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Crédito: Andrei Duman

Back to 90's

“Vou morrer antes de me aposentar”, diz vocalista do Everclear

Desafios quase impossíveis sempre estiveram presentes na vida de Art Alexakis, de 61 anos. O vocalista e guitarrista do Everclear nunca os escondeu. Enfrentou e venceu todos. Foi assim quando se envolveu com o tráfico de drogas antes da fama, no luto por familiares que morreram de overdose, nos insucessos da banda, além da sua luta atual contra a esclerose múltipla. 

E quem acha que isso pode parar o músico, está completamente enganado. “Eu vou morrer antes de me aposentar”, declarou em entrevista ao Back to 90’s, série especial do Blog n’ Roll, que tem início nesta terça-feira (1).

O Everclear surgiu em 1991, em Portland, no Oregon, nos Estados Unidos. Dois anos depois, lançou o primeiro álbum, World of Noise, que recentemente ganhou uma edição especial comemorativa de 30 anos.

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O segundo álbum, Sparkle and Fade, de 1995, alcançou a posição 25 nos Estados Unidos e ganhou disco de platina tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá. E foi desse álbum que saiu um dos maiores hits da banda, Santa Monica, que alcançou o topo das paradas e teve seu videoclipe exibido várias vezes ao dia na MTV.

Maior sucesso comercial do Everclear

Mas foi o terceiro disco, So Much for the Afterglow, de 1997, que colocou a banda em outro patamar. Com hits como Everything to Everyone e I Will Buy You a New Life, o Everclear conseguiu seus discos de platina e o álbum se tornou o maior sucesso comercial da carreira.

Três anos depois, dois álbuns no mesmo ano: Songs from an American Movie Vol. 1 e Vol. 2. O primeiro, inclusive, alcançando o top 10 nos Estados Unidos e Canadá, catapultado pelo super hit Wonderful.

Desde então, foram mais seis álbuns lançados, mas nenhum com o mesmo desempenho comercial que os anteriores. A paixão pela música, no entanto, não freou o ímpeto de Art Alexakis, que segue na ativa até hoje.

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Durante 40 minutos, o líder da banda conversou com o Blog n’ Roll de forma franca, sem rodeios ou censuras. Não se recusou a responder nada e abriu o coração para falar sobre a luta contra a esclerose múltipla. Confira abaixo.

No ano passado, o Everclear lançou o single Year of the Tiger, o primeiro em sete anos. A canção faz parte de algum álbum novo ou apenas uma crítica pontual ao momento norte-americano?

Ambos! Foi uma crítica à questão da covid e a política sem sentido do Trump. Fiz pensando ser uma música de protesto, porém um amigo meu de uma banda punk disse que não era uma música protesto, mas uma música de luta, que eu estava tentando puxar briga. Ele está provavelmente certo. Nós gravamos no ano passado pois não sinto muita vontade de fazer um disco inteiro novo. Mas acho que fazer uma música a cada seis meses, algumas músicas por anos, é algo divertido a se fazer. 

Assim nós cuidamos de nossos fãs das antigas, com material novo, mas não me leva a ficar um ano no estúdio para fazer. 

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No entanto, estamos lançando um álbum ao vivo, álbum duplo em vinil, CD e digital, para 8 de setembro. Tem duas músicas inéditas: Year of The Tiger e Sing Away, que foi feita originalmente acústica, mas essa é uma versão mais rock com a banda.

Vocês têm uma turnê longa pelos EUA e um álbum ao vivo para ser lançado nos próximos meses. Como está a expectativa? Você está se sentindo bem para essa jornada?

É animador, nós celebramos nosso aniversário de 30 anos tocando em uma boate pequena, menor do que geralmente tocamos, a Whisky A Go Go, em Los Angeles. Legalmente deve caber 3 mil pessoas lá, mas colocamos 6 mil. 

