A edição de 2026 da We Are One Tour chega à América do Sul com o Pennywise como um de seus grandes protagonistas. Referência absoluta do skate punk e do hardcore melódico desde os anos 1990, a banda californiana lidera a turnê ao lado do Millencolin e Mute em uma sequência de shows que passa por cinco cidades brasileiras após iniciar a rota em Santiago e Buenos Aires.
Em São Paulo, a procura foi tão grande que a primeira apresentação esgotou em apenas três dias, levando ao anúncio de uma data extra na Audio, no dia 31 de março. O line-up ainda conta com a banda paulistana The Mönic na abertura. O Pennywise ainda retorna em maio para o Porão do Rock em Brasília.
Formado em 1988 em Hermosa Beach, na Califórnia, o Pennywise se consolidou como uma das forças do skate punk nos anos 1990, ao lado de nomes como Bad Religion, NOFX e The Offspring. Com riffs rápidos, refrões feitos para o coro coletivo e letras que misturam atitude positiva e crítica social, o grupo construiu uma carreira de mais de três décadas. A formação atual reúne Jim Lindberg (vocal), Fletcher Dragge (guitarra), Byron McMackin (bateria) e Randy Bradbury (baixo).
Antes da passagem pelo país, o guitarrista Fletcher Dragge conversou com o Blog n’ Roll sobre a evolução do Pennywise desde os primeiros shows em festas de quintal na Califórnia, comentou o peso político do clássico “Fuck Authority” no atual cenário dos Estados Unidos e relembrou o impacto de “Bro Hymn”, homenagem ao baixista Jason Thirsk que se transformou em um dos maiores hinos do punk.
A entrevista encerra a série especial do Blog n’ Roll com os headliners da We Are One Tour 2026. Anteriormente falamos com o Mute e o Millencolin.
Pennywise tem mais de três décadas de história. Como você vê a evolução da banda de Hermosa Beach para palcos ao redor do mundo?
Uau! Sim, muita história. Obviamente começamos em Hermosa Beach, uma pequena cidade da Califórnia. Surfávamos, nadávamos e o punk rock chegou por volta de 1979, 1980. Tínhamos bandas como Black Flag, Red Cross, Descendents e Circle Jerks tocando na nossa cidade, muitas vezes em festas de quintal.
Crescer vendo essas bandas nos primeiros anos da nossa adolescência foi muito legal. Quando começamos o Pennywise, também tocávamos em festas de quintal. Depois fomos tocar no Arizona, depois em Tijuana. Ai lançamos nosso disco e alguém disse para irmos para a Europa. Então fomos para a Europa, depois para a Austrália e para a América do Sul.
Foi tudo muito rápido, né?
Foi louco perceber que nossa música estava indo para fora de Los Angeles. Quando começamos a ver fãs em lugares como Brasil, América do Sul, Austrália, Europa e Japão, graças à Epitaph Records e a bandas como Bad Religion abrindo caminho, foi surreal. Pensar que alguém no Brasil estava ouvindo um disco do Pennywise e dizendo “vocês precisam vir tocar aqui”.
Demorou muito tempo para chegarmos ao Brasil, e eu nunca fiquei feliz com essa demora. Sempre havia planos, mas a vida acontecia. Quando finalmente fomos, foi incrível. As pessoas sabiam todas as letras, estavam enlouquecidas. Isso mostra o quanto a música é poderosa.
É, o Brasil é muito intenso nos shows…
Exatamente. E eu sempre falo que às vezes você pergunta a um garoto qual é sua banda favorita e ele responde Slayer. Aí você pergunta quem é o vice-presidente dos Estados Unidos e ele não sabe. Muitas vezes a música é mais importante para os jovens do que política ou escola. As bandas se tornam parte da identidade deles.
Então ter influência no mundo todo, inclusive no Brasil, e ouvir pessoas dizendo que a música ajudou em momentos difíceis da vida, é algo enorme. Quando alguém diz que estava passando por um momento muito duro e que um disco do Pennywise ajudou a seguir em frente, isso é uma evolução gigantesca para nós como músicos. É uma honra saber que pessoas em todo o mundo se conectam com o que fazemos.
