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Entrevista | Tico Santa Cruz – “Temos uma mensagem de democracia e direitos”

Crédito: Bruno Kaiuca / Divulgação

E se o Brasil enfrenta hoje um cenário instável em meio à pandemia do coronavírus, os fãs de Detonautas Roque Clube podem se preparar para mais uma canção cheia de críticas para o período vivenciado. Em Roqueiro Reaça, o público confere uma crônica escrita pelo vocalista Tico Santa Cruz.

Ao lado de Carta ao Futuro, Micheque, Mala Cheia e outros singles, a música é mais uma vez crítica e descreve a espécie de artista, que segundo o cantor, fomenta o autoritarismo e negação da realidade.

Lançada nesta sexta-feira (4), a canção está disponível nas plataformas digitais pela Sony Music, e em julho, os fãs ainda vão conhecer outros três singles que completam o novo álbum da banda, ainda sem data de estreia.

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Sem novidade no posicionamento

Recentemente, os músicos têm se posicionado duramente contra o atual governo e a falta de políticas públicas envolvendo o cenário pandêmico. Mesmo não agradando a todos, Tico revela que o posicionamento do grupo não é algo novo, mas que atualmente conseguem dialogar de maneira mais aberta com os fãs e inclusive já ultrapassaram até os mais extremistas.

“As nossas críticas foram aumentando na medida em que a sociedade começou a se inserir dentro de um contexto de debate político, mas com a polarização, a coisa tomou um patamar muito maior, óbvio. Dentro dessa polarização, a gente começa a observar que existem várias pessoas que já se posicionavam de forma agressiva em relação ao Detonautas e que hoje já entenderam que temos uma mensagem de democracia e direitos”. Tico Santa Cruz, vocalista do Detonautas

O músico ainda deixa claro que não é uma questão ideológica ou partidária. Sendo de esquerda, direita ou centro, a população precisa enxergar o que está acontecendo de fato para que haja uma mudança.

“Durante a pandemia, a gente fez um circulo de lançamentos todos relacionados a questões políticas, já que a gente entendeu que não tinha ninguém falando sobre isso dentro do nosso segmento. Acabamos ocupando esse espaço e deu certo, porque tivemos muitas visualizações, muitas pessoas que começaram a acompanhar a banda e o trabalho do grupo foi reconhecido”.

Racismo é burrice

Apesar dos novos singles da banda estarem repletos de críticas ao momento atual, uma música antiga em especial também se juntou ao repertório do grupo. Racismo é Burrice, composta por Gabriel, o Pensador, em 1993, já tem quase 30 anos, mas traz um tema muito atual. Por isso, o Detonautas, em parceria com o criador deste hino atemporal, regravou com um estilo todo próprio a canção.

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“O Gabriel é meu amigo de infância, antes de ser famoso e reconhecido como músico. Então já acompanhamos o trabalho dele há muito tempo e ele o nosso, temos uma parceria de muitos anos. Nesse caso, a gente pegou a música e refez o arranjo. Ele gostou, e obviamente o chamamos para participar. Como estamos na pandemia, o clipe foi feito com uma montagem. Juntamos forças para revisitar essa música”, conta.

Não é a toa que o grupo decidiu relembrar esse som. Mesmo com as pequenas modificações presentes na letra e atualizações em relação ao o que está acontecendo nos dias atuais, a força dessa canção continua a mesma.

Agora, segundo Tico, a questão não é mais explicar o que é o racismo, mas sim o quanto isso ainda está estruturado e enraizado na nossa sociedade, além de reforçar o que é preciso para mudar essa situação.

“Eu acredito que o movimento negro nunca teve tanta voz e trouxe o debate para um nível um pouco mais profundo para a questão do racismo estrutural que permeia secularmente. Quando a gente pegou a música fez questão de fazer algumas modificações para poder gerar uma reflexão. Não se trata mais de apenas debater racismo, já que muita gente entendeu o que é, o que as pessoas não conseguiram compreender ainda é a estrutura que mantém esse preconceito funcionando”. Tico Santa Cruz, vocalista do Detonautas

Participação social

Além das fortes críticas políticas neste novo momento do Detonautas, outro ponto forte e evidente da banda está na luta e participação em causas sociais. Com a pandemia, as desigualdades foram expostas ainda mais fortemente.

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Em abril, o vocalista promoveu com outros artistas o festival “Panela Cheia Salva ClubHouse”. O intuito era de arrecadar doações para o movimento iniciado pela Cufa em parceira com a Gerando Falcões e a Frente Nacional Antirracista, buscando recursos para a compra de cestas básicas entregues à população em situação de vulnerabilidade social.

“A gente entende que como artistas podemos potencializar a voz de diversos movimentos que são importantes. Entendemos que a nossa voz é significante para somar forças dentro de um momento em que as pessoas estão passando fome. Esse projeto atende 10 milhões de pessoas e foram arrecadadas 217 mil cestas básicas”.

Mesmo com a participação ativa em projetos sociais como estes, Tico alerta que essas questões devem ser sanadas pelo poder público, por mais difícil que seja. Mesmo com o envolvimento da população, ainda assim, é necessária a reflexão de que o país vai enfrentar o pior pela frente em um período pós-pandemia.

