Chegar ao estacionamento do Credicard Hall na noite de 15 de março de 2006 era uma missão para poucos. São Paulo desabou sob uma tempestade de verão que transformou a pista do show em uma lagoa de água barrenta, batendo na canela e, em alguns pontos, no joelho dos fãs. Mas quando as luzes se apagaram e a fita de introdução Fuckin’ in the Bushes começou a tocar, o perrengue virou combustível. O Oasis subiu ao palco não para tocar, mas para salvar a noite.
A abertura com Turn Up the Sun e Lyla foi um ataque frontal. O som estava alto, sujo e, surpreendentemente, muito bem equalizado para um local aberto e improvisado. Liam Gallagher, vestindo sua parka (que dessa vez fazia todo o sentido climático), estava com a voz no auge daquela era: rasgada e arrogante.
Mas o motor da banda estava lá trás: Zak Starkey. A presença do filho de Ringo Starr na bateria deu ao Oasis um peso que eles raramente tiveram antes ou depois. Em Bring It On Down e Morning Glory, ele espancou os pratos com uma ferocidade que fez a água do chão tremer junto com o bumbo.
Hinos debaixo d’água
Existe algo místico em cantar Champagne Supernova debaixo de chuva. Quando Noel Gallagher puxou os acordes, o estacionamento alagado virou um coral de vozes roucas. A banda, sentindo que o público estava “na mão” apesar do desconforto, entregou execuções emocionantes de The Masterplan e Wonderwall.
Noel teve seu momento de brilho com The Importance of Being Idle e Little by Little, faixas que, ao vivo, ganharam uma dimensão de hino de estádio, com o guitarrista regendo o público ilhado.
Final caótico
Para os fãs mais dedicados, a inclusão de Acquiesce (com os irmãos dividindo os vocais no refrão, um milagre de harmonia fraternal na época) e Cigarettes & Alcohol foi o ápice da noite. A atitude punk da banda combinava perfeitamente com o cenário de desastre urbano ao redor.
O encerramento não poderia ser outro: My Generation (cover do The Who). Com Zak Starkey honrando o legado de Keith Moon na bateria, a banda terminou o show em uma jam barulhenta e distorcida. Liam jogou o pandeiro, Noel deixou a guitarra apitando no feedback e o público, encharcado, sujo e exausto, saiu dali com a certeza de ter vivido a experiência rock and roll mais visceral dos anos 2000 em São Paulo.