Vocês sempre trouxeram política para a música. Como é ter o hino “Fuck Authority” em um cenário atual de tendências autoritárias nos Estados Unidos?
É incrível, porque você pode subir ao palco e dizer “foda-se essa administração, foda-se Trump, foda-se o ICE” e tocar “Fuck Authority”. O público sabe exatamente o que fazer.
Essa música foi escrita sobre um sistema policial abusivo em Los Angeles que estava envolvido em corrupção, assassinatos e tráfico de drogas. Quando isso veio à tona, foi a inspiração para a música. Todos ajudaram a escrever, mas a ideia começou ali.
No fim das contas, todos têm alguém abusando de autoridade. Pode ser polícia, pais, professores ou governo. Muitas pessoas usam o poder que têm para explorar os outros, e é disso que a música fala.
Agora, com o que está acontecendo nos Estados Unidos, a música parece ainda mais relevante. É como “Killing in the Name”, do Rage Against the Machine. Essas músicas continuam importantes porque sempre haverá pessoas lutando contra abuso de poder.

Realmente é muito atual, minha irmã também mora na Califórnia e ela está bem preocupada com a atuação do ICE.
Olha, eles falam sobre pegar criminosos e estupradores e toda essa merda. Primeiro de tudo, nem todos são criminosos e nem todos são estupradores. É assim que o Trump tenta classificar todo mundo e isso é besteira.
Ninguém vai reclamar se você pegar criminosos. Mas quando você pega o cara que trabalha na construção, o cara que trabalha no restaurante, as mulheres que trabalham em hotéis ou os caras que trabalham no campo, aí estamos falando de pessoas muito trabalhadoras.
Eu cresci na construção civil e metade dos trabalhadores comigo eram indocumentados. E eles eram as melhores pessoas: ótimos pais de família, pessoas muito honestas. São trabalhadores muito fortes. Atacar essas pessoas na rua é doentio. É simplesmente doentio. É fascista. Se você vier na minha casa, bater na minha porta usando máscara e sem identificação, vai ter problema. Isso é algo totalmente sem precedentes.
Eu acho que toda administração já fez coisas ruins, mas essa cruzou muitas linhas e causou muito dano. É uma tragédia, porque pessoas do mundo todo querem vir para a América e agora estão voltando por causa dessa merda. E até muitos dos próprios eleitores dele — provavelmente uns 35%, 40% — já estão dizendo: “Foda-se esse cara. Você prometeu algo diferente e está entregando isso.”
Então é um momento triste para mim como americano. Eu quero que a América seja um lugar melhor. Quero resolver os problemas aqui e tornar o país melhor. Mas quando digo isso, os apoiadores do Trump falam: “Foda-se, você não é patriota. Se não gosta, vá embora”. E eu respondo: não, nós deveríamos consertar. Se eu não gosto, eu quero consertar.
E vocês estão bem com esses problemas e acham que apoiar essa merda é patriótico? Eu digo: foda-se, isso não é patriótico. Então é difícil. Mas vamos passar por isso. Acho que é uma lição dura. Vai levar muito tempo para reparar o dano, mas o tempo dele vai acabar em breve, com certeza.
Em julho completa 30 anos da morte de Jason Thirsk e “Bro Hymn” virou não só um hit, como um dos riffs de baixo mais icônicos do punk. Inclusive, foi o primeiro riff que aprendi no baixo. Como você vê a dimensão que essa música tomou?
É louco. Você nunca imaginaria que essa música chegaria onde chegou. Ela quase nem entrou no álbum. Era basicamente uma música de festa para nossos amigos.
Eu disse que precisávamos gravar “Bro Hymn” e alguns caras da banda falaram que era só uma música de festa. Mas eu sentia que era importante. Ela era lenta, tinha poucas letras, mas tinha aquela parte do “wo-wo-wo” e aquela base forte.
Quando Jason morreu, gravar novamente a música como tributo pareceu a coisa certa a fazer. Hoje ela virou algo muito maior. Se você perde alguém querido, um irmão, um amigo, um pai ou até um cachorro, a música passa a ter um significado.
