Pouco mais de um ano após esgotar a Audio com uma estreia eletrizante em São Paulo, o Ocean Alley está de volta ao Brasil para uma turnê ainda mais abrangente. Consolidado como um dos maiores fenômenos do rock psicodélico e costeiro da Austrália, somando mais de 1,5 bilhão de streams, o sexteto desembarca no país nesta semana com apresentações no Rio de Janeiro (05/11, no Circo Voador), Porto Alegre (07/11, no Bar Opinião) e São Paulo (08/11, retornando à Audio).
A nova passagem celebra o sucesso de Love Balloon, quinto disco de estúdio da Ocean Alley. Gravado sob a produção do lendário Nick DiDia (Bruce Springsteen, Rage Against The Machine) e lançado de forma 100% independente pelo selo próprio do grupo, o Community Music, o álbum levou o grupo ao topo das paradas australianas e impulsionou a maior turnê de sua carreira até aqui. O trabalho transita com naturalidade entre o funk suingado à la Nile Rodgers, o blues rasgado e o clima ensolarado e nostálgico das guitarras slide, atmosfera traduzida com perfeição no single Drenched.
Direto de Buenos Aires, na concentração para o início da perna sul-americana da turnê, o guitarrista Mitch Galbraith conversou com o Blog n’ Roll sobre a conexão imediata com o público brasileiro, os bastidores da produção com Nick DiDia, a autonomia artística do grupo e a expectativa para os shows desta semana.
Confira o bate-papo na íntegra a seguir:
Vocês esgotaram a Audio em São Paulo no ano passado e agora voltam tocando no Rio, em Porto Alegre e em São Paulo. O que mais marcou naquele primeiro show do Ocean Alley no Brasil para trazê-los de volta tão rápido?
Fizemos um grande show aquela noite. A casa estava super cheia, e o local lá é muito legal. E, claro, o público brasileiro foi barulhento e estava se divertindo muito. Então, quer dizer, por que não voltaríamos tão rápido? Estamos muito animados para tocar aí de novo.
Sim, é verdade. E Mitch, como foi trabalhar com o lendário produtor Nick DiDia em Love Balloon, e de que forma ele incentivou a Ocean Alley a buscar um som mais cru e espontâneo?
Foi muito bom trabalhar com o Nick. Essa foi a primeira vez que trabalhamos com um produtor diferente, então foi um pouco estressante no começo, especialmente porque sabíamos que o currículo dele era enorme. Mas foi bem divertido. Ele era super tranquilo e não ficava tentando nos dizer o que fazer. Ele apenas oferecia as opiniões dele como um membro da equipe. O conhecimento e o ritmo de trabalho dele foram realmente impressionantes, e isso com certeza nos deu tempo para continuar lapidando as ideias que tínhamos, até mesmo na hora de gravar dentro do estúdio. Então, foi muito legal.
O Lach descreveu o tema do disco como um “rio do amor”, cobrindo da alegria à desilusão. Como os marcos pessoais recentes de vocês moldaram as composições desta vez?
Antes de começarmos a compor esse disco, a vida de todos nós estava mudando de certa forma. Vários de nós estavam começando famílias, mudando de casa e se estabelecendo em regiões diferentes de onde crescemos originalmente, em Sydney. Então acho que todos nós aproveitamos essas experiências e tentamos refletir nossos estados de espírito e sentimentos atuais na música. Foi um processo de composição muito colaborativo, com contribuições de todo mundo. Naturalmente, é isso que os artistas fazem: eles tendem a refletir seus humores e sentimentos do momento na sua arte.
Love Balloon vai do funk à la Nile Rodgers na faixa-título ao blues em Left Of The Dealer e slide country em Drenched. Vocês planejaram explorar tantos gêneros ou isso fluiu organicamente nas jams?
Nós sempre tivemos uma vontade de explorar gêneros diferentes, mas acho que ainda não tínhamos colocado isso em um disco. Então, quando as músicas começaram a sair dessa forma, nós abraçamos o fato de que algumas delas se encaixavam em certos estilos e fomos nessa direção. Foi algo libertador podermos finalmente fazer isso, porque ao longo de todos esses anos juntos, nos aquecimentos, ensaios e jams, a gente sempre experimentava vários estilos por diversão. Poder registrar isso em um álbum foi algo que nos deixou muito amarradões.
Por que escolher Drenched tanto como a faixa de encerramento do álbum quanto como o single principal de divulgação?
Drenched foi a última faixa que escrevemos. Faltavam poucos dias de estúdio, quando praticamente já tínhamos terminado de gravar o disco inteiro. Aí decidimos compor Drenched. O Baden teve uma ideia para alguns acordes e a música tomou forma muito rápido, acho que levou só um ou dois dias para criar a canção inteira. Decidimos que seria um ótimo encerramento porque ela tem uma pegada meio nostálgica, e o Baden tocou violão de 12 cordas nela.
