Flea surpreende com álbum de jazz; ouça Honora

Flea surpreende com álbum de jazz; ouça Honora

Após quatro décadas definindo o DNA do rock percussivo com o Red Hot Chili Peppers, Flea finalmente entregou o projeto que gestava há 35 anos. Honora não é apenas um disco solo, é o fechamento de um ciclo poético. O menino que aos 8 anos viu o mundo mudar ao ouvir o padrasto tocar o standard Cherokee no trompete, agora, aos 63, retoma esse sopro vital com uma entrega que beira o espiritual.

O álbum é fruto de uma disciplina quase monástica: durante a turnê mundial dos Chili Peppers (2022-2024), Flea praticou trompete diariamente, combatendo o medo de ser visto como um “roqueiro poser” pelos gigantes do jazz de Los Angeles. O resultado? Uma odisseia meditativa e vibrante que passa longe de ser um projeto de vaidade.

Curadoria da “vibração”

O grande trunfo de Honora é a humildade de Flea em se cercar de visionários. Produzido por Josh Johnson, o disco conta com a guitarra angular de Jeff Parker (Tortoise) e a pulsação precisa de Anna Butterss. É um álbum de texturas, onde o jazz não é um museu, mas um playground elástico.

  • Destaques autorais: Em A Plea, Flea assume o papel de narrador, um grito urgente por paz e amor em meio ao caos global. Já Morning Cry é um embate pós-bop onde o trompete de Flea caminha na corda bamba entre a melodia e a atonalidade, evocando o espírito de Miles Davis na era Nefertiti.
  • Releituras: Flea trata seus ídolos com reverência, mas sem medo. A versão de Maggot Brain (Funkadelic) troca o icônico solo de guitarra de Eddie Hazel por um arranjo de sopros e vibrafone que soa como uma “nobreza trágica”. Já a interpretação instrumental de Thinkin Bout You, de Frank Ocean, coloca o trompete sobre uma cama de cordas luxuosa, embora peque pela excessiva polidez.

Colaborações de peso

O álbum brilha intensamente quando as vozes convidadas entram em cena:

  • Thom Yorke traz sua aura etérea para a onírica Traffic Lights, embora a letra flerte com clichês modernos.
  • Nick Cave entrega exatamente o que se espera em Wichita Lineman: uma performance sombria e profunda, acompanhada pelo flumpet (híbrido de trompete e flugelhorn) de Flea.

Veredito do álbum de estreia de Flea

Honora é um disco sobre liberdade. Para quem esperava o baixo frenético de Give It Away, o álbum pode ser um choque, mas para quem conhece a alma exploratória de Michael Balzary, é uma recompensa. Flea sobe ao palco não como o astro de estádio, mas como um músico que, após centenas de horas de prática e reclamações de barulho em hotéis, finalmente se sente digno de flutuar.

“Eu não estou sendo cafona, essa merda é real!”, exclama ele em uma das faixas.

E, ao ouvir o álbum, é impossível não acreditar.