O Katatonia retorna ao Brasil com a turnê de Nightmares as Extensions of the Waking State e se apresenta no dia 21 de março de 2026, no Cine Joia, em São Paulo. No palco, a banda sueca promete um repertório que equilibra o novo álbum com clássicos da carreira, em um show que deve alternar peso, melancolia e intensidade emocional. A abertura fica por conta da guitarrista Jessica Falchi, reforçando o clima de atmosfera e técnica que marca a noite.
Em entrevista ao Blog N’ Roll, Nico Elgstrand fala sobre o impacto de assumir as guitarras no lugar de uma lenda, os desafios enfrentados com o visto negado nos EUA e a nova dinâmica criativa dentro do Katatonia após as mudanças na formação.
Com passagem marcante pelo Entombed, um dos nomes fundamentais do death metal sueco, Nico construiu sua reputação no underground europeu antes de integrar o Katatonia. Sua entrada, ao lado de Sebastian Svalland, marca uma nova etapa no grupo liderado por Jonas Renkse, conectando a tradição pesada de sua trajetória anterior com a fase mais atmosférica e progressiva da banda.
Você já estava tocando com o Katatonia como guitarrista de apoio antes de se tornar um membro oficial. Quando começou a sentir que isso poderia se tornar algo permanente?
Na verdade, foi bem rápido. Fiz o primeiro show logo após a Covid, e foi uma viagem muito, muito longa. Fomos para a Austrália, para a Tasmânia. Foram três dias no aeroporto para chegar lá e depois três dias para voltar.
Então passamos muito tempo juntos, convivendo bastante. Você percebe quando existe uma conexão pessoal. E quando fiz outro show, um ano depois, porque o Anders não pôde tocar, senti, e acho que eles também sentiram, que realmente nos conectamos socialmente. Isso é o mais importante quando você está em uma banda.
Eu não fiquei muito surpreso quando soube que poderia me tornar membro permanente. Ouvi que havia algumas questões com o Anders, mas não quis me envolver. Porém senti que, se eles mudassem a formação, provavelmente eu seria chamado. Então foi muito legal ser convidado.
Basicamente, quando fiz a turnê, senti que, se surgisse uma oportunidade, eu teria uma chance. E também foi muito bom perceber que eu queria isso. Às vezes você ama alguém mais do que ela ama você, ou o contrário, e aí temos um problema. Aqui foi diferente. Se eles queriam, eu também queria. Foi muito legal. E aqui estamos.
Substituir um membro histórico e fundador da banda como Anders Nyström naturalmente traz comparações e comentários entre os fãs. Como você lidou com isso em nível pessoal?
Eu decidi não pensar muito sobre isso. Quando você faz isso há tanto tempo, percebe que pensar demais não muda nada. Eu toco do jeito que eu toco, sou do jeito que eu sou.
Claro, quando toco uma música escrita pelo Anders, eu escuto como ele toca. Não estou ali para mudar nada. A música já está escrita, as pessoas amam do jeito que é, então tento respeitar isso ao máximo. Mas eu sou um indivíduo, então inevitavelmente toco do meu jeito, mesmo tentando ser fiel ao álbum.
Acho que é como começar um relacionamento novo sabendo que houve alguém antes. Não importa. É o passado. Se eu começar a pensar demais nisso, vai atrapalhar meu próprio desempenho. Então preferi não focar nisso.
Se os fãs não gostassem, não haveria muito que eu pudesse fazer além de trabalhar mais. Felizmente, não foi o caso. As pessoas foram muito receptivas. Acho que o desejo de ouvir a música é maior do que a necessidade de ver indivíduos específicos. A música é mais importante do que quem a toca. E eu acho que deve ser assim.
Estou realmente ansioso, especialmente para voltar à América, porque o carinho que você recebe lá é enorme.
E falando em América, você perdeu parte da turnê na América do Norte por causa de problemas com o visto. O que aconteceu?
Não sei exatamente. É o novo governo do Trump. Não sei por que fui rejeitado. Se você quiser recorrer, é muito caro. Você pode tentar uma segunda vez, digamos assim, mas envolve muitos advogados. Eles disseram que esse novo governo tem ideias bem estranhas sobre isso.
Houve outro cara na turnê que também teve o visto rejeitado. Fiquei realmente devastado, porque o Fredrik, do Opeth, é meu melhor amigo há 30 anos, e estávamos muito animados para fazer essa turnê juntos.
Mas o que você pode fazer? É o que é. Estou tentando não ficar triste com isso. Em vez disso, estou ansioso para ir ao Brasil e à América do Sul. Mas por um tempo, e ainda agora, fico pensando que eu deveria estar lá.
Não estou impressionado com esse governo. Nem vou dizer o nome dele de novo. Está ficando tudo muito louco por lá. É muito triste, mas, de novo, o que você pode fazer?
Vamos falar de coisas boas então. Falando sobre o Brasil, o show em São Paulo marca um novo capítulo da banda aqui. O que os fãs podem esperar do setlist?
O set não é fixo. Temos várias variações. Eu e Daniel até queríamos ter umas 50 músicas e trocar tudo todas as noites, mas isso é muito desafiador para o Jonas por causa dos vocais.
