O Unto Others fará sua primeira apresentação no Brasil no dia 28 de março de 2026, com show único em São Paulo, no Burning House. A estreia marca a chegada de uma das bandas mais comentadas da cena alternativa pesada atual ao país, cercada de expectativa pela intensidade de suas performances e pela conexão que costuma criar com o público ao vivo.
Formado em Portland em 2017, o Unto Others surgiu inicialmente sob o nome Idle Hands e rapidamente chamou atenção por sua combinação de heavy metal tradicional com atmosferas sombrias do goth rock, mesmo que não tenham a intenção de pertencer ao movimento. A banda construiu uma identidade própria nesses onze anos, marcada por melodias fortes, clima introspectivo e apresentações intensas.
Após se destacar em turnês pelos Estados Unidos e Europa e dividir palco com gigantes do metal como King Diamond, Arch Enemy, Carcass e Behemoth, o Unto Others consolidou seu nome como uma das forças mais interessantes da cena alternativa pesada atual. Em entrevista ao Blog N’ Roll, o vocalista Gabriel Franco fala sobre a expectativa para o debute no país, a relação da banda com o rótulo gótico e os aprendizados ao longo da carreira.
Esta será sua primeira vez no Brasil. O que você já sabe ou ouviu sobre o público brasileiro antes desse debut em São Paulo?
Eu já ouvi um pouco, não apenas sobre o Brasil, mas sobre a América do Sul em geral. Parece que os fãs de metal e rock and roll são completamente loucos. Mas o Brasil, especificamente, tem uma reputação ainda mais intensa. Estamos animados, claro. Nunca estivemos aí. Eu conheço, surpreendentemente, muito pouco sobre o Brasil além da Amazônia e coisas assim. Nos Estados Unidos, a gente não aprende muito sobre o Brasil enquanto cresce. Então estou curioso para provar comidas diferentes, conhecer a cidade, ver a cultura e tudo mais.
Você recebe muitas mensagens de fãs brasileiros nas redes sociais falando o famoso “Come To Brazil”?
Sim, recebemos. E isso já virou quase uma piada, porque é realmente insano. O Offspring até escreveu uma música chamada Come to Brazil. Isso diz muita coisa.
O show será no Burning House, que é um local intimista. Os fãs podem esperar um setlist criado especialmente para essa estreia ou será o mesmo da turnê?
Nós vamos tocar basicamente o mesmo setlist da turnê. Normalmente é assim que funciona, porque é um pouco complicado mudar tudo. Mas, se as pessoas pedirem algo especial, às vezes a gente adiciona. Não é um grande problema tocar outra música para nós. Mas, em geral, o setlist é o mesmo todas as noites.
Vocês usam dados de plataformas como o Spotify ou outros streamings para definir o repertório?
Até certo ponto, sim. Se eu abrir nosso Spotify agora, as músicas que estão no topo são exatamente as que tocamos em todos os shows. Então essas precisam estar no setlist. Hoje temos cerca de nove ou dez músicas que são obrigatórias. Isso já dá uns 30 ou 40 minutos de show. Depois disso, escolhemos a próxima meia hora de forma mais livre, tocando coisas que queremos ou que estamos com vontade de tocar naquele momento.
No Brasil, há uma parcela que frequenta shows de rock sem conhecer muito a banda que irá tocar. Para quem ainda não conhece o Unto Others no Brasil, qual música você escolheria para apresentar a banda?
Eu provavelmente escolheria uma das nossas músicas mais conhecidas, Give Me to the Night. Ela é rápida, muito divertida e acho que quase qualquer pessoa pode gostar. Outra opção seria Can You Hear the Rain, que eu considero a nossa música mais bem escrita.
O Unto Others é frequentemente associado ao goth rock. Como você define o movimento gótico hoje, musical e culturalmente?
Eu não sou gótico. Nós somos associados ao goth rock, as pessoas nos chamam assim, e eu não nego. De fato, nos encaixamos ali. Mas, se você ouvir nossa música com atenção, há muitas influências que não são goth rock ou post-punk. Sobre o movimento em si, eu gosto muito do que bandas maiores estão fazendo hoje, como Lebanon Hanover e Twin Tribes. Eu amo essas bandas. Já no underground, eu não acompanho tanto.
Eu sempre fui mais um cara do heavy metal e gosto de gritar isso: “Somos uma banda de Heavy Metal”. Desde o começo, eu digo que o Unto Others era uma banda de heavy metal, mas eu canto grave e é porque não consigo cantar agudo. Essa é a minha voz natural. Foi assim que acabamos soando mais góticos e o rótulo veio.
Com o tempo, as pessoas começaram a dizer que eu soava como tal ou tal vocalista, e aí fui conhecendo mais bandas. Antes desse rótulo, a única banda gótica que eu realmente conhecia era Sisters of Mercy. Hoje, claro, as influências estão em todo lugar. Eu amo The Smiths, The Cure, Depeche Mode. Estou feliz em fazer parte de qualquer movimento que esteja acontecendo agora.
Realmente eu achei vários portais relacionando vocês com Sisters of Mercy e Type O Negative, mas seu som também remete a outras bandas. Quais são suas principais influências?