Gravamos todo o show, tem um vídeo que pode ser visto, para sentir o gosto do que virá com o álbum. O álbum sai em 8 de setembro, a turnê começa em 6 de setembro, com The Ataris e os Pinks Spiders. Será uma ótima turnê de rock anos 1990.

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O que mais mudou na sua rotina após o diagnóstico de esclerose múltipla? Deixou de fazer algo que gostava muito?

Fui diagnosticado em abril de 2016, mas tornei isso público em 2019. Eu precisava de um tempo. Contei para a família, amigos e até alguns fãs, pessoas que conhecia, mas não estava pronto para falar sobre isso para todos. 

Então escrevi uma música chamada The Hot Water Test, que fala sobre minha esclerose múltipla. E essa música foi lançada no meu álbum solo em 2019. Escrevi um texto em nossas redes sociais e depois fiz várias entrevistas sobre isso, e precisei mudar minha dieta. Não posso comer muito açúcar, nem alimentos inflamatórios. 

Às vezes faço isso, mesmo não sendo recomendado, mas tive que mudar bastante a forma como faço exercícios. Agora nado todos os dias, colocamos uma piscina em casa, e faço muita fisioterapia. Estou em tratamento medicamentoso com um neurologista. E sim, é algo com o qual tenho que me esforçar para manter. 

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Estava tudo bem, mas em janeiro de 2021, peguei covid e foi muito ruim. Fiquei no hospital por três semanas e isso agravou minha esclerose múltipla. Mas estou tomando um novo medicamento há quase dois anos, e está funcionando muito bem. Estou indo bem, mas tenho que me dedicar. 

Mudou minha alimentação, meu modo de fazer exercícios e até mesmo minhas prioridades um pouco. Mas mesmo assim, estamos fazendo mais shows do que há 15, 20 anos. Estamos trabalhando duro. E é mais difícil para mim, especialmente pela minha idade. Tenho 61 anos agora, a esclerose múltipla é como se adicionasse mais dez anos para mim. Às vezes, a fadiga e o desequilíbrio são os piores aspectos. Mas obrigado por perguntar. Estou indo muito bem com isso.

Isso pode de alguma forma abreviar sua carreira ou você não tem planos para se aposentar tão cedo?

Essa é a minha natureza. Eu sou lutador, isso tem sido bom e ruim na minha vida. Sabe, sou tenaz e não desisto, mas também não evito uma briga, mesmo que não seja inteligente. Estou melhorando. Conforme fico mais velho, estou ficando mais seletivo em relação às brigas que escolho. Mas ainda tenho essa energia, muito disso vem da minha sobriedade. Estou limpo e sóbrio, sem álcool e drogas, há 34 anos. É algo com que trabalho todos os dias. 

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Tenho uma conexão espiritual muito forte e um vínculo sólido com a família, amigos e minha comunidade, além de estar disponível para servi-los. Sou apenas grato por poder fazer isso como profissão. Tenho uma banda incrível e uma vida maravilhosa, infelizmente, minha saúde, você sabe. Eu gostaria que minha saúde estivesse melhor, mas estou fazendo o melhor que posso com ela.

Bem, no que diz respeito a me aposentar, não vou me aposentar. Sim, vou continuar. Eu vou morrer antes de me aposentar.

Você disse que é um lutador, certo? 

Bem, você sabe, espero que eu não esteja em uma cadeira de rodas ou usando bengala tão cedo, mas mesmo assim ainda vou sair e tocar. Sabe? Isso não vai me impedir.

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As suas canções no Everclear são fortes, atemporais e puramente autorais. Foi uma forma de terapia escrever sobre tudo que você viveu?

Isso é um mal entendido que muitas pessoas têm. Elas pensam que todas as minhas músicas são autobiográficas. Mas não são. Diria que cerca de um terço delas são. Outro terço é baseado em diferentes coisas que aconteceram na minha vida ou coisas que li, e crio personagens. E há verdade nisso, mas não é autobiográfico. E depois, há outro terço de nossas músicas que simplesmente crio. Escrevo apenas ficção. Mas sinto que a ficção que escrevo é verdadeira, tem uma verdade por trás. 

