Poucas bandas no cenário contemporâneo provocam reações tão impactantes quanto o trio norte-irlandês Kneecap. Conhecidos por rimar primariamente em irlandês (Gaeilge) e por adotar uma postura anti-imperialista inflexível, Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí transformaram o hip-hop em trincheira de resistência republicana, anticolonialista e pró-Palestina.
Essa postura combativa cobra seu preço: o grupo já enfrentou censura governamental e tentativas judiciais de veto a repasses de fomento cultural no Reino Unido, além de episódios mais drásticos, como a detenção de Mo Chara sob a draconiana Lei de Terrorismo britânica após uma polêmica sobre a exibição de uma bandeira do Hezbollah durante uma apresentação em Londres, no final de 2024.
Reduzir o Kneecap ao ativismo panfletário, contudo, seria um erro grosseiro. Musicalmente, a performance do trio no Cine Joia, em São Paulo, provou que a força do projeto reside na confluência rítmica implacável: há a malícia e a dinâmica coletiva dos Beastie Boys, o peso urgente e rebelde do Rage Against the Machine e as batidas aceleradas de techno, big beat e rave que remetem ao ápice do The Prodigy e do Underworld. O punk, o rap e a música eletrônica colidem com precisão milimétrica.

Encerrando a perna sul-americana da turnê, que passou por México, Colômbia, Argentina e Chile, a estreia no Brasil, na noite da última sexta-feira (23), caiu em momento emblemático: a antevéspera da votação das eleições. No Cine Joia, a atmosfera carregada transformou a pista em uma grande assembleia de catarse coletiva.
Kneecap fez show bem político e intenso
Enquanto DJ Próvaí comandava as bases escondido atrás de sua icônica balaclava tricolor (nas cores verde, branco e laranja da bandeira irlandesa), o telão disparava ataques visuais diretos a figuras históricas e atuais da direita e do conservadorismo internacional, como Margaret Thatcher, Benjamin Netanyahu e Donald Trump. O contraponto veio com a projeção de “Bora Lula” e os integrantes fazendo o “L”, gesto recebido por um coro ensurdecedor de “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”. Camisetas, bonés e bandeiras pró-governo arremessados ao palco foram empunhados pelo trio com muito entusiasmo.

Em 1h20 de intensidade contínua, o grupo desfilou 22 faixas. A espinha dorsal do repertório se apoiou no aclamado álbum Fine Art (2024), que consagrou o grupo globalmente com produção refinada de Toddla T, e em canções do trabalho seguinte, Fenian (2026), que reforça a identidade republicana histórica da banda. Houve espaço ainda para resgates pontuais do debut 3cag (2018), com a debochada Your Sniffer Dogs Are Shite, e para hinos de pista como H.O.O.D, recebida sob moshpits frenéticos.
O aquecimento, com a gravação de Favourite dos conterrâneos do Fontaines D.C. cantada em coro pelo público, e o encerramento ao som da clássica gravação antifascista Bella Ciao emolduraram perfeitamente a noite.
O cartão de visitas do Kneecap no Brasil foi impecável: som alto, discurso afiado, zero concessões comerciais e conexão genuína com o público local. Uma banda pronta tanto para incendiar palcos de grandes festivais quanto para transformar clubes fechados em verdadeiros caldeirões.
Setlist — Cine Joia, São Paulo (23/10)
Intro (PA): Favourite (Fontaines D.C.)
- Éire go Deo
- Smugglers & Scholars
- Carnival
- Better Way to Live
- Sick in the Head
- Gael Phonics
- Cold at the Top
- An Ra
- Get Your Brits Out
- Guilty Conscience
- No Comment
- Sayonara
- Your Sniffer Dogs Are Shite
- I bhFiacha Linne
- Fine Art
- Rhino Ket
- Liars Tale
- FENIAN
- Big Bad Mo
- Parful
- H.O.O.D
- THE RECAP
Outro (PA): Bella Ciao