Entrevista | Riviera Gaz – “Nesse álbum trabalhamos muito mais juntos para construir essas músicas”

Entrevista | Riviera Gaz – “Nesse álbum trabalhamos muito mais juntos para construir essas músicas”

O Riviera Gaz lançou nesta sexta-feira (21) Catacroma, segundo álbum de estúdio do trio formado por Gustavo Riviera (Forgotten Boys), Paulo Kishimoto (Pitty, Forgotten Boys) e Steve Shelley (Sonic Youth). Sucessor de Connection, de 2018, o disco chega após um intervalo de oito anos e amplia a proposta experimental da banda, transformando estruturas inicialmente mais diretas de rock em composições marcadas por psicodelia, pós-punk, krautrock e experimentações de estúdio. O trabalho é lançado pela ForMusic Records em parceria com a Revolver.

Diferentemente do primeiro álbum, construído principalmente a partir das composições de Gustavo Riviera, Catacroma nasceu de um processo mais coletivo entre os três músicos. A bateria de Steve Shelley assume papel central na condução das faixas, combinando elementos do blues com grooves hipnóticos, enquanto riffs, fuzz e diferentes camadas sonoras são constantemente desconstruídos e reorganizados. A mixagem e a edição também se tornaram parte do processo criativo, com influências que passam pelo produtor Roy Cicala, pelos remixes de Mind Games, de John Lennon, e pelas fases mais experimentais de Erasmo Carlos.

Faixas como “Lonely Moon”, “Name the River” e o instrumental “Crime Scene” exemplificam essa nova fase, na qual o Riviera Gaz busca caminhos menos previsíveis e uma sonoridade mais expansiva. Formado em 2016, o grupo estreou naquele mesmo ano com o EP Pere Ubu e lançou Connection dois anos depois, período em que excursionou por Brasil, Argentina, Uruguai e Chile. Em Catacroma, o trio retoma essa trajetória com um trabalho que evita uma definição única de gênero e consolida uma identidade construída a partir da mistura entre rock, glam, psicodelia e experimentação.

Em entrevista ao Blog N’ Roll, Gustavo Riviera, Paulo Kishimoto e Steve Shelley falaram sobre o processo coletivo de criação de Catacroma, os motivos para o intervalo de oito anos desde Connection e os planos de levar o novo álbum para os palcos. O trio também comentou a dificuldade de definir a sonoridade do Riviera Gaz, as mudanças na forma de consumir música e a relação de Shelley com o Brasil e outros projetos ao longo da carreira.

Começando pelo Paulo e pelo Gustavo: como surgiu a ideia de aproximar o Steve do que acabaria se tornando o Riviera Gaz?

Paulo Kishimoto: O Gustavo tinha algumas ideias para um projeto paralelo ao Forgotten Boys. Naquela época, eu estava na banda, tocava com o Forgotten Boys, e o Gustavo ia sair do país para passar um ano fora do Brasil. Então queríamos nos apressar e gravar uma espécie de demo dessas cinco músicas, acho que eram cinco músicas novas.

Gravamos aqui no estúdio. Eu gravei o baixo e também a bateria, e ficamos com essa demo pronta. Depois ele passou um ano morando em Paris e compôs, na verdade, acho que o restante do primeiro álbum por lá, certo?

Gustavo Riviera: Sim, sim.

Paulo Kishimoto: Então tínhamos essa demo com cinco músicas. Antes de gravar o álbum inteiro, fizemos um EP com quatro ou cinco músicas chamado Pere Ubu. Foi a primeira coisa que gravamos. Eu tinha feito a bateria na demo, mas queríamos ter um baterista de verdade tocando com a gente.

Eu já conhecia o Steve naquela época. A gente tinha se encontrado algumas vezes e tínhamos um amigo em comum, o Matias Corral, fotógrafo argentino que mora em Paris. Foi através do Matias que conheci o Steve quando ele veio para cá tocar com o Lee Ranaldo e, depois, com o Thurston. Quando ele voltou, acho que novamente com o Lee, tivemos a ideia de convidá-lo para gravar nosso primeiro EP. Foi assim que o Steve entrou para a banda.

