O Ladytron, ícone do electropop e synthpop mundial, está de volta e com os olhos voltados para o Brasil. Em uma conversa exclusiva via Zoom com o Blog n’ Roll, os fundadores Helen Marnie e Daniel Hunt detalharam o processo criativo de Paradises, o nono álbum de estúdio da banda, com lançamento confirmado para o dia 20 de março de 2026.
Após 25 anos de estrada, o grupo de Liverpool entrega o que descrevem como seu trabalho mais dançante desde o clássico Light & Magic (2002). O disco, que conta com 16 faixas e 73 minutos de duração, marca o retorno da colaboração com o produtor Jim Abbiss (responsável pelo icônico Witching Hour) e traz uma dinâmica vocal renovada, incluindo duetos inéditos entre Helen e Daniel.
Para o público brasileiro, o destaque do Ladytron fica por conta de Daniel Hunt. Morador de São Paulo há 12 anos, o músico revelou como a cultura brasileira, de Wagner Moura a influências sutis da MPB, se infiltrou subconscientemente nas novas composições.
Confira abaixo a íntegra da entrevista com o Ladytron, onde eles falam sobre a “tropicalização” do som da banda, o caos criativo em estúdio e a promessa de uma turnê pela América do Sul ainda em 2026.
Paradises é descrito como o trabalho mais voltado para a pista de dança desde Light & Magic. O que motivou o Ladytron a abraçar essa sonoridade disco tão diretamente agora, após 25 anos?
Daniel Hunt: Eu sempre digo que temos esse elemento, sempre estivemos próximos da música dance, mas nunca fomos exatamente “música dance”. Nunca fizemos um álbum disco propriamente dito, mas sentimos vontade e pensamos nisso antes. Acho que, neste álbum, esse elemento ganhou mais destaque. Está mais em foco do que em qualquer momento desde o segundo álbum. Não é que ele tivesse desaparecido, é uma questão de ênfase. É mais dançante no geral, mas ainda somos nós, abraçando nosso lado disco.
O single Kingdom of the Undersea apresenta um dueto entre vocês dois. Como surgiu essa dinâmica e o que ela representa no álbum?
Helen Marnie: Dani e eu já fizemos duetos algumas vezes, e nossas vozes combinam muito bem. Mas foi o Daniel quem decidiu que seria assim desta vez…
Daniel Hunt: Na verdade, nossas vozes funcionam como uma espécie de Nancy Sinatra e Lee Hazlewood. Essa foi nossa inspiração original. Quando fizemos a primeira demo, cantei um vocal guia e percebemos que funcionava. Não foi exatamente uma decisão minha, mas as pessoas que ouviam diziam que eu deveria manter. É a primeira vez que temos as vozes de nós três (eu, Helen e Mira) na mesma faixa em algumas músicas, como For a Life in London.
Vocês trabalharam novamente com Jim Abbiss (Witching Hour). De que forma a visão dele ajudou a moldar o som de Paradises?
Helen Marnie: O Jim é o mais próximo que temos de um “quinto Beatle”. Ele nos conhece muito bem. Quando gravo um vocal e sei que ele está lá, me sinto confiante porque ele torce por nós. Um bom produtor extrai o melhor do artista.
Daniel Hunt: Ele entrou como produtor e mixador adicional. Reservamos duas semanas no estúdio do Tony Visconti (produtor do Bowie) no Soho, em Londres. Foi uma fase caótica. Tínhamos um álbum quase pronto, mas fomos para lá para criar o caos e ver o que funcionaria. Ele traz uma alma e uma compressão analógica maravilhosa para o som.
Daniel, você mencionou que o processo foi muito fluido e rápido. A que você atribui essa rapidez criativa?
Daniel Hunt: No meu caso, tenho uma filha pequena e percebi que precisava ser super eficiente. Eu entrava no estúdio e sabia que tinha que ter um resultado, porque a qualquer momento ela bateria na porta. Ela até tem créditos em uma das músicas! Começou a improvisar, eu gravei, e agora ela é basicamente nossa empresária (risos). Ela me pressiona todo dia para fazer música nova.
O álbum tomou forma entre Londres e São Paulo. Como a cultura brasileira se infiltrou no som do Ladytron?
Daniel Hunt: É subconsciente, mas poderoso. É difícil ser estrangeiro, morar aqui há 12 anos e não ser afetado. Algumas pessoas me dizem que o álbum soa brasileiro em certos momentos e eu nem tinha percebido, mas agora não consigo desouvir. Tem uma vibe meio MPB em uma das faixas. Quando você ouvir o álbum inteiro, terá que adivinhar qual é!
E como você vê essa sua “tropicalização” pessoal?
Daniel Hunt: Meus amigos dizem que sou mais brasileiro que eles. Nas últimas semanas, minhas redes sociais são só trailers de Agente Secreto (filme brasileiro) e vídeos do Wagner Moura. Ano passado, eu estava em Cambridge mixando o álbum, sozinho, assistindo ao Oscar e torcendo pelos brasileiros com uma garrafa de vinho. Este ano, estarei em Liverpool ensaiando para a turnê durante o Oscar, então a Helen prometeu assistir comigo.
Helen Marnie: Sim, faremos uma festa do Oscar na minha casa e eu vou tentar ser a melhor brasileira de todos os tempos para torcer com ele!
O Ladytron sempre teve um público fiel na América Latina. Como vocês comparam a recepção daqui com a da Europa?
Daniel Hunt: Nossa ligação com o Brasil começou muito cedo, lá por volta de 2000. O público na América do Sul é muito mais agitado. Você sai do avião e já tem gente esperando.
Helen Marnie: Na Europa é mais contido. Não significa que não gostem, mas não demonstram da mesma forma. No México e no Brasil, eles não têm medo de mostrar apreço. E existe essa competição entre os países para ver quem é o melhor público, os chilenos e argentinos também são ferozes.
Daniel Hunt: O Brasil gosta de ganhar em tudo (risos). Se a Argentina fez barulho, os brasileiros querem fazer mais. É como o cachorro-quente ou a pizza no Brasil: vocês pegam algo e aprimoram, deixam exagerado e melhor.
Para encerrar, com o lançamento em março, os fãs brasileiros podem esperar uma turnê por aqui em breve?
Daniel Hunt: (Em português) Com certeza. Nós realmente queremos voltar ao Brasil. A última vez foi em 2011, no Cine Joia, em São Paulo. Queremos muito voltar e estamos conversando com algumas pessoas agora para organizar uma pequena turnê pelo Brasil e pela América do Sul ainda este ano.