Os shows da banda norte-americana Guns n’ Roses costumam seguir algumas regras. Os fãs mais apaixonados as conhecem e parecem não se importar com a mais irritante delas: o tradicional atraso. Na noite de sexta-feira, Axl Rose e companhia retardaram em uma hora e meia o início da apresentação no Anhembi, em São Paulo. Nada que tirasse do sério as 22 mil pessoas presentes no espaço.
O atraso, por sinal, é só um dos pontos prediletos dos críticos de shows para detonar o desempenho de Axl Rose, um prato cheio para nós. É fácil dizer que o frontman está gordo, não tem mais a mesma presença de palco e a voz apresenta muitas falhas. Mas ao invés disso, vamos fugir do lugar comum.
Se em 2001 Axl trouxe um circo para se apresentar no Rock in Rio, com um integrante mais bizarro que o outro e várias falhas nos sons, o mesmo não se pode dizer do atual time. Slash, Duff McKagan, Gilby Clarke e Matt Sorum, músicos da melhor fase do Guns, fazem falta em qualquer banda. Mas os atuais componentes estão entrosados, não inventam nada e conseguem entregar um repertório clássico e muito bem tocado.
A própria voz de Axl Rose, um dos pontos mais criticados, melhorou. É impossível atingir o mesmo nível dos anos 1990. O vocalista está com 52 anos e seu estilo de cantar nunca foi conservador. Sempre berrou o máximo que pôde. O mais divertido na apresentação era notar a reação do público cada vez que o rock star acertava o tom e completava um grito. A sensação era a mesma de ver um craque do futebol que ficou anos afastado da profissão voltar ao campo e aplicar um belo drible.
A forma física de Axl Rose também apresentou um resultado melhor. Não que os fãs se importassem com a barriga do músico, mas a presença de palco estava comprometida. No Anhembi, o norte-americano conseguiu até voltar no tempo com suas dancinhas e corridas de uma ponta a outra. Nada comparado com os áureos tempos das turnês dos álbuns Use Your Illusion I e II.
O repertório também ajuda a banda na missão de agradar os fãs. Os principais hits foram tocados: Welcome to the Jungle, Sweet Child O’ Mine, Don’t Cry, Patience, You Could Be Mine e Paradise City, esta encerrando o show com queima de fogos e chuva de papéis vermelhos.
A canção Chinese Democracy, que leva o nome do último álbum do grupo, abriu o show. Na sequência, a banda entregou uma sequência impecável: Welcome to the Jungle, It’s So Easy, Mr. Brownstone e Estranged.
Better, do álbum Chinese Democracy, deu uma quebrada na sequência idealizada pelos fãs mais antigos. Mas Rocket Queen retomou o ritmo logo depois.
Depois dela, Axl iniciou uma série de apresentações dos integrantes. Algo presente nos shows da banda desde os anos 1990, ele reservou um espaço para solos dos seus músicos de apoio. O guitarrista Richard Fortus foi o primeiro, mas os mais empolgantes foram o baixista Tommy Stinson, cantando Holidays in the Sun, do Sex Pistols, e o guitarrista Bumblefoot tocando o Tema da Vitória, de Ayrton Senna.
As covers mais conhecidas do Guns n’ Roses também tiveram forte apoio dos fãs: Live and Let Die (Wings) e Knockin’ on Heaven’s Door (Bob Dylan) foram cantadas em uníssono pelo público. Em compensação, as versões instrumentais de Babe, I’m Gonna Leave You (Led Zeppelin) e You Can’t Always Get What You Want (Rolling Stones) passaram batidas. Mesma situação ocorreu com The Seeker (The Who).
Na longa apresentação, 2h40 de duração, Axl Rose ainda encontrou tempo para as suas músicas mais extensas. Além das citadas Paradise City e Estranged, o artista tocou a linda November Rain no piano.
Ao fim do concerto, os fãs saíram mais esperançosos. Como Axl dificilmente conseguirá resgatar os gritos marcantes dos anos 1990, a dedicação e a pequena melhora na voz já são dois alentos para dias melhores. Além disso, o frontman encontrou uma formação consistente e profissional. Que a “banda mais perigosa do mundo”, como era conhecida, retorne melhor ainda na próxima vez.
Fotos: Marcelo Rossi / Midiorama / Divulgação
Sweet Child O’ Mine
November Rain
Patience
Tema da Vitória / Don’t Cry