Steve: o Paulo e o Gustavo vieram da cena brasileira e você veio da cena americana, especialmente de Nova York, que também é muito rica. Rolou algum choque de referências musicais no começo ou vocês simplesmente começaram a tocar e tudo funcionou?

Steve Shelley: Acho que no começo simplesmente começamos a tocar juntos. Muitas vezes, quando você inicia uma nova relação musical, as coisas acontecem muito rápido. Talvez o Paulo se lembre de uma maneira diferente, mas eu lembro que tudo se encaixou com bastante facilidade, sem muita discussão. Não precisávamos planejar muito. Para muitos músicos, você simplesmente entra lá e começa a tocar.

E como foi a recepção ao primeiro disco? Você sentiu que seu nome levou alguns fãs do Sonic Youth até o Riviera Gaz e, consequentemente, apresentou o trabalho do Gustavo e do Paulo para essas pessoas, incluindo o Forgotten Boys e outros projetos?

Steve Shelley: Acho que o background de todos nós ajuda a fazer as pessoas ouvirem. Então, claro, provavelmente alguns fãs do Sonic Youth foram conferir, mas também existem pessoas que conhecem o Paulo e o Gustavo da cena musical brasileira e ficaram interessadas. Acho que sim, mas não sei realmente.

Vocês são praticamente um supergrupo, o que gera muito interesse. Agora vem a pergunta óbvia: oito anos! Por que demorou tanto para vocês fazerem outro disco?

Gustavo Riviera: Talvez porque moremos em países diferentes e não estejamos juntos com tanta frequência. A distância entre nós torna difícil nos reunirmos e trabalharmos da maneira que gostaríamos. Acho que queremos tocar mais e gravar mais, mas não é tão fácil.

Steve Shelley: Acho que talvez a pandemia também tenha ajudado a acelerar essa sensação. O tempo mudou desde a pandemia. Oito anos passam muito mais rápido hoje do que passavam algum tempo atrás.

Paulo Kishimoto: Sim. E acho que depois da pandemia o mundo inteiro começou a fazer várias coisas. Desde a pandemia, eu tenho tocado bastante com a Pitty e comecei a tocar com muitas bandas. O Gustavo também trabalha com o mundo das artes, com galerias e instalações junto com a esposa dele.

Então nós três estávamos viajando e tocando. Acho que foi por isso eque demorou tanto. E, na verdade, quando começamos a fazer esse novo disco, o Steve veio para cá e nós já tínhamos algumas ideias, alguns pontos de partida.

Esse disco, diferentemente do primeiro, nós compusemos juntos. Também desconstruímos juntos. No primeiro, o Gustavo chegou com muitas ideias que já estavam prontas. Este foi um álbum que desenvolvemos entre nós três.

O Steve veio para cá uma vez para gravar o álbum. Nós ensaiamos e gravamos. Depois, ele voltou um ano mais tarde para terminar o disco e gravamos mais músicas. Então todo o processo levou bastante tempo, uns dois ou três anos. Talvez até mais. Nem sei exatamente quando começamos.

Eu achei interessante saber que algumas músicas começaram como rocks mais diretos e depois foram ficando mais psicodélicas e experimentais. Tem alguma música em que vocês lembram de pensar: “Uau, isso está virando algo completamente diferente”?

Gustavo Riviera: Sim, provavelmente todas. Começávamos com uma ideia e depois experimentávamos ritmos diferentes ou outras maneiras de tocar. No fim, elas se transformavam em coisas muito diferentes daquilo que imaginávamos no começo.

Mas não era algo decidido, do tipo: “Vamos deixar isso mais psicodélico” ou alguma coisa assim. Era algo que criávamos juntos para ver o que acontecia.

Hoje em dia todo mundo procura um rótulo porque acaba sendo mais fácil apresentar uma banda. Eu sinto em vocês um pouco de indie rock, alternative rock e até um pouco de britpop. Como vocês se definem?

Steve Shelley: Não acho que a gente tenha tentado se definir.

É sempre difícil, né?

Steve Shelley: Sim. Ou talvez simplesmente não estejamos interessados nisso. Acho que estamos mais interessados em descobrir qual será a próxima música ou qual será a próxima coisa que vamos fazer. Não acho que realmente pensemos em gêneros.

