Robert Plant encerra C6 Fest com show irretocável focado no folk e resgate sutil do Led Zeppelin

Robert Plant encerra C6 Fest com show irretocável focado no folk e resgate sutil do Led Zeppelin

Robert Plant

Ficou para Robert Plant, lendário vocalista do Led Zeppelin, o encerramento da noite de domingo (24) na Arena Heineken, o palco principal montado do C6 Fest no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Há muito tempo distante dos gritos explosivos que o transformaram em uma das vozes mais emblemáticas da história do rock, o britânico vive, desde os anos 1990, uma fase totalmente voltada à exploração de sonoridades que genuinamente dialogam com seu atual momento artístico.

Ao lado da cantora Suzi Dian e de sua banda de apoio, a Saving Grace, Plant agora mergulha em sonoridades muito mais suaves, explorando de forma profunda influências da música americana, da tradição celta e do folk britânico, em um álbum justamente batizado de Saving Grace. Coube à capital paulista receber o último show da turnê de divulgação desse projeto.

Conhecido historicamente como o “Deus Dourado”, Plant subiu ao palco pontualmente às 20h30 e mostrou exatamente porque o apelido ainda faz todo sentido. Com a serenidade de quem atravessou o auge da música popular e não demonstra interesse em reviver o passado a qualquer custo, o cantor deixou claro logo na abertura do show, com a faixa The Very Day I’m Gone, que sua antiga persona rockeira ficou definitivamente para trás.

Maturidade e a contenção vocal

Normalmente, artistas que construíram suas carreiras inteiras apoiados na potência vocal do rock clássico acabam enfrentando o peso do tempo de forma evidente e prejudicial. Não é o caso de Robert Plant. O músico britânico encontrou uma nova maneira de cantar, sem exageros ou tentativas frustradas de alcançar notas altas que já não pertencem mais à sua voz atual, transformando justamente essa contenção técnica em sua principal força no palco.

Sua interpretação no C6 Fest remeteu muito mais às baladas calmas do Led Zeppelin do que aos momentos mais explosivos da banda setentista, mas agora carregada pela maturidade de alguém que entende exatamente os limites e as reais possibilidades da própria voz.

Outro sinal claro de sua “divindade” artística esteve na forma magnética como Plant conduziu o público paulistano ao longo de toda a apresentação, amparado apenas por sua presença imponente e carismática. Em músicas como It’s a Beautiful Day Today, o silêncio absoluto entre uma nota e outra era perfeitamente audível no Parque do Ibirapuera, mesmo diante de uma imensa multidão. Todos permaneciam quietos, compenetrados e atentos a cada nota do dueto afinado entre Plant e Suzi Dian.

Generosidade e simplicidade no palco

Apesar dessa aura quase mística que carrega no palco, impressiona a generosidade que Robert Plant demonstra com o público e com seus companheiros de banda. Essa postura ficou evidente em diferentes momentos da noite no Ibirapuera:

  1. Ao enaltecer nominalmente seus instrumentistas ao final de cada canção apresentada;
  2. Ao se tornar um mero espectador no palco quando Suzi Dian assume o centro para cantar a bela Orphan Girl;
  3. Ao brincar abertamente e agradecer o carinho dos fãs que o aclamavam na pista.

Nem mesmo a tentativa de uma fã, que tentou invadir o palco para abraçá-lo à força, tirou a calma e a humildade que o lendário frontman demonstrou durante toda a apresentação no festival.

Legado do Led Zeppelin reimaginado

Talvez como o maior defensor moral de todo o espólio do Led Zeppelin, Plant não deixou a história de lado e tocou versões de músicas de sua antiga banda, porém todas completamente adaptadas à sua nova maneira de cantar e explorar sua musicalidade folk. Assim, os clássicos históricos:

  • Ramble On
  • Four Sticks
  • Friends

Todas elas ganharam versões novas e suaves, que remetem perfeitamente às suas formas originais de estúdio, mas agora com a graça e a leveza que o nome de sua banda atual, Saving Grace, ostenta.

“Faz muito tempo desde que eu toquei um rock and roll.”

Com uma performance considerada irretocável do início ao fim, Robert Plant escolheu justamente o clássico Rock and Roll para encerrar sua apresentação no C6 Fest. E aqui, no Parque do Ibirapuera, a letra desse clássico ganhou outro significado na atual fase de vida do cantor: “Faz muito tempo desde que eu toquei um rock and roll”. E tudo bem, Robert Plant. Essa sua nova forma de existir e criar na música contemporânea também tem muito a oferecer.