O Porão do Rock 2026 mostrou mais uma vez por que segue como um dos festivais mais importantes da música independente brasileira. Realizada nos dias 22 e 23 de maio, em Brasília, a edição deste ano reuniu mais de 25 mil pessoas e bateu recordes de público e audiência, consolidando a retomada do evento em grande estilo. Com mais de 30 atrações espalhadas em três palcos, o festival misturou hardcore, punk, metal, rap e rock alternativo em uma programação que uniu diferentes gerações.
A diversidade do line-up foi um dos pontos altos do festival. Nomes como Pennywise, Angra, Marcelo Falcão, Nação Zumbi, Dead Fish e o retorno do Rodox ajudaram a transformar o espaço em um encontro de nostalgia, peso e celebração da cena alternativa.
Além das atrações principais, o festival manteve viva sua tradição de fortalecer a música independente. As dez seletivas nacionais levaram bandas de diferentes regiões do país para Brasília, ampliando a diversidade artística do evento e reforçando o DNA do Porão como vitrine para novos nomes da cena brasileira.
A edição de 2026 também chamou atenção pela estrutura renovada e pela experiência mais integrada ao público. O novo formato apostou em áreas amplas, espaços de convivência e melhor circulação entre os palcos, onde os principais ficaram ladeados. Isso ajudou a criar um ambiente mais confortável para quem encarou os dois dias de festival. O resultado apareceu não apenas nos números, mas também na repercussão nas redes sociais e na movimentação da cidade durante o evento.
Shows in loco – Dia 1
Em dois dias de festival, Brasília viu uma maratona de mais de 30 shows em que a música praticamente não parou por um minuto. Entre veteranos, bandas em ascensão e artistas internacionais, o evento entregou apresentações intensas, cheias de personalidade e com públicos completamente entregues do início ao fim.
Na sexta-feira, o Bayside Kings, de Santos, já mostrou que o clima seria de caos organizado. Conhecida por derrubar qualquer barreira entre palco e público, a banda percebeu rapidamente que a pista premium estava mais vazia e o vocalista Milton Aguiar decidiu atravessar para a grade da pista comum. Quase metade do show aconteceu ali, no meio do público, em uma sequência interminável de stage dives e mosh pits que transformou o espaço em um dos momentos mais explosivos do festival.
Na sequência, o Rancore apostou em uma apresentação mais crua e intensa. Focada na divulgação do recém-lançado “Brio”, a banda abriu mão de longas interações para encaixar o maior número possível de músicas no setlist, mantendo o público em movimento o tempo inteiro.
Os japoneses do Deviloof provaram que o visual kei extremo e a mistura de deathcore, metalcore e elementos brutais do metal moderno já encontraram uma base sólida de fãs no Brasil. Muitos apareceram caracterizados, com pinturas e figurinos inspirados na banda, criando uma atmosfera de expectativa rara de se ver antes mesmo do início do show.
Na sequência, o Angra, mesmo sendo uma banda de metal no meio de um line-up recheado de bandas de hardcore, fez uma apresentação impecável. A produção de palco, os efeitos especiais e a iluminação elevaram ainda mais o impacto do show, enquanto Alírio Netto mostrou segurança e naturalidade em seu primeiro show completo com a banda sem dividir os vocais. A participação especial de Kiko Loureiro levou o público ao delírio com a formação de três guitarras no palco, em um dos momentos mais grandiosos da edição.

E falando em hardcore, o Pennywise voltou ao Brasil apenas dois meses depois e entregou um show leve, divertido e completamente sem protocolos. Com muita conversa, improvisos e interação constante, a banda parecia tocar em um ensaio aberto entre amigos. A informalidade acabou funcionando perfeitamente e transformou a apresentação em uma das mais carismáticas de todo o festival.

O aguardado retorno do Rodox para Brasília foi um dos shows mais comentados do festival. Rodolfo Abrantes estava claramente emocionado e confortável tocando em sua cidade. A banda desfilou seus principais sucessos e ainda conseguiu convencer a produção a estender um pouco mais o tempo de palco, aumentando ainda mais a sensação de celebração coletiva.
Fechando a primeira noite, o Dead Fish celebrou os 25 anos de “Afasia” em um show especial que recuperou músicas raramente executadas ao vivo, como “Noite”. No fim, a sequência de hits transformou o encerramento em um grande coro coletivo, afastando o frio de Brasília com rodas e público cantando do começo ao fim.
Dia 2 – Diversidade de rock e suas vertentes
No segundo dia, o Papangu mostrou por que se tornou uma das bandas mais inventivas do rock nacional atual. Misturando ritmos regionais brasileiros com rock progressivo e peso extremo, o grupo demonstrou maturidade de palco e naturalidade em grandes festivais, algo que já vinha sendo construído em eventos como Knotfest e Lollapalooza.
Na sequência Autoramas abriu o palco principal em um show explosivo e sem espaço para respiro. Liderado por Gabriel Thomaz usando máscara de lucha libre, o grupo apostou nos clássicos do rock alternativo nacional, além de músicas que atravessam toda a trajetória do músico, incluindo hits do Little Quail and The Mad Birds e “I Saw You Saying”, composição feita para o Raimundos.
A Lupa, mais uma banda jogando em casa, mostrou forte conexão com o público mais jovem e entregou um dos shows mais calorosos do segundo dia. Com indie rock animado e cheio de personalidade, o vocalista Mucio Botelho também abandonou o palco em alguns momentos para cantar junto à grade e aumentar ainda mais a proximidade com os fãs.
A apresentação da Nação Zumbi sofreu um pouco com a sua produção e contou com uma iluminação ora excessivamente escura ora deixando a iluminação direta muito forte, atrapalhando a visão do público. Em vários momentos, os integrantes apareciam apenas como sombras no palco. Ainda assim, a banda cresceu do meio para o fim do show ao apostar nos principais sucessos do repertório, levantando o público em uma reta final intensa.
Visitando o Palco 3, a Sh4rk, vencedora da seletiva de Fortaleza, mostrou que existe espaço para trap dentro de um festival de rock. Em formato power trio, com DJ, baterista e vocalista, o grupo apresentou uma sonoridade cada vez mais próxima do rock contemporâneo. O ponto alto veio em um mashup que misturou Charlie Brown Jr., Cazuza e Twenty One Pilots, contando ainda com a participação do músico local Capelli.
De volta ao palco principal, Marcelo Falcão apostou nos sucessos do O Rappa, mas com arranjos diferentes que reforçaram a identidade de sua carreira solo. Entre as músicas próprias, destaque para “O Legado”, homenagem ao amigo Chorão. Assim como o Angra, Falcão investiu pesado em produção de palco, iluminação e efeitos visuais, entregando um dos shows mais fortes do festival e, para muitos, o melhor da edição.
O Festival Porão do Rock agora irá expandir suas fronteiras com uma edição no mês de agosto em Fortaleza reunindo CPM22, Paralamas do Sucesso, Rodox, Marcelo Falcão e mais bandas. A data e line-up serão divulgados nos próximos dias.