Entrevista | Nile – “Estamos tocando um monte de coisas que não tocamos em anos”

Entrevista | Nile – “Estamos tocando um monte de coisas que não tocamos em anos”

Menos de um ano após incendiar o público no Bangers Open Air, realizado em maio de 2025, em São Paulo, o Nile confirma seu retorno ao Brasil em março de 2026 para três apresentações: dia 20/03 em Brasília, 21/03 em Fortaleza, e 22/03 em São Paulo. A nova passagem marca mais um capítulo da turnê de divulgação de The Underworld Awaits Us All (2024), décimo álbum de estúdio do grupo.

Formado em 1993, nos Estados Unidos, o Nile construiu uma identidade singular ao unir death metal técnico, velocidade extrema e rigor histórico, com letras inspiradas no Antigo Egito e em culturas do Oriente Médio e da África. Ao longo de mais de três décadas, lançou álbuns fundamentais como Black Seeds of Vengeance e Annihilation of the Wicked, consolidando seu nome como uma das forças mais respeitadas do metal extremo mundial. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Karl Sanders fala sobre a cena death metal dos anos 90, a recepção da nova formação no Brasil e os paralelos entre história antiga e política contemporânea.

Como era a cena de death metal nos Estados Unidos quando o Nile surgiu, em 1993?

Acho que estava entre o que eu chamo de a primeira onda e a segunda onda. Death Metal tinha chegado e o Black Metal estava fazendo um barulho. Ai tem New Wave, depois Nu Metal, Metalcore, e toda aquela merda que era popular. Então foi um pouco difícil conquistar espaço, mas nós não nos importávamos, nós amávamos o Death Metal, nós íamos tocar Death Metal, não importava se era modesto ou não, nós íamos fazer.

Quais bandas foram influências fundamentais naquele início?

As bandas de metal antigas, como Gorfest, Entombed, Left Hand Path, Clandestine, Early Morbid Angel, as músicas antigas do Black Sabbath, mais um monte de coisas antigas e clássicas no começo. Mas também teve uma influência de trilha sonora. Eu estava particularmente fã da trilha sonora de Exorcista 2, tem um monte de coisa boa lá dentro.

Depois de apresentar o novo álbum no Brasil, inclusive no Bangers Open Air, qual peso este disco terá na atual turnê?

Definitivamente vamos tocar uma mistura de tudo. Nós estamos tocando algumas coisas do novo álbum, mas também um monte de clássicas antigas. Eu acho que essa será a primeira tour em muitos anos que nós tocamos Cast Down the Heretic, de Annihilation of the Wicked, e tocamos isso há uns 10 anos. Também estamos tocando um monte de outras coisas que não tocamos em anos. Tem Ithypallic, Hittite Dung Incantation, um monte de coisas clássicas.

Você sentiu uma boa recepção das novas músicas no Brasil?

Sim, eu acho que toda vez que chegamos ao Brasil, na história da banda, os fãs de metal do Brasil foram incríveis. É um dos meus lugares favoritos para estar.

E como foi a recepção da nova fase com Adam no Brasil?

Bem, eu acho que foi muito boa. A audiência foi ótima. Eles nos trataram maravilhosamente. Não podemos ser gratos o suficiente. Estamos muito orgulhosos dessa nova fase.

Temos alguns caras realmente talentosos. Eles estão trabalhando muito duro. Eles só querem tocar metal. E eu acho que o público percebe isso. As pessoas sentem quando o coração está no lugar certo, quando você está ali pelas razões certas.

O Brasil tem uma das cenas mais intensas do mundo. Em que se diferencia o público brasileiro?

Eu acho que a herança do metal é um fator importante. O Brasil tem grandes bandas. Somos bons amigos do Krisiun. Fizemos turnês com eles muitas vezes ao longo dos anos, especialmente nos anos 2000. E eu sinto que o metal está no sangue de vocês. Está na alma. Está no coração.

Os fãs brasileiros têm esse coração e essa alma do metal. Isso está no sangue.

E como você vê a evolução da base de fãs do Nile no Brasil ao longo dos anos?

Nós só viemos ao Brasil uma vez por ano, às vezes nem isso. Então eu não acompanho de perto o que acontece o tempo todo. Mas toda vez que venho, vejo uma ótima audiência. Para mim, sempre foi assim. Por isso é difícil avaliar a evolução. Do meu ponto de vista, sempre foi um público forte.

Falando sobre as composições, de onde surgiu a abordagem lírica baseada no Egito Antigo e culturas do Oriente Médio e da África?

Foi algo que sempre nos interessou. Algo de que gostamos. O autor Samuel Clemens, mais conhecido como Mark Twain, disse uma vez: escreva sobre o que você conhece.

Escreva sobre o que você gosta. Acho que esse é um bom conselho. Você deve criar sobre aquilo que realmente te interessa. Se você gosta de carros esportivos, então escreva sobre carros esportivos.

Em algumas letras é possível notar paralelos entre eventos históricos e o sistema político atual dos Estados Unidos. Como você constrói essas metáforas?

Eu acho que as pessoas continuam sendo as mesmas. A tecnologia avança. A civilização avança. Mas os seres humanos continuam basicamente os mesmos de milhares de anos atrás.

É aí que vejo os paralelos. Quando vejo governos fazendo coisas terríveis, isso não é nada novo. Isso sempre aconteceu. É uma parte triste da condição humana, a forma como as pessoas se tratam.

Depois de mais de três décadas de carreira, qual foi o momento decisivo da banda?

Eu diria que foi quando fizemos nosso primeiro grande álbum. Houve um momento na primeira grande turnê que fizemos pelos Estados Unidos. Estávamos abrindo para o Morbid Angel. Viajávamos em uma van pequena, puxando um trailer pequeno, mas tínhamos atravessado o país inteiro.

Eu já tinha ido para o outro lado dos Estados Unidos antes, mas nunca como banda. Quando estávamos olhando para o oceano, perto de Seattle, percebi que nossa música tinha nos levado até o outro lado do continente.

Aquilo foi profundo. Pensei: o que mais podemos fazer? Há mais continentes para conquistar. Foi um momento muito marcante. Sim, é possível. Pode ser feito.

Você tem alguma história curiosa ou engraçada no Brasil?

Não há nada que eu possa repetir. O que acontece em Las Vegas, fica em Las Vegas.

Mas aqui não é Las Vegas (risos)…

Uma coisa curiosa é que, uma vez, entre o show em São Paulo e o show no Rio, houve quatro dias de intervalo. Então ficamos “presos” no Rio por quatro dias, sem nada para fazer. Pensamos: Que morte terrível vai ser (risos).

Para finalizar, quais discos você tem ouvido mais recentemente?

Ultimamente estou ouvindo Heat of the Sun, de Strunz & Farah.

Também tenho escutado The Best of Sergio Mendes. É um ótimo disco.

E Miles Davis, Kind of Blue.