“Éramos adolescentes nos deparando com um mundo complicado, no fim de um século marcado por crises políticas, conflitos armados e injustiça social. Por meio da música, manifestávamos nossa indignação.”
A explicação de Leonardo Tote, baixista e guitarrista, resume a essência da Febre Mental, um dos principais nomes do anarco-punk na Baixada Santista entre 1998 e 2001. Assim como a Anarkaos (citada anteriormente), o grupo bebia na fonte do festival O Começo do Fim do Mundo (1982), marco zero do punk nacional.
“Química” dos quatro elementos do Febre Mental
A formação original contava com Bruno Messias (guitarra/vocal), Leonardo Tote (baixo) e Foca (bateria). Após um único show no antigo Saloon Beer (abril de 1999), a dinâmica mudou: Bruno focou nos vocais, Tote assumiu a guitarra e Paulo Vasconcellos entrou no baixo.
A banda chegou a testar uma segunda guitarra com nomes conhecidos da cena, como Ricardo (Morfema) e Bone (Anarkaos), mas a tentativa não vingou.
“Parece que a parada rolava legal somente entre os quatro mesmo. Poderia vir qualquer músico excepcional, que não teríamos a mesma sintonia”, avalia Tote.
Punks dormindo na rua e show na Pizzaria
Embora frequentassem o Armazém 7 e o Saloon, os momentos mais insanos da Febre Mental aconteceram em locais inusitados.
Um deles foi no antigo Gallatiri (esquina da Rua Quintino Bocaiúva com a Avenida Vicente de Carvalho), em 1999. Numa tarde chuvosa de domingo, o show beneficente atraiu mais de 600 pessoas para ver bandas como Calibre 12, The Bombers, Gritos do Subúrbio e Drop Your Guns.
Mas o ápice foi em fevereiro de 2000, numa quadra de escola de samba na Avenida Senador Feijó. O evento reuniu lendas como DZK, Voz Ativa e Grinders.
“Saiu uma excursão de São Paulo na noite anterior, depois do show do Grinders no Hangar 110, com dois ônibus lotados. Os punks dormiram na rua esperando o show de domingo à tarde. Foi histórico, animal!”, relembra Tote.
Discografia do Febre Mental
Em três anos de estrada, a Febre Mental deixou dois registros em fita demo:
- Cultivando o Lixo (1999): Trazia o hit Serviço Militar.
- Caos Real (1999): Contou com backing vocals de Ariane Lady Rocker.
Onde estão hoje?
Atualmente, Bruno Messias é o único que segue firme no underground, tocando bateria na banda de punk/Oi! Última Classe e lecionando História.
Os outros seguiram caminhos diversos: Tote tornou-se jornalista, Paulo atua como operador de áudio em TV e Foca virou chef de cozinha em Curitiba.
E a volta? A vontade existe. “Minha guitarra Yamaha roxa, cheia de adesivos, está aqui. Se agitar um festival com essas bandas old school da Baixada, a gente participaria numa boa. Difícil vai ser só trazer o Foca de Curitiba”, finaliza Tote.
Ouça algumas canções da Febre Mental abaixo:



