Em 1994, o mundo da música vivia uma transição sísmica: o grunge de Kurt Cobain saía de cena, o punk pop do Green Day explodia com Dookie e o Britpop invadia as paradas. Nesse caldeirão, surgiu em Santos a First Resist, uma banda que desafiava rótulos. Não era hardcore, não era metal, mas agradava ambos.
“Nos ensaios, tocávamos covers que iam de Slayer até Depeche Mode, passando por Fugazi e Jesus Lizard. Procurávamos trazer tudo isso para o nosso som”, explica o guitarrista Manoel Neto.
A formação clássica contava com Edu (vocal), Manoel Neto (guitarra), Petrick (bateria) e Rogério (baixo), substituído em 2000 por Márcio.
Era do MP3 e a “invasão” digital
O grande diferencial da First Resist foi a visão estratégica. Em 2001, frustrados com a falta de espaço no Brasil, eles apostaram tudo no lançamento do álbum Save Me From Myself. A ferramenta? A internet discada e o novíssimo formato MP3.
“Montamos um site onde a galera podia baixar as músicas ou ouvir em streaming. Hoje parece comum, mas na época quase ninguém fazia. Lotamos as caixas de e-mail de produtores e rádios do mundo todo”, conta Neto.
O resultado foi global: e-mails de fãs da Europa, Japão e Indonésia, culminando no convite para uma turnê internacional.
First Resist na Europa: 16 shows, cinco países e o profissionalismo gringo
Entre março e abril de 2002, a banda realizou 16 apresentações passando por Suíça, Alemanha, França, Portugal e Espanha. A experiência foi um choque de realidade sobre o profissionalismo do underground europeu.
Neto recorda um episódio marcante em Málaga (Espanha). O show ocorreu numa quarta-feira, no mesmo horário de um jogo decisivo entre Real Madrid e Barcelona. O resultado: apenas oito pagantes.
“O que nos deixou boquiabertos foi que, no fim, o dono da casa pagou o cachê combinado sem reclamar, apesar do prejuízo. Se fosse no Brasil, estaríamos pedindo dinheiro na rodoviária para voltar pra casa”, compara.
Já em Zug, na Suíça, a banda viveu a glória: casa cheia e dois pedidos de bis.
Discografia do First Resist
Em nove anos de estrada, a banda deixou registros sólidos:
- Demo Tape (1995);
- EP Nothing (1997): A faixa “Grey” entrou em duas coletâneas nos EUA.
- CD Save Me From Myself (2001): O álbum que abriu as portas do mundo.
Homenagem a Márcio
Hoje, mais de duas décadas após o fim das atividades, um retorno é improvável, não só pela geografia (Neto e Petrick não moram mais em Santos), mas por uma perda irreparável.
O baixista Márcio faleceu em 2010. “Ele era um grande cara com um baita coração”, homenageia Neto. A First Resist permanece, portanto, como um capítulo bonito e visionário da história do rock santista.