Entrevista | Usted Señalemelo – “Sempre tentamos buscar coisas novas”

Entrevista | Usted Señalemelo – “Sempre tentamos buscar coisas novas”

Um dos maiores nomes do indie rock e da música alternativa sul-americana contemporânea, o trio argentino Usted Señalemelo aterrissa em São Paulo na noite deste sábado (27) para uma apresentação que promete ser histórica no Bar Alto. Acostumados a lotar arenas na Argentina e a rodar grandes festivais pelo mundo, incluindo uma passagem recente pelo Lollapalooza Chicago, os músicos trazem à capital paulista um formato intimista.

O grande combustível da noite é o quarto álbum de estúdio do grupo, Términos & Condiciones, lançado no início de 2026. Sucessor do aclamado TRIPOLAR (indicado ao Latin Grammy), o novo trabalho marca uma virada corajosa do trio em direção às pistas de dança. Com uma sonoridade retrofuturista rica em synth-pop, texturas sombrias de eletrônica e batidas de drum and bass, o álbum quebra as fórmulas do rock tradicional e convida o público a habitar o movimento e a experimentação digital.

Para esquentar os motores antes de subirem ao palco, o baterista, Lucca Beguerie Petrich, conversou com o Blog n’ Roll. Em um papo franco e descontraído, Lucca revelou os bastidores do processo de composição feito inteiramente em computadores, detalhou as inéditas parcerias de estúdio com o mexicano Jay de la Cueva e com os norte-americanos do Portugal. The Man, e analisou como o minimalismo estético do novo trabalho serve de manifesto contra o excesso de telas na sociedade moderna.

A conexão do Usted Señalemelo com o Brasil não é de hoje, e Lucca fez questão de reforçar o carinho pelo público local. Relembrando o início da carreira, quando tocaram em São Paulo para apenas duas pessoas que já conheciam suas letras, o baterista celebrou o retorno à cidade ao lado de bandas parceiras da cena brasileira, como Boogarins e Terno Rei, e destacou o quanto o público do país é caloroso e aberto a novas e ousadas experiências sonoras.

A apresentação de hoje no Bar Alto é uma oportunidade única de testemunhar a evolução de uma banda que se recusa a estagnar. Os ingressos para o evento estão disponíveis na Ingresse. Confira a seguir a íntegra da entrevista!

Términos y Condiciones traz uma virada clara para as pistas de baile, mesclando synth-pop, drum’n’bass e disco. O que motivou o Usted Señalemelo a buscar essa sonoridade mais eletrônica e retrofuturista logo após o sucesso de TRIPOLAR?

É um disco que, na hora de compor e começar a fazer as canções, nós o fizemos com muita gente. Foi a primeira vez que, na etapa de composição, incorporamos outros compositores ou produtores. Então isso nos deu um leque, uma quantidade de possibilidades de músicas que, quando começamos a pensar no álbum já como um corpo de trabalho e não como faixas isoladas, o eletrônico unia muito bem tudo o que tinha acontecido na composição. Além disso, nós sempre tivemos elementos eletrônicos nos nossos discos, sempre usamos sintetizadores, baterias eletrônicas, samplers, um pouco de tudo.

Então, este disco foi uma aposta: vamos fazer com que o eletrônico seja um pouco o eixo do que está acontecendo a nível estético, algo que nunca tínhamos feito de forma tão explícita quanto agora. Foi um processo longo, muito digital. É um disco muito digital, feito inteiramente no computador e não em grandes estúdios, um processo bem diferente daqueles a que estávamos acostumados, que no geral eram mais orgânicos e de gravações clássicas de um disco de rock. Neste álbum foi como: vamos tentar fazer algo mais atual, com a forma como estamos trabalhando e as ferramentas que temos hoje, e ver o que acontece.

O disco tem estruturas ousadas e mudanças inesperadas, como em Eso que llaman luz. Como foi o processo de composição e produção junto aos produtores para alcançar texturas complexas e imprevisíveis?

Nós sempre nos caracterizamos por buscar dinâmicas nas músicas ou nos discos que talvez fujam do que estamos acostumados em termos de estruturas, melodias ou formas de compor. Sempre tentamos buscar coisas novas na hora de compor e gravar, caminhos que ainda não tínhamos trilhado para que nos levem a novos resultados. Sempre estivemos experimentando; há muitas músicas deste disco que tiveram várias versões, tanto em estrutura quanto em arranjos.

Por isso, foi um trabalho que envolveu muito mais produção do que pré-produção. Foi muito mais sobre começar a gravar e começar a mudar tudo uma vez que já estava gravado, testando coisas novas. Há músicas que gravamos e terminaram completamente diferentes no disco, da primeira versão até a última. Nós nos damos essa liberdade de poder experimentar porque acreditamos que faz parte da nossa identidade e da nossa busca. Então não importa se é mais eletrônico, se é mais rock ou mais pop, sinto que sempre haverá esse selo nosso de buscar algo diferente, mesmo que esteja ligado a um gênero, entende?

E, pela primeira vez na história do Usted Señalemelo, vocês tiveram colaborações de estúdio, com o mexicano Jay de la Cueva e com o Portugal. The Man. Como surgiram esses convites e como foi equilibrar a identidade de vocês com a deles?

Nós assistimos ao show deles (Portugal. The Man) e tivemos uma conexão muito bonita. Eles são do Alasca, que fica bem ao norte dos Estados Unidos, nas montanhas, na neve, e nós somos de Mendoza, que é um pouco semelhante sob certo aspecto: somos da montanha, estamos longe das grandes cidades. Então já existia algo ali que nos conectava por si só, o fato de sermos bandas de rock de lugares fora do eixo onde as coisas costumam acontecer, com tudo o que isso custa para uma banda. Naquela noite, ficamos conversando um tempão sobre a vida, ficamos muito amigos, e eles estavam muito interessados em tudo o que estava acontecendo na cena alternativa em espanhol. Eles já tinham escutado bandas e artistas do México, da Argentina, então já estavam conectados com isso.

Conversando, dissemos que um dia deveríamos fazer música juntos, como algo bem descompromissado, tranquilo, e eles toparam de primeira. Quando começamos a fazer essa faixa, que se chama Dando Vueltas, era uma música que imaginávamos com aquela estética do indie de 2010, 2015, de todas aquelas bandas que nos marcaram muito na adolescência, e uma delas era o Portugal. The Man. Assim que a música saiu, a primeira coisa que dissemos foi: “seria muito legal mandar para eles e ver se querem participar”. E eles disseram sim de primeira, adoraram a música. Bom, foi à distância, porque eles estavam no Alasca e nós na Argentina, mas ficou pendente nos reencontrarmos ao vivo, entrar no estúdio de novo ou tocar a música juntos no palco.

Já o caso do Jay foi totalmente diferente. Nós nos conhecemos diretamente no estúdio de gravação, no México. Tínhamos ido tocar lá e ficamos uns dias a mais na Cidade do México para começar a gravar o disco, na verdade, para começar a compor. E essa foi uma das primeiras experiências que tivemos de nos juntar no estúdio com pessoas que não conhecíamos pessoalmente para fazer música, o que foi algo estranhíssimo para nós num primeiro momento. Mas era algo que tínhamos muita vontade de experimentar, porque as pequenas participações anteriores de amigos ou de algum produtor já nos davam a ideia de que algo muito bom poderia sair dali.

E com o Jay foi incrível, porque não o conhecíamos, e ele é uma figura central para o rock em espanhol, especificamente no México. Nós obviamente sabíamos quem ele era, mas no estúdio nos demos conta do tamanho dele como músico, compositor e poeta. Foi uma experiência linda. Inclusive, tivemos a oportunidade agora, no show do México, de convidá-lo para tocar a música conosco e passamos o dia todo juntos de novo. Ele é uma grande pessoa, nós o queremos muito bem.

Falando um pouco sobre o conceito visual, como isso se conecta com o momento atual?

Um pouco em função disso que te falei sobre a produção ter se baseado muito no digital, no eletrônico e na forma de fazer música em um computador, começamos a refletir sobre como estamos usando as telas, como temos a tecnologia hoje na palma da mão, como a usamos, e quais coisas aceitamos, outorgamos e entregamos de graça em termos de informações e dados sem termos consciência. Acho que não há um uso consciente de tudo o que está acontecendo com os telefones e as redes sociais. Começamos a ver que isso se conectava um pouco com o processo do disco, com a forma como estávamos fazendo as coisas. Talvez não tanto nas letras, mas sim no visual e na estética, como o fato de estarmos uniformizados.

Términos y Condiciones foi um de 50 nomes que tivemos em uma lista, mas era o que englobava muito bem muitas coisas que estavam acontecendo conosco também como banda, pelo fato de já estarmos tocando há tanto tempo, as mudanças na indústria, como hoje você precisa fazer as coisas de outra maneira e como é preciso estar atualizado. Então, bom, foi como um jogo interno que acabou se tornando realidade no final do disco.

Vocês imaginavam chegar tão longe?

Acho que sempre existiu a ilusão, e ainda existe, de fazer música como um grupo de amigos de toda a vida que foi unido pela música. Todas essas coisas que estão acontecendo conosco são coisas que talvez tenhamos sonhado em algum momento, pensado, imaginado. Então acho que, partindo do lugar do desejo de querer realizar essas coisas, talvez você até imagine. Depois, você não imagina quando vão acontecer, se vão acontecer ou como vão acontecer; você prefere apenas manter o desejo de que essas coisas se realizem. Acho que é isso que nos mantém ativos, sabe? Tentando o tempo todo fazer coisas novas e que nos preencham.

