britânico costumam dar um show à parte, o que inclui a tradição de decorar e cantar em coro até mesmo as faixas das atrações de abertura.
O passaporte do Fcukers para os grandes estádios carimba também o excelente momento criativo do grupo, que celebra o lançamento de seu novo álbum de estúdio, intitulado simplesmente O. O registro é fruto de um processo criativo intenso e urgente: foi inteiramente gravado em uma imersão de apenas duas semanas logo após o grupo conhecer o produtor Kenneth Blume. O trabalho conseguiu capturar a energia crua e caótica das pistas underground de Nova York, que virou a grande marca registrada do trio.
Para alcançar o equilíbrio perfeito entre o som feito para as pistas e uma identidade pop contemporânea, a banda recrutou um time de produção de primeira linha. Além de Kenny Beats, o álbum traz a mixagem refinada de Tom Norris e contribuições experimentais de Dylan Brady. O resultado é um som minimalista e magnético que já conquistou elogios de ícones como Kevin Parker (Tame Impala), Billie Eilish e Beck, este último tendo inclusive subido ao palco para uma performance conjunta com a banda em Los Angeles.
Em uma conversa descontraída direto de Nova York, em meio a uma forte onda de calor na costa leste americana, a vocalista Shanny Wise revelou os bastidores do convite para a turnê, a admiração por ícones da música brasileira como a Tropicália, Os Mutantes e Gal Costa, e antecipou o que o público paulista pode esperar dessa grande celebração. Confira a entrevista completa a seguir.
Shanny, vocês estão prestes a abrir quatro shows em um dos estádios mais icônicos do país, o MorumBIS, na turnê Together Together do Harry Styles. Como surgiu esse convite? E quais são as suas expectativas para encarar a plateia brasileira, que é famosamente apaixonada e barulhenta?
Sim! No começo, a gente nem sabia para quem era. Só tínhamos recebido uma proposta em potencial para um show. Aí depois a gente descobriu e ficou tipo: “Caramba, o quê?!”. Mas sim, ouvi dizer que os fãs brasileiros são incríveis. Mal posso esperar para tocar e conhecer todo mundo.
Bom, vocês começaram tocando para 200 pessoas no Baby’s All Right lá em 2023. Agora vocês vão tocar para dezenas de milhares de pessoas por noite em São Paulo. Como tem sido processar mentalmente esse crescimento tão gigante em apenas três anos?
É loucura! Quero dizer, acho que sou muito grata por estar aqui, porque quando começamos, a gente nem sabia se um dia lançaria uma música, sabe? Era só por diversão, no nosso quarto. Então, o fato de isso ter se conectado com as pessoas é realmente lindo, um baita presente. E acho que, quando algo está crescendo e você está vivendo aquilo no dia a dia, fica difícil enxergar. Mas aí você tem esses momentos em que para e pensa: “Uau, a gente foi longe”. É isso, é uma verdadeira jornada.
O material de divulgação menciona que o álbum foi gravado em uma sessão intensiva de duas semanas em estúdio, logo após o primeiro encontro de vocês com o produtor Kenneth Blume. Como foi aquela faísca inicial e por que vocês decidiram canalizar esse senso de urgência no disco?
Bom, a gente estava trabalhando em outras músicas em Nova York e estávamos um pouco travados. A gravadora estava cobrando prazos, a gente estava meio estressado e até tínhamos algumas músicas, mas sentíamos que não estavam prontas. Então conversamos com eles e dissemos: “Ei, precisamos cancelar esses prazos. Não temos nada pronto e não sabemos quando teremos”. E aí conhecemos o Kenny logo depois disso. Então, meio que tínhamos tirado toda a pressão das costas.
Além disso, depois de passar um tempo travados criativamente, era um lugar novo, uma vibe nova. E ele é incrível, super talentoso e bom no que faz. Trabalhar com ele acho que realmente nos libertou para compor muito rápido, porque tínhamos outra pessoa ali que estava conseguindo timbres incríveis, ajudando a tomar decisões, ajudando a estruturar as músicas… E não sei, foi um momento muito libertador e criativo. E a gente estava prestes a entrar em turnê em duas semanas, então pensamos: “Dá para fazer um álbum rapidinho”. E ele disse: “Consigo limpar minha agenda”. Então a gente só falou: “Beleza, vamos nessa”. E deu tudo certo.