E se o ouvinte não consegue distinguir, o que obviamente parece ser o caso, então estou cumprindo meu papel como compositor. 

Mas, para responder à sua pergunta, nunca tive a intenção de me expor tanto. Acontece que, com toda a vida que vivi e as experiências que tive, às vezes é importante apenas contar a história, sabe? E às vezes é importante contar uma história que pode não ser a minha, mas pode ser a de outra pessoa, entende? 

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Então, sim, acho que tenho uma combinação muito boa de diferentes aspectos e formas de compor uma música. Nunca escrevo uma música da mesma maneira. Nunca começo tudo com música ou tudo com letras ou tudo com melodia, porque todas as minhas músicas começam a parecer muito iguais.

Acho que muitas bandas começam com um riff e depois vão para a melodia e as palavras. E, sabe, acho importante misturar as coisas.

Escrever as canções em primeira pessoa podem levar o público a ter essa sensação.

Gosto de escrever na primeira pessoa porque a arte de contar histórias remonta a centenas de milhares de anos na experiência humana, literalmente. E isso é importante para mim, assim como a música, o ritmo e a capacidade de escrever dessa forma.

Eu tendo a evitar escrever sobre coisas das quais não sei nada. Dungeons and Dragons, por exemplo. Nunca vi um. Então, não escrevo sobre isso. Algumas bandas o fazem, e que bom, é o que eles fazem. Eu, por outro lado, tendo a escrever sobre coisas que entendo, mesmo que não tenha vivenciado.

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Se entendo e tenho uma compreensão sobre o assunto, isso me parece verdadeiro. Espero que isso se traduza e pareça verdadeiro para outras pessoas. E acredito que, para os fãs do Everclear, isso tem sido o caso, eles se conectam com as minhas palavras, minha voz e minha música. Sou muito grato por isso.

Algumas declaradamente autobiográficas ainda pesam no emocional na hora de tocar?

Às vezes, sim. Quando toco músicas muito emocionais, como Father of Mine, I’ll Buy You a New Life ou Wonderful, tenho que… Aqui temos um ditado, “fazer por fazer”, quando as pessoas não estão realmente pensando nisso e estão apenas seguindo os movimentos.

Eu não posso fazer isso com minhas músicas. Tenho que estar muito conectado a elas. Tenho que estar espiritual e emocionalmente conectado às letras para que elas sejam transmitidas quando as canto e para que se conectem com as pessoas na plateia. Portanto, é algo com o qual tenho que me conectar e, às vezes, isso é emocionalmente exaustivo. É uma boa pergunta.

Sua história é repleta de superação. A luta contra as drogas é algo que você gosta de compartilhar com as pessoas? Tenta ajudar de alguma forma?

Estou sóbrio e limpo desde 1989 e tenho estado muito envolvido na minha comunidade de recuperação e sobriedade. Trabalho com muitas pessoas criativas como coach de vida e também como coach de sobriedade. Mas isso dito, fui viciado em drogas e alcoólatra durante a maior parte da minha infância, toda a minha adolescência e toda a minha juventude.

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A mensagem que tenho é que, se você não tem controle sobre isso, se o álcool ou as drogas têm controle sobre a sua vida, então é um problema, algo que você não precisa enfrentar sozinho. Há uma solução: você pode se tornar sóbrio, pode viver sem drogas e álcool, e pode ter uma vida maravilhosa.

É difícil quando você está naquele lugar em que está usando drogas e bebendo, é difícil imaginar uma vida fora disso. Mas sou um exemplo vivo de que você pode ter uma vida maravilhosa, porque todo o meu sucesso e vida com o Everclear aconteceu depois que me tornei sóbrio. Não acredito que teria acontecido antes.

Qual foi o ponto de partida para você mudar sua vida?