Talvez devêssemos, mas não pensamos. [risos]

Gustavo Riviera: Sim. Às vezes, quando você tem uma definição, fica mais fácil para as pessoas entenderem a banda. Mas não estamos pensando nisso agora.

O que mudou de Connection para Catacroma? Vocês entraram querendo fazer algo diferente desta vez ou simplesmente deixaram as músicas mostrarem para onde queriam ir?

Gustavo Riviera: A experiência foi totalmente diferente de Connection. Nesse álbum trabalhamos muito mais juntos, escrevemos as músicas juntos e ensaiamos juntos para construir essas músicas.

Então foi muito diferente do primeiro, porque no primeiro eu já tinha as músicas mais definidas. Nesse novo álbum fizemos todas as músicas juntos. E também já tocamos mais vezes juntos, então temos mais maneiras de compartilhar ideias.

Paulo Kishimoto: Nós nos conhecemos melhor agora também, né? Tocando juntos.

Steve Shelley: Acho que também tem uma coisa: quando fizemos as gravações anteriores, o Forgotten Boys estava em hiato, e agora o Forgotten Boys está ativo novamente. Então sentimos fortemente que essas músicas deveriam ser uma expressão diferente para o Gustavo, e não a mesma experiência que ele já tem no Forgotten Boys.

Então o Paulo e eu criamos muitos problemas para as músicas. [risos] Ficamos falando: “E se fizermos isso?”. Talvez seja assim que elas acabem mudando um pouco.

E quais são os planos depois do lançamento? Vai ter turnê?

Gustavo Riviera: Sim, esse é o plano. Esperamos que sim. Estamos tentando marcar alguns shows aqui no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo. Mas sim, o plano é fazer uma turnê.

Já existem alguns shows sendo negociados no Brasil ou vocês estão pensando em outros países também?

Gustavo Riviera: Ainda não temos todos os shows confirmados.

Paulo Kishimoto: Sim, ainda não temos todos os shows confirmados. Já tocamos em outros países no passado, como Uruguai, Argentina e Chile, além de algumas partes do Brasil. Mas ainda não temos um plano fechado.

Esse álbum tem seu próprio ritmo. Eu já desisti de tentar fazer as coisas acontecerem dentro de um cronograma. É meio louco. Na verdade, é um ano muito peculiar aqui no Brasil para lançar material novo, porque acabamos de ter a Copa do Mundo e agora teremos as eleições. É meio difícil conseguir a atenção das pessoas.

Especialmente aqui no Brasil, com tanta cultura, música e também toda a política, que ninguém consegue ignorar. Isso acaba interrompendo um pouco as coisas até as eleições terminarem. É difícil conseguir a atenção das pessoas.

Mas acho que temos esse álbum muito bonito e legal pronto para ser lançado.

Para alguém que ainda não conhece o Riviera Gaz, por qual música vocês recomendariam começar quando o novo álbum sair?

Paulo Kishimoto: Bom, acho que lançamos dois singles e acredito que a escolha deles tem bastante relação com a sua pergunta. Então eu começaria pelos dois primeiros singles. E, como uma faixa extra, para mim seria “Lonely Moon”.

Steve, uma para você. De todos os shows que você fez aqui no Brasil, qual ficou mais marcado na sua memória?

Steve Shelley: Cara, essa é uma pergunta difícil. Qual lembrança escolher? Bom, claro que a primeira vez foi ótima.

Curiosamente, viemos por causa de um festival chamado Free Jazz, que nós não sabíamos que tinha o nome de uma marca de cigarros. [risos] Sim, o cigarro nos trouxe para cá.

Mas foi um momento muito marcante porque estávamos muito curiosos. Sabíamos um pouco sobre a música do Brasil, mas não sabíamos muito. E até hoje ainda há muito mais para aprender. Mas foi realmente um momento maravilhoso.

E, anos depois, quando voltei para a cidade e tocamos com Lee Ranaldo e Dust naquela praça, ao ar livre, aquele também foi um dia muito marcante no Brasil para mim.

Paulo Kishimoto: Foi no Largo da Batata.