Então haverá variações, mas mesmo que eu soubesse exatamente o set, não diria aqui (risos). Acho que uma das coisas ruins da internet é que você pode descobrir tudo antes. Às vezes é legal ser surpreendido.
Mas, pelo menos sua expectativa você pode contar, né?
Minhas expectativas para o público são muito altas, porque tem sido uma loucura. Lembro que pensei que, como a música do Katatonia é mais suave do que outras bandas com as quais toquei, talvez a reação fosse mais contida. Mas foi absolutamente insano. Não houve diferença. Foi intenso do mesmo jeito.
Da última vez com o Entombed foi tão alto que eu quase não conseguia ouvir meus in-ears. Então as expectativas são altas.
Com o Sebastian e eu entrando agora na banda, existe aquela energia de início de relacionamento. Tudo é novo, tudo é bonito e há muita energia. Sinto que estamos nesse momento agora. Está mais físico, mais rock, embora ainda seja emocional também. Estou me sentindo muito bem.
Você sabe que Jéssica Falchi vai abrir o show em São Paulo? Conhece algo do Brasil?
Se falarmos de Brasil, Sepultura é enorme para mim. Uma das minhas músicas favoritas é deles. Algumas pessoas dizem que ficaram comerciais, mas não. Aquilo é icônico. Sarcófago também. É antigo e incrível.
Não ouvi muito sobre o projeto da Jessica ainda, então isso é novo para mim, mas vai ser interessante. Vou aproveitar o tempo no avião para ouvir mais. Gosto disso.
Como guitarrista, acredito que você vá gostar. Ela lançou uma música instrumental experimental de rock.
Instrumental? Isso é legal. Eu gosto muito de música instrumental. Você pode ir longe, não há vocais que todos precisam seguir. Pode ficar bem interessante. Gosto muito do conceito de música instrumental.
O Jonas disse que o novo álbum é muito centrado em guitarras. Como foi essa responsabilidade no seu debut oficial?
Tento não pensar muito nisso. Quando começo a pensar demais, eu me saboto. Durante as gravações, eu basicamente dizia para mim mesmo para não pensar. Se eu começasse a pensar “é meu primeiro álbum, eu preciso fazer isso ou aquilo”, eu me bloqueava. Então preferi desligar o cérebro e tocar o que sentia. Se soasse bem, ficava.
Demorei muitos anos para perceber que o cérebro pode ser o pior inimigo do músico quando você está criando. Quando você compõe e quer elevar algo além do que está no papel, precisa deixar o subconsciente assumir.
Coisas simplesmente acontecem e você pensa “de onde veio isso?”. Acho que consegui fazer isso nesse álbum. Estou muito feliz com o resultado.
Para mim, o importante é o impacto da música. Se ela me toca, eu gosto. Não fico contando quantos teclados ou guitarras há ali. É uma banda de metal com muita atmosfera, e às vezes você nem sabe se está ouvindo um synth ou uma guitarra. Eu gosto disso. Quero explorar ainda mais essa ideia, fazer a guitarra soar como qualquer coisa.
Há alguma faixa em que você sente que sua identidade aparece mais claramente?
Gosto muito do solo em “In the Event Of”. Demorou um tempo para encontrar o estado mental certo, mas foi muito espontâneo. Não é nada de guitar hero. É simples, tentando servir à música, que é muito bonita.
Senti que ali sou realmente eu. E agora preciso voltar e aprender o solo para tocar ao vivo.
Percebi que prefiro tocar menos notas, de forma mais expressiva, do que tentar impressionar outros guitarristas. Meus heróis sempre foram caras como David Gilmour ou Jeff Beck. Já passei pela fase da escola Yngwie, mas percebi que não é isso que me define. Prefiro dizer mais com menos notas.
Brasil e Suécia têm uma grande história no rock. Pode indicar cinco bandas suecas que o brasileiro precisa conhecer?
Provavelmente vocês já conhecem muitas. At The Gates, com certeza. É difícil lembrar quando colocam você nessa situação.
Um tesouro escondido seria Ebba Grön, uma banda de punk sueca. Cantam em sueco. São enormes aqui, mas talvez ninguém as conheça no Brasil por conta da língua.
Outro nome é Cornelis Vreeswijk. Ele era um cantor e poeta, tocava violão. Não é metal, mas é incrível.
Se falarmos de metal, At The Gates é uma das minhas favoritas.
Haystack, um projeto paralelo do pessoal do Entombed. O primeiro álbum é insano, bem hardcore.
The Soundtrack of Our Lives, uma banda sueca de rock. Muito boa.
E há um artista chamado Peter Carlsson. Ele é vocalista. A música é incrivelmente triste e linda. Se você gosta de Katatonia, pode sentir uma conexão ali. É incrível e pouca gente conhece. Para mim, é uma das melhores coisas que já ouvi.
SERVIÇO | KATATONIA EM SÃO PAULO
Data: 21 de março de 2026
Local: Cine Joia (Pça. Carlos Gomes 82, São Paulo, SP)
Ingresso: https://fastix.com.br/events/katatonia-em-sao-paulo
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