Disconcert: a resistência do hardcore autoral em Guarujá e o calor do Barthô

Disconcert: a resistência do hardcore autoral em Guarujá e o calor do Barthô

Guarujá, a “Pérola do Atlântico”, sempre teve o surf e o hardcore em seu DNA. No entanto, ironicamente, a cidade vizinha de Santos sofria com uma carência crônica de bandas autorais. Os palcos eram dominados por grupos cover. Foi para quebrar esse ciclo que surgiu, em 2001, a Disconcert.

Formada por músicos experientes de bandas como New Struggle e Don’t Know Why?, a Disconcert tinha uma missão clara.

“Nosso objetivo era tocar músicas próprias. Poucas eram as bandas da nossa cidade que se arriscavam a fazer isso”, conta o vocalista Ricardo Miranda.

NYHC, melódico e o time da balsa, o Disconcert

Inspirados na escola do hardcore nova-iorquino e no melódico dos anos 90, o quinteto provou que o Guarujá também era fértil para a criação. A formação clássica contava com:

  • Ricardo Miranda (vocal);
  • Rodrigo França (baixo);
  • André Buffoni e Jorge Takeshi “Japa” (guitarras);
  • Luis Fernando Diaz (bateria).

“Caldeirão” do Barthô

Para tocar, a banda atravessava a balsa rumo a Santos. Dividiram o palco com nomes de peso como Againe, Street Bulldogs, Hateen e Garage Fuzz.

Embora tenham tocado muito no amplo Praia Sport Bar, a memória afetiva mais forte reside em um local extinto e claustrofóbico: o Barthô.

“Fizemos um show lá com Social Resistência, Flama e Colligere. O espaço era bem pequeno e o público ficava muito perto. Essa combinação funciona perfeitamente para o hardcore”, recorda Miranda.

Discografia do Disconcert

A trajetória durou até 22 de maio de 2005. O último show aconteceu no Praia Sport Bar, dividindo a noite com os gigantes do metalcore carioca, Confronto.

A discografia oficial resume-se à demo Em Face da Dor Não Há Heróis (2002) e à faixa Fim da Linha, presente na coletânea Músicas Bacanas para Pessoas Descoladas (F Records). Outras seis músicas chegaram a ser gravadas, mas nunca foram finalizadas.

Onde estão hoje?

Vinte e um anos após o fim, os integrantes seguem caminhos criativos:

  • Ricardo Miranda: tornou-se referência no ativismo e culinária vegana com a 100% Vegetal, além de manter o espírito DIY vivo com o selo/distro Sub Stuff.
  • André Buffoni: guitarra na banda Old Rust.
  • Rodrigo França: guitarra na Glorious Bonds.
  • Luis Fernando Diaz: segue carreira solo com voz e violão, cantando sobre Ilhabela.
  • Japa: atua na produção fotográfica.

Um retorno é improvável, já que a logística e a vida profissional falaram mais alto. Mas a Disconcert permanece como a prova de que havia (e há) vida autoral do outro lado do estuário.

Fim da Linha