Muitas pessoas usam “Bro Hymn” em funerais de amigos. Quando milhares de pessoas cantam juntas pensando em alguém que perderam, a energia é absurda. É como uma grande bola de amor no meio da multidão. E você nem precisa ser punk para se conectar com ela. Basta ouvir a música e ler a letra. Isso é algo muito poderoso.
Você tocou no We Are One em 2018. Como é voltar ao festival e estar na estrada com o Millencolin?
O Gus, que promove o festival, é um grande amigo nosso e extremamente apaixonado por punk rock e pelo Pennywise. É muito legal trabalhar com alguém que realmente ama a banda, porque todo mundo está ali pelos motivos certos.
O Millencolin são nossos irmãos de longa data. Somos todos da Epitaph Records. Fizemos uma turnê juntos na Austrália há pouco tempo e foi muito divertido. É ótimo estar com amigos na estrada e também assistir ao show deles todas as noites.
Algumas noites eles tocam antes, outras depois. Você faz o show, pega uma cerveja ou um rum e fica assistindo à banda tocar. É uma grande festa. O Mute também é ótimo, então vai ser uma tour incrível.
Vocês também voltam ao Brasil para tocar no Porão do Rock, em Brasília. Sabia que haverá várias bandas de hardcore no mesmo dia? Você se sente mais em casa em festivais assim?
Sim, com certeza. Muitos festivais na América do Sul têm uma mistura grande de estilos e às vezes apenas uma banda punk. Então quando há várias bandas do mesmo universo é ótimo.
Recentemente tocamos em um festival na Colômbia com várias bandas de hardcore e foi incrível. Acho que havia umas 12 mil pessoas. Ter outras bandas com uma pegada parecida sempre ajuda, porque traz fãs que também gostam do nosso som. Estou ansioso para ver essas bandas e compartilhar o palco com elas.
Você trouxe a turnê de 20 anos de About Time para Santos. Tem alguma memória daquele show ou da cidade?
Provavelmente não. Acho que naquela época eu estava bebendo muitas caipirinhas, porque ainda não tinha diabetes tipo 2.
A verdade é que muitas coisas viram um borrão na minha mente. Cada show tem sua energia, principalmente na América do Sul. Brasil, Chile, Argentina, todos têm uma energia absurda. Faço tantos shows que às vezes é difícil lembrar de um específico, mas tenho certeza de que foi um ótimo show.
Os fãs brasileiros podem esperar alguma surpresa no setlist?
Acabamos de começar a discutir o setlist porque somos péssimos nisso. Sempre deixamos para a última hora.
Estamos entrando na sala de ensaio daqui a pouco e a ideia é tocar músicas de vários álbuns. Talvez tenha algumas faixas que normalmente não tocamos.
Também gostamos de incluir um cover ou dois. Talvez algo apareça. Eu adoraria tocar “Ace of Spades”, do Motörhead, que gravamos recentemente para um tributo. Então acho que vai ter um pouco de tudo: os clássicos e algumas surpresas.
Recentemente entrevistei Badaui, do CPM22, e ele falou de você com muito carinho. Qual é a relação de vocês com as bandas brasileiras?
Sinceramente, eu gostaria de conhecer mais bandas do mundo todo. Minha vida é muito corrida. Produzo bandas, trabalho com o Pennywise, cuido de merchandising, design de camisetas, tudo.
Já tocamos com muitas bandas brasileiras legais e fizemos amizades. Muitas vezes alguém vem falar comigo e diz “lembra daquela noite em 2010 que ficamos bebendo até de manhã tocando violão?”. E eu respondo que não lembro.
Tenho boa memória, mas geralmente estou bem bêbado no fim da noite. Mas eu adoraria ter mais tempo para conhecer bandas novas. Sempre recebo CDs ou músicas de pessoas que encontro na estrada. Às vezes coloco no carro e descubro algo incrível. Então estou sempre aberto a ouvir coisas novas e conhecer mais gente da cena.