E o álbum conta com um time de peso: produção do Kenny Beats, mixagem do Tom Norris e toques adicionais do Dylan Brady. Como foi equilibrar a identidade crua e feita para as pistas do Fcukers com o background pop e experimental desses produtores de primeira linha?
Acho que, conceitualmente, a gente meio que sempre soube o que queria fazer em termos de tipo: “Ah, queremos ter uma seção de house” ou “queremos drum and bass com uma seção de trap em half-time”. Então, acho que tínhamos intenções bem claras ao entrar em cada música, mantendo aquele aspecto de colagem, do jeito que era o nosso EP, mas mudando um pouco a sonoridade, deixando menos carregado de camadas e mais minimalista. E o Dylan e o Kenny são incríveis, são produtores maravilhosos. Então foi fácil.
Faixas como I Like It Like That e Play Me nasceram sob aclamação da crítica e foram moldadas pelo caos dos shows de vocês. Para vocês, uma música do Fcukers só está realmente finalizada depois que passa pelo teste do público ao vivo na pista de dança?
Acho que é interessante porque, antes do nosso álbum sair, a gente já tocava a maioria das músicas ao vivo. E acho que ver a reação do público ao vivo com músicas que nem tinham sido lançadas ainda foi bem interessante e informativo para nós, eu sinto.
E a lista de ícones que já foram ao camarim apoiar ou elogiar o Fcukers é impressionante: Kevin Parker, Billie Eilish, Beck e até o Chris Frantz, do Talking Heads. Qual foi o melhor elogio ou conselho de bastidores que você recebeu até agora?
Olha, para mim, quando o Beck foi ao nosso show em Los Angeles, subiu no palco e tocou com a gente, foi uma loucura, porque sou muito fã. Cresci ouvindo o som dele. Estar no palco junto com ele foi insano. E ele me dizer coisas como “isso é bom, continue assim”, sabe, esse tipo de coisa é muito especial e gentil.
Sim, muito gentil. Ele parece ser um querido.
Sim, ele é o melhor.
Shanny, vocês carregam um DNA muito forte como agitadores de Nova York. Como a cena underground e as pistas de dança da cidade influenciam diretamente a estética visual e a atitude sonora que você e o Jackson trazem para a banda?
É que eu cresci aqui, sabe? A vida inteira. Então não tenho como evitar. Tem que carregar as origens de onde vim.
E desculpe mudar um pouco de assunto, mas está calor demais em Nova York agora, né? O clima, o tempo…
Estava muito quente, sim. Uma onda de calor.
Sim, dá para ver pela câmera. Geralmente quando fazem entrevistas não dá para notar tanto, mas consigo ver que está quente demais aí agora.
Está calor, sim. Bastante!
Além de grandes festivais como Coachella e Glastonbury, vocês foram escolhidos a dedo pelo Hedi Slimane para um evento da Celine e tocaram na abertura da Louis Vuitton em Manhattan. Como você enxerga a relação entre a música do Fcukers e o mundo da alta moda?
Para ser sincera, não sei muito bem. Não entendo muito de alta moda, então topo o que vier, eu acho.
Você gosta?
Sim.
Curte o meio?
Eu gosto, acho maneiro. Só nunca fui super entendida do assunto.
Tudo bem, sem problemas. Vocês também tocaram como DJs em afterparties icônicas, como a da Charli XCX e no Coachella. Se você pudesse definir a vibe perfeita de uma afterparty comandada pelo Fcukers em apenas três palavras, quais seriam?
Suada, escura e divertida. Desculpa…
Festa, escura e…?
Eu disse suada (sweaty), escura (dark) e divertida (fun).
Divertida, ok! Legal. Gostei. Você conhece alguma música brasileira? Planeja dar uma olhada na cena local ou descobrir artistas enquanto estiver aqui?
Sim! Eu amo Tropicália, Os Mutantes e Gal Costa. Sim, amo esse tipo de música. E adoraria ver alguma música local enquanto estiver por aí.
Os fãs brasileiros do Harry Styles são famosos por aprenderem todas as letras das bandas de abertura. Que mensagem você tem para a galera que vai chegar cedo ao estádio do MorumBIS para ver o Fcukers?
Mal posso esperar para curtir e festejar com vocês!