Havia uma dívida pendente desde 2020. Quando a pandemia cancelou a primeira turnê sul-americana de Frank Turner, ficou no ar a dúvida de quando o músico inglês finalmente atenderia aos infinitos pedidos de “Come to Brazil”. A resposta de Frank Turner veio na noite desta sexta-feira (30), no Fabrique Club, em São Paulo.
Longe das grandes arenas e festivais, Frank Turner escolheu em São Paulo o ambiente que define sua essência: um clube escuro, quente e com o público a centímetros do microfone. Em entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, ele havia adiantado que prefere a “intensidade e entrega” dos latinos à ironia distante das plateias de Londres. E foi exatamente essa troca de energia bruta que se viu em São Paulo.
Frank Turner acústico e furioso
Quando Frank Turner subiu ao palco, armado apenas com seu violão, a atmosfera de “culto secular” se instalou. Sem banda de apoio, a responsabilidade de preencher o som recaiu sobre o coro da plateia.
O setlist, muito próximo do apresentado na Costa Rica, Chile e Argentina dias atrás, foi um passeio equilibrado pela discografia. A abertura com If Ever I Stray já serviu para testar as cordas vocais dos fãs. Músicas como Recovery e The Way I Tend to Be funcionaram perfeitamente no formato desplugado, ganhando contornos de hinos de bar.
Um dos momentos mais curiosos da turnê atual é o esforço de Turner com o idioma local. Logo no início do show arriscou algumas frases em português. Depois disse que como todos já haviam visto que ele fala bem português, ele ia passar o resto da noite falando em inglês.
Em Do One, faixa que costuma receber uma versão no idioma local nos shows, Frank Turner brincou que havia aprendido em espanhol, mas viu que em São Paulo o esforço seria um pouco maior. Revelou que recebeu a ajuda de um fã brasileiro que mandou o trecho traduzido e chamou Katerina (Katacombs) para segurar o papel com o texto em português. O esforço de Frank Turner arrancou muitos aplausos e gritos dos fãs.
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Musicalmente, um dos pontos altos para os fãs de punk rock foi a execução de Bob, cover do Nofx. A faixa celebra o split que ele lançou com a lenda do punk californiano, um feito que Turner descreveu ao Blog n’ Roll como “o auge punk da carreira”. Ao vivo, a versão acústica trouxe uma melancolia que a original esconde, mas sem perder o peso da letra.
Houve espaço também para novidade, com a execução de Girl From the Record Shop, No Thank You for the Music e Letters, que assim como Do One, são do álbum Undefeated, de 2024, provando que, mesmo após 3 mil shows, a máquina criativa não para. Aliás, ele fez questão de registrar que era o show 3.107 da carreira.
Conexão e clímax
O terço final do show foi desenhado para a catarse. Photosynthesis (com seu mantra “I won’t sit down, and I won’t shut up”) e I Still Believe não foram apenas cantadas, foram gritadas.
É interessante notar como o show solo muda a dinâmica de Four Simple Words. Sem a bateria acelerada, a música se transforma em uma valsa punk onde a interação com o público é tudo.
Frank Turner encerrou sua primeira noite no Brasil prometendo voltar, e talvez não sozinho. Na conversa com o blog, ele revelou o desejo de trazer sua banda completa e, quem sabe, até a edição do festival Lost Evenings para cá.
Se o show do Fabrique foi um teste, o público passou com louvor. Foi uma noite de suor, honestidade e a prova de que, como ele mesmo canta, o rock and roll ainda salva vidas. Turner segue agora para Brasília (31) e Curitiba (1), levando na bagagem a certeza de que o Brasil é, de fato, intenso como ele imaginava.