Faxes, salada de churrascaria e futebol: a histórica primeira turnê do Millencolin no Brasil, em 1998

Faxes, salada de churrascaria e futebol: a histórica primeira turnê do Millencolin no Brasil, em 1998

​Agosto de 1998 marcou a primeira vez que a banda sueca de hardcore Millencolin pisou no Brasil. A turnê histórica incluiu datas em São Paulo (05/08), Curitiba (06/08), São Bernardo do Campo (08/08), Rio de Janeiro (09/08), Santos (12/08) e Porto Alegre (13/08).

​Mas o que o público via no palco era apenas a ponta do iceberg de uma operação monumental. Organizada por João Veloso Jr. (baixista do White Frogs, banda de abertura) e Marcelo Bastos (da produtora Anorak), a excursão englobou Santos, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e até Buenos Aires.

​A vinda dos suecos representou um salto de profissionalismo para o underground na época, provando que era possível viabilizar uma turnê continental partindo de ideias forjadas em Santos e no Rio de Janeiro.

​Negociações por fax e o choque de realidade para o Millencolin no Brasil

​Longe das facilidades da internet e dos e-mails, o acerto para trazer um dos maiores nomes do skate punk mundial foi feito na raça. “A negociação foi tranquila, foi tudo por fax. Era fax pra lá, fax pra cá, ligação pra lá, ligação pra cá”, relembra João Veloso Jr. O produtor revela ainda que, antes do Millencolin, a dupla tentou trazer o Face to Face, mas as negociações esbarraram em detalhes difíceis para a época.

​Quando os suecos finalmente desembarcaram, trouxeram convidados ilustres: Peter Ahlqvist, dono da lendária gravadora Burning Heart, e Mikael Danielsson, guitarrista do No Fun At All, que atuou cuidando do merchandise. Para João, foi um encontro surreal. “Fui o primeiro na América do Sul a ter alguma coisa do Millencolin e do No Fun At All. Mandei carta escondida e comprei com o Peter, e depois daquele dia ele tá junto. Acabou sendo uma coincidência grande”, conta.

​Porém, a realidade estrutural do Brasil de 1998 cobrou seu preço. Acostumada a tocar na gigante Warped Tour e em grandes festivais pela Europa, a primeira pergunta da banda ao chegar foi: “Onde é o escritório da Mesa/Boogie?”. A resposta brasileira foi um balde de água fria. “Não tem Mesa/Boogie no Brasil, não tem escritório, não tem nem o amplificador. Não tem nem como a gente alugar porque ninguém tem”, explica João. Sem a estrutura gringa, tudo teve que ser adaptado.

​Outro choque cultural envolveu a alimentação. Em uma época sem restaurantes vegetarianos ou veganos acessíveis, a solução para alimentar a banda foi curiosa. “Quase na turnê toda eles comeram no buffet de salada de churrascaria, o que foi complicado, mas virou”, diverte-se o produtor.

A pirataria na Galeria do Rock, em São Paulo, também deixou a banda e o dono de sua gravadora impressionados com a falta de CDs oficiais no mercado nacional.

​*Trecho do documentário do Millencolin no Brasil

Caos na estrada: amplificadores caídos, brigas e cusparadas

​A turnê pelo continente entregou o puro suco do caos sul-americano dos anos 1990:

  • São Paulo: A empolgação foi tanta que, durante o show, os fãs invadiram o palco e derrubaram um amplificador em cima da guitarra Gibson branca de Mathias Färm.
  • Rio de Janeiro: No Teatro Rival, a apresentação foi interrompida por uma pancadaria envolvendo praticantes de jiu-jitsu e a galera do hardcore. Foi um susto imenso para os suecos que estavam tocando e viram a briga explodir.
  • Buenos Aires: Na Argentina, a banda enfrentou a velha tradição punk das cusparadas, o que gerou tensão inicial, mas acabou sendo compreendido pelo grupo.
Foto tirada do show do Millencolin em Belo Horizonte, assim como a principal desse post

​Oásis santista com casa cheia na Jump

​No meio de tanta loucura, o show em Santos, realizado na extinta casa noturna Jump em 12 de agosto de 1998, foi considerado um sucesso absoluto e um porto seguro. “Santos a gente andou pela praia, foi um show legal, mas não teve essas coisas nem de briga, nem de equipamento caindo, nem de decepção. Foi um show bom”, garante João.

​Para o baixista, a noite santista carregava um peso extra. “Tocar em casa sempre é diferente. A gente (White Frogs) estava numa mudança de formação, então era uma ansiedade muito grande por fazer o show e ver como é que ia ser a reação”, confessa. A apreensão deu lugar ao alívio ao ver a Jump lotada recebendo um show grande.

​Obsessão do Millencolin por futebol no Brasil

​Longe dos palcos, a grande paixão que uniu os suecos e os brasileiros foi o futebol. A turnê coincidiu com uma verdadeira maratona de jogos em estádios clássicos. A comitiva do Millencolin assistiu a:

  • ​Flamengo 0 x 1 Bragantino, no Maracanã (RJ).
  • ​Grêmio 0 x 0 Juventude, no Olímpico (RS).
  • ​Atlético MG 1 X 5 Corinthians, no Mineirão (MG).
  • ​Boca Jrs 3 x 2 Gimnasia Esgrima, em La Bombonera (ARG).

Grêmio 0 x 0 Juventude, em Porto Alegre

O baixista Nikola Sarcevic fez a turnê inteira viajando com sua característica camisa verde de futebol. Mas o ponto alto esportivo ocorreu no Rio de Janeiro, durante dois dias de folga. Nas areias de Copacabana, rolou um amistoso noturno inesquecível: Millencolin, Mikael (No Fun At All) e João Veloso Jr. contra a banda carioca ACK e Melvin (baixista do Carbona).

​”Eu não jogo nada, mas no final a gente ganhou de 3 a 1. Foi engraçado porque eles nunca tinham jogado futebol na areia, estavam emocionadíssimos de estar em Copacabana”, relembra o “perna de pau” santista.

​Legado do Millencolin no Brasil

​O relacionamento construído naqueles dias de 1998 dura até hoje. Para a cena nacional, a passagem do Millencolin foi um rito de passagem.

​”Foi uma das primeiras turnês que começaram a rolar dentro de um espírito (DIY), mas com estrutura. Todos os shows foram de avião, hotel e cachê, tudo na mão”, reflete João. Com uma cotação cambial desfavorável e barreiras logísticas imensas, a “Califórnia Brasileira” e seus produtores provaram que o Brasil estava pronto para entrar, de forma definitiva, na rota das grandes bandas de hardcore do planeta.