Além do Buena Vista, o furacão Wil Campa e a resistência dançante em Havana

Além do Buena Vista, o furacão Wil Campa e a resistência dançante em Havana

Se você vai a Cuba esperando encontrar apenas os senhores do Buena Vista Social Club sentados em cadeiras de vime, o alerta local é certeiro: os remanescentes do lendário grupo hoje brilham mais nos palcos da Europa e dos EUA do que nas ruelas de Havana Velha. Para quem busca a pulsação atual da ilha, o nome que ecoa entre os cubanos é um só: Wil Campa.

O show de Will Campa

Assistir a Wil Campa e sua orquestra La Gran Unión é mergulhar em um espetáculo que desafia definições simples. No palco, Campa é um showman completo, herdeiro da disciplina rigorosa de quem estudou Canto Popular e lapidou seu talento em festivais de jazz por 38 países antes de fundar sua própria orquestra.

O som é uma evolução contagiante do Son cubano, flertando com o merengue eletrônico e a música urbana. Mas o que realmente prende o olhar é a encenação. Para quem viveu os anos 90 no Brasil, a experiência tem um sabor familiar: a energia e as coreografias sincronizadas dos dançarinos evocam imediatamente a estética do Axé Bahia 97 ou, para os íntimos da Baixada Santista, o vigor do grupo Filhos do Sol. É uma lambaeróbica caribenha de alto nível, onde os músicos não apenas tocam, mas performam com tacos de beisebol, máscaras e tambores em uma entrega física absoluta.

Experiência “real” na Casa de la Música

O cenário dessa imersão é a histórica Casa de la Música. Aqui, a autenticidade cubana encontra as complexidades do turismo moderno. Se você não estiver disposto a desembolsar os “mínimos extravagantes” para garantir uma mesa, o destino é o balcão. E, honestamente? Talvez seja o melhor lugar para observar a fauna local.

Enquanto Campa desfila sucessos como La Bambina e Me Gustas Tú, o salão é dominado por figuras que parecem saídas de um filme de ação: “dublês” em miniatura do Vin Diesel, que ostentam o controle dos espaços vips e regem a pista, convidando mulheres solitárias para dançar com uma confiança que só Havana proporciona.

Veredito sobre Will Campa

Wil Campa se define como um “camponês empreendedor e guerreiro”. Fora do palco, um cavalheiro de voz suave; sob os refletores, uma força da natureza que mantém viva a tradição de Benny Moré e Juan Formell, mas com a roupagem de quem conquistou a era digital.

Se o Buena Vista é a nostalgia de uma Cuba que se recusa a passar, Wil Campa é a prova de que a música popular dançante da ilha está mais viva, disciplinada e suada do que nunca. É show para se ver em pé, de preferência com um mojito na mão e sem se preocupar com o rigor das mesas, deixando-se levar pelo ritmo de quem nasceu para não deixar ninguém parado.