“Nunca podemos esquecer que essa questão é dever do poder público, mas como ele falha, a gente precisa agir para as pessoas não serem sacrificadas. A sociedade se envolve, o nosso país tem essa característica de solidariedade. Hoje o Brasil tem 20 milhões de pessoas em situação de fome e 19 milhões que não sabem se irão comer amanhã. É o maior patamar da história dos últimos anos, e é claro que com a pandemia, isso se agravou”, alerta.

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Futuro

A participação pública dentro das questões políticas é essencial, segundo Tico. Em um cenário de vulnerabilidade, em que os projetos sociais estão trabalhando ativamente para evitar a fome em massa no país, é o momento de reflexão para algo nunca antes vivido. Com a participação, o vocalista expõe o que precisa mudar urgentemente para que o futuro não seja tão duro com a população brasileira.

“A gente tem que tentar sair dessa dicotomia, desse pensamento binário. O Brasil é um país muito complexo, não dá pra tentar resolver de forma personalista, achando que vai ter um salvador da pátria que vai vir nos salvar como se fosse um herói. Eu não acredito nisso. Acredito que a sociedade precisa estar atenta as coisas que estão acontecendo, participar e observar quais projetos são apresentados pelas possíveis lideranças políticas”, conta.

Aliás, para o cantor, os próximos meses serão de redescobertas e de muito trabalho para reerguer um Brasil imerso em um cenário caótico pós-pandemia. Segundo ele, em meio à fome e miséria, muitas pessoas fizeram a transição entre a classe média para baixa, e diversas empresas simplesmente não conseguiram continuar atuando dentro do mercado.

Por isso, se faz extremamente necessária uma união do coletivo para enxergar este momento de maneira racional do ponto de vista político.

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“É nesse sentido que tentamos travar um diálogo com a população e tentar aprofundar os temas que estão sendo discutidos em um âmbito muito raso para a complexidade do que está acontecendo no país”, revela.

Singles isolados

Dentro do universo musical, a banda tem feito o lançamento de singles isolados, se adaptando ao o que o mercado exige. Para o Detonautas não é uma ideia nova, tendo em vista que desde 2013 os fãs podem acompanhar as composições do grupo antes mesmo do lançamento do álbum oficial. Uma forma que tem dado muito certo e conquistado fãs de gerações diferentes.

“Entendemos que a galera da internet hoje é muito volátil. Você lança uma música, as pessoas escutam e já passam para outra. Estão ligadas mais em uma forma de consumo do que antigamente, quando as pessoas pegavam o disco e ouviam inteiro”.

Com a adaptação funciona assim: a banda lança os singles individualmente nas plataformas de streaming e redes sociais e ao final, quando acreditam ter todo o material necessário para a construção de um álbum fechado, lançam o trabalho completo para o público. Foi feito dessa maneira nos dois últimos projetos, A Saga Continua, em 2014, e VI, em 2017.

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“Entendemos que jogar um álbum inteiro dentro dessas plataformas é uma maneira de pulverizar o projeto muito rápido. Você perde a conexão com o fã e o engajamento nas mídias digitais. Por isso decidimos manter assim”, explica.

Trap e RAP

Que a maior inspiração para as letras é justamente o momento de dificuldade que o país está enfrentando, isso todo mundo já entendeu até aqui. O que mudou para Tico é o gênero musical mais queridinho. O rock perdeu força na preferência do artista. Segundo o vocalista, esse gênero estacionou no tempo, e hoje os artistas precisam aprender com outros segmentos musicais.

“Estou ouvindo muito rap e trap, até mais do que rock propriamente falando. Acho que essa linguagem que essa galera adotou está mais próxima do que eu considero ser relevante. O rock estacionou no tempo, por isso, precisa começar a entender o que acontece para adaptar a uma linguagem mais atual. Essa ponte que eu tenho feito entre outros estilos é a maneira de tentar traduzir isso para a nossa música também”.

E se as bandas de rock mais antigas continuam produzindo o mesmo conteúdo há tempos, sem renovação, os novos artistas independentes estão enfrentando dificuldades para se manterem no mercado ou mesmo lançarem projetos diferentes e que fujam do mainstream.

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Para Tico, o circuito musical, diferentemente do passado, está totalmente fechado e é muito complexo interagir com o público, principalmente em meio à pandemia. Apesar disso, ele aconselha que as bandas não desistam e construam individualmente a prória trajetória, conquistando o público pouco a pouco. Ele confessa que o caminho é longo… Mas não é impossível.

“O conselho é sempre o mesmo: trabalhar sua música, aprimorar suas ideias, tentar fazer conexões que te façam trazer a linguagem atual para o seu som e observar temas que não estão sendo abordados. Cada um tem o seu caminho, o que se tem em comum deve ser a força de vontade e a resiliência para encarar as dificuldades”. Tico Santa Cruz, vocalista do Detonautas

Planos

Há mais de um ano longe dos palcos, é claro que a banda está ansiosa para uma retomada perto dos fãs. O grupo tem um disco completo e totalmente inédito que foi gravado durante o primeiro semestre da pandemia. Mas com o coronavírus avançando e um cenário de incerteza para os artistas, eles decidiram adiar o lançamento.

Agora, a expectativa é lançar mais quatro singles, entre eles Roqueiro Reaça e possivelmente entregar um álbum com todos os lançamentos feitos durante a quarentena.

“Que a gente consiga retomar nossa turnê e seguir em frente. Isso é nossa existência, por isso, estamos com a nossa vida pausada”, finaliza.

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