O cenário indie rock norte-americano ganha um novo fôlego com a ascensão meteórica da banda The Sophs. O grupo, que recentemente chamou a atenção da lendária gravadora Rough Trade, carrega uma mistura audaciosa de pop punk, funk e blues, consolidando uma sonoridade que foge do óbvio. O que começou como demos caseiras enviadas despretensiosamente por Ethan Ramon, o frontman, transformou-se em um dos lançamentos mais aguardados do ano, provando que a convicção artística ainda é a melhor moeda de troca na indústria musical.
O álbum de estreia, Goldstar, que chegou hoje às plataformas de música digital, gravado inteiramente antes mesmo da assinatura do contrato, preserva a urgência e a espontaneidade das primeiras tomadas. Essa energia crua é o fio condutor de um trabalho que explora temas profundos, como a busca incessante por validação externa e a linha tênue entre a bondade genuína e a encenada. Musicalmente, a banda não tem medo de “roubar” referências, indo de cânticos eslavos a estéticas country, criando um mosaico sonoro que soa coeso graças à narrativa afiada de suas letras.
Experimentações no som do The Sophs
Um dos grandes destaques do disco é a experimentação estética. Faixas como Goldstar revelam influências latinas inesperadas, bebendo da fonte do rock argentino de Pescado Rabioso e fundindo-as com a batida clássica dos Rolling Stones. Essa versatilidade técnica é fruto da paixão individual de cada membro por seus instrumentos, permitindo que a banda transite entre o silêncio contido e explosões sonoras que prometem dominar os palcos dos grandes festivais ao redor do mundo.
Em entrevista ao Blog n’ Roll, os integrantes Ethan Ramon (vocalista), Sam Yuh (tecladista) e Cole Bobbitt (baixista) revelaram que a turnê de 2026 já está confirmada para a Europa e os Estados Unidos, mas os olhos (e o coração) estão voltados para o Hemisfério Sul. Demonstrando entusiasmo com a cultura brasileira, mencionaram desde as praias, Pelé até pontos icônicos como o Cristo Redentor. A curiosidade sobre o Brasil é evidente, e a banda parece pronta para levar sua performance intensa para o público sul-americano assim que a oportunidade surgir.
Ethan, você enviou suas demos diretamente para os diretores da Rough Trade. De onde veio essa confiança e você realmente esperava uma resposta tão imediata para o The Sophs?
Ethan: Eu simplesmente acreditava muito na minha música. Com a ajuda do meu diretor criativo, Eric, montamos um material completo: cinco músicas, fotos para a imprensa e um manual da marca com todas as referências. Enviei para 30 gravadoras independentes sem esperar nada, mas sabendo que o material era bom. Recebi a resposta da Rough Trade no dia seguinte. Tem sido surreal, mas não acho que seja desmerecido, temos trabalhado duro por muito tempo.
Como o The Sophs conseguiu manter a urgência e a energia espontânea das demos ao gravar o álbum final em estúdio?
Ethan: Na verdade, o álbum final foi gravado antes de assinarmos o contrato. A maior parte do que você ouve são gravações de primeira tomada, feitas no mesmo dia. Queríamos manter aquela energia impulsiva do começo ao fim, sem perder o frescor das ideias originais.
A música Goldstar fala sobre a busca por validação externa. É uma crítica à necessidade moderna de aprovação ou algo mais pessoal?
Ethan: É um pouco dos dois. É uma versão dramatizada de mim mesmo. Percebi minha tendência a buscar validação e culpar o mundo em vez de assumir a responsabilidade. Escrevi a partir dessa perspectiva, mas acho que acabo falando sobre a maioria das pessoas, porque no fundo não somos tão diferentes assim.
Vocês mencionaram a ideia de “roubar” e plagiarizar artisticamente. Qual foi a coisa mais inusitada que vocês pegaram emprestado para este disco?
Ethan: A estética country em Sweetiepie é bem singular, usamos até uma harpa de boca para criar aquele som. E o final de Blitzed Again tem um canto eslavo completo. Ter essas duas coisas no mesmo disco mostra a nossa versatilidade.

O som de vocês varia do pop punk ao funk e blues. Qual é o segredo do The Sophs para essa mistura não parecer desconexa?
Sam: O fator principal que une tudo é a narrativa das letras do Ethan. Como ela é consistente, nos permite explorar gêneros como o blues de 12 compassos ou melodias eslavas sem perder o foco. Além disso, somos nós que tocamos tudo, então cada música tem nosso toque pessoal, o que garante a coesão.
De onde vieram as influências latinas e os toques de flamenco na faixa Goldstar?
Ethan: Eu estava ouvindo muito o álbum Artaud, do Pescado Rabioso (projeto do argentino Luis Alberto Spinetta). Ao mesmo tempo, eu e o Sam estávamos ouvindo Paint It Black, dos Rolling Stones.
Sam: Decidimos colocar aquele padrão de dedilhado em cima da batida dos Stones e criou algo dinâmico que nunca tínhamos ouvido antes.
Como vocês traduzem a dinâmica entre o silêncio e a explosão para os palcos de grandes festivais?
Ethan: Muito volume! (risos). Mas, sério, todos na banda têm um conhecimento profundo da parte técnica e de engenharia de som. Sabemos quais pedais e instrumentos funcionam melhor em cada contexto. É o resultado de sermos apaixonados pelos nossos instrumentos, o que nos permite ter bom gosto e criar o show perfeito.
O álbum questiona se ser uma boa pessoa pelos motivos errados diminui nossa bondade. Você já encontrou essa resposta?
Ethan: Ainda não. Escrevi um álbum inteiro sobre isso e não consegui uma resposta definitiva. Espero que, quando o mundo ouvir, talvez alguém me dê essa resposta.

Com a turnê de 2026 confirmada, existem planos para o Brasil? E o que vem à mente quando pensam no país?
Ethan: Adoraríamos ir ao Brasil! Assim que tivermos a oportunidade, ficaremos muito felizes em nos apresentar aí.
Cole: Pensamos em praias bonitas, clima bom, futebol, Pelé, e, claro, o Cristo Redentor.
Eu sou de Santos, a cidade onde o Pelé surgiu para o mundo. Aqui tem um museu dele, vocês precisam conhecer.
Cole: Eu irei, com certeza!
Para fechar, quais os três álbuns que mais influenciaram a vida de vocês?
Ethan: Cada um de nós vai dizer um: o álbum autointitulado do Elliott Smith.
Sam: Nurture do Porter Robinson
Cole: Fulfillingness’ First Finale do Stevie Wonder.