Steve Shelley: Isso! Obrigado.

Para quem está lendo e ainda não acompanha o trabalho de vocês além do Riviera Gaz, resumidamente, em quais outros projetos, bandas e colaborações vocês estão envolvidos atualmente?

Gustavo Riviera: Bom, o Steve tem muitos projetos. Eu ainda toco com o Forgotten Boys, e é isso.

Steve Shelley: Sim, tenho muitos projetos agora, o que é estranho porque não planejei nada disso. Atualmente toco com um grupo meio country em Manhattan chamado Cat Casual & The Final Word.

Também toco com Douglas McCombs, do Tortoise, em uma banda chamada Sick Gazelle. Acabamos de lançar um disco neste verão. Também toco em um trio com Bill Orcutt e Ethan Miller. Então isso tem me mantido ocupado.

E hoje estou aqui em Kingston, onde o Gustavo fez algumas das primeiras demos para o novo disco. Estou aqui começando uma pequena turnê com alguns dos integrantes do Winged Wheel, que é outro grupo grande do qual faço parte, com umas seis pessoas.

Vocês começaram numa época em que lançar um disco envolvia gravadora, prensagem, distribuição, lojas de discos, rádio… Hoje alguém pode gravar uma música no quarto e colocá-la no mundo no mesmo dia. O que vocês acham que é melhor hoje e o que era melhor naquela época?

Steve Shelley: Estava esperando para ver se algum de vocês ia pegar essa. [risos]

Gustavo Riviera: Você já falou sobre isso antes, então tem mais experiência.

Paulo Kishimoto: Na minha época? [risos]

Gustavo Riviera: Acho que o problema não está em gravar. Acho que está na maneira como as pessoas escutam música.

Para mim, é melhor termos uma maneira fácil de gravar, uma maneira fácil de lançar músicas e de entrar em contato com mais pessoas. Mas acho que a forma como artistas, músicos e o próprio público escutam música hoje é totalmente diferente da nossa geração.

Então é diferente. Não sei se é bom ou ruim, mas hoje as pessoas escutam música e acho que os algoritmos dos serviços de streaming entregam as coisas para elas. Tudo fica mais fácil. Até o gosto fica mais fácil de definir.

O problema é que você não comete erros. Você não escuta coisas das quais não gosta, não escuta coisas diferentes que talvez nunca fossem recomendadas para você.

Talvez isso também faça com que artistas criem músicas especialmente para funcionar dentro desse sistema, para atingir determinados números e sem correr riscos. Esse é o problema. Fazer músicas mais curtas para se conectar rapidamente com as pessoas. É isso que vejo como um problema. Mas não sei. Não tenho certeza de nada.

Steve, tenho uma última curiosidade. Você tocou com tanta gente ao longo dos anos, mas tem uma colaboração sobre a qual preciso perguntar: Yoko Ono. Como é tocar com a Yoko? Porque imagino que você nunca saiba exatamente o que vai acontecer nos próximos segundos.

Steve Shelley: Sim, Yoko foi incrível. Toquei com ela alguns anos atrás. Bom, talvez já tenha mais de dez anos agora. [risos]

Foi nesse grande clube em Londres chamado Cafe Oto. Thurston Moore me convidou. Ele já vinha tocando com ela havia alguns anos e eles fizeram algumas colaborações. Então Thurston me convidou para tocarmos como um trio, com Yoko como a terceira pessoa.

Foi uma alegria fazer aquilo. Passei um tempo muito bom com ela.

Nós fizemos o show e foi um ótimo concerto. O Cafe Oto é um lugar muito especial e pequeno em Londres, então foi um show muito pequeno para alguém como a Yoko.

Uma das minhas lembranças é que gosto de usar aquelas varetas, aquelas varetas brancas, e tocá-las nos pratos. Adoro fazer isso e já faço há anos. E, com a Yoko, teve um momento em que eu estava tocando bem baixinho. Ela se virou para mim, ficou completamente concentrada em mim e começou a cantar para mim enquanto eu tocava os pratos.

Acho que nunca vou esquecer aquilo. Foi um momento incrível com a Yoko. Foi um prazer. Realmente um prazer.