Demorou muito tempo. Quero dizer, sabia que estava tendo problemas com drogas pesadas, mas parei de usar drogas pesadas em 1984, porém continuei bebendo e fiquei muito violento. Ficava completamente bêbado, sem memória, e era meio miserável de se conviver.

Estava focado na minha música, continuava construindo minha carreira musical e tocando em bandas. Comecei várias bandas e tudo isso, mas finalmente cheguei a um ponto em que tive que admitir que era impotente diante do álcool, das drogas e do meu eu viciado em álcool. Não conseguia fazer isso sozinho.

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Eu precisava de ajuda, de uma conexão com minha força superior e com o mundo ao meu redor, com minha comunidade e minha família. Essa era a única maneira de conseguir me manter sóbrio.

Vamos deixar a conversa mais leve. Em AM Radio, você canta sobre Jimmy Page ir para Santa Monica e te ensinar a tocar guitarra. Você chegou a conhecer ele?

Conheci o John Paul Jones, mas nunca conheci o Jimmy Page. E é engraçado porque eu estava fazendo um show solo uma vez em Cleveland e olhei para o lado e tinha um cara mais velho com cabelos compridos se divertindo, curtindo muito. E quando terminei a música, ele tinha sumido. Fiquei “caramba, era o Jimmy Page!” Ele ficou ali por umas sete músicas e depois teve que ir embora porque tinha um show à noite.

Eu pensei: “Você está brincando comigo?” Um amigo meu, com quem trabalhei, tem uma foto do Jimmy Page que ele emoldurou para mim, e ele entrou em contato com a equipe do Jimmy Page para conseguir que ele autografasse. O Jimmy disse que faria, mas nunca conseguiram se encontrar. Eles continuaram enviando a foto para lugares, mas o Jimmy já tinha saído e, no final, eu recebi a foto, mas ela não está autografada, então nunca o conheci.

Naquela idade, queria que o Jimmy Page me ensinasse a tocar guitarra. Quero dizer, vamos lá… De certa forma, ele acabou me ensinando a tocar guitarra porque aprendi destruindo meus discos.

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O primeiro disco que aprendi do começo ao fim foi o Led Zeppelin I, sabe, do jeito antigo, colocando a agulha de volta no toca-discos e acabando com o disco, aprendendo assim. Mas sim, foi esse que aprendi, além dos discos do Neil Young, Black Sabbath e todos aqueles do rock pesado.

Por que o Everclear nunca veio ao Brasil?

Nunca fomos convidados. Nunca tivemos promotores entrando em contato conosco para nos convidar para tocar. É assim que funciona. Não é como se disséssemos: “Ei, queremos ir ao Brasil”. Eu adoraria, mas acredito que nunca tivemos um disco lançado lá.

Sei que temos fãs na América do Sul, México e especificamente no Brasil, mas nunca recebemos um convite para fazer uma turnê lá e nunca fomos. Mas sim, adoraria ir se um promotor ou pessoas de um festival nos convidassem.

Conheci vocês por meio da MTV, escutamos muito sua música aqui.

Isso depende da gravadora, de quem detém os direitos dos discos antigos. É engraçado. Mas nossos vídeos passaram na MTV aí, né? Então… Sempre recebemos muitas cartas de pessoas do Brasil e de toda a América do Sul, então isso faz sentido. Não estava ciente disso. Mas faz sentido.

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Você consegue listar três álbuns que foram fundamentais para a tua formação como músico?

Se fosse escolher um álbum do Led Zeppelin, provavelmente escolheria o Physical Graffiti. Do Beatles, escolheria o White Album, e provavelmente Doolitle, do Pixies.

Mas é difícil escolher entre isso e coisas como Stevie Wonder, o álbum Talking Book é muito importante para mim. O Takes a Nation of Millions, do Public Enemy, também é enorme para mim. É difícil escolher apenas três, eu teria que escolher cinco.

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