Portanto, por um lado, sim, nós imaginávamos, porque sempre foi um sonho fazer tudo isso que está acontecendo na nossa carreira. Por outro lado, nunca soubemos se ia acontecer ou não, é algo de que você vai se dando conta pelo caminho.

O público brasileiro é conhecido por ser sumamente caloroso, mas também muito aberto a novas sonoridades. Como vem sendo a recepção da música de vocês por aqui e o que muda na energia quando tocam no Brasil?

Nós fomos uma única vez ao Brasil para tocar. Antes da pandemia, fomos tocar em um festival em Recife, o No Ar Coquetel Molotov, e tocamos no Sesc Pompeia aí em São Paulo. Lá nós tocamos com o O Terno, e foi aí que os conhecemos. Eles ainda não eram tão grandes como agora; podiam tocar conosco em um bar para 90 pessoas, hoje em dia seria impossível.

Aquela vez foi uma experiência incrível para nós porque era a primeira vez que íamos tocar em um lugar onde não se falava espanhol, não tínhamos ido nem para a Europa, nem para os Estados Unidos. Então foi a primeira vez que tivemos que lutar contra essa barreira do idioma. No festival correu tudo muito bem porque ninguém nos conhecia e, como você disse, é um público muito aberto. Acho que isso nos surpreendeu porque era um festival muito alternativo e, de repente, ver uma banda tão de rock argentino assim podia ser meio chocante, sabe? Acho que a recepção foi incrível.

Depois fizemos esse show em São Paulo que era para pouquíssima gente e também foi uma experiência incrível ver que havia pessoas que não nos conheciam… quer dizer, tinha duas pessoas que nos conheciam, duas, lembra? E para elas foi o melhor show da vida delas; para o resto deve ter sido um show bom, nada mais que isso. Mas nós gostamos disso de ir e ver o que acontece em lugares onde as pessoas não nos conhecem, onde às vezes é difícil irmos tocar. É um lugar onde as bandas da Argentina não costumam ir, então também gostamos disso. Temos muitos amigos em São Paulo: os Boogarins, os caras do O Terno, Terno Rei.. enfim, já estamos conectados com a cena daí, sabemos o que acontece, estamos atualizados, então também gostamos disso.

No show deste sábado no Bar Alto, em um espaço íntimo em São Paulo, após tocar em estádios e grandes festivais, como é para vocês a experiência de tocar em um formato onde a proximidade com o público é tão direta?

É intenso, para falar a verdade, porque a gente se acostuma com outras coisas e, de repente, voltar a esses lugares te faz conectar com coisas com as quais você não está acostumado nesta época. Quero dizer, estamos muito acostumados a tocar aqui na Argentina ou na América Latina em locais grandes ou em grandes festivais, e de repente ir tocar em um lugar para cem pessoas nos gera uma expectativa de: “cara, como era isso mesmo?”. Como estamos acostumados com estruturas maiores, voltar a um lugar assim traz coisas que gostamos, que nos motivam, nos põem à prova, nos fazem sentir diferentes, nos incomodam… então faz um pouco parte da nossa essência fazer esse tipo de show.

Inclusive, na semana que vem vamos para a Europa e temos shows em festivais e um show no Razzmatazz, que é um local grande em Barcelona, mas depois temos uma turnê que é muito parecida com o que vamos fazer em São Paulo: são todos locais para duzentas pessoas, pequenininhos. E foi justamente isso que nos inspirou a dizer: “pô, vamos a São Paulo fazer um show pequeno”. Se estamos fazendo isso na Europa, vamos fazer em São Paulo porque sabemos que tem gente que nos escuta, pode não ser muita, mas vamos viver a experiência. Não vamos deixar de nos permitir sentir essas coisas, que é ir tocar em um lugar pequenininho, onde ninguém te conhece, o que é maravilhoso também. É algo incrível que a música continua nos dando.

Quais são três álbuns que mais os influenciaram na carreira e por quê?

Pergunta duríssima. Olha, posso te citar três discos do Brasil que escutamos muito, se te servir mais, para deixar o papo mais no contexto. É que também é dificilíssimo… Eu, no ano passado, fui a São Paulo e, bem na época em que o Lô Borges faleceu, eu estava aí… na verdade, acho que confundi com outra pessoa daquela geração… mas conectei muitíssimo de novo com o Clube da Esquina, aquele disco que acho uma loucura, e toda aquela corrente daquela época. Me parece que os outros guris da banda também eram muito de escutar isso em suas casas.

Bom, Djavan se escutava muito na casa de um dos meninos, ou Caetano… e já dessa nova geração, eu diria O Terno, Boogarins, Terno Rei. Acho que todas essas bandas marcaram um pouco a nossa influência em algum aspecto. Talvez não tão direto, mas sim no sentido de observar e ver o que acontece com esses artistas. A verdade é que me custa muito escolher só três discos, ainda mais pelos outros meninos não estarem aqui agora. Mas bom, se você quiser, podemos fechar assim, destacando esses discos brasileiros que nos influenciaram.