Sentimos que deu um arremate bonito para o disco, bem suave. É uma faixa com muito significado para a gente, porque fala da nossa nostalgia de quando crescemos juntos como crianças e coisas do tipo. Achamos que fechou o álbum muito bem.
A minha próxima pergunta era justamente sobre essa nostalgia. O quanto o clipe reflete a própria juventude de vocês crescendo nas praias do norte de Sydney?
É bem parecido com o que fazíamos, essa era a proposta do vídeo. O diretor com quem trabalhamos viajou até Sydney, voltou para a área onde crescemos, para pesquisar um pouco, conversar com as pessoas, visitar locais onde costumávamos ficar à toa e captar algumas imagens. Não sei se muito desse material entrou na edição final, mas o Duncan mandou muito bem nisso. Foi um direcionamento simples: ele perguntou o que a gente fazia quando era garoto, e nós respondíamos que era basicamente surfar, andar de skate e ficar de bobeira fazendo besteira. Foi um roteiro bem fácil para ele e retrata com muita fidelidade como crescemos juntos e como nos conhecemos antes da banda existir.
Mitch, depois de arrastar mais de 80 mil fãs em arenas na Austrália e Nova Zelândia, o que mais anima a Ocean Alley em tocar em palcos mais intimistas e intensos como Circo Voador, Opinião e Audio aqui no Brasil?
A gente sempre quer tocar para o máximo de pessoas que quiserem vir nos assistir, e nos saímos muito bem nessas situações de energia mais alta. Estamos aprimorando nossa presença de palco há muitos anos, então nos sentimos muito confortáveis também nos grandes shows. É uma honra imensa levar nossa música para o exterior e tocar para plateias internacionais, como na América do Sul e em todos os outros lugares por onde passamos.
Com mais de 1,5 bilhão de streams acumulados, vocês continuam lançando de forma independente pelo selo próprio, a Community Music. Qual é a maior vantagem, e desafio, dessa autonomia do Ocean Alley hoje?
A maior vantagem para nós é sermos donos de todas as nossas músicas e ninguém nos dizer o que fazer. Nós decidimos nossa direção artística e também como queremos gerenciar o lado dos negócios. A palavra final é nossa, e ter esse poder é muito fortalecedor. Sei que nem toda banda ou artista consegue fazer isso, mas deu certo para nós. Foi uma longa caminhada e nos esforçamos muito para manter as coisas assim.
O maior desafio no início é sempre o financiamento e conseguir verba, porque você precisa ser muito disciplinado para guardar seu próprio dinheiro, já que raramente alguém vai injetar uma grande quantia. Mas, como éramos todos bons amigos, combinamos desde o começo que economizaríamos e só tiraríamos algum dinheiro quando fosse possível, depois que todos os custos da banda estivessem pagos.
Estamos muito felizes em continuar independentes e espero que isso sirva de inspiração para outros grupos, porque é uma maneira muito gratificante de fazer música.
Desde a explosão global de Confidence em 2018, como vocês enxergam a evolução e maturidade da banda até chegarem a este quinto álbum de estúdio?
Nós sempre tentamos não compor a mesma música duas vezes; estamos sempre buscando explorar. Acho que neste álbum mais recente, Love Balloon, aconteceu exatamente o que comentei antes: ficamos amarradões por conseguir explorar gêneros e estilos tão diferentes. Estamos ocupados com as turnês este ano, mas já fizemos algumas sessões compondo para um próximo disco no futuro. Ainda está no começo e gostamos de levar com calma, sentir o momento e não apressar nada. É algo empolgante.
Por que você acha que o som costeiro australiano, cheio de psicodelia e groove, cria uma conexão tão forte e natural com o público brasileiro?
Acho que o Brasil também tem uma relação muito forte com o litoral e conta com uma grande comunidade do surf, surfistas muito bons, inclusive. Isso ajuda bastante. Além disso, assim como os sul-americanos, os australianos têm uma visão de vida bem descontraída às vezes, ao mesmo tempo em que são muito apaixonados pelas coisas em que acreditam. Acho que tudo isso se encaixa perfeitamente.
Para fechar, uma pergunta bem fácil: que mensagem você deixa para os fãs brasileiros que estão na contagem regressiva para os shows de novembro?
Já estamos aqui na América do Sul. Temos nosso primeiro show hoje à noite e, até chegarmos ao Brasil, já teremos tocado na Argentina. Então apareçam por lá, mal podemos esperar para ver todo mundo. Vai ser uma experiência incrível!