O nome do Millencolin voltou a ganhar força no Brasil em 2026 integrando o lineup do We Are One Tour. Com show esgotado em apenas três dias na capital paulista, uma nova data foi confirmada, ampliando a expectativa em torno do reencontro com o público brasileiro. O Festival conta também com Pennywise, Mute e The Mönic.
O evento desembarca no Brasil no dia 24 de março, em Porto Alegre, no URB Stage. Depois segue para Florianópolis, dia 25, no Life Club, Curitiba, dia 27, no Piazza Notte, São Paulo, dia 28, no Terra SP, Rio de Janeiro, dia 29, no Sacadura 154, e encerra com o show extra na capital paulista, dia 31, na Audio.
Antes da chegada da We Are One Tour ao país, conversamos com o guitarrista do Millencolin Mathias Färm, peça fundamental na construção do som melódico e acelerado que marcou gerações desde os anos 90. A entrevista integra a série especial do Blog n’ Roll dedicada ao festival e é a segunda publicada. A primeira foi com a banda Mute.
Sobre o Millencolin
Fundada em Örebro em 1992, a banda atravessou décadas mantendo a formação clássica e consolidando um repertório que ultrapassou o rótulo de skate punk. Entre álbuns como Life on a Plate e For Monkeys, foi com Pennybridge Pioneers que o grupo ampliou seu alcance internacional e se tornou referência dentro do hardcore melódico europeu. A banda passou pelo Brasil pela primeira vez em 1998 e foi um dos primeiros capítulos de shows de hardcore internacionais.
A primeira vez que vocês vieram ao Brasil foi em 1998 e foi uma espécie de caos, certo? Brigas, falta de equipamentos no rider… O que você se lembra daquela experiência?
Foi algo muito especial para nós vir ao Brasil. É muito longe da Suécia, mas foi incrível. Tenho muitas boas lembranças e também muito caos. Minha guitarra quebrou em dois pedaços durante aquele primeiro show porque um cara a jogou para longe. Foi punk rock de verdade, com muita intensidade. Mesmo assim, foram momentos incríveis. Nós amamos o Brasil e a América do Sul.
Sou de Santos e dizem que foi o show mais tranquilo daquela turnê. Quais são suas lembranças da cidade?
Para ser honesto, eu não me lembro muito de Santos naquela primeira vez, porque isso foi há quase 30 anos. Naquela turnê, eu realmente não sabia em que cidade estava, eu apenas tocava. Tenho muitas lembranças daquela passagem, mas não consigo associá-las exatamente a cada cidade.
Todos os lugares que visitamos no Brasil são ótimos. Mas quando você está em turnê é difícil lembrar de tudo, porque quase sempre estamos atrasados, tocamos todos os dias e não temos muitos dias livres. Mesmo assim, voltamos para Santos outras vezes, isso eu lembro. É sempre ótimo tocar aí e os outros shows em Santos foram ótimos.
Ainda falando sobre 1998 vocês jogaram futebol em Copacabana contra um combinado de outras bandas de hardcore e assistiram a algumas partidas nos estádios. Vocês ainda mantém essa ligação com o futebol?
Sim. Acho que o Nikola é quem mais gosta de futebol, mas todos nós gostamos. Temos uma ligação forte com isso. Nosso time local é o de Örebro, e até fizemos uma música para eles. Na Suécia, futebol e hóquei no gelo são os maiores esportes. Imagino que hóquei não seja tão popular em Santos (risos), mas o futebol é incrível. Na Suécia, praticamente todo mundo já jogou em algum time quando era jovem.
Falando em Suécia, no último show de vocês lá no ano passado, tocaram músicas menos comuns no setlist, como Black Gold e That’s Up on Me. Estão preparando alguma surpresa para o Brasil?
Claro que sim. Temos muitas músicas para escolher ao tocar ao vivo. Normalmente sabemos quais são as que o público quer ouvir, então tentamos tocar os clássicos e misturar com algumas que não tocamos com tanta frequência. É difícil agradar todo mundo, porque cada pessoa tem suas favoritas, mas tenho certeza de que será um ótimo show e que o público ficará feliz. Teremos algumas surpresas.

