Se a cultura machista ainda permeia o rock hoje, imagine em 1997. Foi nesse cenário desafiador que cinco amigas da região do canal 1 e Marapé, em Santos, decidiram fazer barulho. Com personalidade e presença de palco, a Hitch Lizard gravou seu nome na história do hardcore regional como uma das pioneiras do Riot Grrrl caiçara. A banda nasceu da afinidade, não da técnica apurada, a essência do punk.
“Duas faziam aula de guitarra, uma de bateria e eu nunca tinha tocado baixo. A amiga que não tocava nada foi para o vocal. Começamos com covers, mas logo nos primeiros meses já tínhamos músicas próprias”, relembra a baixista Gigi Louise.
Formação do Hitch Lizard
A formação clássica (1997-2001) contava com:
- Sachais e Caroline (guitarras);
- Sunessis (vocal);
- Tatiane (bateria);
- Gigi (baixo).
A trajetória foi interrompida drasticamente por um grave acidente de moto sofrido pela baterista Tatiane. A recuperação foi longa, mas a resiliência falou mais alto.
A banda chegou a fazer shows com Kadu Abecassis na bateria e, num momento emocionante, com a própria Tati tocando em um kit adaptado, pois ainda não havia recuperado a força da perna.
Conexão riot grrrl: Dominatrix e TPM
Sem pretensões iniciais, a Hitch Lizard percebeu que sua existência era um ato político.
“Percebemos que ter uma banda só de meninas era incomum. Isso nos impulsionou a ter contato com o feminismo”, explica Gigi.
Essa postura aproximou o grupo das referências nacionais do estilo. Elas dividiram palcos com Dominatrix, TPM e Bambix. Os shows rolaram de São Paulo (no extinto Alternative) até o clube Última Hora, em São Vicente.
Discografia do Hitch Lizard
Influenciadas por L7, Bikini Kill e No Doubt, as meninas deixaram dois registros fundamentais:
- Girl Pride (Demo, 1998): o refrão da faixa-título virou um hino local: Girls Can Do Anything!.
- Love+Life+Peace (Demo, 1999): destaque para as faixas Self Defense e The Rain.
Onde estão hoje?
Após o fim em 2001, a banda se reuniu apenas uma vez para um revival no casamento da guitarrista Caroline.
Hoje, as integrantes seguiram carreiras brilhantes fora da música: Sachais trabalha com cinema, Sunessis é atriz e modelo, Carol é médica, Tati virou engenheira e Gigi atua como psicóloga e funcionária pública.
Embora um retorno definitivo seja improvável devido às rotinas, a Hitch Lizard permanece como a prova de que as minas do Marapé e Canal 1 podiam (e podem) fazer qualquer coisa.
Ouça Life+Love+Peace, de 1999