O Ye Vagabonds se prepara para lançar All Tied Together no próximo dia 30. O álbum aprofunda a relação da dupla irlandesa com o folk contemporâneo e aposta em gravações ao vivo, arranjos mais encorpados e uma abordagem direta tanto no som quanto nas narrativas.
O disco do Ye Vagabonds amplia o alcance artístico dos irmãos Brían e Diarmuid Mac Gloinn, equilibrando intimismo, força coletiva e temas sociais que dialogam com o presente, como a crise habitacional e o sentido de comunidade em tempos instáveis.
Em entrevista ao Blog N’ Roll, a dupla Ye Vagabonds falou sobre o processo de gravação ao vivo do novo álbum, as experiências ao dividir a estrada com artistas como Boygenius e I’m With Her, além da relação entre folk, comunidade e a forte conexão que sentem com o Brasil.
Como foi a decisão de gravar ao vivo e evitar overdubs, moldando o som final do álbum em comparação com os trabalhos anteriores do Ye Vagabonds?
Foi definitivamente uma decisão importante no processo de fazer o álbum. Quando estávamos escrevendo as músicas, queríamos que elas fossem o mais diretas possível e que o disco fosse muito claro na forma como as histórias são apresentadas. A ideia era que fossem íntimas e imediatas ao mesmo tempo.
Quanto menos coisas colocássemos no caminho entre nós, a história e o público, melhor. Para nós, o lugar onde isso sempre funcionou melhor foi no ambiente ao vivo. Então, se pudéssemos recriar o melhor dessa experiência ao vivo, mas com a energia e a atmosfera colaborativa de um estúdio, era exatamente isso que queríamos tentar. E acho que funcionou. Foi muito divertido.
A abordagem mais sólida deste disco foi uma escolha consciente ou uma evolução natural depois de excursionar com o I’m With Her?
Na verdade, o disco já estava pronto antes da turnê com o I’m With Her. Mas todas as experiências de estrada acabam influenciando. Já tínhamos excursionado com Hozier, Phoebe Bridgers e feito alguns shows com a Boygenius. Fazer shows de abertura é uma experiência muito valiosa, porque você toca para um público diferente e passa a ouvir suas próprias músicas de outra forma.
Quando você toca para pessoas que talvez estejam mais acostumadas com um certo tipo de composição, elas respondem de maneira diferente, e você sente isso. Esse retorno ensina coisas novas sobre suas próprias músicas. Sempre que tocamos para públicos diferentes, isso influencia o que fazemos a partir dali. A turnê com o I’m With Her foi incrível nesse sentido, porque o público escutava com muita atenção, reagia às letras em tempo real. Isso te deixa mais presente no momento. Além disso, elas são artistas incríveis, extremamente profissionais, grandes compositoras e musicistas. Foi uma experiência muito bonita.
A colaboração com a Boygenius ajudou a expandir ainda mais o alcance de vocês. Como foram os bastidores desse encontro?
No começo, quando tocamos com a Phoebe Bridgers, ainda era período de Covid, então foi tudo meio estranho. Não havia muita interação nos bastidores, exceto conversas rápidas, mantendo distância. Já na época da Boygenius, conseguimos nos aproximar mais.
A Phoebe é extremamente generosa, focada, inteligente e muito clara nas ideias que tem sobre música. Foi ótimo poder interagir mais e entender um pouco do processo dela. Algo muito especial nessa colaboração foi que, normalmente, quando somos convidados para colaborar, querem nossas vozes. Mas a Boygenius queria o som da nossa banda, a atmosfera que criamos, com cello, contrabaixo e todos os arranjos. Foi a primeira vez que alguém reconheceu isso de forma tão direta, e foi muito especial.
E com quem vocês gostariam de colaborar no futuro?
Temos muitos amigos incríveis. Na Irlanda, gostaríamos muito de trabalhar com Joshua Burnside e Laura Quirke, da banda Lemoncello. Também começamos colaborações em um festival em Cork focado justamente nisso, e dali surgiram trabalhos com artistas como Memorial e Neve Reid. Gostaríamos muito de fazer mais coisas com Sam Amidon, somos grandes fãs de Big Thief, Adrianne Lenker e Buck Meek. E, honestamente, adoraríamos trabalhar de novo com a Phoebe em algum momento.
A música The Flood aborda a crise habitacional. Você acredita que o folk tem o papel de documentar esses problemas sociais?
Eu não diria que a música folk tem um dever de documentar questões sociais, mas acho que isso acaba sendo uma consequência natural de escrever sobre a vida real. Muitas experiências humanas intensas são negativas e estão ligadas a estruturas sociais. Então é natural que essas músicas tenham um elemento político.
A política não vem primeiro, vem a experiência emocional e humana. Ser completamente apolítico é, muitas vezes, uma posição de privilégio. Para nós, a música folk está muito ligada à ideia de comunidade. Em irlandês, a palavra para música folk significa literalmente música comunitária. E se você está falando sobre comunidade, inevitavelmente está falando de política, porque tudo o que afeta uma comunidade é político.
O título All Tied Together sugere união, mas também pode indicar aprisionamento. Que sentimento o Ye Vagabonds quer que prevaleça para o ouvinte?
Existe sempre uma tensão entre comunidade e liberdade pessoal. Não acho que seja papel da arte responder isso de forma definitiva, mas sim oferecer espaço para reflexão. Queríamos chamar atenção para a ideia de que tudo está conectado e que a comunidade está no centro de tudo. É algo muito poderoso.
Ao mesmo tempo, comunidade pode significar muitas coisas diferentes. Para quem vive viajando, como nós, o conceito muda. Pode ser uma rede mais espalhada, menos fixa. Parte do mais empolgante de lançar um álbum é justamente ver como as pessoas interpretam isso e o que o disco se torna para elas.
Há planos de shows no Brasil? O nosso país tem uma conexão forte com o mar e com a natureza. Eu, por exemplo, pratico canoagem havaiana e sinto que a música de vocês combina muito com o oceano e também com a comunidade do surf. Vocês já tiveram contato com a música brasileira?
Nós adoraríamos fazer uma turnê pela América do Sul. Nossa relação com a música brasileira vem de quando éramos adolescentes. Nos apaixonamos por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Os Mutantes, toda a música da tropicalia, além de Seu Jorge. Não estamos totalmente atualizados com a cena brasileira contemporânea, mas adoraríamos explorar isso mais de perto.
Temos um estúdio em Dublin que praticamente virou um quarto brasileiro. Há muitos negócios brasileiros ao redor, um café brasileiro logo abaixo, uma grande comunidade brasileira na cidade. Nos intervalos, descemos para tomar café e comer coxinha. Então, mesmo em Dublin, nos sentimos conectados com o Brasil. Seria incrível poder tocar aí.