Existe alguma música subestimada que você gostaria que tivesse mais reconhecimento?
Sempre há algumas. No Life on a Plate, há uma chamada Dr. Jackal & Mr. Hyde. Acho uma música muito boa, especialmente considerando que a escrevemos há tanto tempo. Às vezes nem entendo como conseguimos fazer aquilo naquela época. Ela tem uma vibração mais emocional. Talvez essa seja uma boa escolha.
Está completando 10 anos do clipe de True Brew. Como surgiu a ideia de gravar no Brasil, especialmente no Nordeste?
Nós fizemos a música primeiro em inglês e gravamos um vídeo. Depois queríamos fazer uma versão em sueco também. Um amigo nosso que estava em turnê conosco sugeriu gravar no Brasil. Era inverno na Suécia e tudo estava muito depressivo, então queríamos sol no vídeo. No Brasil há sol, boa vibração, clima incrível e uma atmosfera fantástica nas cidades. Foi a combinação perfeita para nós.
Recentemente entrevistei o The Hives e eles citaram vocês como a maior banda da cena sueca nos anos 90 que mostrou ser possível alcançar o mercado internacional. Como você vê essa relação com eles hoje?
É ótimo. Eu gravei a primeira demo do The Hives, lá na década de 90. Conhecemos esses caras há mais de 30 anos. Temos uma ótima relação com eles. São pessoas muito legais. Nós dois fizemos parte da Burning Heart Records quando o selo ainda existia. Tocamos muito juntos na Suécia no passado. É uma relação de amizade de longa data.
Life on a Plate está completando 30 anos. Há planos para algum relançamento em vinil ou cd?
Preparamos, na verdade, tocar o álbum inteiro em um festival no Canadá, no fim de maio. Pode ser que façamos mais apresentações assim, mas por enquanto é isso. Precisamos reaprender algumas músicas, porque algumas não tocamos há muito tempo. Vai ser divertido.
Muitas músicas nasceram com riffs seus. Como funciona seu processo criativo?
No passado, cada um escrevia suas ideias em casa e levava para o ensaio. Hoje não moramos todos na mesma cidade. O Nikola mora em um lugar, o baterista em outro, eu e o Erik moramos em Örebro. Então a maior parte do tempo escrevo em casa, faço demos e depois compartilhamos pela internet. Quando nos encontramos, trabalhamos juntos nas músicas e gravamos. É um pouco diferente hoje, mas temos uma boa fórmula.
Então há planos para um novo álbum ou EP? Faz tempo que vocês não lançam nada.
Temos muitas músicas novas, talvez não cheguem a cem, mas são muitas. Só precisamos decidir quando gravar e o que fazer com elas. Claro que haverá material novo, mas ainda não sabemos quando. Esperamos que em breve.
E vocês mantêm a formação original há décadas. Qual é o segredo dessa longevidade?
Hoje é mais fácil permanecer juntos do que era há 20 anos, porque nos conhecemos muito bem. Sabemos o que fazer e o que evitar. Conheço o Nikola desde o ensino fundamental. É importante também ter tempo longe da banda. Quando nos reencontramos, é sempre algo positivo. Temos uma boa maneira de fazer isso durar por muito tempo.
E falando em longevidade, qual é a história por trás do mascote Yellow Bird?
Ele apareceu na primeira demo, era um pequeno pássaro morto no fundo da capa. Depois todos nós tatuamos o Yellow Bird nas pernas quando fizemos aquela capa. Ele acabou se tornando um símbolo de melancolia, porque está morto. Tem um valor simbólico para nós. É algo que está conosco há muito tempo. É meio louco, mas eu adoro o Yellow Bird.
Hoje o skate se profissionalizou, está nas Olimpíadas. Vocês ainda veem conexão com os skatistas da nova geração?
Sim. Quando começamos, quem andava de skate ouvia punk rock. Hoje o skate mistura punk e hip hop, é mais amplo. Ainda temos muitos amigos da cena, como Steve Caballero. Temos conexão com o skate na Suécia também, com lojas e jovens. Se não fosse o skate, eu não estaria tocando música. Isso mudou minha vida. É muito importante para mim.