A comparação com Type O Negative foi engraçada, porque aconteceu por muito tempo e eu nunca gostei muito disso. Eu respeito demais o Peter Steele e o Type O Negative. Nunca quis que as pessoas achassem que estávamos tentando copiar a imagem deles. Eles são uma coisa, nós somos outra. Mas, curiosamente, às vezes sinto que tenho coisas em comum com o Peter Steele. Ele trabalhou como funcionário de parques por sete anos em Nova York. Eu também trabalhei como funcionário de parques por sete anos na minha cidade.
No começo, eu gostava muito de death metal. Amava Sisters of Mercy e ainda amo. Iron Maiden, Judas Priest, todas as bandas clássicas de metal. Essa é a cena de onde eu vim. Com o tempo, minhas referências se expandiram para The Smiths, Rush, Suicidal Tendencies. Eu gosto de bandas que empurram limites e fazem o que querem, como o Ministry. A maior música deles é Jesus Built My Hotrod, que é completamente maluca, mas eles tiveram coragem de lançar aquilo. Eu admiro artistas que fazem o que querem, independentemente da reação.
Você sente que o rótulo “gótico” pode limitar ou gerar interpretações erradas sobre a banda?
Sim, mas por outro lado os rótulos também facilitam a venda. É muito mais fácil explicar uma banda assim. Olhe para o Blood Incantation, por exemplo. Eles explodiram porque, além de escreverem um ótimo álbum, são fáceis de descrever. Você diz que é como se o programa do History Channel sobre alienígenas fosse uma banda de metal, ou como se Pink Floyd encontrasse o metal extremo, e as pessoas imediatamente querem ouvir. Como artista, você pode se rotular como gótico para vender melhor. Eu não sinto que esse rótulo nos define completamente ou se tem algo mais. Quando eu descobrir exatamente o que é esse algo mais, talvez vendamos ainda mais discos.
Strength foi muito elogiado como álbum. O que você acha que aprendeu entre ele e Never, Neverland?
Entre Strength e Never, Neverland, eu não sei se aprendi muito, porque eu trabalhei demais nos dois. Eu estava bebendo demais, trabalhando demais. Não era nada fora de controle, mas eu estava sempre com medo da banda fracassar ou escapar das minhas mãos. Esse medo não existia nos primeiros lançamentos, como Mana e o primeiro EP. Eles foram feitos sem medo, porque não havia nada a perder. Nos dois últimos álbuns, tudo era sobre o que as pessoas iriam pensar. Hoje eu finalmente consegui me afastar disso. Não há nada a perder. Agora estou confortável em fazer o que eu quero, o que é divertido. É assim que estou abordando a composição do próximo álbum.
Trabalhar com a Century Media afetou a liberdade criativa da banda?
Não. As grandes gravadoras hoje em dia, especialmente no metal, não interferem tanto na composição. Elas podem opinar sobre singles, mas não dizem como você deve escrever suas músicas. Já tínhamos trabalhado com a Roadrunner antes, que também é uma grande gravadora. Century Media está ligada à Sony, então eu já conhecia bem essa engrenagem corporativa. Essas empresas se movem devagar, têm muitas bandas, e você acaba sendo um peixe pequeno em um lago enorme. Isso tem vantagens e desvantagens. Ambas foram ótimas conosco, mas agora estou mais animado para ir para um selo mais íntimo no próximo álbum.
A mudança do nome Idle Hands influenciou o caminho artístico da banda?
Eu gostaria de dizer que não, mas influencia sim. Eu acredito muito que uma banda acaba se moldando ao próprio nome. Olhe para o Megadeth, por exemplo. O nome já remete a política, guerra fria, aniquilação nuclear. As maiores músicas deles seguem essa linha. Metallica também nasceu com um nome tão forte que parecia destinado a ser a maior banda do mundo. Quando mudamos nosso nome, isso passou a influenciar minha forma de escrever. Eu penso se aquilo faz sentido para mim, para os fãs e para o que o nome representa. Eu sei que isso afetou a música, mesmo que eu não consiga explicar exatamente como.
O público do Unto Others parece muito diverso e há também um diálogo da sua música com os anos 80 que estão em alta em séries como Stranger Things, por exemplo. Como você enxerga essa mistura de audiências, de gostos e de idades?
Isso é algo que qualquer pessoa pode perceber ao ir a um show nosso. Você vê metaleiros, pessoas góticas, roqueiros clássicos e gente vestida de forma totalmente normal. Uma vez, em Dallas, um grupo de adolescentes veio tirar foto comigo. Eles pareciam jogadores de futebol americano, cabelo curto, nada de visual alternativo. Disseram que adoravam a banda. Aquilo foi um ótimo sinal. Talvez os mais puristas de cada cena não se importem tanto conosco, mas as pessoas de mente aberta, que só querem ouvir música boa e divertida, essas nós conquistamos.
Pra encerrar, quais são os cinco álbuns que marcaram sua vida?
Blink-182, Enema of the State.
At the Gates, Slaughter of the Soul.
Sisters of Mercy, First and Last and Always.
Cradle of Filth, Cruelty and the Beast.
Ghoul, Splatterthrash.
Poderia falar também qualquer álbum do Slayer ou dos The Smiths que estaria bem representado também.