Review | Finn Wolfhard deixa Stranger Things para trás com um dos discos de rock mais interessantes do ano

Review | Finn Wolfhard deixa Stranger Things para trás com um dos discos de rock mais interessantes do ano

Foi impossível ouvir Fire From The Hip sem pensar em um encontro entre o virtuosismo dos Rolling Stones e a crueza do The Strokes. Finn Wolfhard era uma incógnita quando dei o play no álbum. E ele encontrou um ponto de equilíbrio curioso entre o rock clássico e a urgência do indie dos anos 2000, criando um disco que soa familiar sem parecer nostálgico demais.

Seu segundo álbum solo deixa claro que a música já é realidade e não mais um projeto paralelo. Muito além do sucesso de Stranger Things, Wolfhard se firma como um compositor que entende muito bem de guitarras, melodias e, principalmente, de boas canções. Ele mostra uma maturidade incrível para um jovem de 23 anos que passou a adolescência vendo o rock longe do mainstream.

Quem ouviu Happy Birthday certamente perceberá uma evolução evidente. Se o debut tinha um charme quase caseiro, com cara de coleção de demos ou até mesmo uma aventura, Fire From The Hip apresenta uma produção mais encorpada, gravada em fita analógica, mas sem perder a espontaneidade. O álbum mantém aquela sensação de banda tocando junta na garagem, privilegiando dinâmica e calor humano em vez da perfeição digital. É exatamente esse aspecto que torna o disco tão cativante.

As influências aparecem o tempo inteiro, mas nunca como cópia. Consegui pescar power pop sessentista, garage rock, folk, glam, country e indie rock convivendo naturalmente. Faixas como “I’ll Let You Finish”, “Common Side Effects” e “Crater” entregam refrães grudentos e guitarras afiadas, enquanto “Lights Go Down”, “Trail”, “Maggie” e “The Climb” desaceleram a experiência sem quebrar o ritmo do álbum. Já “Follow” e “Tunnels” mostram um Finn mais confiante como compositor, escrevendo letras que falam sobre crescimento, despedidas e amadurecimento sem soar pretensioso.

O grande mérito de Fire From The Hip está justamente em não tentar impressionar pelo excesso, o que seria até normal para um ator de grande sucesso com seus vinte e poucos anos. Não há solos intermináveis, produções gigantescas ou experimentações mirabolantes. Finn Wolfhard preferiu trabalhar com melodias fortes, guitarras que parecem sair diretamente de um amplificador valvulado antigo e arranjos que fazem o disco fluir de maneira extremamente natural. Em apenas 35 minutos, ele entrega um álbum coeso, divertido e que convida o ouvinte a voltar para a primeira faixa assim que termina.

Talvez alguns sintam falta de momentos mais ousados. Em determinados trechos, Wolfhard joga relativamente seguro dentro da estética que escolheu explorar. Mas isso pouco atrapalha o resultado final. Pelo contrário: Fire From The Hip é um daqueles discos que crescem justamente pela consistência. Sem depender da fama conquistada como ator, Finn mostra que encontrou uma identidade própria na música e que pode seguir os passos de sucesso de seu companheiro Djo. E, se continuar evoluindo nesse ritmo, não demorará para vermos ele em um grande show no Brasil.